V

É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem.

O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida, move-se—é um Deus progressivo.

O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo acrescentada) dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai do seio vasto e fecundissimo. É o culto de um misterio que descobrindo-se sempre, jamais se poderá ver todo. E a Biblia tem brancas as ultimas paginas, para que lhe possa cada geração nova escrever lá o verso d'oiro de cada novo Evangelho que se revelle.

Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia!{29} É como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na contemplação do mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No calix da flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo—e que profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o coração d'um simples?!...

É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma toda e toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e quanto paira nas alturas—porque não despreza ninguem. Como Jesus entre as crianças aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia lições do mais humilde catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga bastante para que o povo o commente, quando não acrescente um artigo á lei. É a religião do movimento—o Colombo dos mundos encobertos do espirito erecto na proa do galeão,{30} sondando o horisonte com os olhos, incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na tripode santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do Deus vivo: profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas da bocca da fada legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca interrompidas da sua revellação—a lei, o ideal humano.