II

Mas o velho tyranno solitario,
De coração austero e endurecido,
Que um dia, de enjoado ou distrahido,
Deixou matar seu filho no Calvario,

Sorrio com rir extranho, ouvindo o vario
Tumultuoso côro e alarido
Do povo insipiente, que, atrevido,
Erguia a voz em grita ao seu sacrario:

«—Vanitas vanitatum! (disse). É certo
Que o homem vão medita mil mudanças,
Sem achar mais do que erro e desacerto.

Muito antes de nascerem vossos paes
D'um barro vil, ridiculas crianças,
Sabia em tudo isso… e muito mais!—»

Mors liberatrix

(A Bulhão Pato)

Na tua mão, sombrio cavalleiro,
Cavalleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo involto na noite que projectas…
Só o gladio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.

—«Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavalleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,
Mas consólo… Subverto, mas resgato…
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

O Inconsciente

O Espectro familiar que anda commigo,
Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ancioso espreito e sigo.

É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto…
Ante esse vulto, ascetico e composto
Mil vezes abro a bocca… e nada digo.

Só uma vez ousei interrogal-o:
Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
Phantasma a quem odeio e a quem amo?

Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,
Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos…
Mas eu por mim não sei como me chamo…