E-text prepared by Pedro Saborano
COMMEMORAÇÃO DA DESCOBERTA DA AMERICA
O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
POR
PEDRO ALVARES CABRAL
MEMORIA
DE
A. A. BALDAQUE DA SILVA
Capitão-tenente da armada e engenheiro hydrographo
LISBOA
Typographia da Academia Real das Sciencias
1892
O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
POR
PEDRO ALVARES CABRAL
MEMORIA
DE
A. A. BALDAQUE DA SILVA
Capitão-tenente da armada e engenheiro hydrographo
LISBOA
Typographia da Academia Real das Sciencias
1892
O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
POR
PEDRO ALVARES CABRAL
De Mauritania os montes, e logares,
Terra que Antheo n'hum tempo possuio,
Deixando á mão esquerda; que á direita
Não ha certeza d'outra, mas suspeita.
CAMÕES, Lus., Canto V, est. IV.
Sete annos e meio depois de Christovam Colombo ter demandado as Antilhas, realisou-se outra descoberta não menos importante, comprehendida no mesmo periodo iniciador das primeiras explorações maritimas que deram a conhecer praticamente a verdadeira distribuição das terras e dos mares sobre o globo.
Colombo, genovez ao serviço de Castella, descobre terra da America central; Cabral e Corte Real, portuguezes e ao serviço de Portugal, descobrem terras da America austral e septentrional; fundindo estes tres descobrimentos fundamentaes em um unico, que torna conhecido um Novo Mundo ao occidente da Europa e Africa.
Colombo encontra terra a oeste; Corte Real procura-a ao noroeste; e Cabral explora-a ao sudoeste, irradiando todos tres da parte mais avançada da Peninsula sobre o grande oceano Atlantico.
Pedro Alvares Cabral parte do Tejo, com destino á India, a 9 de março de 1500, seguindo o primeiro exemplo pratico, dado por Vasco da Gama em 1497, de cortar a linha a oeste do meridiano das Ilhas de Cabo Verde, para{4} evitar as calmas do norte do equador e utilizar os ventos geraes, facto aproveitado e vulgarisado por todos os navegadores portuguezes que se lhe succederam; e desvia-se ainda mais para oeste, não só por vantagem da navegação, mas tambem porque pretende na passagem reconhecer os mares occidentaes, onde ha toda a probabilidade de encontrar terra; a qual realmente descobriu, avistando a 24 de abril o Monte Pascal, em terras de Vera Cruz, que abordou e de que solemnemente tomou posse em nome de El-Rei de Portugal, continuando em seguida a sua derrota para a India, depois de ter enviado para Lisboa, com a noticia d'este acontecimento, um navio que para este fim levava na expedição.
A demonstração do proposito em que ia Pedro Alvares Cabral de procurar terra ao sudoeste, em frente da Africa, faz-se hoje com toda a exactidão historica e scientifica, e fundamenta-se com documentos authenticos d'essa epocha e com resultados rigorosos deduzidos dos conhecimentos que ha sobre as tempestades, ventos e correntes maritimas do oceano Atlantico.
Tres unicas hypotheses se podem estabelecer ácerca da descoberta do Brasil por Pedro Alvares Cabral:
I.—Que os navios da expedição foram arrastados para oeste pela acção forçada e insuperavel do meio em que navegavam;
II.—Que os navios foram desviados para oeste por erro commettido na navegação;
III.—Que a expedição se dirigiu para oeste propositadamente.
Provando que as duas hypotheses I e II são destituidas de fundamento, o que chamaremos—demonstração negativa—teremos que admittir forçosamente a hypothese III; restando unicamente determinar a natureza do proposito de ir para oeste, que podia ser motivado por presupposta vantagem da navegação, proporcionando uma descoberta fortuita, ou por intenção de procurar terra a oeste, o que constituirá para o nosso caso a—demonstração positiva—do verdadeiro caracter que revestiu este descobrimento.{5}
[DEMONSTRAÇÃO NEGATIVA]
I.—Que os navios da expedição foram arrastados para oeste pela acção forçada e insuperavel do meio em que navegavam.
Esta hypothese desdobra-se em duas outras:
1.ª Que os navios da expedição foram impellidos para oeste pelas correntes athmosphericas;
2.ª Que os navios da expedição foram arrastados para oeste pelas correntes maritimas.
A 1.ª hypothese é inadmissivel pelos factos e razões seguintes:
a) Não consta da descripção minuciosa d'esta viagem, feita por Pero Vaz Caminha, que ia a bordo, que depois de passadas as Ilhas de Cabo Verde sobreviesse tempestade; facto notavel que não ficaria de certo omittido na carta d'este escriptor se tivesse determinado tão inesperado acontecimento.[[1]]
b) Refere Pero de Magalhães de Gandavo, na sua Historia da Provincia de Santa Cruz, que passadas as Ilhas de Cabo Verde, foi o vento prospero até avistarem a costa d'aquella provincia.[[2]]{6}
c) Independentemente das informaçôes authenticas d'aquella epocha, sabe-se que as tempestades da costa do Brasil, na estação do anno considerada, sopram do noroeste e do sudoeste, afastando portanto da costa para o largo em sentido contrario ao que seguiu a expedição.[[3]]
d) Para o desvio ser causado por temporal e este atirar os navios para o lado da costa, deveria a tempestade provir dos quadrantes de fóra, pelo menos comprehendida entre os rumos de NE e SE, durar alguns dias e apartar os navios; circumstancias estas que não se verificam naquella zona, nem aconteceram á expedição, visto que a frota aportou unida e completa até á costa.[[4]]{7}
e) Não se conhece documento nem fundamento, que mencione, ou justifique, ter-se dado uma tempestade, que desviasse a expedição para oeste; mas existem duas cartas de bordo, nas quaes não se refere ter havido temporal; assim como se sabe que as condições meteorologicas d'aquella região, durante a monção do SW, são contrarias á cofirmação de tal caso de força maior; circumstancias e razões estas, todas decisivas, para pôrem de parte e não auctorizarem esta hypothese.[[5]]
A 2.ª hypothese menos se pode tambem admittir, em vista dos fundamentos seguintes:
f) Das observações astronomicas feitas em terra pelo bacharel mestre Johan, physico e cirurgião de el-rei, não resultam differenças nas situações calculadas a bordo durante a viagem e estas feitas á chegada, o que deveria succeder se houvesse corrente attendivel, e não deixaria de ser mencionado na carta que elle dirigiu a el-rei, por isso que n'ella se occupa das differenças que ha entre as derrotas estimadas pelos diversos pilotos da expedição, comparadas com a derrota por elle calculada.[[6]]{8}
g) O grande circuito maritimo do oceano Atlantico Sul, caminha de leste para oeste ao longo do equador; inflecte para a sudoeste na altura da Ilha de Fernando de Noronha; desvia-se successivamente para o sul de Pernambuco em deante; dirigindo-se depois gradualmente para sueste e leste até ao Cabo da Boa Esperança; e corre além d'isto muito ao largo da costa oriental da America do sul; circumstancias estas que bem demonstram a nenhuma influencia que este circuito pode ter sobre a atterragem dos navios.[[7]]
h) A corrente da costa do Brasil, que se destaca d'este grande circuito, corre para SSW parallelamente á terra e a curta distancia d'ella, com pequena velocidade, não tendo acção sobre os navios senão na zona costeira, na qual a existencia da terra já está assignalada muito por fóra.[[8]]{9}
i) Os navios da frota, que eram veleiros e de panno latino, podiam facilmente ganhar caminho para barlavento, vencendo qualquer d'estas correntes, mesmo que ellas fossem contrarias, quanto mais sendo fracas e derivando à feição, para o largo ou parallelamente à costa, se o destino da derrota, com vento prospero, vizasse unicamente a montar o Cabo da Boa Esperança para seguir para a India.[[9]]
II.—Que os navios foram desviados para oeste por erro commettido na navegação.[[10]]
Esta hypothese tambem se decompõe em duas, egualmente destituidas de fundamento:
1.ª Erro commettido no rumo ou orientação da derrota;
2.ª Erro na latitude ou na estimativa da distancia percorrida.{10}
A 1.ª hypothese não podia dar-se pelas razões seguintes:
j) As posições e orientação da costa occidental da Africa e a situação do Cabo da Boa Esperança já eram bem conhecidas pelas viagens anteriores de Diogo Cam, Bartholomeu Dias e Vasco da Gama, e portanto os pilotos sabiam perfeitamente soltar o rumo para ir dobrar o Cabo.[[11]]
k) Orientando-se a derrota pela agulha magnetica e experimentando esta uma variação para leste, comprehendida entre 5° e 10°, na região considerada e na epocha em questão, não podia a pequena differença do rumo da agulha, mesmo que não fosse attendida a variação, que já era conhecida, influir no grande desvio que a frota teve para oeste.[[12]]
l) Tendo a expedição partido do Tejo com rumo feito ás Canarias, dado pelas agulhas de bordo, experimentando estas uma variação egualmente comprehendida entre 5° e 10° para leste, passou entre ellas não commettendo erro de orientação. Largando depois d'aqui para as Ilhas de Cabo Verde, nas mesmas condições, tambem deparou com este archipelago sem erro de rumo. E portanto continuando a regular-se pelas mesmas agulhas e dentro dos limites da mesma variação, não se pode admittir, nem ha documento algum que prove, ter-se dado erro de rumo proveniente da falsa indicação das agulhas.[[13]]
A 2.ª hypothese tambem não tem fundamento:
m) Porque qualquer erro commettido na latitude calculada pela observação do sol, ou na distancia estimada pelos pilotos, devia ter sido accusada pelas observações feitas em terra por mestre Johan, facto que não se deu, porquanto não consta da carta d'este physico, que especialmente se occupa do assumpto, notando até certas particularidades do rigor das observações feitas durante a viagem, pelo sol e pelos astros, e das differenças que se encontravam por um e outro processo.[[14]]{11}
n) Porque conhecendo as latitudes e os rumos, navegando em uma paragem de fracas correntes maritimas, e com vento prospero, não era possivel commetter erro sensivel no calculo ou estimativa do caminho andado, que desviasse a expedição tantos graus para oeste.[[15]]
*
* *
Como acaba de ser demonstrado, tambem a 2.ª hypothese, attribuida a erro commettido na navegação, não tem fundamento algum, tanto no que diz respeito a falsa orientação da agulha magnetica, como a erronea determinação das latitudes diarias e das distancias percorridas em cada singradura, factos que ainda menos podem ser acceites desde que na expedição iam navegadores tão experimentados e conhecedores do Atlantico sul, como: Bartholomeu Dias, Pero Escobar, Nicoláo Coelho e tantos outros pilotos notaveis, secundados para maior garantia por homens scientificos do valor de mestre Johan e Pedro Alvares Cabral.
É pois evidente: que nem caso de força maior, nem erro de navegação determinaram o desvio da expedição para oeste, restando portanto, por exclusão de partes, a considerar a ultima e unica hypothese admissivel de um desvio propositado a caminho do occidente.{12}
[DEMONSTRAÇÃO POSITIVA]
III.—Que a expedição se dirigiu para oeste propositadamente.
Esta hypothese subdivide-se em tres:
1.ª Proposito motivado por vantagem da navegação;
2.ª Proposito de procurar terra ao occidente da Africa;
3.ª Proposito de procurar passagem para a India pelo caminho do occidente.
A 1.ª hypothese encontra fundamento nos factos e razões seguintes:
o) Já Vasco da Gama tinha dado o primeiro exemplo de fazer prôa ao mar a grande distancia da terra, cortando a linha a oeste do meridiano das Ilhas de Cabo Verde, seguindo a meio do Atlantico sul até virar na volta do Cabo da Boa Esperança.[[16]]
p) Pedro Alvares Cabral levava instrucções nauticas, feitas por Vasco da{13} Gama, para se afastar para oeste das Ilhas de Cabo Verde, tomar a bordada do SW e seguir assim até á latitude do Cabo da Boa Esperança.[[17]]
q) Pretendia-se com as instrucções nauticas, referidas na alinea anterior, evitar não só as calmas e trovoadas da costa de Africa, como tambem fugir das tempestades do Cabo da Boa Esperança (cabo tormentoso) fazendo a viagem muito pelo largo.[[18]]
r) Os conhecimentos determinantes d'estas instrucções, em relação aos ventos, calmas e correntes maritimas do Atlantico, tinham sido adquiridos durante as viagens anteriores feitas pelos navegadores portuguezes, entre os quaes se tornaram mais notaveis: Diogo Cam, Bartholomeu Dias, Vasco da Gama e todos os pilotos que foram na primeira viagem á India.[[19]]
A 2.ª hypothese tambem hoje se demonstra sem deixar duvida alguma, porque:{14}
s) Já em 1498, havia el-rei D. Manuel encarregado Duarte Pacheco, cavalleiro da sua casa, notavel pelo valor pessoal, de ir procurar terra ao occidente da Africa.[[20]]
t) Refere Duarte Pacheco que era esta a terra da quarta parte desconhecida do mundo que el-rei D. Manuel mandou descobrir.[[21]]
u) Diz Pero Vaz Caminha, na sua carta, que a frota seguiu o caminho que el-rei mandou que seguisse.[[22]]{15}
v) Levava Pedro Alvares Cabral na expedição um navio destinado a voltar para traz, dando conta do resultado da exploração ao occidente, que era a nau dos mantimentos.[[23]]
x) Fazendo-se os geraes de SE. na estação considerada, muito para E. depois de passar a linha para o sul, e justificando-se o desvio para oeste unicamente por vantagem da navegação, tinha a frota aproveitado aquella circumstancia favoravel do alargamento do vento, para barlaventear na direcção do Cabo da Boa Esperança; o que não fez, porquanto arribou para o occidente em direcção opposta áquella que deveria seguir pretendendo simplesmente montar o Cabo da Boa Esperança.[[24]]
y) Além das instrucções conhecidas dadas a Pedro Alvares Cabral, nenhuma prova ha de que elle não levasse tambem instrucções verbaes e confidenciaes; é mesmo evidente que deviam existir para tão delicada empreza, e, portanto estar entre estas incluida a de procurar terra ao occidente na sua travessia tão amarada do continente Africano.
z) A unica objecção até hoje apresentada contra a existencia de instrucções verbaes ou confidenciaes para procurar terra a oeste, é a de que em relação a este descobrimento, nada explica o segredo que d'ellas se fez anteriormente,{16} nem a falta de referencia posterior; mas esta razão contradictoria carece de fundamento, encontrando pelo contrario completa explicação na reserva que deveria haver nas explorações maritimas, desde que outras nações procuravam combater pela concorrencia a notavel expansão de Portugal sobre o globo.
A 3.ª hypothese fica evidentemente prejudicada em face dos fundamentos que justificam a hypothese anterior.
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Portanto em vista dos factos e razões apresentadas no decurso d'esta memoria, julgamos ter demonstrado com authenticidade e fundamento: que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil porque levava instrucções de se desviar para oeste, não só por vantagem da navegação, como tambem para na sua passagem explorar os mares occidentaes, onde havia toda a probabilidade de existir terra.
Lisboa 7 de maio de 1892.