CANTO QUARTO
A Lagrima de Marmore
Essa lagrima immovel que se gela sobre as palpebras roxas dos finados, e que eu já vi rollar funesta e bella nas faces de dous entes bem amados, o que é que ella nos diz? que nos revella de profundos desejos decepados, d'inauditas ou intimas desgraças, que são as flores funebres das Raças?! O que é que ella nos diz, que nos remove até ao mais profundo das entranhas, triste como flor onde não chove, no cume inacessivel das montanhas?! Dirá ella um desejo que já houve, cheio de dôr e aspirações extranhas, e expirou e morreu n'um mundo falso como um amor ao pé d'um cadafalso!?... Quando a Fome colheu do moribundo a lagrima de marmore dorida, poz-se logo a caminho pelo mundo e foi vendel-a aos Principes da Vida. Mas alguns, num desdem fino e profundo, riram da triste offerta nunca ouvida: outros tiveram um horror absorto ao verem uma lagrima d'um morto! Lembrou-se então d'um Principe potente que vive n'um payz todo de gelo, que ama tudo que é gélido, inclemente, e frio como a folha d'um cutello. Penetrou no palacio refulgente, todo cheio de marmore e ouro bello, e onde elle desvellava insomnias cruas no meio de milhões d'espadas nuas. Quando o Cesar cruel viu esse pranto de que gostou seu genio monstruoso á Sombra disse--Acho um secreto encanta n'este gélido objecto curioso!... Deixa-a ficar que causará espanto ao meu povo selvagem tenebroso, e assim lhe ensine n'um terror mortal como é que gela a lagrima final! Porém da noute no silencio frio quando o Cesar dormia no seu leito esta lagrima ao Principe sombrio infundia-lhe um tragico respeito. Das visões no terrivel desvario via da Morte o ultimo tregeito: e as caveiras sem olhos, nem narises, de todos os sinistros infelizes! E a lagrima implacavel e severa accusava-o de todos os seus crimes dos seus instinctos tragicos de fera, dos mortaes que dobrava como vimes, dos irmãos e dos Paes que elle prendêra, e das almas viris, fortes, sublimes, a quem seu braço sem cessar enterra pelas entranhas humidas da terra! E o Despota na lagrima parada lia a lenda de todos que sem nome sobre a neve, ou na mina bronzeada tinham morrido esqualidos de fome: via os prantos da plebe esfarrapada que n'um suor esteril se consome: e os clamores formidaveis, justiceiros, dos prantos de milhões de mineiros!... Fugiu logo do leito insupportavel, e por todo o palacio vaga errante. De manhã chama a Sombra miseravel e entrega-lh'a, com mão febrecitante: Leva d'aqui--lhe grita--esse implacavel tormento, que é mais frio que um brilhante, porque de prantos tenho um cemiterio no gelo excepcional do meu imperio! Lembrou-lhe então á Fome ir offertal-o de Roma ao mais sinistro inquisidor. Deixa á porta o seu pallido cavallo. Penetra cheia d'um mortal terror. Quando o sicario a viu sentiu abalo e disse á Fome--Eu gosto d'esta flor que florece nos mortos, como lyrios que gelaram nos olhos dos martyrios! Porem da noute no silencio enorme, a fixidez da lagrima impassivel olhava-o como um olho frio e informe, e accusava-o de tudo que ha de incrivel, Accusava-lhe a alma, antro desforme; e estendia-lhe então n'um sonho horrivel de eternos prantos um gelado mar --como uma immovel solidão polar. E ao bandido lembravam-lhe as torturas dos que vira morrer nos seus flagicios, de todas as sinistras creaturas a quem passara a esponja dos supplicios. E as disformes e energicas figuras, com blasphemias, gritavam-lhe os seus vicios, e entre injurias, mostravam, justiceiras os braços calcinados das fogueiras. Envia de manhã chamar a Fome, e á Sombra grita com sorriso duro, podes levar a lagrima sem nome, e esconde-a bem no antro mais obscuro. Como uma pedra que o abysmo some faze que ella se suma; e no futuro não me tragas jamais estes espelhos dos que morreram contra os Evangelhos! Quando a Fome largou os dous sicarios foi procurar o rei dos mais banqueiros, que era tambem senhor dos usurarios, cujos navios eram aos milheiros. O palacio valia os mil erarios dos principes mais ricos estrangeiros. E as suas sallas tinham cem figuras das mais raras e nuas esculpturas. Quando o banqueiro viu a extranha offerta disse n'um tom ironico e orgulhoso, «A vida d'um poeta é pobre e incerta! Mais mesquinho o seu pranto angustioso! Comtudo, como a fome vil te aperta, guardarei este pranto curioso, e na alcova a porei, como memoria de que vai tudo Ouro, e nada a Gloria! Porem, de noute no silencio fundo, a lagrima impassivel fixa, dura, recordava-lhe os prantos que no mundo fizera derramar a sua usura. E n'um estar immovel e profundo, como um espectro d'uma sina escura, todos choravam, n'este pesadello, --inconsolaveis lagrimas de gelo! Levantou-se o banqueiro torturado e mal a aurora avermelhou a terra, chamou a Fome, e livido, aterrado, disse á Sombra--«Confessa-me o que encerra esse impassivel pranto amargurado que não sei o que tem me gela e aterra, tendo eu só n'estas salas cem figuras das mais ricas marmoreas esculpturas?» «Não sei--a Sombra disse:--Teem-me dito o mesmo, muitos grandes assassinos. É que esse pranto foi talvez o grito do Genio contra o injusto dos destinos. É que o Genio é o açoute do Infinito contra os crimes, e os grandes desatinos, e mesmo sob os goivos mortuarios regela ainda as almas dos sicarios! Depois d'isto ninguem mais quiz o pranto! Todos riam do extranho d'essa offerta. Uns fugiam da Fome com espanto. Outros julgavam-lhe a razão incerta. Uma virgem, porem, d'um rosto santo bradou, a face de rubor coberta: --Eu amei d'um poeta a fronte amada! Ai! quem déra essa lagrima gelada! «Porem nada te dou, por que sou pobre, a ti que és pobre como eu sou tambem. Sobe acima do azul que a todos cobre, acima dos Despresos, do Desdem. Sobe acima da Dôr que é grande e nobre, mais acima dos astros, mais além do Egoismo, da Inveja, e da Cubiça, e vai leval-a ao throno da Justiça! Então a Sombra abandonou o mundo, e ergueu-se logo acima das espheras, longe da Besta d'Ouro e Vicio immundo, para longe dos Tempos e das Eras, perto do abysmo do insondavel fundo, onde teem corpo as lucidas chimeras: montada n'um cavallo horrendo e feio, sem estribos, sem redeas, e sem freio. Quando ella contemplou em baixo a terra, humillimo planeta grão d'areia preza do Tempo e insaciavel Guerra e onde a raça dos mortaes ondeia, ella que nada já commove e aterra, que nenhum pranto d'um estranho anceia, sentiu brotar no secco coração a rubra e extranha flor da Indignação. Ella atravez passara d'almas, vidas, e dos martyres lugubres descalços, das jovens mães crueis infanticidas, das illusões e dos sorrisos falsos, atravez das eternas despedidas, dos crimes, dos incestos, cadafalsos, e de todos os crimes e desgraças que são os fructos tragicos das Raças. Ella atravez passara d'essas almas aonde em prantos s'escreveu jámais, das grandes solidões das neves calmas, atravez das galés, dos hospitaes, atravez das blasphemias e dos ais, das glorias, dos triumphos, e das palmas, e atravez sempre! sempre! do gemido do Genio eternamente perseguido. Por isso quando foi perto do throno da terrivel Justiça, da Immutavel, ia ainda indignada do abandono em que se afunda o Genio inconsolavel. Como os nordestes varrem pelo outomno as roseiras, assim ella implacavel, tinha varrido toda a piedade contra a dura e egoista Humanidade. Mal a viu a Justiça disse--ó Fome o que é que trazes da sombria Terra? Trazes um ai do que morreu sem nome? Sonho de virgem que teu braço enterra? Trazes um riso que o infeliz consomme? Ultimo beijo em que um amor s'encerra? Trazes um grito, um desalento fundo? Trazes um pranto de que riu o mundo? Trago mais que isso replicou sombria a magra Fome, apresentando o pranto: --Eu trago-te esta lagrima tão fria como o gume da Espada justo e santo. Eu trago-te este pranto d'agonia, e que a ti mesmo causará espanto, pranto que gelou como uma esperança, pranto que clama um grito de vingança! A Fome então narrou, succintamente, a historia da lagrima marmorea. Narrou toda essa vida descontente, toda essa tragedia tão sem gloria; seu genio, seu destino, e febre ardente do Bello, e de gravar-se na memoria, e esse pranto tão triste e tão profundo, que só o quiz uma mulher no mundo! Ao acabar ergueu-se ferozmente a Justiça em seu throno, commovida, e clamou com um brado omnipotente tal que as origens abalou da Vida: «--Eu juro pelo sangue do innocente, por mim, por esta lagrima caida, pelo Ceu, pela Dôr, e pelo Espaço, por minha espada, e força de meu braço; por tudo que ha de justo e de terrivel, por tudo que ha de santo e d'implacavel, pelo pranto que cae no Invisivel, e o soluço que rolla no insondavel, que não destruo ó mundo, ó insensivel, planeta! essa vida miseravel, por ter havido uma mulher que quiz um desolado pranto d'infeliz! «Mas já que o não quizeste ó Terra fria, quero-o eu, de continuo, na presença! Quero tel-o de noute, quer de dia, como um sonho constante em que se pensa! Quero ter esta lagrima sombria, para um dia lavrar tua sentença! Quero tel-o ante mim, como lembrança: para lembrar-me de que sou Vingança! «Quero tel-o ante mim, ah! como um grito, que me recorde os tristes que sem nome hão estendido os braços no Infinito, na sêde de Justiça que os consome! Quero tel-o ante mim, como o afflicto brado do Genio que morreu á fome, e que vos prove d'esta espada os brilhos, de que vós, ó Poetas, sois meus filhos!» Assim disse a Justiça. E desde então ante ella jaz o pranto eternamente, para provar que se não verte em vão a lagrima, na terra, do innocente: que a natureza é mãe, e o Genio irmão do espirito dos astros refulgente e que a Justiça sopra a sua ira nas cordas vingadoras d'uma Lyra. Eu não sei se entendestes o sentido Occulto e justo d'esta allegoria, se fiz ondular bem a vosso ouvido os tenebrosos sons d'esta agonia? E vós, ó tristes! tristes! que haveis ido tranzidos repousar na valla fria, esquecidos, inglorios, sem um pranto a lagrima acceitai d'este meu canto! Acceitai este canto, como preito craneos de lava que não orna o louro! e emfim morrestes, porque o vosso peito bateu nas pedras, d'entre as nuvens d'ouro. Acceitai n'esta lagrima o respeito, vós que encontrastes só riso e desdouro! e que em vez do festim do que trabalha, não tivestes nem louros, nem mortalha! Acceitai n'esta lagrima o protesto de muitas gerações de rebellados contra o abandono insolito e funesto do mundo silencioso aos vossos brados! Em vez do riso, insulto, e do doesto, acceitai nossos pezames irados, e n'este canto, ó mortas existencias! os protestos de muitas Consciencias! E tu, ó mundo, aprende-o! D'ora avante não mates mais o Genio que irradia! Não s'ergam nunca mais ao ceu distante, Contra ti, magros braços d'agonia! Por que hoje, sabe-o bem! fixa e brilhante, está clamando e bradando noute e dia, acima d'Odios, Prantos, e Cubiça, a lagrima marmorea ante a Justiça.