(CARTA AO AUCTOR)

Meu prezado Henrique Marques:

Revia eu as ultimas provas de um modesto livrinho de homenagem, por mim offerecido á insigne escriptora e minha excellente amiga D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, quando me chegou ás mãos o precioso exemplar do monumento, que a perseverança de V. soube alevantar á memoria de Camillo. Compunha-se o meu preito, á alta intelligencia e ao nobre caracter da senhora D. Carolina Michaëlis, da reunião dos artigos, que em Portugal saudaram a portentosa edição das Obras de Sá de Miranda, na ordem chronologica do seu apparecimento: são dois apenas, que mais não conheço, mas com serem dois, teem a impol-os respectivamente a auctoridade de Anthero de Quental e do Visconde de Correia Botelho, no unico logar em que Camillo rubricou, com o seu nome transformado, um escrito literario. É ver o folhetim do n.º 91 do Commercio do Porto de 13 de abril de 1887. Ali, Camillo presta voto de homenagem ao saber e á honestidade, com que Sá de Miranda foi evocado, em um espirito critico a que andavamos deshabituados, e a que por egual fizeram justiça, nas citações dos seus livros, Theophilo Braga, Adolpho Coelho, Oliveira Martins, etc.

Neste lanço, e uma vez em meu poder a Bibliographia Camilliana, rebusquei a individuação do estudo de Camillo, que bem interessante é, por signal. O n.º 573 do seu livro não o menciona, nem indica, donde me pareceu que lhe é desconhecido na fórma primeira de folhetim; que, de resto, V. lá o aponta ao memorar dos trechos componentes do Obulo ás creanças. Junte-o, pois, agora, em fórma autonoma, á sua esplendida Camilliana—por certo a mais notavel que ainda se reuniu em Portugal e no Brazil—e consinta que neste lugar, que já agora tenho pelo mais opportuno, e numa cavaqueira amiga, o mais obscuro admirador da sua monographia, carreie duas ou tres annotações, que sirvam de aperfeiçoamento á traça de um edificio, nobremente cimentado por trabalho improbo, como é o seu. Acaso vale a pena de consignal-as neste opusculo, á sombra do nome illustre da doutissima escritora alleman, que tirou carta de naturalisação entre os mais consideraveis publicistas do nosso paiz, e sob a égide dos dois grandes homens que firmam as paginas, precedentes a estas linhas corridas, de palestra amiga.

É de mais rapida monção ir inscrevendo as notas em relação a numeros, e na ordem de secções. Para aqui as traslado, pois, redigindo os hierogliphicos, com que marginei o seu presente de nababo, numas horas rapidas de exame:

N.º 10.—O Clero e o sr. Alexandre Herculano.—Dêste curioso folheto extrahiram-se exemplares em papel azul, meio cartão. Vi ha annos um, na loja do sr. João V. da Silva Coelho, á rua Augusta. Vem a pêllo referir que Latino Coelho inseriu anonimamente, num dos primeiros volumes da Revista Popular, uns valiosos traços de apreciação dêste opusculo.

N.º 95.—Divindade de Jesus. Este livro reune artigos publicados muitos annos antes, e teve como fim immediato facilitar ao auctor a acquisição de um exemplar rarissimo dos Amusements périodiques do Cavalleiro de Oliveyra, que José Gomes Monteiro possuia e que Camillo namorava desde muito. Esse exemplar ajudou á elaboração do Judeu, da Caveira da Martyr, das Noites de Insomnia, e, mais tarde, de algumas secções da Historia de Portugal de Oliveira Martins. Possuo-o eu actualmente, tendo successivamente pertencido a Augusto Soromenho, José Gomes, Camillo e Annibal Fernandes Thomaz. Numa das guardas do 1.º vol., lançou Camillo a seguinte cota: "Dei por este livro o mss. da Divindade de Jesus, reputado em 14 libras, a José Gomes Monteiro".

N.º 146.—O Condemnado.—É, effectivamente, uma contrafacção. Basta que o meu presado Henrique Marques se dê ao incommodo de reflectir que em 1871 a casa Moré se achava ainda num periodo de relativa actividade e que nada tinha que ver com a loja de João Coutinho. Pelo mesmo motivo, applico esta observação ao numero immediato, (147).

N.º 174.—A Caveira da Martyr.—Da queima do 1.º volume—feita por motivos de consciencia,—salvaram-se uns quarenta exemplares, por se acharem deslocados nos depositos do editor. São esses os que teem sido vendidos. Não ha, nem houve reimpressão daquelle tomo. O editor recusou mesmo vender a propriedade da obra, quando traspassou a Pedro Correia a de todas as demais livros de Camillo, que havia adquirido. A nota de H. Marques é absolutamente injusta. Conheço o sr. Tavares Cardoso, o bastante para tomar a responsabilidade desta affirmativa, que o seu caracter me garante e abona.

N.º 176.—Curso de litteratura.—Numa das cartas publicadas no opusculo adiante descrito, sob n.º 289, acha-se, a breve trecho, uma curiosa e incisiva apreciação da parte dêste trabalho, redigida por Andrade Ferreira.

N.º 221.—Bohemia do Espirito.—O estudo sobre Luis de Camões tem, pelo menos, uma passagem, que se não lê nas impressões anteriores, e que se refere ao Sá de Miranda da sr.ª D. Carolina Michaëlis.

N.º 237.—Delictos da mocidade.—Além da edição especial que ficou apontada, ha uma outra, em papel Japão tambem, mas sem as letras capitaes a côres. Possue um exemplar o meu amigo dr. A. A. de Carvalho Monteiro.

N.º 263.—Amôr de perdição.—Fui eu quem traçou o plano da edição. Pertence-me a redação do prospecto e a escolha dos individuos que tiveram de escrever a parte critica. Camillo tinha em grande attenção o meu enthusiasmo por este admiravel livro, a que todavia antepunha o Romance de um homem rico e o Retrato de Ricardina. Dois ou tres dias depois de uma das muitas conversas que tivemos, sobre o thêma do Amôr de Perdição, vinha-me da residencia amiga de S. Miguel de Seide um exemplar da extraordinaria novella, com o seguinte envoi do notavel romancista:—"Para fazer chorar de novo Joaquim de Araujo—essa suprema expressão das almas boas, chorar. C. C. Branco". Henrique Marques cita um exemplar especial da 1.ª edição. Póde addicionar-lhe o que deve existir na Biblioteca particular de El-rei, o que foi presenteado a Fontes e o que recentemente adquiriu o meu amigo Joaquim Gomes de Macedo. Esta tiragem especial foi de 12 exemplares, com destino a brindes, que por então se effectuaram a individuos e sociedades de Portugal e do Brazil, sob indicativa de Camillo e de José Gomes Monteiro.

N.º 289.—Cartas de Camillo Castello Branco a Joaquim de Araujo. Entre os meus papeis, encontro mais a seguinte missiva de Camillo, bastante curiosa para a historia do n.º 189:

Meu amigo:

A tarefa de escrever o Perfil do Marquez de P. em 20 dias deixou-me o cerebro em lama. Vou ver se os ares de Braga e a ausencia de livros me restauram.

Anna Placido vae ler os seus versos. Conhece os que appareceram dispersos nas folhas. Diz ella que a linguagem dos poetas lhe está sendo hoje um dialecto oriental. Accrescenta que está muito velha, muito materialisada pela vida rural e pelas enormes tristezas da sua vida. Entretanto, as suas poesias alumiam escuridoens.

Logo que volte de Braga participo-lh'o.

De V. Ex.ª

Admirador e amigo

S. C. 2 de junho de 1882.

C. Castello Branco.

Nunca vi exemplares em grand papier do Perfil do Marquez de Pombal, mas o editor Manuel Malheiro asseverou-me que fizera imprimir uns tres ou quatro. Só a sr.ª viscondessa de Correia Botelho, minha muito estimada e querida amiga, poderá desenvincilhar hoje este pequeno problema bibliographico.

N.º 291—Genio do Christianismo—Embora o frontispicio das quatro edições publicadas atribua esta versão a Camillo Castello Branco, o facto é que a interferencia do grande escritor só tem relação com os primeiros capitulos; os demais foram vertidos por Augusto Soromenho. Para compensar o editor Coutinho, Camillo derivou o cumprimento do seu contracto para um romance original—Como Deus castiga! cuja acção se desenrolava pelos tumultos, a que no Porto deu origem a creação da Companhia das Vinhas do Alto Douro. Existem escritos cinco capitulos, um dos quaes se acha menos correctamente mencionado, sob n.º 607 da Bibliographia. A elaboração dêste romance data de 1861; abandonando o assumpto, Camillo saldou noutro volume as suas contas com o editor. Como Deus castiga! deve ser citado entre os n.os 49 e 55, no grupo de obras originaes.

N.º 300—A Freira no subterraneo.—Nenhuma das edições traz nome de autor; ouvi que Camillo redigira elle proprio o romance, aproveitando alguns dados de promenorisadas noticias, alludentes ao sequestro de uma emparedada em um convento russo.

N.os 333 e 373—Catalogos etc.—A serem verdadeiras, como são, para mim, as indicações de Henrique Marques, o logar dêstes numeros deve marcar-se entre a serie das obras originaes do autor.

N.º 470—Obulo ás creanças—As duas procissões, dos Mortos e dos moribundos, correram mundo em jornaes diversos, que não vejo designados no 5.º grupo da Bibliographia. A proposito, escreveu Camillo a Bulhão Pato uma eloquente carta, que este distinctissimo poeta engastou num commovido folhetim do Diario Popular, referente á loucura de Freitas e Oliveira. Camillo convidava Bulhão Pato a enfileirar tambem processionalmente os seus mortos queridos. Com um talento extraordinario de visão das idades transcorridas, com o inestimavel estilo que Oliveira Martins considerava impressionavelmente consolador e unico, nessas evocações, já, antes do convite de Camillo, Bulhão Pato fundira o inimitavel tomo Sob os Ciprestes. Pelo corrente deste livro, as suas recentes Memorias pertencem á cathegoria dos trabalhos de primeira ordem, que, entre nós, se teem produzido, na segunda metade deste seculo. Admiro sem restrições o autor de tão altos primores, como os que se revelam nas nobres paginas consagradas a Anthero de Quental.

Entre os livros que conteem escritos de Camillo, por certo que ainda falta—e até quando?—accentuar bastantes, embora V. apresente uma soberba lista; lembra-me indicar-lhe a A Propriedade intellectual do meu querido amigo e eminente publicista Visconde de Faria Maya, impresso num limitadissimo numero de exemplares, em Ponta Delgada; os Homens e letras de Candido de Figueiredo; A Sciencia e probidade de Francisco Adolpho Coelho; o Fausto de Castilho julgado pelo elogio mutuo de Joaquim de Vasconcellos; e um dos Catalogos do sr. Lima Calheiros: sendo possivel que neste capitulo se possam inscrever os trabalhos philologicos de Manuel de Mello e os opusculos faustianos de Graça Barreto. Escrevendo estas linhas longe dos meus livros, não posso jurar nas ultimas indicações, que registro, apenas, a beneficio de inventario.

Quanto á secção de jornaes e revistas, ha que ter em conta os numeros do Primeiro de Janeiro, em que Camillo publicou a Necrologia do commendador Vieira de Castro, as cartas a Germano de Meyrelles por motivo do processo do grande tribuno dêste nome, e a João de Oliveira Ramos, em occasiões varias; o Circulo Camoniano; o Diario da Tarde, onde a collaboração de Camillo foi extensa, e onde se acha reproduzida a materia do Bico de gaz (n.º 504), sem a menor obediencia ás sete chaves com que, annos depois (!), na Bibliotheca Municipal do Porto intelligentemente lhe vedaram, a V., o direito de copiar o exemplar, que lá se guarda; o Diario Nacional que revelou em primeira mão alguns dos promenores historicos de D. Luis de Portugal. Muitos outros haverá decerto. E por se fallar em jornaes, lembro-lhe a utilidade de nos indices finaes do seu trabalho, mencionar á parte os periodicos, de qualquer indole, que tiveram Camillo como redactor ou editor exclusivo, e bem assim os volumes que devem a sua impressão ou reedição ao grande escritor, embora com o concurso de livreiros. Dada a lucidissima organisação dos seus numeros de recorrencia, é facil esmiuçar toda a casta de indices. Um dos mais curiosos seria o de todas as pessoas citadas na Bibliographia Camilliana.

Uma observação ainda: diz respeito a tiragens especiaes. Ha, que eu saiba, dos seguintes numeros: 368 (poucos exemplares em papel Whatman); 401 (oitenta a cem exemplares em velino e linho nacional); 409 (1 exemplar em China, 2 em velino, e 38 em linho) 458 (6 exemplares em Whatman); 462 (diversos exemplares em linho); 488 (8 exemplares em China); 494 (6 exemplares em papel cartão amarello.) Das Poesias e prosas de Soropita fez-se tambem uma impressão á parte, de pouquissimos exemplares, menos talvez ainda do que os que o editor Chardron mandou tirar das Escavações bibliographicas, folhetim do Diario Mercantil, em que Theophilo Braga analisou severamente o apparecimerito daquelle volume.

Clareia a manhan, e tempo é de ensaiar um termo a esta carta, do tamanho classico das legoas da Povoa. Infelizmente, não lhe posso dar mais alta prova da minha consideração pelo seu livro, digno, em tudo, do grande escritor a quem é consagrado, e quasi pagamento de uma divida nacional. Por mim, registro-o como um dos mais valiosos subsidios para a nossa moderna historia literaria, e as pequenas minucias que lhe addito testemunham exhuberantemente ao meu amigo o applauso mais sincero e o parabem mais enthusiastico. Do seu editor, e meu excellente amigo A. M. Pereira, tão sómente lhe digo que, na publicação da Bibliographia Camilliana, praticou uma das mais bellas acções da sua brilhantissima carreira.

S. c. Lisboa, 25 de agosto, 94.

Seu adm.or e amigo obg.mo

Joaquim de Araujo.

Preço 200 réis