II
Entretanto essa resposta, essa palavra, é o mysterio do destino. Ámanhã póde radiar brilhante como a consciencia visivel d'uma grande raça. Hoje é ainda obscura como uma inerte possibilidade. O que a Hespanha fará da sua liberdade é o seu segredo d'ella. É um problema que agitado no mundo dos factos, só os factos têem de resolver. Mas, para a philosophia politica, que vive de idéas, é no ponto de vista das idéas que o problema tem de ser formulado. Não perguntaremos pois o que vae, mas sim o que deve a Hespanha fazer de sua nova liberdade...{5} Isto só nos interessa. Os factos sociaes, sem as idéas que os virificam, são inertes e incomprehensiveis, são corpos sem alma. Ora a alma, no mundo da politica, chama-se logica. A revolução de Hespanha, consequente, é uma coisa viva, cheia de luz, de espirito, de palavra fecundissima. Inconsequente, é uma massa desorganisada, sombria, informe, tediosa para si mesmo, e para o resto do mundo despresivel e vã... A philosophia politica, hoje, e já ámanhã a philosophia da historia, passarão por ella sem a verem, ou, se a virem por acaso, um sorriso de desdem com estas palavras não fostes logica, senão o epitaphio miserando das vidas, do sangue, das paixões, que uma manhã se ergueram ardentes ao bello sol da liberdade, para cairem á tarde extenuadas, descrentes, exsangues, só por isto, porque não foram logicas. Sim, Hespanhoes! a magnanimidade da vossa revolução, a fraternidade, o heroismo, tantos rasgos admiraveis, tantas veneraveis dedicações, tudo isso será vão e esteril no momento em que não for consequente, assim como o melhor grão, caído no chão mais fecundo, não germina, apodrece, morre, se lhe falta o calor e a luz eterna do sol... O sol da seara das revoluções é a coragem dos principios.