IX

E agora, por despedida, duas palavras sinceras aos patriotas portuguezes. O patriotismo póde symbolisar-se{36} hoje n'uma ideia falsa e estreitissima: mas nem por isso deixa de ser um sentimento respeitavel. Certamente que, para os Fuas Roupinhos e os Espadeiros do jornalismo a tanto por linha, o patriotismo não passa de uma palavra sonora, o enthusiasmo nacional de uma boa especulação. Assim tambem não é com elles que fallo. Dirijo-me aos espiritos candidos e rectos, mas cheios de illusões e pouco esclarecidos sobre a natureza dos movimentos sociaes, ás vontades energicas, mas falsamente encaminhadas, aos homens verdadeiramente bons e dedicados das nossas provincias, que, obedecendo a um dos mais bellos sentimentos humanos, o amor da patria, tomam a nacionalidade pelo symbolo unico, pela fórma mais perfeita d'esse sentimento.

Sem faltar ao respeito devido a tão honestas convicções, atrever-me-hei a ponderar-lhes que o amor da patria não coincide rigorosamente com o facto da nacionalidade: são duas coisas distinctas, ainda que ligadas estreitamente e servindo uma de manifestação á outra, como serve a palavra de manifestação ao pensamento. Mas são distinctas: e assim como a palavra falta mais de uma vez ao pensamento, e o atraiçôa, póde uma nacionalidade gasta ou acanhada faltar ao amor da patria com as condicções do seu inteiro desenvolvimento, atraiçoando as suas mais formosas aspirações, os seus mais intimos impulsos. A patria, com effeito, não é o chão, o ar, o sol, os rios e os montes nataes: patria assim tem-na igualmente as arvores d'esses campos e os musgos d'essas rochas: o patriotismo, n'esse caso, deixava de ser um sentimento exclusivamente humano, para se confundir com as simples leis do mundo organico. É no homem, na sua natureza moral, que se devem{37} procurar as razões intimas d'este facto universal e até hoje indestructivel. Ao ceu dos campos e dos montes patrios, á sombra das suas igrejas e dos seus castellos, á lingua dos seus habitantes, aos costumes, ás tradicções, não nos prende um instincto cego, uma fatalidade de especie, ou uma attracção poetica da phantasia. Tudo isso, se é bello para nós, é só por que nos representa, em symbolo harmonioso, o pensamento intimo do nosso ser, e parece traduzir-nos o segredo mysterioso da nossa consciencia. N'esse conjuncto de coisas, ideias, e sentimentos, vemos as condicções do desenvolvimento mais perfeito da nossa natureza moral, o instrumento da exaltação da nossa personalidade, na sua mais rica complexidade, como homens perante os homens, criaturas perante a criação, espiritos perante o nosso proprio espirito. Por isso, e só por isso, amamos a patria. Ella não é somente o berço das nossas affeições instinctivas: é mais: é o ninho aonde crescem e vigoram os filhos mais queridos da nossa alma, as energias da nossa livre actividade. A patria não é um accidente da natureza material, mas um facto da consciencia humana.

A nacionalidade, essa, é apenas a fórma passageira e artificial de tudo isto. É um facto do mundo politico e, como elle, transitorio e alteravel. No momento em que muitos interesses se reconhecem semelhantes, muitos patriotismos irmãos, tendo em commum o mesmo ideal e as mesmas condicções de o realisar, agrupam-se, fundem-se, levados pela attracção irresistivel entre naturezas homogeneas, e pela necessidade de se deffenderem e affirmarem em face do mundo. Eis uma nacionalidade, obra de momento, sugeita á dupla acção do{38} tempo e do movimento humano, e por isso instavel e transitoria como o correr dos annos e o transformar-se dos interesses e das ideias sociaes. Concebe-se facilmente que esses interesses deixem de ser homogeneos, que essas ideias se possam contradizer: concebe-se que a fórma nacional, em vez de realisar o ideal de pleno desenvolvimento material e moral symbolisado no amor patrio, lhe suffoque os impulsos mais generosos, e atraiçoe as suas mais legitimas aspirações. A nacionalidade deixa então de ser o pavilhão luminoso, que sob os seus tectos doirados cobria muitas cabeças irmans, para se transformar n'uma abobada escura e fria de ergastulo, aonde gemem muitos miseraveis escravos...

Será este o caso de Portugal? Atrevo-me a dizer que é. As forças mais vivas, as energias mais moças e intelligentes, os elementos mais generosos da nossa sociedade, estão comprimidos, asphixiados por esta fórma estreita da velha nacionalidade. Entre uma coisa e outra é necessario escolher. Ora eu sustento que, entre as realidades eternas da natureza humana, de um lado, e, do outro, a criação artificiosa e antiquada da politica, não ha que hesitar. Se não é possivel sermos justos, fortes, nobres, intelligentes, senão deixando caír nos abysmos da historia essa coisa a que já se chamou nação portugueza, cáia a nação, mas sejamos aquillo para que nos criou a natureza, sejamos intelligentes, nobres, fortes, justos, sejamos homens, muito embora deixemos de ser portuguezes. Uma nação moribunda é uma coisa poetica: infelizmente a melhor poesia, em politica, não passa de uma politica mediocre. Chorar, recordar-se, ou ameaçar em sonoros versos, póde ser extremamente sentimental: mas não adianta uma polegada{39} os nossos negocios... Eu, por mim, pondo de parte toda a poesia e toda a sentimentalidade, contentar-me-hei de affirmar aos patriotas portuguezes esta verdade de simples bom senso: que, nas nossas actuaes circumstancias, o unico acto possivel e logico de verdadeiro patriotismo consiste em renegar a nacionalidade.