*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*
(A Fernandes Costa)
Eu moro altivo é só n'uma trapeira,
Onde as pennas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia á soalheira…
E onde passa dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!
Como na era feliz das serenadas,
As graves castellãs nos seus balcões,
E gothicas varandas recostadas…
—Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!…
Professo o culto só do far niente
Deitado, todo o dia, num colchão…
Na posição immovel d'um vidente…
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquillos modos d'um sultão.
Ó filhas do spleen malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
Ó sebentas do estudo empoeiradas,
E tristes quaes sultanas despresadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!…
E vós teias d'aranhas inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!…
Ó Musas que inspiraes os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astros dos meus tectos!
Que vos creou ao seu fiat lux!?
Sois vós que me escondeis, qual caracol,
E servís de cortina e bambinellas…
Quando eu declamo involto n'um lençol,
E as visinhas que estão tomando o Sol
A espreitar-me se põe entre as janellas!…
Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felicia…
E onde puz um retrato de Trajano,
Dentro d'um casacão diluviano,
Soffrendo como Cesar de calvicia!
Nas paredes estão phrases symbolicas,
E aqui e ali borrados a carvão:
Uma Venus com ar de grandes colicas,
Um santo d'umas barbas apostolicas,
E dous frades jogando o bofetão!
Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Biblia mui velha onde no fim…
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro…
Tendo n'um grande pé chinello mouro,
E vestido com ar de mandarim!…
Defronte ri sinistra uma caveira,
A que puz uns bigodes com cortiça…
E d'um truão a loura cabelleira…
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda á missa!
Ao lado mora-me um visinho manco
Que faz dos sinos unico regallo…
E gosa da união d'um saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noute canta como um gallo.
Defronte uma visinha costureira,
Doce lyrio que treme a um vento vario…
Que canta a manhã toda e a tarde inteira…
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canario!…
Toda a noute o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!…
Imita o som dos sinos indescretos…
E canta, n'uma voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!
E assim eu vivo só n'uma trapeira…
Onde as pennas das pombas deixam rastros…
Exposta todo o dia á soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!