ANTE-PROLOGO.

Bem será para alguns motivo de maravilha, e de riso para muitos, a declaração por onde me agrada começar este Ante Prologo; e he, que o estou principiando, e querendo Deos o levarei ao cabo, antes de conhecer a Obra para que vai feito. Quatorze annos, e não poucos d’elles bem estirados, são hoje discorridos depois de impressa, e por tanto segundo meu costume aposentada e esquecida, a minha Primavera. N’estes quatorze annos, começados a contar aos vinte e dois da minha vida, não só se encerrou, e desvaneceo aquella melhor, mais florída e derramada parte d’ella, que tanto discrimina, e afasta o periodo seguinte do anterior, senão que ahi se desatou tão desfeito temporal de successos estranhos, de terrores e calamidades publicas; tantas certezas saírão vãs, realisarão-se tantos impossiveis; por tal arte se transtornou e renovou ora em bem ora em mal a face do nosso Portugal; tão fracas e tenues reliquias de um passado, que ainda nós os moços alcançámos, subsistem já agora quer nas pessoas, quer nas cousas e costumes, e emfim por tudo isto nos petreficámos, e envelhecemos em tanta maneira, que por mim digo, n’estes quatorze annos me parece ter a Fortuna desbaratado cabedal de seculos, e o Tempo uma larga idade do mundo. Tantos e taes annos que da minha Obra me separão, não custará muito a crer ma tenhão tornado ao cabo tão alhea, como se d’ella só mui por longe me houvera susurrado uma leve noticia. Esta idea confusa, mas suave e suavissima como apagado retrato de antigos amores, como lua de estio contemplada em fundo de ermo, ou como vista de remotas velas ao coração do que alem-mar definha desterrado entre asperezas, esta idea toda mansa, toda rosada, toda primavera, mais temo perdê-la do que todas as minhas outras illusões, se por ventura já hoje alguma tenho. Talvez receie, e se receio talvez me não falte rasão, que ao reler estes Poemettos, nem ache n’elles as côres que os longes me figuravão, nem os gostos com que os hia não compondo, mas para assim dizer colhendo e enramalhetando pelas varzeas e valles do Mondego: tanta foi a metamorphose que de mim fizerão os livros, as couzas, e a idade! Como que tenho uma dolorosa certeza de que me acontecerá com isto o que ja me succedeo visitando, depois de espaçosissima ausencia, as cazas onde a minha primeira infancia fôra brincada, amada e perdida: tudo achei mesquinho, solitario e quasi mudo, tudo me dizia muita saudade e nenhum prazer; cada pedra tinha sua historia, mas todas me clamavão outros tantos desenganos. Grande differença esta entre as nossas proprias antigalhas e as do mundo! as do mundo pelo seu mesmo misterio nos deleitão, são a primeira pagina de um romanse para a imaginação; as nossas pela sua certeza nos contristão, e são a pagina ultima de uma historia que assaz nos corria formosissima.

Apraz-me por tanto boiar ainda por algumas horas ao de cima d’estas fantasias, e antes de se me apagarem, se já he que isso tem de ser, alegrar com o seu reflexo estas paginas, que mal poderáõ ser muitas: sempre he cedo para lançar pelas janellas fóra os brinquedos de nossa puericia; e mal haja quem o faz sem que todo o coração se lhe aperte dentro no peito.

Por isto que digo, entenderáõ meus leitores o porque, exhausta logo no primeiro anno a primeira impressão da Primavera, tantos se tem devolvido sem que jamais me deliberasse a reimprimi-la. Pelos fins de todos os invernos e começos da melhor estação, me era ella de todos meus livreiros requerida; por mais de uma vez me senti abalado, mas a lembrança do meu desencantamento me era sempre esquiva, e repugnava-me, como uma certa simonia, o arriscar-me a por alguns cruzados malbaratar uma dilicia do sanctuario de meu animo. N’esta parte não me entenderáõ todos, mas os meus intimos confirmarião com juramento o que digo. Agora porem que até a minha pobre bibliotheca já se ahi vai rareando e desfazendo vendida, e me importa pôr entre mim e a terra do meu nascimento muita outra terra de permeio, e Deos sabe para quanto tempo, obedeço aos desejos de muitos dos que ainda lem, ao conselho dos amigos, e á lei da necessidade. Reverei para a impressão, e perderei para mim este livro de saudades, livro que só fechado eu poderia ler como me convinha. E por quanto, depois de sua leitura talvez me desamparasse a vontade de aventurar algumas reflexões sobre este genero de poemas, fa-las-hei antes, e já aqui; deixando para o Prologo as que ácerca da Obra me forem por ella mesma suggeridas.

A Poesia campesina, ou segundo vulgarmente lhe dão nome, pastoril, com ser de todas a mais antiga, nunca em nenhuma parte se perdeo, dado em muitas decaisse não raro do seu credito e lustre; e segundo todas as mostras, deitará ainda até ao fim das idades literarias. Sempre moça como a terra sua mãi, mansa como os arroios seus irmãos, formosa como as flores que lhe guarnecem o chapeo de palha, livre e leve como os zefiros pela assomada dos montes, alegre, namorada e innocente como as aves na madrugada do anno, he de ver qual se vai sozinha e vivissima por entre tantas couzas mais fortes que morrem; com o seu cajado de pastora, segura entre tantos inimigos; girando todo o orbe, e por todo elle bem vinda; vingando e vencendo todos os seculos; dando a alguns d’elles de mais amoravel indole a sua propria fórma; e relevando-lhe, ainda os mais ferozes e guerreiros, que lhes ella misture com a sua frauta do serão os himnos da guerra, lhes entreteça maliciosa violetas com os louros, e os campos que elles a ferro e fogo devastarão os repovoe ella de imaginadas verdura, flores e felicidade.

Hum curioso reparo poderáõ ter feito os que os fazem no ler poetas, e he, que apenas haverá algum dos chamados Epicos, para quem o campo e sua vivenda não fosse deleitoso assumpto. Compraz-se Homero de travar com as façanhas dos heroes toques e pinturas do viver natural e primitivo; Virgilio, que ja primeiro que se abalançasse ás armas e guerras tinha cantado os pastores, e doutrinado os lavradores, particularmente se recreia quando no meio das batalhas pode a uns e outros mandar algumas saudades; nos dois Orlandos e em todos os livros de cavallaria, vai igual mistura; o mesmo na Jerusalem, cujo autor havia escrito o Amintas: e d’entre os nossos, para por todos citar um, mas um que por todos valha, Camoẽs, não só afamou os Portuguezes sujeitadores de elementos e homens, mas todo se deleita em conversar os pegureiros e campos da nossa graciosa Lusitania, terra cujos filhos, se me não engano, são por indole dotados destes dois extremos, de brandura e de valor, de amor ao obscuro rusticar e ao glorioso correr de aventuras e perigos: por onde entendo que para muito mais do que são os fizera Deos, assim como fizera para muito mais do que he o grandioso torrãozinho que habitão.

Disse engenho subtil, e bons juizos crêrão, que o desejo, ancia e esperança de bem que todos temos innatamente, era claro argumento de uma vida futura, ja que nesta se nos não deparava contentamento: assim tambem dissera eu, que este natural e universal gosto á poesia amena he um indicio de que, se jamais o homem foi homem e ditoso, la nos campos o foi; que as plantas d’onde nos brotão sustento e recreação, exhalão secretamente amor para os seus vizinhos, e que pelos saudosos valles das idades patriarchaes, em quanto os bosques não caírão para em sua vez se levantarem as muralhas, as bençãos do ceo orvalhavão muito mais amiude. Alguma couza farão para aqui palavras do meu Florian, que porque d’elle são as verterei de muito boa mente—“Oh se nós podessemos ler em seu original texto os bons autores d’essa Allemanha, enlevar-nos-hia a tanta singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras se estremão suas obras! Em conhecer a natureza, e especialmente a natureza campezina, levão-nos elles uma infinita vantagem: amão-na mais deveras, retratão-na com tintas mais fieis. Todos nossos poemas pastoris nada tem que ver com as meras traducções de Gessner. Ninguem jamais fecha a Morte de Abel, os Idyllios ou Daphnis, sem ja se sentir mais soffrido, mais terno, mais mavioso, e porque tudo diga, mais virtuoso que antes da lição. Não respira senão moral pura e facil, e virtude d’aquella que logo vem trazendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldea, que sempre á estação da missa havia de ler e reler Gessner aos meus fregueses: e por certissimo tenho que todos meus aldeões se farião probos, todas minhas parochianas castas, e ninguem me havia de ao sermão adormecer.”—

Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui bem que o sabia comprehender e seguir. Isto não escrevia eu nem o dizia, mas amplamente o sentia n’esse bom tempo que ja la vai. Gessner não era para mim um nome, senão um individuo presente, um suavissimo contubernal; nem ja suas obras me erão livros, mas realidade, vida e mundo.—Sei que se não leva a bem o muito fallar um individuo de si proprio, mormente em publico, e mormente ainda quando esse individuo he tão mesquinho sujeito como eu: mas de que outra couza posso eu escrever? dos outros? não os conheço; erudito, não o sou; descubrimentos não os fiz, nem ja agora os farei: fólgo de espraiar conversa com os meus patricios, na falta de melhor assunto, fallo-lhes de mim e de meus gostos.—O mais selecto de todos elles era pois Gessner, no qual e na escolha de Poesias Allemãs por Huber, andou por alguns annos cifrada toda minha leitura, porque de quantos autores patrios meus conhecidos havião escrito e poetado de couzas rusticas, nenhum havia que ou por sobejidão de engenho e argucia, ou por mal cabida escuridade, ou pelo trivial do pensamento e dicção, ou pelo desageitado do metro, ou pelo urbano artificio do que lhes parecia singeleza, ou emfim por um não sei que de mais ou de menos, lhe não lançasse lodo e arêa no jardim que bem ao meio da alma me havia sido por Gessner plantado.[1] Muito aproveitei em tão boa escola: como poeta não, que bem o sabem meus leitores; como homem sim, que disso tive mui cabal e experimentada certeza. Minhas nativas propensões beneficas se arraigarão; minha interior aspereza, que todos de si a tem, se amolleceo; sentia-me palpitar no peito um coração da idade de ouro; esvoaçava-me na cabeça uma alma inteira de Arcade; compunha todo o meu economico futuro de uma choupana, um pomarinho, e pombas mui brancas e cordeiros mui nedios; em summa, se Florian fosse meu parocho, propor-mehia nas suas homilias como um santo da sua bemaventurança. Assim, e por esse tempo, foi a minha Primavera improvisada, e como ella as Flores e as Quatro Partes do Dia, Poemas que brevemente sairáõ estampados, e inteirão com o presente volume o fragil monumentinho dos annos, em que fui tal, qual desejava permanecer toda a vida.

Passe ainda adeante a sinceridade: com vergonha não só minha, mas do tempo em que vivo, confesso que d’essa ingenua bondade, pela qual eu mesmo a mim me comprazia, o de mais (como espirito que era subtilissimo) se evaporou; parte se azedou no vaso com as más sementes de odio que de fóra lhe lançavão; o resto se recozeo e estragou ao fogo das civis dissensões: procuro-me e não me acho, ou se me acho não me amo. Ainda a minha antiga choupana, os cordeiros nedios e as pombas alvissimas se me fazem lembrados por uma noite de estio, mas riem menos, e não me acenão senão fracamente. Tanto vi e vejo de alhêas maldades, tanto tem procurado os entes mais abjetos e vis amargurar-me, que nem quasi na virtude acredito, nem na possibilidade de ser feliz: e este estado, se não he de todos o mais antipoetico, se na escola romantica pode até lograr os foros do bello ideal e ultimo sublime, pelo menos he o mais avêsso á filosofia e mansidão Gessnerica. Oh quando poderáõ os dois monstros, em cujas garras inexpertamente caí, quando poderáõ Politica e Romantismo dar-me um longe, uma sombra dos interiores commodos que me lá ficarão com a poesia natural e singela? E igual pergunta dolorosa poderia fazer o mundo, a ter um coração e uma voz. Ja quanto á Politica me calo, que esse voto fiz eu; mas quando será que o Romantismo exclusivo e tiranno qual se presenta, se gabe de perfumar entendimentos para o amor, de reclinar o amor como filho nos braços da virtude, e de transformar o templo da virtude em caza do contentamento? Quando será que outro homem, da laia e costumes dos nossos velhos, possa dizer na sinceridade da sua alma:—“Se eu fosse parocho, leria Byron ou Schiller á estação da missa, para tornar castas e probas as minhas ovelhas”? Mas todas estas reflexões de nado valem: a torrente vai funda e rapida, ninguem, e muito menos eu lhe poria dique. E até (que tão pouco dou pela minha filosofia) talvez que tudo o que por ahi vai, que certamente: parece bem triste e bem máo, seja bem necessario ao concerto e melhoria do mundo. Não digo eu o que as couzas são, sim o que se me ellas figurão: não as sentencêo sem appellação; na minha primeira instancia as julgo, e o que moralmente me parecem isso assento com afoita liberdade. Perde ou ganha a humana especie em cada vez mais se apartar por obra, por palavra, e por pensamento, do rural e simples theor de seu primitivo ser? por minha experiencia affirmaria que perde, mas os sabios que o decidão, e a mim seja-me licito pôr duvidas.

Não me intrometterei com o que vai por outros reinos; esse uso de qualquer contrabandista literario de nunca chegar ás couzas patrias sem primeiro haver tocado nas de França e Inglaterra, não me quadra a mim, que ao menos tenho a sufficiente consciencia e pejo para não citar o que mal conheço: em Portugal me limito. Somos nós mais felizes ou melhores que nossos avós? Certo que não; e tanto, que se esses bons e honrados velhos podessem ter adivinhado quaes seriamos nós, nós herdeiros de seus nomes, escarnecedores de seus exemplos, e deshonradores de seus castos e amigaveis costumes; nós que ao seu velho fallar e escrever de deveres, substituimos o nosso novo fallar e escrever de direitos, e á moda de ter palavra, a moda de ter palavras, ter-se-hião horrorisado como de abominação, do pensamento de gerar. Acordai do sepulchro um d’esses anciãos, que depois de pagar inteira a divida a pai e mãi, viveo todo para a mulher, matou-se pelos filhos, guardou a palavra como religião, a religião como necessidade, e cada paschoa de flores, bem com Deos, contentissimo comsigo, se ufanava de sentar ao melhor lugar de sua mesa o parocho, e todos os seus vizinhos de envolta com seus filhos. Mostrai-lhe todos os nossos progressos, que em sós algumas vantagens materiaes e corporaes se resumem: alardeai-lhe o que esperamos, mas não lhe escondaes o que destruimos: lede-lhe a primeira pagina do primeiro Jornal que topardes d’esse mesmo dia, raza de impudencia, empapada com fel, estillando lagrimas, revendo sangue, suando calumnias e desavergonhamentos, respirando e soprando odios de nação contra nação, de cidade contra cidade, de familia contra familia, de irmão contra irmão, de povos contra reis, de reis contra povos, e dos homens contra a Providencia. Supponde que Deos lhe offerece renovação da vida, e offerecei-lhe vós todas as blazonadissimas excellencias do nosso viver e do nosso esperar: repellir-vos-ha com aquelle braço que antigamente defendia e não apunhalava a Patria; tapará com o resto da mortalha o rosto que só depois de cadaver córa pela primeira vez; e cerrando rijo os olhos contra a luz, e deixando-se recair pezadamente, de vós não pedirá mais do que um favor, o de lhe restituirdes a sua lagea.[2]

Emquanto assim vai o presente avesso do preterito pelo que toca á moral e á felicidade, fallo da verdadeira felicidade, d’aquella em que a moral entra como elemento, e não da fizica e corporal, da de fazenda e honras, como hoje se entende; vejamos a que ponto subirão com o movimento e progresso as nossas letras. Entrai as typografias, e dizei-me porque assim amotinão com o seu noturno e diurno lavor a vizinhança? perguntei-lhes porque assim gemem e se afadigão? em quaes livros nos estão preparando mananciaes de doutrina, ou de costumes, ou de suave, honesto e ja tão precizo desenfadamento? Dissereis que nossos laboriosos maiores as deixarão esfalfadas com os copiosos frutos de suas lucubrações: o mais com que se atrevem, são ridiculos farrapos de bestiaes torpezas. Seguem-se os mezes aos mezes e os annos aos annos, sem outras literarias novidades. Terra he que ja deo optimas searas e vinhas abundosas; agora descultivada e baldia, e á lei da natureza bruta, desata toda sua força e substancia em cardos, em ortigas, em venenos e serpentes. Quantos livros, e quantos bons livros, que nós outros nem conhecemos nem ja valemos a sopesar, saíão dos nossos prelos, nos tempos em que a probidade, e a mansidão, e a concordia tinhão seu preço. Um só reinado, e ainda bem chegado a nós, e de rei que por bom se não cita, com tanta copia de literarios monumentos nos deixou avergadas as bibliothecas, que dez centos de annos como o presente não produziráõ a decima parte. São os nossos typógrafos de hoje, se com aquelles os comparamos, como os nossos cutileiros de punhaes, comparados com os bons armeiros que forjavão espadas como as de nossos heroes de boa data, que só com sua pezada presença nos maravilhão, a nós, que por nossa verbosa sabedoria, acabaremos de desbaratar tantas e tão longes terras, como nos ellas ganharão esgremindo-se.

Tal vai pois o estado literario como o social; e nem menos podia ser, porque estas duas couzas, como alma e corpo, se pertencem inseparaveis: Mão de Deos que ao corpo politico quizesse restituir a saude, por ahi lhe fortaleceria não menos o espirito; Sopro de Deos que ao espirito restituisse a luz, por ahi lhe ordenaria e vigoraria todos os movimentos. Por tanto, conhecendo e confessando que nem facil he nem possivel torcer a carreira desenfreada que o nosso mundo leva não sei para onde, todavia para mim tenho, se na cabeça está isto, se no coração, não o direi, mas tenho para mim, que mui bem fará, e muito amado será dos rectos juizos quem nos fizer volver olhos de saudade para a vida que ja se viveo, o que ainda um ou outro, aqui ou acolá poderá inteira, ou quando mais não fôr, em partes, em amostras reviver. E pois será isto uma illusão minha? Se o geral da gente vai por entre dores para uma couza que se chama perfeição, não pode um individuo em particular deixar-se ficar atraz, despir essas suadas armas de milicia conquistadora, e recolher-se, honrado desertor, lá onde viva seguro com Deos, comsigo, com poucos vizinhos, logrando-se da natureza, e desfrutando em variados prazeres todos as estações; prezentes que Deos enviou para todos os homens, mas de que os das cidades só pela folhinha tem noticia! Por quão feliz se não devêra dar o escritor desambicioso, se aos puros sons de sua lira afinada nos bosques, lograsse, não como Anfião fundar e povoar cidades, não como Orfeo arrancar as feras dos arvoredos e domestica-las; mas arrancar d’entre feras humanas homens inda não corrutos, e assenta-los, para sempre feriados do reboliço dos grandes povos, no divino remanso de uma campestre solidão! De mui leves cousas e tenuissimos momentos pende ás vezes o destino de toda uma vida: assim como de um encontro fortuito resulta uma affeição amorosa, que logo produz um consorcio e um sisthema completo de existir, assim de uma palavra em uma conversa casual, da substancia de uma pagina lida em certa hora, do aspéto de um painel, podem nascer, e mil vezes terão nascido, determinações, vocação, e fados de individuos. E para vir a um exemplo recente e meu, aquelle bom livro das Prisões de Silvio Péllico (todo imbuido, releve-se-me a expressão, de uma christã e filosofica filosofia, que a maior parte das assim chamadas nem uma nem outra couza tem) aquelle bom livro, ja principiou e talvez acabará de me curar o animo: não lhe restituirá a muita harmonia com que o de Gessner mo temperára, porque a mocidade das illusões passa e não volta; mas deixar-mo-ha provavelmente assaz alto e forte, que ainda no meio das maiores tempestades repouze e abençoe tudo. E não he isto maravilha, que a alguns outros que o lerão ja eu ouvi iguaes, senão maiores encarecimentos de sua medicinal virtude.[3]

Este desvio, por onde me agora deixava ir, levar-me-hia longe, que assim he accomodado a meus gostos; mas porque he desvio o largo, e retomo o caminho que hia seguindo. A poesia amavel, a que nas mãos e seio nos vinha offerecendo ramalhetes, e frutos no regaço, e amores nos olhos, e nas fallas consolações, afastou-se d’entre nós, onde ainda a alguns poderia aproveitar, e assim como outras muitas boas artes e prendas, foi reclinar-se á espera na beira da torrente dos dias, d’onde não volverá, sem que primeiro se restaurem muitas optimas couzas e todas suas, que o mundo velho tinha produzido. Mas d’onde viráõ estas couzas? Do mesmo mundo velho? mal o creio, que o novo quebrou a ponte que os juntava, e rio de ufania vendo abismar-se fábrica que assim parecia eterna. Renasceráõ por tanto da propria natureza da terra, da indole da alma humana que ja uma vez as produzio, ou do sopro do ceo: renasceráõ tarde; renasceráõ quando nós ja não formos; renasceráõ, talvez diversas, mas renasceráõ. E quaes são estas couzas do mundo passado, cuja perda tanto dóe ás Musas e á Virtude? são as formosuras e magnificencias da religião, o respeito aos finados e a seus sepulchros, ás lições da experiencia, ás obras dos antigos homens, a veneração ás cãs, o quasi culto ás mulheres, a benevolencia e sociabilidade, o aferro aos usos e modas patrias, o amor do estudo, que nós dissipámos com as leituras efemeras, e o amor do torrão natal, nobre fecundissimo sentimento, mas impossivel onde se vive sem muita brandura e sem firme certeza de permanecer. Tudo isto se perdeo para nós, e não sei que bens haja em seu lugar posto a Filosofia. A que verdadeiramente o he, ainda que esse nome se não dê, a que realmente faz homens livres e felizes, não he Furia que destrua tão venerandos objetos; ama-os, defende-os, reforma-os quando o tempo os viciou, concerta-os que se amparem mutuamente, pede-lhes frutos, e com seus frutos se fortalece.

Quando de espaço me dou a escavar estas verdades, nada me assombra a nossa crassa e desdenhosa ignorancia, mãi ou filha, e certamente socia da nossa immoralidade. Esta mal agoirada ignorancia e esta immoralidade cresceráõ; ja nossos filhos apenas saberáõ ler, e se o turbilhão que a roda leva não houver quem o suspenda, brutos e ferozes sairáõ os netos. Applicai todos os vossos sentidos ao coração da nossa Cidade: se a vida he movimento, ahi trabalha vida; se porem a vida ha-de ter um perfume, uma harmonia, ahi não ha senão morte, e aquelle movimento he de cadaver que fermenta para se dissolver. Poesia, verdadeira poesia ja n’este Reino, onde em todos os tempos pullullava espontanea, posto que raro amadurecesse, ja por consequencia acabou: quanto desde hoje se poetar nas enamoradas doçuras da vida aldeã, mais não será que recordações sem germen de futuro. D’entre a memoria e o espirito, não da experimental convicção do poeta, nasceráõ esses versos, como lagrimas de balsamo, que não de dentro da arvore, mas d’entre a casca e o libro vem raras gotejando, para cairem e se perderem no terreno bravio da solidão. Oh Liberdade, Liberdade! quão mal te comprehendem os que te separão do bello! quão mal te servem os que te malquistão com os homens de bem! como involuntariamente te levão á morte os que só te pedem como summa felicidade, o direito de nada respeitar, estradas de ferro, navios de vapor, um himno, e punhaes ou carceres contra quem quer que não beber ás suas mesas! Pobre Liberdade, não he este ainda o teu dia: não és tu idolo de selvagens, mas Divindade benefica de homens prudentes.

Eis-me outra vez com a Politica, e o meu voto quebrado. Ja vejo que a minha cura não está tão adeantada como o eu suppunha: não ha remedio, amanhã releremos Silvio Péllico, e por hoje voltemo-nos com toda a diligencia a rematar, como quer que seja, este escrito.

Sáe pois o presente livro por todos os modos extemporaneo, ja porque a estação nem he d’elles nem para elles, ja porque lhe fallecêrão dias para amadurecer e sasoar, e ja porque dos que lhe tomarem o sabor, uns o taxaráõ de temporão, outros de serodio, sendo que uma e outra couza he elle, e demais a mais pêco, segundo a planta de que se creou. Uma só lembrança me consola, e he, que assim mesmo ja deveo ser peor, quando da primeira vez appareceo, e mais lhe não faltárão gostadores; tanto he assim que nunca faltaráõ simpathias ao que de sua origem he bom, ainda quando desbotado e estragado pela impericia de quem o tratou. Melhor he hoje do que então era; não porque o eu tornasse á forja e á bigorna, ou o recorresse e lustrasse com esmerada lima, senão porque havendo hoje menos dados á lição dos livros, e em especial d’este genero, tambem ja não ha criticos, senão he para as acções da vida publica e domestica; por onde as obras escritas podem passar a seu salvo, sem que suas pobrezas e vergonhas sejão vistas e apupadas na praça. Desconsolada consolação he esta de se poder desafinar cantando, por se cantar entre surdos: mas esse mal, se o he, só a mim me toca, e para o descontar me sobra a lembrança, de que alguns caladamente me agradeceráõ o diverti-los do publico espetaculo. Para estes em boa hora sáia e sai o livrinho fallador de campos e amores: suave appareça como a violeta sozinha encontrada no passeio de inverno: suave e não estranhado como o raio de sol por cima de campo de batalha apoz uma noite de geada; nada aproveita elle aos cadaveres, mas alegra e consola como esperança aos que mal feridos jazião, e a quem o regelado lentor das trevas coalhava o sangue, desesperava as dores, tranzia os ossos, e os descoroçoava da providencia.

Ramalhete he de flores silvestres que a meus amigos deixo na hora do apartamento, que ao menos em quanto durar lhes recordará que os amei. Terra de Portugal e outr’ora de Portuguezes, terra namorada do mais formoso ceo, terra sombreada de larangeiras e murtas, acobertada de verde e bordada alcatifa, amorosamente abraçada do Oceano, talhada e regada de tão espelhados rios, terra de tanta poesia e de tanto amor, eu te deixo! E para que ja nunca onde quer que a fortuna me detenha, me cuides de ti esquecido, terra do meu Portugal lembre-te que o meu ultimo pensamento ao sair das tuas praias foi o da tua Primavera e o da minha Mocidade.

Lisboa: 1 de Dezembro 1836.