*O BUDA*

(De Catullo Mendés)

O Budha scisma, as mãos sobre os artelhos.

Aquelle então que ouvira os seus conselhos
Diz:—Mestre! os que não foram resgatados
Do Mal, são como uns ceus anuviados!
Aos povos que d'aqui moram distantes,
Para que a Lei não errem, ignorantes,
Consente que affrontando os soes e os frios,
Montes, rochas, passando a nado os rios,
Teu grande dogma, ó Mestre, eu vá prégando!…

—Mas se elles, corta o Budha venerando,
Te insultarem, eleito! que dirás?

—Direi só:—estas gentes não são más,
Pois vindo-lhes prégar de terra alheia,
Não me atiram aos olhos com areia,
Nem me espancam e ferem com pedradas!

—Mas se as gentes, acaso, allucinadas
Te espancarem, causando graves damnos?

—Estes povos, direi, são muito humanos,
E ha doçura n'aquelles corações;
Pois quando erguiam pedras e bastões
Contra uma creatura tão mesquinha,
Não tiraram a espada da bainha.

—Se o ferro te ferir?

—São bons, de sorte
Que me ferem, sem querer-me dar a Morte!

—Se morreres?

—A morte é grande esmolla!

—Vae pois, o Budha diz, salva e consolla!