CANTO SEGUNDO

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I

Oh tu quem quer que sejas, meu leitor,
attende ao que te digo: a ti o auctor
começa por te dar os parabens
da somma de pachorra que tu tens,
se leste esse arremedo de poesia
sem arte, sal, perfumes e harmonia,
que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som.
Já vejo que és rapaz prudente e bom...
desculpa o tratamento... as etiquetas
exigem luva branca e roupas pretas;
mas isto é muito bom p'ra deputados,
que vivem simplesmente de apoiados
e gastam excellencia a tres por dois...
coitados! são mal pagos... e depois
sujeitos a caprichos de ministros....
ás vezes trazem rostos tão sinistros,
que chego a ter de véras compaixão...[48]
Mas dizem que são filhos da eleição?!
a culpa é então da mãi que os deu á luz,
que tinha atraz da porta aquella cruz,
envolta n'um programma e mil projectos
p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!...
Sê franco, meu leitor, se estou massando,
arrólho a discussão e vou tratando
do resto d'esta historia que encetei...
Palavra, que não sei onde fiquei...
Mas... eu te escrevo em mangas de camisa;
não olhes p'ra o meu trage... quem precisa
pendura com cuidado o paletot,
depois de sacudir-lhe bem o pó,
e fica assim á fresca muito bem.
Quem poupa, meu amigo, sempre tem!
não achas que é verdade, ó maganão?
pois folgo com a tua opinião.
As cousas andam más, tudo está caro!
o cobre, santo Deus! anda tão raro!...
ao menos lá por casa é uma desgraça!
por mais que se trabalhe ou que se faça,
por mais que se amofine uma pessoa,
vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa,
Fallemos n'outra cousa, as digressões
arredam sempre o fio ás discussões.
Entremos na materia francamente,
vejamos o que é feito desta gente.[49]

II

O dia amanheceu bastante frio.
No chão, sobre os sofás e nas cadeiras
dormiam somno solto os convidados,
em duzias de colchões e mil esteiras.

O nosso fazendeiro acordou cêdo,
e poz as cosinheiras logo em pé;
sentou-se na varanda lendo as folhas
á espera que trouxessem-lhe o café.

III

«—Ora bom dia, seu Pedro!
—Bom dia, Sr. Medeiros!
—Ainda o fazia dormindo
e vejo que é dos primeiros!...

«Então estranhou a cama?
passou mal, não é verdade?
—Não, senhor! pelo contrario,
perfeitamente á vontade.[50]

«—Li agora na Gazeta
um facto bem curioso!
um sujeito, um estrangeiro...
mas que homem ardiloso!

«Engole uma espada inteira!
que barriga! Ave Maria!
—Mas é serio?—Oh! se o não fosse
a folha não o diria...

«O que é isto?! onde se atira
já de esporas? onde vai?!
—Vou... eu ia até lá embaixo.
—Não, senhor, hoje, não sahe.

«—Mas escute, seu Medeiros...
—Não escuto, não senhor;
já queria pôr-se ao fresco?
enganou-se, meu amor!

«Ó homem, 'stou te estranhando!
você que é tão pagodeiro!
—Eu ia vêr se lá embaixo
recebia hoje dinheiro...[51]

«—Qual dinheiro, qual historia!
eu bem sei o que isto é!...
Sabes que mais, pucha um banco
e vamos tomar café.

«—Já que de todo é preciso
vou lhe fallar francamente...
—Pois desembucha, rapaz,
fallando se entende a gente.

IV

«—O senhor bem me conhece...
não sou homem de questões,
nem ando brigando á tôa
por qualquer duas razões;
mas hontem foi desaforo!
o sujeito de namoro
co'a minha noiva, e eu ali!
isto não é fazer pouco?...
parti cégo como um louco...
nem sei bem o que senti...

«Eu vinha de orelha em pé
ouvindo o palavreado!
não sei o que... de epitaphios...[52]
e d'ahi por um bocado,
agarrou-lhe por um braço
e quiz lhe dar um abraço,
no momento em que cheguei!
fiquei damnado da vida!
e co'a cabeça perdida,
por milagre o não matei!...

«Depois... não ouvi mais nada...
todo este povo a gritar...
ouvi o senhor fallando,
quando nos veio apartar...
mas estou incommodado
do negocio se ter dado
n'uma casa que eu respeito...
em outro qualquer logar,
não me importava brigar
até um ficar desfeito!...

«—Tudo isso nada vale!
não penses nisto, rapaz....
são cousas que a gente moça
mais ou menos sempre faz.
—Não, senhor, eu bem conheço
que isto é máu; mas o que peço
é que queira perdoar...
ás vezes lá vem um dia...
e a gente está de arrelia,
não se póde dominar...[53]

«—Vamos fallar de outra cousa,
isto é pura criançada...
que fizeste á Margarida?!
—Quando?—Hontem!—Não fiz nada!
—Pois olha, metteu-me pena
vêr a pobre da pequena
chorando, não sei porque...
—Ella chorou? mas que tinha?
—Não sei, fallou co'a madrinha
e a respeito de você.

«—A meu respeito?! e que disse?!
—Como já estavas zangado,
disseste-lhe alguma cousa...
e te excedeste um bocado...
—Eu, meu Deus?! ainda mais esta!
vejam só que bôa festa!
que S. João tenho eu!...
e tudo, veja o senhor,
por causa desse impostor,
desse barbas de judeu!

«É uma nuvem passageira...
não te dê isso cuidado;
vocês fazem logo as pazes
e está o negocio acabado.
Falla tambem co'o Simão...
o velhote tem razão[54]
de estar massado comtigo...
foste offender ao coitado,
que ficou bem magoado;
mas o velho é teu amigo.»

V

Vinha chegando alguem e esta conversa
ficou neste logar interrompida;
vão pouco a pouco erguendo-se as visitas,
renova-se o prazer, renasce a vida.

Estava tudo em pé; porém o Juca?
estava ainda no quarto, ainda dormia?
«—Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde
e basta de dormir: é meio dia.»

A mesa estava posta, e o fazendeiro,
que o não vira des que o dia amanheceu,
abre a porta e só encontra sobre a mesa
uma carta p'ra si, que abriu e leu:[55]

VI

«Meu caro Sr. Medeiros:
vou p'ra côrte no trem mixto
que sahe d'aqui a uma hora.
Desculpe, se faço isto
sem lhe ter agradecido
o seu bom acolhimento;
mas pode estar convencido
de que no meu coração,
p'ra com vossa senhoria
fica eterna gratidão.
Se fôr á côrte algum dia
contar-lhe-hei como foi
a questão. Não tive a culpa;
o que lhe peço é desculpa
pelo modo desairoso,
porque saio da fazenda.
Vou bem triste e pesaroso
por causa d'essa contenda,
que não julguei provocar.
São horas de me ir embora...
recommende-me á senhora
de quem parto penhorado.
Adeus, aceite um abraço
do seu amigo e criado...
JOSÉ DE SOUZA CABAÇO.
»[56]

VII

Medeiros releu a carta,
dobrou-a, poz na algibeira
e disse com seus botões:
«—Ora ahi tem a brincadeira!

«Um ficou todo mordido!
o outro—todo esfolado!...
qualquer dos dois, de juizo
não tem sequer um bocado!

«Que dois malucos de força!
valha-me a Virgem e o Christo!
qual dos dois terá razão?...»
e sahio pensando nisto.[57]

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VIII

E os donos da casa empenhados
em fazer a reconciliação
conversavam co'os noivos e o velho,
num cantinho do grande salão.

Houve protestos, desculpas,
suspiros, explicações;
e afinal lá se entenderam
com muito boas razões...

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IX

«—Vamos p'ra mesa, senhores,
que o almoço está esfriando!
deixemos as ceremonias!
cada um vá se sentando.[58]

«Falta aqui um guardanapo...
Olympia, manda buscar...
quem quer leitão recheiado
levante um dedo p'ra o ar.

X

«Senhores, disse o bom Joaquim Medeiros,
(e tudo se callou para escutar)
eu tenho uma noticia de importancia,
que quero a todos vós communicar.

«Ali minha afilhada Margarida,
se bem que me escondesse agora o rosto,
vae com Pedro, o patusco, felizardo!
casar-se p'ra meado ou fins de agosto.

«E como eu sou padrinho do casorio,
que ha de effectuar-se na fazenda,
convido a todos vós para assistirdes
ao nó que não tem pontas, nem se emenda.[59]

«E aqui o seu vigario, que é de casa,
aprompta a papellada n'um momento,
e ha de me amarrar estes pombinhos
benzendo-lhes os anneis do casamento.

«Bebamos, pois, dos noivos á saude!
Senhores, a saude é feita em pé!
Hurrah! ip! ip! hurrah! vivam os noivos!
a coisa é de virar, ip! bangué!»

XI

Simão ergueu-se a custo, e commovido
fallou desta maneira aos assistentes:

«—Senhores, quando a alegria
nos afoga o coração,
não ha palavras que a digam,
falta-nos toda a expressão!

Choramos quando soffremos,
quando gosamos, sorrimos,
mas o riso não exprime
o que n'alma nós sentimos.[60]

«Assim 'stou eu; bem quizera
dizer-vos neste momento
tudo, tudo quanto sinto,
qual é o meu contentamento,

«mas não posso, porque é tanta
a minha felicidade,
que mais me parece um sonho,
que pura realidade!

«E sabeis a quem a devo?
a quem posso agradecer?
quem é que em duas palavras
me embriaga de prazer?!

«É aqui a mãi dos pobres
e o meu compadre Medeiros!
este grande coração!
a nata dos fazendeiros!

«Á saude, pois, d'aquelles
que não tem ostentação,
quando afogam na alegria
um mirrado corração!»[61]

E todos gritavam co'os copos erguidos
dos donos da casa, bebendo á saude:
«Que Deus lhes dê vida, que Deus os conserve
p'ra auxilio dos pobres, p'ra amparo á virtude.»

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Passados oito dias de prazer,
oito dias de festa e de alegria,
vão indo pouco a pouco os convidados
saudosos, p'ra o lidar de cada dia.[62]
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