VI

Só quem teme o Não-ser é que se assusta
Com teu vasto silencio mortuario,
Noite sem fim, espaço solitario,
Noite da Morte, tenebrosa e augusta…

Eu não: minh'alma humilde mas robusta
Entra crente em teu atrio funerario:
Para os mais és um vacuo cinerario,
A mim sorri-me a tua face adusta.

A mim seduz-me a paz santa e ineffavel
E o silencio sem par do Inalteravel,
Que envolve o eterno amor no eterno luto.

Talvez seja peccado procurar-te,
Mas não sonhar comtigo e adorar-te,
Não-ser, que és o Ser unico absoluto.

Contemplação

(A Francisco Machado de Faria e Maia)

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as apparencias,
Mas vendo a face immovel das essencias,
Entre ideas e espiritos pairando…

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existencias…
Uma nevoa de enganos e impotencias
Sobre vacuo insondavel rastejando…

E d'entre a nevoa e a sombra universaes
Só me chega um murmurio, feito de ais…
É a queixa, o profundissimo gemido

Das cousas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido…

Lacrimae rerum

(A Tommaso Cannizzaro)

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oraculo sagrado,
Confidente e interprete da Sorte!

Aonde vão teus soes, como cohorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?

Mas, na pompa de immenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triumphal,
Passa volvendo as horas vagarosas…

É tudo, em torno de mim, duvida e luto:
E, perdido n'um sonho immenso, escuto
O suspiro das cousas tenebrosas…