PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA
CONTOS ESCOLHIDOS
DE
D. ANTONIO DE TRUEBA
TRADUZIDOS LIVREMENTE
POR
F. DE CASTRO MONTEIRO
com uma introducção
POR
I. DE VILHENA BARBOSA
PORTO
Imprensa Portuguesa—Editora
1872
PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA
CONTOS ESCOLHIDOS
DE
D. ANTONIO DE TRUEBA
PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA
CONTOS ESCOLHIDOS
DE
D. ANTONIO DE TRUEBA
TRADUZIDOS LIVREMENTE
POR
F. DE CASTRO MONTEIRO
com uma introducção
POR
I. DE VILHENA BARBOSA
PORTO
Imprensa Portuguesa—Editora
1872
AO SEU PREZADO AMIGO
I. DE VILHENA BARBOSA
SOCIO CORRESPONDENTE DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS
Como testemunho de gratidão
Offerece
Meu querido Vilhena Barbosa.[1]
A grata recordação das lições que de ti recebi, quando no meu espirito começava a desenvolver-se o gosto pelo estudo da litteratura; os salutares conselhos, que me dispensaste, nos primeiros annos da minha adolescencia, apontando-me a escolha dos auctores, que deveriam formar o meu estylo, e robustecer as minhas tendencias litterarias; aquellas nossas conversas, de tamanho interesse para mim, em que as luzes do teu illustrado entendimento tentavam dissipar as trevas da minha ignorancia, conversas que, pouco a pouco, e no decurso d'alguns annos de convivencia intima, iam subindo d'alcance, á medida que, pelo estudo, eu me habilitava a comprehender-te e a discutir comtigo, seriam já, de per si, sobejo motivo para que eu te dedicasse este livrinho, se não houvesse ainda razões de entranhadissimo affecto, razões todas do coração, e completamente alheias á cultura das letras, que a isso me obrigam, com força de irresistivel encanto.
A minha vida está, desde os mais verdes annos, ligada, por laços indissoluveis, a essa dedicação illimitada que sempre me votaste.
Era eu bem creança, e já tu me franqueavas os arcanos da tua vasta erudição. Não sei que confiança era a tua na mediocridade da minha esphera intellectual. Eram horas esquecidas d'instructiva palestra, em que a historia patria, a philosophia da historia, as sciencias naturaes, e a litteratura constituiam um thema variado, que me deleitava e instruia, animando-me a procurar nos livros cabedal de conhecimentos com que podesse corresponder ao teu paternal intento de me tornar util a mim e á sociedade.
Oh! que saudosos tempos, de feliz memoria, são esses para mim!
Quando nos separavamos, continuavas tu, de longe, a indicar-me os bons modelos, e a apontar-me um futuro, que a tua céga amisade antevia para mim, mas que, erat scriptum, eu não deveria attingir.
Nunca me abandonaste; e, se foi baldado o teu intento, ao menos da constancia do teu affecto tiro eu motivo de muito orgulho, e isso basta para me consolar.
Nos primeiros mezes de 1860, época de terrivel amargura para o meu coração, revelou-se a tua amisade por mim pela prova mais grandiosa, que póde aquilatar os sentimentos d'alma.
Em dezembro, tinha eu vindo de Coimbra ao Porto, a férias. Entrava em casa com aquelle alvoroço, que tu por vezes presenciaste, e que sempre me dominava, ao acercar-me de meus paes e de minha irmã. Minha mãe chorava de alegria, cingindo-me n'um amoroso e prolongado abraço, e eu correspondia ao seu carinho com todo o affecto, que me inundava o coração. Sabes como eu a amava. Por mais d'uma vez te achaste ao nosso lado, no momento de nos separarmos.
Eram os transportes de duas almas enamoradas, em presença da amarga e tyrannica necessidade da ausencia.
Assim tambem, quando as ferias se avisinhavam, contavamos ambos as horas e até os instantes, que faltavam para a nossa approximação, com frenetica impaciencia.
N'essas emoções encontradas, por entre riso e lagrimas, se deslisaram os primeiros annos da minha mocidade.
Punge-me recordar esse tempo de tão acerba saudade; enlucta-se-me a alma, quando se me retrata na mente a imagem de minha piedosa mãe; e a ti sei eu que hade offender-te a notavel modestia, que é um dos ornamentos do teu nobre caracter, este publico testemunho, que te offereço, da minha gratidão.
Mas ainda que o coração se me despedace ao escrever estas linhas, e a despeito da contrariadade, que possa levantar no teu espirito, proseguirei no meu intento.
Tem paciencia, e ouve o que talvez a tua consciencia nunca te mostrasse em relevo, por causa d'esse sentimento elevadissimo, que esconde aos olhos do homem a nobreza das suas proprias acções.
Poucos dias depois da minha chegada ao Porto, adoeceu minha mãe; e com tal violencia se apresentou a molestia, que foram infructiferos todos os esforços, que a medicina fez para a salvar.
A 22 de Janeiro voou aquella alma angelica, a abrigar-se no seio de Deus.
Passarei um véo por sobre o abysmo de insondavel martyrio, em que esse angustiosissimo lance me sepultou!
Decorrido um mez, lembrou-me meu pae a necessidade de voltar para Coimbra.
Acordei então do lethargo em que caíra, depois do fatal acontecimento; comprehendi quanto havia de justo e paternal n'aquella indicação, e parti.
Quando me encerrei no meu quarto escolastico, e que meditei na transformação, que, em tão breve lapso de tempo, se operára na minha vida moral, senti-me succumbir; arrastei-me para junto da janella, que olhava para o Mondego, e alongando a vista por aquelle formoso quadro, tão poetico e tão melancolico, deixei-me dominar completamente pela vehemencia da saudade, que me opprimia, e assim permaneci por espaço de muitas horas.
Nos dias que se seguiram, foi sempre calando, mais e mais, no meu coração, aquella profunda tristeza, que nada podia dissipar.
Os meus companheiros de casa, moços distinctissimos, os quaes ainda hoje amo como irmãos, envidavam todos os seus recursos para me fazer saír d'aquelle estado de depressão de espirito, que me senhoreava; mas nada podiam conseguir.
Por espaço de muitos dias, quando chegava o correio, erguia-me de subito, machinalmente, para correr ao seu encontro; mas logo, lembrando-me que já não existia aquella santa, que diariamente me confortava e fortalecia o espirito, com o balsamo salutar do seu carinhoso affecto, caía novamente na minha tristeza habitual.
Tão dolorosa e renitente enfermidade moral, não podia deixar de transmittir-se ao corpo.
Adoeci.
Os progressos da doença foram rapidos e assustadores!
Eu delirava, e no meu delirio, evocava o nome de minha mãe.
A sciencia deu á molestia um nome; mas o meu coração dava-lhe outro.
Os médicos chamavam-lhe pneumonia... mas eu chamava-lhe Saudade!
Todos os meus companheiros, á porfia, se esforçavam por me provar a sua amisade. D'elles porém havia um, a quem todos respeitavamos, que logo se collocou á cabeceira do meu leito, servindo-me regularmente de enfermeiro.
Não referirei aqui o seu nome por lhe não ferir a modestia, que a tem, em tão subido gráo como tu, e a qual eu não ouso devassar.
Recordo-me d'elle com muita saudade e muito reconhecimento.
E nunca mais nos encontramos!
Uma noite acordei e vi um vulto ajoelhado junto do meu leito; sobresaltou-me, porque me parecia um padre! Era elle, vestido de batina, e que resava no seu livro de orações!
Ergueu-se rapidamente e disfarçou para me não assustar.
Eu dissimulei; fingi que o não vira, e nunca lhe fallei d'esta scena edificante, que ha de sempre permanecer gravada no meu coração.
Este livro deve chegar um dia ás mãos d'esse nobre mancebo, de quem o destino me separou; que elle se recorde de mim com saudade, ao lêr estas palavras, e veja n'ellas a expressão do muito reconhecimento, que tambem lhe consagro.
A molestia aggravara-se, e ao terceiro dia, apresentava-se temerosa!
Eu sentia-me isolado, á mingua do conforto da familia; mas prohibira expressamente, que avisassem meu extremoso pae da gravidade da minha situação.
Este, ignorando a verdade, e presa de muitos trabalhos domesticos, não foi ter commigo a Coimbra; mas escreveu-te para Lisboa, avisando-te de que eu me achava enfermo.
No dia em que recebeste a sua carta, dirigiste-te a um dos meus companheiros de casa, e este fallou-te com franqueza.
Isto soube-o eu mais tarde.
Vinte e quatro horas depois de teres lido a resposta, a que alludo, dispertava eu d'um somno angustioso, e vi-te ao meu lado.
Quiz erguer-me e lançar-me nos teus braços, mas não pude.
Fizeste por me serenar o espirito, sobreexcitado pela tua presença alli, e começaste a dispensar-me os thesouros do teu acrisolado affecto.
A molestia teve-me baloiçado entre a vida e a morte; e por fim, graças á bondade do Altissimo, que me julgou talvez novo para deixar o mundo, e que me proporcionou os desvelos do teu carinho, começou a declinar.
Foi longa a convalescença.
Quando, no decurso d'ella, eu me conservava ainda de cama, tu, sentado á minha cabeceira, lias alto para me distrahir, ou divagavas sobre aquelles assumptos, que sabias me eram mais gratos.
Ministravas-me cuidadosamente os remedios e as comidas, temperadas pela tua propria mão, e informavas diariamente a minha familia das progressivas melhoras, que eu experimentava.
Afinal, ergui-me da cama, e, poucos dias depois, comecei a dar alguns passeios, pelo teu braço.
Ficava a minha casa proxima ao Jardim botanico, e era para ahi que sempre nos dirigiamos.
Estavamos então entrados na primavera, essa estação encantadora, em que o coração se retempera no ar embalsamado que nos rodeia; essa gioventù del anno, como lhe chama o poeta, em que toda a natureza nos sorri, com ineffavel magia.
Eu sentia-me renascer; parecia-me participar da qualidade dos arbustos e das plantas, que nos cercavam; corria-me nas veias uma nova seiva, e impressionava-me em extremo o grandioso espectaculo, que se offerecia a meus olhos.
Depois de darmos algumas voltas por aquellas frondosas avenidas, sentavamo-nos n'um banco do jardim, e um ao outro communicavamos as impressões, que recebiamos d'aquelle panorama encantador das «saudosas margens do Mondego», que d'alli se observa em todo o esplendor da sua belleza.
Depois, quando o sol, declinando, nos aconselhava a regressar a casa, levantavamo-nos e deixavamos vagarosamente aquella mansão deliciosa.
Os extremos da tua amisade tinham-me furtado talvez a uma prematura morte, mas não lograram desanuviar-me o coração da magoa, que o suffocava.
Deixava-me por vezes dominar de profunda tristeza, e assim me conservava por largas horas, alheiado completamente do mundo exterior, e só entregue a amargas cogitações.
Um dia entraste no meu quarto, e disseste-me que era preciso saír de Coimbra; que tinhas conversado largamente com o medico, e que este fôra de parecer de que a distracção era o unico remedio que podia completar o meu restabelecimento.
Sobresaltou-me a lembrança de que teria de me separar logo de ti.
Era uma injustiça que fazia á devoção do teu affecto; mas confesso-te que não suppunha que tu levasses a tua generosa dedicação por mim, até entrares commigo na casa paterna.
Sabia que a ausencia de Lisboa era em extremo prejudicial aos teus interesses, e por isso imaginava que tu darias por terminada a tua caridosa missão, com a minha partida para o Porto.
Quanto me enganava!
Eu estava ainda muito falto de forças e mal podia entender nos aprestos da viagem; tu porém a tudo proveste com paternal cuidado.
Afinal, por uma aprazivel manhã, saímos de Coimbra.
Alugaramos uma carruagem, a melhor que se pôde encontrar, e por essa bella estrada, que o mau fado da nossa administração publica, devia, poucos annos depois, tornar quasi deserta, admirando o formosissimo paiz que ella atravessa, formosissimo pela luxuriante vegetação que o cobre, e pela extensão dos seus variadissimos panoramas, seguimos agradavelmente até á primeira paragem, onde deviamos pernoitar.
Se bem me recordo era a estalagem d'Albergaria, esse covil immundo, da qual ainda hoje me não lembro, que não sinta logo pelo corpo, um certo pruído, que me excita horrorosamente os nervos.
No dia immediato continuamos a nossa jornada, mas não com tanta felicidade como na vespera.
Levantára-se muito vento, e parece-me que te estou vendo, meu bom Ignacio, receioso de que o frio prejudicasse o regular andamento da minha convalescença, repartindo-me em mil cuidados, para me pôr a salvo d'uma recaída!
E agora me lembra um episodio d'essa saudosa jornada, que tem relação com o que levo dito, e que é mais um attestado do conforto e da commodidade das taes locandas da antiga estrada coimbrã.
Quando chegamos a S. João da Madeira, saímos da carruagem, e entramos na hospedaria, para jantar.
Depois que démos as nossas ordens, na cosinha, subimos para a sala, onde deviamos esperar que nos servissem; mas era tal a ventania, que entrava pelos buracos dos vidros, e pelas fendas do telhado, que, não querendo voltar logo para a carruagem, de que já estavamos fartos, tomamos o partido de nos sentarmos a um canto, e abrir os chapéos de sol, a vêr se d'este modo podiamos afrontar a intemperie.
Pouco tempo porém estivemos n'essa posição caricata; afinal entendemos que o mais acertado era jantarmos dentro da carruagem, e assim o fizemos.
Ainda hoje me rio, quando me acode á ideia essa scena de comedia, que acabo de descrever.
D'ahi por algumas horas chegavamos aos Carvalhos, onde nos esperavam, meu pae e minha irmã, e todos juntos seguimos para o Porto.
Com a viagem, que descrevi com leves traços, termina esse episodio da nossa vida, em que se patenteia bem a elevação do teu caracter, e a dedicação que te devo; mil annos que eu vivesse, nunca esta pagina da minha mocidade, se me apagaria da memoria.
Sei, e já o disse no principio d'esta carta, que vou offender a tua modestia, tornando publico esse exemplo que déste da nobreza dos teus sentimentos.
Não importa. És tu geralmente apreciado como homem de letras, quero que todos te apreciem tambem como homem de coração;—como exemplo do amigo dedicado.
Porto, 12 de janeiro de 1872.
[1] Vilhena Barbosa só terá conhecimento d'esta carta, quando lhe chegar á mão o meu livro. O respeito que me merece a sua proverbial modestia obriga-me a deixar aqui esta declaração.
F. de Castro Monteiro.
[ INTRODUCÇÃO]
[ I]
As letras e as artes têm muitos pontos de affinidade. Ambas filhas predilectas da civilisação; caminhando a par na via dos progressos humanitarios; auxiliando-se e concorrendo mutuamente para o seu commum desenvolvimento e esplendor; cabendo-lhes egual quinhão de gloria nos aperfeiçoamentos, grandeza e prosperidade de qualquer nação; tem identico valor e significação para se aquilatar por ellas a cultura de um povo; e, finalmente, ambas são um como espelho em que a humanidade se retrata, tal qual é, segundo as epochas da sua historia.
Nas artes é, principalmente, a architectura, pelas intimas relações que tem com a sociedade, a que resume em si, com maior exactidão, as idêas, as crenças, as aspirações, as necessidades, em fim, a vida moral e physica dos povos.
Nas letras o romance, a meu vêr, como nas artes a architectura, é qual lamina em que se espelham, com fidelidade, os pensamentos, a indole e os costumes da sociedade para a qual foram escriptos.
Na traça mesquinha ou grandiosa de um monumento; nas suas fórmas acanhadas ou esveltas; na ornamentação pesada e mal disposta, ou ligeira e graciosamente distribuida; na esculptura dos ornatos grosseiros e sem significação ideal, ou delicados e expressivamente symbolicos, escreveu o architecto, sem attentar em tal, uma pagina da historia dos seus contemporaneos, eloquentissima na sua mudez, e cheia de verdade, porque a mão do seu auctor era dirigida, não por paixões ou respeitos humanos, mas unicamente pelo amor da arte. E julgando o artista que a movia em cega obediencia aos preceitos da mesma arte, a sua dextra seguia tambem os impulsos da sua imaginação, que não podia eximir-se á despotica influencia das idêas e costumes dominantes; e além d'isso, no desempenho da sua missão, tinha de satisfazer as exigencias e necessidades publicas, que são sempre determinadas pelo movimento intellectual e pela successiva modificação dos costumes.
O romancista quer que o seu livro corra mundo, e seja lido com prazer. Para alcançar este desideratum, procura deleitar, e para este fim tem de vasar a sua obra nos moldes do gosto publico; isto é, tem de a accommodar ás idêas e costumes em voga n'essa epocha. E ainda que consideremos o escriptor, pegando da penna, sem que o mova o interesse pecuniario, forçosamente ha de escrever sob a mesma poderosa influencia das idêas e costumes publicos.
[ II]
Quando as cruzadas, minando pela base o feudalismo, crearam o espirito cavalleiroso, que, d'envolta com o sentimento religioso, foi adoçando pouco a pouco a fereza da edade media, e, ao mesmo tempo, abrindo a porta á illustração do seculo, surgiu o romance, como guarda avançada das letras; cruzada não menos santa, preparada no remanso do gabinete pelos primeiros chronistas, annunciada e apregoada pelos antigos trovadores.
O romance mostrou-se desde logo o retrato fiel da sociedade, em todas as phases da sua vida moral e physica.
Pois que n'essas eras se manifestavam e expandiam o sentimento religioso em guerras contra os infieis, e o do prazer em justas, torneios e caçadas, ou em saraus, onde os trovadores cantavam, ao som do alaúde, amores e guerras; pois que a justiça humana chamava amiudadas vezes os delinquentes ao campo dos combates judiciarios; pois que as moradas da nobreza eram castellos, cercados de fossos, e eriçados de ameias; as espadas, as lanças e as armaduras os melhores ornamentos das suas salas; a montearia, a diversão predilecta das illustres castellãs; o romance, reproduzindo todas estas feições sociaes, tomou a fórma de novellas de cavallaria. Amores e guerras constituiam, portanto, o assumpto obrigado d'essas composições. A honra, o valor, a coragem, a dedicação desinteressada, a fé e a esperança estreitamente unidas, todos estes dotes de um perfeito cavalleiro, todas estas idêas, que então occupavam os espiritos quasi exclusivamente, até dos que não possuiam tão nobres qualidades, sobresaíam e brilhavam com tanto fulgor nas paginas d'essas novellas, como as estrellas que scintillam no manto negro da noute.
[ III]
Em quanto as cruzadas, attrahindo a um campo commum as differentes nações da Europa, e pondo em contacto o Occidente com o Oriente, faziam raiar a aurora de uma nova civilisação, travavam encarniçada lucta a realeza e o feudalismo. Aquella, soccorrendo-se ao principio popular, acabou por triumphar do seu poderoso adversario. Porém, durante a pugna, o poder real teve de arcar com o poder theocratico, o qual, a seu turno, alcançára victoria sobre a propria realeza.
A influencia dos pontifices no regimen dos estados, que tão benevola e providencial se ostentou, em quanto serviu de medianeira entre os opprimidos e os oppressores, estendendo sobre os mais fracos a égide do poder espiritual, veiu a tornar-se oppressiva e intoleravel, desde que, abusando da sua intervenção nos negocios temporaes das nações, converteu em tyrannia aquella missão paternal.
A supremacía dos papas, actuando na politica dos governos e nas idêas e costumes populares, imprimiu uma grande modificação no viver da sociedade. Essa modificação não tardou a estampar-se no romance, despojando-o dos esplendores e galanteria, com que até alli se ataviára, e fazendo-lhe vestir a roupagem, modesta e singela, mas não falta de poesia, das lendas religiosas, que lá foram aninhar-se nas chronicas monasticas, parecendo fugir ás impurezas do seculo.
A fé viva, sugeitando a razão além do dogma; a esperança vivissima em uma eternidade de gloria e de suprema ventura na outra vida, como recompensa do refreamento das paixões e das abstinencias, e como compensação das grandes dôres; o curso geral das cogitações e controversias dos sabios para as materias theologicas; as diversões populares restringindo-se, quasi exclusivamente, ás procissões, nas quaes eram admittidas dansas, e toda a sorte de exhibições phantasticas e burlescas, aos arraiaes e outras festividades religiosas, e, finalmente, aos autos sacros, que constituiam o theatro na infancia, depois do seu renascimento; as provas do fogo, do ferro em brasa, e da agua fervente, denominadas juizo de Deus, aceites nos tribunaes de justiça como testemunhos irrecusaveis da innocencia ou da culpabilidade: todo este pensar e este viver reflectiam-se nas lendas religiosas com a mesma exactidão e vigor, com que o sol reflecte na superficie das aguas a sua fronte luminosa.
[ IV]
Não é meu intento traçar a historia d'este ramo de litteratura. Direi, todavia, que d'aquelle modo continuou o romance, em todos os tempos, e sob todas as fórmas, a reproduzir em si, com mais ou menos naturalidade e viveza de côres, as mudanças que se vão operando nas idêas e nos costumes.
D'est'arte se revestiu das fórmas classicas, quando, sob a influencia dos sabios e dos artistas, foragidos de Constantinopla, ao desmoronar do imperio do Oriente, se operou nas letras, nas artes, e no proprio viver da sociedade, a grande revolução denominada renascença, a qual foi inspirar-se nas obras grandiosas da antiga Grecia.
Do mesmo modo assumiu o romance a gravidade philosophica, quando Voltaire, Rousseau, e outros grandes pensadores do seculo passado, proclamando verdades, que faziam estremecer em seus thronos os monarchas despoticos, convidavam os estadistas a meditarem nos problemas sociaes, cuja semente assim lançavam á terra; e excitavam os povos a reflectir na significação e importancia dos direitos do homem.
Assim o romance se tornou historico, logo que a sociedade, sentindo o mal estar de uma organisação que os progressos da civilisação iam fazendo caducar, recorria ao passado, como que procurando nos archivos da historia o elixir para se rejuvenescer; isto é, estudando nas antigas sociedades as fórmas governativas, que mais lhe quadrariam sob a revolução que se preparava.
Quando, em nossos dias, a applicação do vapor á locomoção e ás machinas industriaes, bem como a telegraphia electrica, pondo em facil e rapida communicação todos os povos do globo, estabeleceram novas condições de existencia social, que hão de operar forçosamente, em maior ou menor espaço de tempo, uma transformação completa, não só no modo de viver, mas tambem na organisação da sociedade; quando a attenção dos homens pensadores começava a fixar-se na grande revolução prevista, e a meditar nos difficeis problemas que ella em breve deveria offerecer á resolução dos philosophos e dos estadistas; quando a attenção geral dos povos, desapegada das tradições do passado, se absorvia inteiramente na contemplação do presente, admirando as maravilhas do progresso, anciando saciar-se dos gosos, que elle gera com mão fecunda e prodiga, o romance, deixando tambem em repouso os archivos da historia, começou a inspirar-se nas scenas da vida actual. E ao passo que retratava a sociedade, dando colorido e relevo a cada uma das suas feições, lançava á arena da discussão as novas e grandes questões sociaes.
Porém, partindo do mesmo ponto, movidos por egual impulso, os romancistas contemporaneos, que se dedicaram a descrever os costumes e praticas da actualidade, dividiram-se em duas turmas, seguindo caminho differente. Uns, impellidos por uma idêa elevada e generosa, pintaram com côres negras, mas verdadeiras, todas as angustias e miserias da sociedade moderna, estudando-lhes as causas, apontando os perigos futuros, fazendo avultar os defeitos e defficiencias das instituições; chamando, em fim, a solicitude dos poderes publicos para o horrivel cancro, que vae corroendo o corpo social. Á frente d'estes illustrados romancistas colocára-se Eugenio Sue.
Infelizmente, muitos discipulos d'esta eschola, esquecendo ou despresando os intuitos philosophicos do mestre, trataram sómente de deleitar; e reconhecendo as tendencias do seculo para os gosos sensuaes, e para os grandes sobresaltos do espirito e do coração, puzeram em acção todas as paixões violentas, e todos os instinctos ferozes da humanidade. Compozeram d'est'arte, é bem certo, quadros grandiosos, cheios de vida e de animação, scintilantes de fogo e de energia, em que se succedem uns aos outros os episodios dramaticos, e as scenas tragicas. Mas, atravez das galas da poesia, com que os adornaram, e sob o brilho seductor dos ouropeis com que se esforçam por atenuar, senão santificar, a hidiondez de torpezas e devassidões repugnantes, transparece o virus da corrupção da alma, ministrado em taça de ouro á mocidade inexperiente e ávida de commoções fortes.
A outra turma de romancistas tem trilhado mais nobre senda, no desempenho de uma missão civilisadora e santa.
Os seus romances não deslumbrarão, talvez, o espirito com o esplendor das imagens; não o sobresaltarão com a rapida successão de casos extraordinarios; não subjugam a razão, nem expõem o coração a contínuo tremor com o longo encadeamento de commoções violentas.
Como o prado, que, sob o sol da primavera, se veste de verdores, que vae matisando pouco a pouco de flores singelas, mas rescendendo de suaves aromas, resplandecentes e encantadoras pela viveza e variedade das côres; e que no inverno troca as alegrias em tristezas, as galas em miseria, para outra vez folgar e enriquecer-se sob o novo sceptro de Flora; assim nas producções d'estes romancistas alternam-se as scenas meigas e suaves da familia com os tristes acasos da sorte, com as tribulações da desventura, emfim, com as tempestades da vida. N'estes quadros avultam tambem os contrastes, como na natureza; os toques de luz e de sombra, colhidos nas vicissitudes da fortuna e no tumultuar das paixões. Figuram ahi alguns dos vicios e crimes, que são no mundo moral a imagem das forças destruidoras no mundo physico. Mas apresentam-se, não com o semblante vellado, embora por véo transparente, que mal deixa distinguir-lhes a fealdade; não com as feições embellesadas e disfarçadas com arrebiques e louçainhas, que fascinem e lhes conciliem as sympathias das almas ingenuas e credulas, mas sim taes quaes são, na sua completa nudez, em toda a sua asquerosa deformidade.
Finalmente, d'esta lucta entre o bem e o mal, figurada n'estes romances, sáe a virtude ou o arrependimento coroado pela felicidade, e o crime ou o vicio punido pela justiça dos homens, ou pela de Deos, que dos proprios vicios e crimes fez gerar o castigo que os pune na terra.
A esta turma de romancistas, a que pertence a eschola allemã, veiu associar-se uma outra, ainda mais singela e modesta, talvez, mas tambem guiada pelo mesmo impulso generoso de deleitar, moralisando. Compõe-se esta de um certo numero de auctores de contos e tradições populares, entre os quaes occupa logar de honra D. Antonio de Trueba.
[ V]
Nascido na Biscaya em 1821, uma das provincias da romantica e cavalleirosa Hespanha, tão original no curso e transformações do seu longo viver; nascido na Biscaya, repetimos, onde se tem conservado mais arraigado o respeito ás tradições do passado, o amor aos antigos fóros populares, e o apego aos velhos costumes, D. Antonio de Trueba não podia eximir-se a essa triplice e poderosa influencia. Bebendo com o leite aquelle respeito; bafejado desde o berço por aquelle amor; preso áquelles costumes pelas mais doces recordações da infancia, o seu espirito difficilmente poderia deixar de revoltar-se contra o progresso, que tudo nivela, abatendo o que era grande, e exaltando o que era humilde; contra as idêas do seculo, que mofam das crenças do passado; que despojam de poesia as tradições; que parecem tender a materialisar a vida á força de commodidades e gosos, creados para deleite dos sentidos.
Resuscitando, pois, as tradições das antigas eras, empenhou-se em fazer reviver, com todo o brilho d'outr'ora, as santas crenças de seus maiores.
Pondo em parallelo, em alguns dos seus contos populares, os costumes da velha sociedade com os que se vão modificando e surgindo no meio do desenvolvimento do espirito humano, insurge-se, é certo, contra o progresso, e, apontando para a corrupção que elle gera e alimenta, deixa expandir-se a sua indignação.
Mas, quando se pensa em que o auctor d'esses contos e tradições foi creado no remanso e singeleza da vida campestre; quando se considera em que os dias da infancia e da adolescencia se lhe deslisaram tranquillos e alegres no seio da familia, sem que viessem perturbar-lhe o repouso, desvairar-lhe as idêas e corromper-lhe o coração, o bulicio das cidades, o tumultuar das paixões e a seducção dos vicios; quando se reflecte em que os verdores, e as suaves harmonias, e os contrastes pittorescos do seu valle natal lhe infundiram n'alma a doce poesia da natureza; e que os carinhos e maximas moraes de uma extremosa mãe e virtuosa perceptora lhe fizeram o espirito meigo, franco, recto e eminentemente religioso; quando se attenta em tudo isto, comprehende-se, acha-se natural, e desculpa-se aquella insurreição contra os progressos do seculo.
Qual mimosa sensitiva, que se contráe e desfallece ao simples contacto da mão indiscreta ou bemfazeja, como se a ferisse duro e traiçoeiro golpe; assim Trueba se confrangiu logo que, transpondo as montanhas do seu pacifico valle, e achando-se de improviso face a face com a sociedade, que desconhecia, viu, como que offuscando o brilho das grandes idêas do progresso, os sentimentos nobres e patrioticos, e as aspirações elevadas e generosas do coração humano, luctando por toda a parte, e quasi sempre vencidas pela ambição do poder e das honras, pela cubiça do ouro, pela sêde dos gosos e dos prazeres, pela fortuna dos mais atrevidos, e pela inveja dos menos felizes. Irritou-se, vendo as conveniencias partidarias e individuaes supplantarem muitas vezes o interesse publico; vendo as leis severas e inexoraveis para com os fracos e desvalidos, e frouxas e flexiveis para com os poderosos ou protegidos; vendo elevaram-se homens, que a falta de merito condemnava á obscuridade, emquanto ficavam esquecidos e occultos, nas sombras da modestia e da humildade, muitos cidadãos dos mais prestantes; ouvindo apregoar maximas e alardear virtudes e serviços, que os exemplos e os factos desmentiam; indignou-se, reconhecendo no curso da civilisação as tendencias do seculo para converter nos gelos da descrença e do egoismo o ardor da fé, a luz benefica da esperança, o fogo santo da abnegação, do amor do proximo e da patria!
Na confrontação do presente com o passado o seu juizo não podia deixar de ser desfavoravel ao primeiro, porque tudo o que via e ouvia, annuviando-lhe os verdadeiros resplendores do progresso, contrariava as suas idêas e os seus habitos, e derrocava pela base os poeticos e formosos castellos, que phantaseara nos sonhos dourados da adolescencia.
E a sua rapida passagem da estreiteza de apertado valle, segregado por assim dizer, do resto da Hespanha, para a amplidão dos grandes centros industriaes, para o seio da turbulenta e voluptuosa Madrid, offuscando-lhe a vista, como se sahira de improviso das trevas para a claridade, forçosamente lhe havia de obstar a que visse n'essa anarchia das ideias, n'esse desenfreamento das paixões, n'essa relaxação dos costumes, emfim, n'essa corrupção moral, que tanto o escandalisavam, as consequencias naturaes da grande e inevitavel revolução social, que estamos presenceando.
Não lhe deixaria attentar em que este acontecimento é o resultado dos maravilhosos descobrimentos do seculo XIX, os quaes acabando com as distancias, pondo em intimas e faceis relações todos os povos do globo, e na presença uns dos outros todos os cultos religiosos, as locubrações dos sabios de todo o mundo, todos os productos da terra e da industria humana, haviam de produzir, por effeito de uma força irresistivel, o duro embate das velhas idêas e dos interesses á sombra d'ellas creados, com as idêas e interesses, que os progressos humanitarios iam gerando e desenvolvendo. Não lhe permittiria reconhecer que d'aquelle embate havia de nascer a lucta a todo o transe; da lucta o exacerbamento das paixões; d'estas o affrouxamento dos vinculos sociaes e dos proprios laços de familia; e de tudo isto a desordem nas idêas e a corrupção geral nos costumes.
É este o triste apanagio das revoluções, que tendem, não a derrubar um throno, ou a mudar uma ou outra instituição, mas sim a assentar em bases inteiramente novas o edificio social. A nossa época é, infelizmente, um d'esses periodos de desmoronamento, e por conseguinte de transição, que apparecem de seculos a seculos na historia geral das nações, como gigantescos e temerosos marcos, erguidos no caminho por onde a Providencia impelle a humanidade, para assignalarem e separarem as grandes phases da civilisação.
Portanto essa condemnação dos progressos do seculo, que apparece em alguns dos contos de Trueba, em rasão dos motivos que lhe dão origem, não deslustra, antes pelo contrario honra o seu coração bondoso e o seu caracter justo e leal. Mas se alguem, mais severo, ou menos attento ao que expendi em seu abono, quizer lançar-lhe em rosto as suas opiniões reaccionarias, leve-lhe em conta a belleza dos quadros que traça com suavissimo pincel; a singelesa e elegancia do estylo, com que dá relevo e vida ás meigas scenas de familia e aos risonhos paineis da natureza, e, finalmente, a moralidade que ressumbra de todas as paginas dos seus livros.
[ VI]
D'este juizo das obras de Trueba, que se me affigura imparcial, deduz-se naturalmente um pensamento de louvor a quem promove entre nós a vulgarisação d'estas boas producções. Em uma quadra, como esta, em que a litteratura portugueza está sendo a todo o momento, não enriquecida, mas sim invadida por traducções de romances que, na maior parte dos casos, não a honram pela pureza da linguagem, e a desauthorisam pela licenciosidade dos costumes, que põem em seductora exposição; presta o traductor um bom serviço ás letras e á moral publica.
Auctores como Trueba illustram e ennobrecem a litteratura que os adopta e perfilha. Livros, como os seus, podem ser offerecidos á mocidade por leaes conselheiros e guias seguros nos escabrosos caminhos da vida.
Na versão prestou o traductor verdadeiro culto aos preceitos e exigencias da lingua materna, conservando aos pensamentos e ás imagens originaes toda a sua elevação e vigor, todo o seu brilho e poesia.
A litteratura hespanhola é tão rica e variada em todos os ramos do saber humano, quão mal conhecida, infelizmente, em o nosso paiz, n'estes tempos modernos. Desde o principio d'este seculo temo-nos quasi restringido a cultivar a litteratura franceza, dedicando-lhe a nossa exclusiva admiração, em prejuizo de outras não menos opulentas e brilhantes. Por conseguinte tambem por este lado o distincto traductor dos contos de Trueba bemmerece dos seus concidadãos. O seu talento, já provado nas lides de escriptor publico, apresenta agora n'este ensaio a amostra do que vale no difficil genero, que encetou; difficilimo, sem duvida, quando se quer verter em linguagem de lei os pensamentos de auctor estranho com toda a belleza e vigor da inspiração original.