Trasladações

I

Logo que a Rainha Santa entregou a sua alma a Deus, o primeiro cuidado da côrte foi escolher local para depositar o corpo de tão excelsa Senhora, opinando uns para que fôsse sepultado no Convento dos Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fôsse trasladado para a Sé de Evora, a cidade mais proxima daquela terra. Por conselho de El-rei procurou-se o testamento de D. Isabel e vendo-se por ele que a Rainha Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi respeitada esta vontade, dando-se logo ordens para se pôr em pratica o desejo ali expresso.

Apezar das opiniões em contrario, prevaleceram as determinações de El-rei.

O prestito funebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em marchas apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo atravessado tão longo percurso debaixo dum sol abrazador.

As inumeras pessoas que constituiam o prestito funebre foram tomadas de verdadeiro espanto quando, ao 3.º dia de viagem, notaram que o ataúde onde vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas, escorrendo por entre elas um liquido que todos supozeram ser proveniente da decomposição do cadaver.{13}

Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro desagradavel, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal aroma que aqueles que a principio se sentiam inquietos e desconfiados, logo se aproximaram do ataúde, louvando o Senhor por esta manifestação da sua omnipotencia.

Quando o cortejo chegou a Coimbra deram-se então scenas comovedoras e lancinantes entre a população citadina. Todos á porfia queriam beijar o ataúde onde vinha a sua Protectora, a sua desvelada Bemfeitora, ouvindo-se choros de verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa Rainha, cujo passado tinha sido um manancial de graças e bondade!

Quando o ataúde deu entrada na igreja de Santa Clara muita gente supôs que o corpo da Rainha Santa seria exposto à veneração do publico. Tal se não deu; no dia seguinte, 12 de Julho, é que se celebraram os oficios divinos por alma de D. Isabel, sendo estes actos revestidos de toda a solenidade e com a assistencia de alguns Prelados, Professores da Universidade, Rei, Cabido e muitos religiosos das diversas ordens.

Logo que eles terminaram, foi o ataúde transportado para uma capela que a Rainha Santa havia mandado edificar ao fundo da Igreja e na qual estava o tumulo de pedra que em sua vida também mandara construir (fig. 1).

Foi dentro dêste precioso moimento de pedra, ricamente cinzelado, que se colocou o ataúde tal qual veiu de Estremoz, envolvido numa pele de boi e com um pano de brocado repregado por cima.

Sobre o ataúde colocaram o bordão de peregrina e uma bolsa que o arcebispo de S. Tiago de Galiza ofereceu à Rainha Santa quando ela visitou esta cidade,{14} sendo em seguida fechado o tumulo com a pesada pedra que ainda hoje o cobre e na qual vemos representada a figura da Rainha Santa com habito de freira.

Assim se conservou até ao dia 26 de Março de 1612, 276 anos depois da sua morte, dia em que foi aberto por consentimento do Sumo Pontifice.

(Fig. 1)

Esta cerimonia, que se tornou necessaria para se proceder ao processo de canonização de D. Isabel, foi presidida pelo Bispo de Coimbra D. Afonso de Castelo Branco, e tendo como assistentes D. Martim Afonso, Bispo de Leiria, Dr. Francisco Vaz Pinto, dois medicos, um cirurgião e algumas testemunhas a quem foi confiado o encargo de examinarem os restos mortais da Rainha Santa.

Pedimos licença para trasladar para aqui o relato que sobre esta cerimónia encontramos no autorizado{15} livrinho—Historia Popular da Rainha Santa Isabel—Protectora de Coimbra.........

«Subindo à capela superior, onde estava o tumulo, e analisando-o com todo o cuidado por fóra, acharam-no exactamente como havia ficado 276 anos antes, quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido o ataúde que encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fieis o havia rodeado de demonstrações da fé e amor que os prendia Áquela cujos restos ali estavam encerrados.

«Ninguem sabia se o tumulo continha sómente os ossos da santa Esposa de D. Dinís, se mais alguma cousa que ainda restasse do corpo e mortalhas; por isso todos estavam anciosos por que o tumulo se abrisse.

«Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordão de peregrina, que foram pelo bispo-conde entregues à guarda das religiosas.

«O ataúde ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela vermelha que havia sido repregada por cima.

«Com dificuldade se despregou a taboa superior do ataúde, cortaram-se à tesoura os numerosos envoltorios em que a santa Rainha fora amortalhada em Extremoz, antes de ser metida no caixão, os quais, se encontraram com admiração de todos, em perfeito estado de conservação, como se ali tivessem sido colocados pouco antes.

«Por fim descobriu-se o rosto, peito e braço direito da nossa excelsa Protectora. Todos cairam de joelhos, estupefactos pelo grande milagre que viam!

«O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a cabeça coberta de louros cabelos,{16} perfeitamente seguros na pele, a boca e olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o cunho da bondade e majestade que haviam sido apanagio da Rainha Santa. Vestia o habito de estamenha das freiras de santa Clara, e um pano branco de linho envolvia-lhe a cabeça. Do ataúde saia aroma suave.

«Á vista de tal milagre as religiosas cantaram o hino do velho Simeão, dizendo: Agora, Senhor, já podeis deixar-nos morrer em paz, porque os nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder.

«Feito pelos medicos e cirurgião o exame minucioso que se lhes pedia, concertaram-se de novo as mortalhas, o tumulo fechou-se, e de tudo se lavrou o auto competente».

II

Com o decorrer do tempo e as sucessivas enchentes do rio Mondego muito grave se tornou a vida monástica no convento fundado pela Rainha Santa. Como as invernias ameaçassem sepultar nas areias daquele rio as paredes do convento, as religiosas reciavam, e com razão, ficar sepultadas sob os seus escombros, perdendo-se neles todas as preciosidades que enriqueciam a Igreja e entre as quais devemos destacar o precioso corpo da Rainha Santa.

Em vista, pois, dos graves e constantes perigos a que estava sujeita a comunidade do velho mosteiro, dignou-se El-rei D. João IV ouvir os rogos das religiosas claristas e mandou erigir no monte da Senhora da Esperança um novo convento para sua habitação.

As obras deste grandioso edificio, que se prolongaram durante muito tempo, foram iniciadas no dia 5 de julho de 1649 e só no dia 29 de Outubro de 1677,{17} 28 anos depois, êle estava apto a receber as referidas religiosas.

Por ordem do Principe regente D. Pedro, 2.º filho de D. João IV, procedeu-se no dia 27 de Outubro daquele ano á abertura do túmulo da Rainha Santa, assistindo a este acto alguns representantes da Côrte, 8 Bispos. Professores da Universidade e muitos religiosos das diversas ordens de Coimbra. Como se verificasse que o caixão que guardava o corpo da Rainha Santa estava um tanto deteriorado, logo se procedeu á construção dum outro que o substituisse e para o qual foi mudado o corpo da veneranda Padroeira de Coimbra. Durante esta operação quiz o acaso que se soltassem algumas pregas das roupagens que envolviam os despojos de Santa Isabel, podendo assim todos os presentes ver a mão direita desta virtuosa Rainha, alva como a neve, e em tão perfeito estado de conservação que logo provocou o natural e piedoso desejo de ser osculada, como o foi com efeito, por todos aqueles que tiveram a suprema felicidade de ali estar reunidos.

Duraram os preparativos da trasladação para o novo convento ainda 2 dias e, em 29 de Outubro, foi a Rainha Santa para ali conduzida procissionalmente, acompanhada de muitos milhares de pessoas, e tendo de atravessar por entre duas alas compactas de povo que se estendiam até ao novo convento.

Como a essa data não estivesse ainda concluida a Igreja que hoje admiramos, foi o corpo da Rainha Santa conduzido para uma pequena sala existente ao fundo do côro, colocando-se então no precioso e riquíssimo túmulo de prata (fig. 2) que D. Afonso de Castelo Branco, um dos mais notaveis Prelados desta diocese, mandara fabricar, e no qual ainda hoje se guarda o{18} precioso tesouro que Coimbra venera com o maior respeito e o mais devotado amor!

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Concluida que foi a Igreja de Santa Clara, procedeu-se no dia 3 de julho de 1696 a nova trasladação da Rainha Santa para a tribuna da Capela-mór, lugar em que esteve durante muitos anos e donde teve de mudar-se por causa da invasão dos francêses.

(Fig. 2)

No dia 1 de Outubro de 1810 tiveram as freiras conhecimento de que os soldados de Massena, enfurecidos com a derrota que tiveram no Bussaco dias antes, vinham a caminho de Coimbra. Sabedoras do pouco respeito que aos soldados franceses mereciam as preciosidades do nosso país, apressaram-se elas em esconder as melhores alfaias do Convento e, apressadamente, retiraram tambem do seu lugar o tumulo da Rainha Santa, o objecto da sua mais estremecida estima, indo ocultá-lo numa cela do dormitorio, a última do lado esquerdo, onde dois pedreiros de absoluta confiança o{19} entaiparam sob um arco que engenhosamente foi disfarçado com uma cortina de alvenaria.

Aí se conservou o tumulo da Rainha Santa até ao ano de 1814, data em que se estabeleceu a paz geral, sendo então novamente mudado para o seu lugar com grande regosijo das freiras claristas e ainda mais do povo de Coimbra que anciosamente desejava acercar-se do tumulo da sua desvelada Protectora, da sua excelsa Padroeira.

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Infelizmente não pararam aqui as mudanças a que esteve sujeito o túmulo da Rainha Santa.

Quando em 1852 D. Miguel visitou esta cidade, resolveram as freiras, certamente no proposito de ver tambem a Rainha Santa, mudar o seu tumulo para o côro superior da Igreja. Com efeito, no dia 21 de Outubro daquele ano, foi D. Miguel a Santa Clara e aí, na presença das pessoas do seu séquito, foi aberto o caixão onde está o corpo da excelsa Rainha, esposa de D. Dinís.

Para o mesmo efeito foi ainda o tumulo da Rainha Santa mudado no ano de 1852, por ocasião da visita de D. Maria II a Coimbra, e em 1860 quando aqui esteve El-rei D. Pedro V. De então até 1912 conservou-se sempre o tumulo da Rainha Santa no referido côro.

Como a esta data o convento de Santa Clara não tivesse já quem zelosamente pudesse cuidar do tumulo da Rainha Santa, e porque o local onde êle estava não oferecia as necessarias condições de segurança, podendo facilmente ser violado por aqueles que vieram estabelecer residencia neste convento, praticando talvez um desacato que ferisse profundamente as crenças dos devotos da Rainha Santa, conseguiu a Mesa desta Confraria que o{20} tumulo fôsse mudado para o lugar que lhe era mais proprio, a tribuna da Capela-mór da Igreja, lugar onde agora se conserva e, segundo cremos, se conservará definitivamente. Porque esta mudança se deu em nossos dias, podemos aqui reproduzir com toda a fidelidade a forma como ela decorreu, louvando nós o Senhor por nos dar ocasião de presenciar tão emocionante como piedoso acto, cuja descrição respigamos dum jornal desta terra[[2]].

«Do côro superior da Igreja de Santa Clara, foi no domingo trasladado para a tribuna da Capela-mor da mesma Igreja, o riquíssimo túmulo de prata e a respectiva urna que encerram o venerando corpo da Rainha Santa.

«Esta trasladação, sem dúvida motivada pelos rumores que corriam nesta cidade, rumores estes em que se salientavam até actos menos respeitosos, fez-se com a possível reserva afim de evitar aglomerações nada convenientes ao bom êxito da trasladação.

«Ainda assim, o número de pessoas que se reuniu no templo de Santa Clara, na ância de assistir a tão piedoso acto, foi elevado, vendo-se ali representadas muitas das principais famílias de Coimbra.

«Perto das 5 horas da tarde, quando estavam concluídos os preparativos para a deslocação do túmulo, a entrada no côro foi rigorosamente interceptada, ficando ali apenas, além do pessoal necessário para a trasladação, os srs. Francisco José da Costa e Antonio Augusto Lourenço, da Mesa da Rainha Santa; Francisco Nazaré,{21} Joaquim Rasteiro Fontes, Custódio José da Costa, Adriano Ferreira Rocha e João Ribeiro Arrobas, os quais foram convidados a examinar as fitas lacradas que ligavam a tampa do túmulo.

«Verificada a sua inviolabilidade, foram quebradas as fitas e retirada de dentro do túmulo a urna em que repousa Santa Isabel. Esta operação, é bom frisá-la, foi feita com o maior respeito e o seu bom exito, deve-se, sem duvida, aos srs. Antonio Augusto Gonçalves e Antonio Viana que, mui sensatamente, dirigiram os trabalhos da trasladação.

«No momento em que ia conduzir-se para a tribuna da Igreja o caixão em que se encerra o corpo da Rainha Santa, uma comissão de senhoras obteve do sr. Antonio Augusto Gonçalves permissão para conduzir a urna, sendo pois esta transportada pelas seguintes: D. Maria do Carmo Joice Dinís, D. Maria de Gusmão Galvão, D. Elvira Refoios de Matos, D. Maria José Joice Dinís, D. Maria Amelia Carneiro de Sousa Pires, D. Isabel de Sousa Coutinho (Linhares), D. Tafones Roxanes de Carvalho, D. Maria do Carmo Forjaz, D. Maria do Ceu Pinto e D. Matilde de Matos Mancelos Aragão.

«Logo que a urna deu entrada na Capela-mór, as inúmeras pessoas que ali a aguardavam prostraram-se respeitosamente na mais viva e sincera contemplação, vendo-se em muitos olhos o deslisar de lagrimas constantes. É que dentro daquele ataúde está em repouso não só o corpo duma Mulher nobre por excelência e virtuosa e santa pelos rasgos generosos da sua candida alma, mas, o que é mais, por estar ali concentrada a fé ardente e sincera de milhares de crentes que nos transes dolorosos da sua atribulada existencia envolvem nas suas fervorosas preces o nome da Rainha Santa{22} como um balsamo consolador para as suas misérias e para as suas desditas.

«Por isso as pessoas que ali se reuniram para assistir à passagem da Rainha Santa, viveram bem felizes aquele rapido momento da existencia. A noite, porém, ia avançando e era forçoso pôr termo aos trabalhos da trasladação, colocando-se no local designado o ataúde da Rainha Santa.

«Feito este serviço o povo começou a retirar-se, louvando a nobre ideia de trasladar para a Igreja a santa querida que passou a vida na senda do bem, espalhando por toda a parte o perfume das suas rosas, que são aquelas que lhe engrinaldam o nome querido e ainda hoje digno de todo o respeito.»