ADVERTENCIA


Reuni para este livrinho algumas das minhas utopias, já publicadas em um pequeno, mas bonissimo, periodico mensal provinciano, O Agricultor Michaelense, a fim de que o outono, que tão cedo vem ás folhas periodicas, não destruisse com ellas os meus pensamentos de amor dos homens. A esses artigos, alguns outros, ainda que poucos, ajuntei de identica natureza.

Diz-me a consciencia, que a maior parte das minhas esperanças n’estas paginas vem prematura, e que poucos d’estes bons e santos desejos, ou nenhuns, se realisarão em vida dos nossos netos.

Á consciencia respondo: que, se eu tivesse de viver duzentos annos mais, ou se d’aqui a duzentos annos houvesse de renascer, de boa-mente reservaria para então o que hoje antecipo.

Os intolerantes, os fanaticos de cada parcialidade politica, terão muito que abocanhar n’este pobre escrito. Pedir-lhes misericordia, ou mesmo justiça, fôra tempo perdido. Dir-lhes-hei só, que não escrevi para elles. Os homens bons e sinceros, que são os que me importam, ainda quando não concordem comigo, louvarão as minhas intenções.

Se, em uma ou outra parte, eu parecer por ventura censor, em demasia acre, de coisas do meu tempo (de pessoas nunca); se d’ahi quizerem inferir mexeriqueiros, que as minhas rasões são proclamações, e os meus entranhados amores de alma, clamores e rebates sediciosos, não lhes hei-de oppôr (o que aliás fôra verdade, e que de si se apresenta), que as revoluções não são os livros quem as faz, mas sim as coisas; as obras, ou a falta de obras, dos poderosos, e não as palavras dos obscuros e inermes; que as paginas só teem força activa, quando os actos que n’ellas se tratam lh’a communicam; e que essa força activa, ainda quando nem uma lettra se escreva, e então muito mais, sempre existe e sempre actua; que, em summa, o attribuirem ao meu livro efficacia para concitar as turbas, é fazerem-me ao mesmo tempo honraria demasiada, e demasiada injuria.

Não amo revoluções, nem as quero, nem creio n’ellas; tenho vivido este ultimo meio seculo, e não ignoro, de todo, o como doidejaram os precedentes; mas, ainda que para ahi me fugisse a vontade (que não foge), faltavam-me a voz e o desembaraço, indispensaveis para o papel, pelo menos extravagante, de tribuno. Se alguma coisa a tal respeito pregoei, mais foi contra as insurreições, que a favor d’ellas; mais foi gritar aos governantes, que se houvessem de collar no officio por boas obras, do que aos governados, que os derribassem; quando não, é consultar o livro a cada passo.

Se descreio em algum, ou alguns, dos presuppostos artigos de fé constitucional, não é culpa minha, nem é culpa; affiro-os pela rasão pura; avalio-os pelos resultados; comparo-os cá dentro, no meu fôro, já com as obras inconsequentes, já com os versateis discursos de muitos dos estadistas, que por elles fazem obra; e digo, com toda a paz da minha philosophia humilissima, que me parece não seria mau pensarmos outra vez um pouco em taes artigos. Toda a discussão dá luz; e toda a luz é creadora. As theses politicas não são porém as minhas; as minhas, o epilogo do meu livro, a isto se reduzem: temos terra, que pode ser mais e melhor cultivada; devemos cultival-a; temos alma, que pode ser mais e melhor allumiada; devemos allumial-a; temos coração, que pode ser mais puro, mais virtuoso, e mais amante, e mais coração; devemos aproveital-o.

A terra nos fará ricos; a instrucção, poderosos; a moralidade, unidos. A riqueza, o poder, a fraternidade, que são a civilisação, felizes.

Quanto á Agricultura, as minhas diligencias não deixaram, talvez, de contribuir o seu poucochinho, segundo alguem crê, para este promettedor tráfego de Sociedades agricolas, que hoje vai no Reino.

Quanto á Instrucção publica primaria, ajudei, e continúo a ajudar, a obra santa, com o que pude e posso; do que, dou por prova o odio e perseguições, com que os obscurantes me teem honrado.

Quanto á moralidade e fraternidade, esses bens, d’aquelles dois bens se hão-de filiar; mas ha-de ser tarde. Só quando deixarmos de ser politicos, principiaremos a ser bons.

Do livro, como producto litterario, não ha por que falemos; foi escrito de carreira, sem traça prévia, nem plano ordenado. Nem digo bem «escrito»; foi conversado, como quer que as ideias vieram vindo.

Refundira-o eu, se houvesse tempo, ou valesse a pena; decotaria redundancias: aproximaria pontos homogéneos, que vão separados; reduziria as doutrinas a um systema, e concatenação severa de raciocinios. Nada d’isso farei. Apraz-me conservar-lhe o seu caracter fortuito e desambicioso; só assim, é que me posso n’elle reconhecer.

É uma conversação, com todos os seus altibaixos, com todas as suas duvidas e incertezas, com todas as suas quebras e digressões, com todo o desalinho de homem sincero, que antes quer ser amado, e merecel-o, do que citado e admirado, inda que o podesse.

Páro já, porque estender mais as advertencias sobre coisa tão pequena, já passaria de ociosidade.

I
Excellencias da vida rustica

SUMMARIO

Os campos são mais nobres que as cidades.—O trato rural produz tudo.—A Agricultura, com os seus dois filhos, Industria e Commercio, é a expressão maxima da Munificencia Divina, e o mais claro argumento da sociabilidade do homem.—As cidades são centros para a circulação da moeda.—Só um povo agricola é deveras rico.—As honras dadas á Agricultura assentam em principios muito reaes.—A Biblia, e Homero.—Os Romanos da Republica.—O que eram as mulheres n’esse tempo.—A gratidão divinisou entre as gentes primitivas os inventores industriaes e ruraes. Refutação de um dito de Santo Agostinho.—Origem das mythologias campestres.—Os deuses rusticos eram uma decomposição da Providencia. O Christianismo destruiu aquellas risonhas crenças. O campo tomou outra especie de interesse.—Klopstock e Gessner.—As sciencias naturaes vieram substituir com vantagem a perdida idealidade dos campos.—Esboço da grandeza e poder d’estas sciencias.—Confirmar o lavrador na religiosidade hereditaria.—Excitar os ricos e poderosos, para que amem o campo e seus cultores.—Elogio moral e politico do viver campestre.

A arte variadissima de obrigar a terra a produzir tudo, não é uma arte rude, pois todas as sciencias a cortejam, e a servem; não obscura, pois é a mais antiga e universal; não vil nem desprezivel, pois só depende de Deus, em quanto os homens todos dependem d’ella.

As cidades, que affectam desprezar os campos, d’elles nasceram; por elles vivem e medram, que só lá teem as suas raizes. Transformam-se ellas, envelhecem, amesquinham-se, doidejam, morrem, e esquecem; em quanto elles, os campos, permanecem, riem, amam, dão, e promettem de continuo; coexistiram desde o principio, coexistirão até ao fim, com a raça humana.

A charrua e o enxadão topam em toda a parte com as ruinas de templos e palacios. Essas maravilhas ephémeras da Arte pompearam um momento sobre o solo desvestido, e logo a Natureza as afogou; as recobriu outra vez com o seu sólo, com a sua vegetação, com os seus frutos, com as suas fragrancias, com a sua paz, com as suas harmonias, primitivas e ineffaveis.

¿Ouvis nas cidades grandes aquelle sussurro profundo de mil vozes, como bramir de Oceano? É o estrépito da industria, o tráfego do commercio, a ebriedade das mezas, o vozear dos espectaculos.

¿Que Fada produziu e conserva tudo isso? a Agricultura.

Vêde os exercitos, esse espantoso numero de consumidores improductivos, esses celibatarios ministros da religião da morte.

¿Quem os gerou? ¿Quem os renova? ¿Quem os alimenta? O chão pacifico da lavoira. O seu pão, a sua carne, o seu vinho, os seus legumes, os seus vestidos, os seus cavallos, os seus carros, as suas bandeiras, os seus mil tambores.... tudo por lá se creou. Tudo aquillo, que vôa como remoinho devastador, que não deixa senão cinzas, sangue, e lagrimas após si, tudo aquillo nasceu e folgou pelas aldeias e casaes; relinchou pelas planicies hervosas; mugiu nas leziras encalmadas; trepou e baliu pelos cerros; ciciou loirejando pelos chãos, como espiga de alambre; vicejou em florestas; amadureceu reluzindo por entre as parras movediças dos oiteiros.

¿Que povoação, não creada por Deus, anima, cruza, devassa, todos esses mares? Esses portentos da sciencia e ousadia do homem, que affrontam com victoria ventos e ondas, já pelas montanhas vegetaram, floriram, hospedaram ninhos e musicas. As suas azas candidas, que os levam de extrema a extrema do globo, as tranças ondeantes das suas enxarcias,... foram linhares florescentes, onde as virações dos valles se embalavam. A epiderme grossa e negra, que lhes reveste o corpo, e lh’o torna, como o dos monstros marinhos, inviolavel á agua, estillou-se do pinheiro queimado em succo denegrido; gottejou de outros troncos em rezinas balsamicas; creou-se nos ossos do animal, que arrasta o carro e o arado; expremeu-se em oiro liquido do fruto luzidio da oliveira. Os braços, que os domam e os meneiam, como o cavalleiro dirige o seu corcel a todas as partes, robusteceu-os, quasi todos, o sol dos campos.

¿Que levam ellas, essas cidades sem alicerce, por quem as mais remotas se communicam, e todos os filhos de Adão não fazem mais que uma familia? ¿Que levam, que assim vão assoberbadas?

Levam os frutos da cultura do septentrião, aos longinquos moradores do sul; as producções regaladas do meio-dia, ás praias severas do norte; os perfumes e sabores do oriente, até ás ultimas orlas das Hespanhas; a alegria das mezas occidentaes, aos banquetes opíparos dos Chinezes.

¡E é o trabalho de um camponez humilde, de sua mulher e de seus filhos, o que, sem sahirem do torrão que os brotou por entre as plantas e os gados, povoou todos esses mares sem limites de celleiros, dispensas, e adegas fluctuantes, e abasteceu, sem o saberem, ao seu desconhecido irmão, em paizes de que nunca ouviram o nome, recebendo de lá, em troca, o que nunca sonharam que a terra procreasse!


Difficilmente, por mais que refujâmos para longe dos campos, e para o centro do luxo, difficillimamente encontraremos com objecto, que, no todo ou em grande parte, não devesse o seu ser á industria agricola.

A corporificação mesma d’este pensamento, isto, que estamos escrevendo agora, isto, que vós amanhan estareis lendo, este nosso aprazivel praticar entre desconhecidos, este daguerreotypar para os vindoiros um reflexo passageiro do espirito, ¿a quem o devemos, se não a esta Arte inexhaurivel? O papel, a penna, a banca, o prelo, as balas, a tinta de impressão, o alimento que mantém os braços, de que tudo isto se ajuda, ¿quem se não a Agricultura, o deu? ¿Quem se não ella, ou um milagre de muitos milagres, o podéra dar?

A Agricultura, a velha e robusta mãe dos povos, auxiliada dos seus dois incançaveis primogenitos, Industria e Commercio, é a bemfeitora por excellencia; a compensadora unica das differenças das regiões; a expressão maxima da Divina Munificencia, e o mais claro documento da nossa social destinação.

Qualquer Sciencia, qualquer Arte, supprimida, deixaria uma falta, mais ou menos para sentir; mas a falta da Agricultura desataria de repente a Sociedade, e dentro em pouco extinguiria o proprio homem.


¡Longe de nós o insensato pensamento de negarmos ás cidades a sua importancia! A baixo das choças aldeanas, nada mais nobre que as cidades; nada, que as Leis mais devessem favorecer, depois dos campos.

Os metaes preciosos, de que uma invenção profunda, e quasi inspirada, compôz, por que assim o digâmos, o sangue, que devia circular por todo o corpo social, necessitavam, como o sangue no corpo de cada individuo, deposito amplo e energico, para onde confluissem de toda a parte, e que outra vez para toda a parte os deramasse. A Cidade foi o coração do paiz agricola, e centro unitivo de sua vida.

Ás cidades, as industrias, secundaria e terciaria; o manufacturar as materias; o permutar as manufacturas. Aos campos a primaria industria; o ministrar a omnimoda materia para essas duas outras.

Artes e Commercio encantadores são, que modificam, metamorphoseiam, e transferem tudo sem cessar; mas só a Agricultura cria, só ella, filha primogénita da Divinidade, é, sobre a terra, Divindade. Só um povo que lhe quer, e a quer, e a serve com desenganada preferencia, só esse é rico; rico sem fausto, mas rico sem receio de empobrecer.

As minas cançam e exhaurem-se; as conquistas levantam-se e fogem; as fabricas podem cahir, ao erguerem-se novas fabricas n’outras partes; a grande louca do mundo moderno, a moda, as derriba a cada passo, roçando-as, ao passar, com o seu vestido novo, ou com os seus novos enfeites; o mesmo Commercio, no seu carro triumphal de oiro, corre estrepitoso por cima de alturas resvaladias, por entre despenhos e rivaes inimigos, que ao primeiro descuido o precipitarão.

Só a terra entretanto se não esgota; só n’ella se podem empregar beneficios, sem colher ingratidões; só ella pode dizer, como o seu Creador: «Pedi e recebereis»; só ella pode supprir tudo, sem poder outra alguma coisa suppril-a.

Quando ella treme, sacode de sobre si, em nuvens de pó, castellos massiços, paços alterosos, armazens e feitorias de portas chapeadas, como um leão, com um frémito musculoso das jubas, afugenta os insectos, que vieram poisar sobre elle em quanto dormia; mas a Queluz e Versailles do lavrador, a sua choçasinha de palha, essa vacilla um momento, como as arvores circumstantes; assustou-se, como um passarinho entre as ramadas; mas fica em pé, e rasserena-se, vendo tudo em derredor tão arraigado, tão viçoso, tão quieto, como d’antes.


Foi a consciencia d’estas verdades obvias, e que só o excessivo crescimento do luxo era efficaz para escurecer, foi, dizemos, a consciencia d’estas verdades, a que fez com que em todos os tempos se protegesse e honrasse a Agricultura, e em alguns paizes por modo tal, que aos almiscarados passeadores das capitaes pareceria hoje fabuloso, ou ridiculo quando menos.

Os dois mais antigos livros, que o mundo velho nos deixou, a Biblia, epopêa de Deus, e Homero, biblia dos poetas, a cada pagina nos maravilham com o que antes nos devêra servir para sizuda meditação, e algum exemplo: com a singela pintura do enlace da autoridade com o trabalho rural.

Reis e Principes homericos, raios de valor nos combates, nos dias da paz cultivam, e pastoreiam: e mais de um heroe d’esses, ao expirar, dá a ultima saudade ao pensamento dos bosques da sua infancia.

Os patriarchas da antiga Lei, os juizes, e os Reis do Povo hebreu (semelhantes n’aquillo aos maioraes de algumas tribus arabias, e aos regedores de alguns povos simplices da America e da Africa, ainda hoje) distribuiam a justiça, já á sombra de um carvalho, já sentados, como em throno, na méda do seu trigo á borda da eira; ou, reclinados entre os seus rebanhos, ensinavam com apólogos e parábolas campestres, as virtudes naturaes, a concordia, a rectidão, a beneficencia.

Os Romanos das eras recommendaveis, os Romanos da Republica, essa gente exemplar, já expurgada da barbaria de sua origem, e ainda não pervertida pelas riquezas e luxo; equidistantes de Romulo e de Nero; revolviam com a charrua o chão da Patria, que alargavam com a espada. Da rabiça, se iam arrancar os generaes para as victorias; do Capitolio redescendiam, com alvoroço, para se irem concluir a geirasinha largada em meio.

Então as matronas eram Cornelias; e as donzellas, Virginias. Então era soberbo epitaphio: «N’este sepulcro não formoso jaz uma formosa mulher. Governou sua casa; fiou lan.»

Então eram guiões e estandartes magnificos umas paveias de feno no alto de uma lança.

Então, emfim, podia dizer o Poeta, com verdade: não só que as selvas eram dignas de consules, se não que eram dignos os aldeãos, dos feixes e da purpura.

Retraiâmos-nos lançando comtudo um olhar saudoso para aquellas edades ridentissimas, em que os nomes e feitos memorandos se não escreviam nos annaes, mas se embalsamavam de poesia para mythos.


¿Qual foi d’essas antigas gentes, fabuladoras por philosophia, a que não divinisou, e não ergueu sobre aras, para incensos e hymnos da posteridade, os inventores, introductores, ou aperfeiçoadores, das diversas Artes prestadias, e da Arte da Agricultura sobre todas? Cybéle, Osiris, Saturno, Céres, Triptólemo, Fauno, Pales, Baccho, Pomona, Vertumno, Aristeu, Flora, eis ahi uma parte d’esse Olympo terrestre, com que as Musas por mais de dois mil annos se inspiraram, e que, se já hoje não ressôam nos cantos, nem por isso ficaram menos sacros para os corações agradecidos.

«Demonios são os deuses da gentilidade»—exclamava, no seu enthusiasmo religioso, o Bispo de Híppona.—«Demonios são, cujos nomes nunca mais hão-de profanar estes meus labios.»

Enganais-vos, Agostinho, se abrangeis a esses bons deuses rusticos no vosso anáthema. Desendeusae-os embora; mas, em vez do ferrete de demonios, decretae-lhes foros de grandes Homens, e grandes Mulheres, já que de Anjos não pode ser.

Se procuramos, na rasão pura, o que por nenhum documento se rastreia, o por que os Romanos, apóz os Gregos, os Gregos apóz os Egypcios, e os Egypcios Deus sabe apóz quem, assim se comprouveram de povoar de numes e semi-numes indígetes os seus campos, facil se nos depára a chave do enigma. Obra foi, instinctiva e simultanea, de rusticos, e philosophos; do povo, e dos agentes da alta Politica dos Estados. O poder comprehendeu a utilidade de sanccionar culto que nobilitasse o lavrador, divinisando todos os objectos do seu trato, e a propria terra: os camponezes, por si mesmos, de motu proprio, coadjuvaram o poder n’esse mui real empenho seu, com darem largas á propria phantasia, faculdade sempre tendente para o poetico e maravilhoso.

E de feito, ¿que mais natural erro (se assim nos podemos exprimir), que abusão mais para desculpas e louvor, do que imaginar o homem, ao ver-se rodeado de successivos beneficios e presentes da Natureza, que andavam ahi velando sobre elle, por toda a parte, a todas as horas, entes beneficos, poderosos e invisiveis, a quem por isso cabiam amor e agradecimento? Por não abrangerem a Providencia na universalidade, decompunham-na em mil Providencias; e n’este sentido a idolatria era ainda um culto ao Supremo Desconhecido, «Ignoto Deo»; era o matiz brilhante e confuso, formado de vapores da terra entre ella e o Céo, como arreboes e aurora do Sol, que estava para nascer.


Além da gratidão, outra causa, se menos sublime, por ventura mais urgente, levaria os filhos das aldeias a abraçarem na alma, sem exame, aquellas crenças, logo que referidas na conversação dos velhos autorisados, ou evangelisadas pelos poetas, por esses engenhos de eleição, a quem sempre se attribuiram mysteriosas relações com outros mundos. Esta causa era, no meio da solidão, a tendencia para a sociabilidade.

O viver semi-eremitico do camponez, e as suas occupações, quasi todas manuaes, deixavam-lhe alma e coração livres, vazios, carecentes, avidos de alimento. Nos desenhos do Vaticano se vê, copia de uma pedra antiga, a imagem da Agricultura representada por uma Psyche, arrimada a um sacho, e meditabunda.

Então o pastor folgou de cuidar que uma deusa o acompanhava occulta, e o amava, defendendo-lhe o rebanho; que de dentro de cada arvore, ao perpassar, lhe sorria uma Nympha; que outra despejava da urna subterranea as aguas que o dessedentavam; que a aura refrigerativa das séstas era vivente, e lhe furtava beijos fugindo; que a sua flauta fôra inventada por Pan em hora de mágoas amorosas, e as suas cantigas eram repetidas com ternura pela namorada de Narciso.

O semeador, lançando o grão á terra, commettia a sua subsistencia ao coração maternal de uma beldade; o pomareiro encommendava a outra, ainda mais beldade, encher-lhe os açafates e cestos para o outono; e o vinhateiro via um menino, tão gentil como o proprio Amor, e um velho tão folgasão como esse menino, andarem-lhe brincando por entre as cepas para florescerem. O dia, derramava-o dos céos o deus da musica e dos versos. Á scismadora melancolia das noites presidia, lá do carro da lua, uma virgem candida, que de manhan andára caçando pelos bosques, e de quem havia segredos... para se contarem ao ouvido das raparigas.

Assim se era amado, porque se amava; e se amava, porque se era amado. Assim se ganhava animo para supportar a solidão; ou, por melhor dizer, assim a solidão se transformava em sociedade; sociedade tão numerosa, tão garrida, tão illustre, tão sensitiva, tão amavel, tão munífica, sobre tudo, qual nunca jámais a poderiam ter os saráus das maiores Côrtes, e dos maiores Reis.


Sob o astro esplendido do Christianismo tudo isso passou, como perante o sol do estio desapparecem as multicores florinhas, que borboleteavam por valles e oiteiros. O campo desenfeitiçado se consagrou por bellezas mais severas; mas a solidão reappareceu em grande parte, e quiçá mais profunda e melancolica, em derredor do camponez. É porque já se aprendêra do Historiador da Creação, que a fertilidade só nascia do trabalho, e que o trabalho era castigo da desobediencia; que a terra não era patria, se não degredo, e a vida não estado, se não caminho por valle de muitas lagrimas. Os frutos já não foram dádivas de nymphas, sim esmolas, que a troco de suor e orações se lançavam lá de cima aos necessitados, para elles as repartirem com os indigentes.

As novas festas campestres, as Rogações de Maio, a procissão das Alleluias, não compensavam, para os sentidos, as sacras profanidades de outro tempo.

Acudiram Musas do Cedron e do Jordão, successoras, e não herdeiras, d’aquellas nove da Castália e Aganippe, e forcejaram por enthronisar no campo das antigas divindades esvaecidas novos Genios mais formosos, ainda que menos sensuaes; verdadeiros quanto á existencia, e só quanto aos attributos fabulosos. Ás Dryades, Oréades, e Faunos, succederam na tutella das arvores, dos oiteiros, e das planicies, Anjos invocados do Empyrio pelas harpas germanicas do cantor delicioso de Abel, do cantor sublime do Messias. Mas esses Espiritos custodios das plantas e das aguas, das flores e das estrellas, em quem a imaginação creu, talvez, em quanto ressoavam os accentos d’aquellas harpas, volveram aos Ceos com Gessner e Klopstock, como os numes haviam volvido ao nada; e a solidão campestre recomeçou; ou proseguiu.

O ideal da vida agricola achava-se pois abolido, e para todo sempre. A obra das Musas do Líbano caducára, como a obra das filhas do Parnaso. A arvore não era mais que um lenho verde; a fonte, agua; a terra, terra.

Acode a Sciencia, para repoetisar tudo.


A Sciencia da Natureza é nos tempos modernos um gigante, animado de mil espiritos, armado de mil braços, guarnecido de mil azas, dotado de mil ouvidos e mil olhos; engolfa-se, como aguia, por ceos e ceos; colhe no vôo os cometas e os planetas, e lhes toma o pezo e a medida; distingue na atmosphera imperceptiveis e subtilissimos fluidos, e os senhoreia como a outros tantos Genios poderosos, constrangendo-os a explicarem-se, e a servil-a; estende a vista senhoril pela superficie do orbe, e impõe, como o primeiro homem, nome proprio a cada vivente sensitivo, a cada planta, a cada composto, a cada elemento da materia bruta e inerte, desde a colossal baleia, até o microscopico infusorio, desde o giganteo baobab, até o pulverulento lichen, desde os alterosos Andes, até as parcellas imponderaveis do simples mineral. Entre tantos milhões de individuos, estabelece os reinos, determina as classes, subdivide e forma ordens, reconhece os generos, caracterisa as especies, e descobre as mutuas relações de nexo ou afastamento. Funda preciosos inventarios de tantas riquezas, os methodos naturaes, e os systemas artificiaes. Abysma-se nas profundezas da terra, e reapparece com os documentos da historia do Mundo; medita-os, e prophetisa o que lá vai, já nos incommensuraveis seis dias do Génesis, já nas eras subsequentes. Interroga a vida em todos os seus mysterios: na geração, na reproducção, na conservação, no crescimento, nas metamorphoses; aqui, lhe recebe a confissão de um segredo; além, lhe arranca outro; conjectura todos; e muitos, por ventura lh’os adivinha.

Ajudada das artes, filhas suas, nutridas aos seus peitos, entretece industriosamente todos esses innumeraveis fios de luz, que de cada ponto da materia lhe ressurtiram, e por suas combinações inesperadas faz apparecer, de momento para momento, novos recursos para as mesmas artes, novas forças e vantagens para o homem.

O campo, sondado pela Sciencia em cada camada do seu terreno, em cada elemento dos seus adubíos, em cada gotta do seu orvalho, em cada molécula dos seus gazes, em cada póro das suas plantas e animaes, em cada tácita relação de tudo seu com os meteóros, com a electricidade, com o frio e calor, com a luz e as trevas, com cada um dos ventos, com cada uma das quadras, com cada um dos mezes, com cada um dos dias, e horas do dia, o campo, repetimos, encerra pois mais poesia, poesia mais bella, mais fecunda, mais vivaz, mais duradoira, que as antigas.

A arvore do pagão fôra nympha; e a do simples christão, simples meza de caridade. A arvore para o sabio é um microcosmo de maravilhas; é um pregão, não já mudo, de Sabedoria, de Poder, de Bondade sem limites.


¡Felizes nós, se, interpretando uma ou outra harmonia da Natureza, podermos confirmar o camponez na sua religiosidade hereditaria!

¡Felizes, não menos, se nos ricos senhores crearmos, ou accrescentarmos, o amor dos seus campos, e o salutar affecto aos pobresinhos, que com o seu suor lh’os fertilisam! ¡se, tornando-lhes aprasivel o rusticar, e descobrindo-lhes com Zimmermann os thesoiros da solidão, contribuirmos para que alguns vão ser divindades veneradas no seu torrão, e ensinar com o seu trato polidez aos filhos das aldeias retemperando-se entre elles, e readquirindo algum pouco d’aquella innocencia velha foragida das cidades! Que vendo nos seus bosques e seáras alguma coisa mais que lenha e farinha, sintam que a Agricultura é o parentesco, a amisade, a intimidade, o trato de mutuos beneficios, entre o homem e a Terra sua mãe. Que repitam com Bentham: «A classe dos que trabalham, se é a derradeira no vocabulario dos soberbos, é no vocabulario da san Politica a primeira». Que muita vez, nos seus passeios meditativos, exclamem enternecidos, como a Baroneza de Staël: ¡«Pobre gente! ¡meio silvestres, meio civilisados! mas os que d’entre elles são virtusos, ¡oh! esses teem um genero de innocencia e bondade, que lá nos mundanos se não acha.» Ou, reclinados ao sol posto no poial da sua granja, revolvam calados aquellas palavras, com que a Biblia, na sua maravilhosa simplicidade, nos encarece o viver facil do Povo eleito no reinado de Salomão: «Comer, beber, e folgar, sem nenhuns medos, cada um á sombra do seu parreiral e da sua figueira.»

¡Oh! e as mãos do que tudo isto chegar a dizer, ¡que venturas não dispartirão tacitamente pelas agradecidas choças de tantos, que, em meio de montes de riquezas, não tinham muitas vezes um pão negro para os seus meninos!

«Quem faz amar os campos—escrevia Delille—faz amar a virtude.»

¡Oh ricos, ricos! ¡Quão pouco vos custára o ser ditosos, creando nos outros alegrias para vós mesmos! ¡Quão facil vos fôra acabar com o antigo pleito, que pende entre a penuria e a opulencia! ¡Quão facil, e quão glorioso, o fazerdes (e não á vossa custa, se não até com proveito vosso) com que os filhos, como vós, de uma terra fertil não fugissem d’ella, para se irem comer pão de escravos, e estalar de saudades em sertões longinquos!

Se amais o chão onde nascestes, creae e enraizae n’elle verdadeiros lavradores.

Lavradores verdadeiros não são só os cidadãos mais productivos, mas tambem os mais pacificos e patrioticos.

Janeiro de 1848

II
Sociedades de Agricultura

SUMMARIO

As associações agricolas hão-de diminuir as aversões publicas, e restituir o amor do trabalho.—A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense mostra o que taes sociedades valem.—Vantagens que já tem dado.—O seu exemplo ha-de ser imitado, mesmo em Portugal.—A convicção da necessidade de olhar pela Agricultura é já sentida geralmente.—As regenerações politicas só serão verdadeiras tendo por base a Agricultura.—Todas as revoluções teem origem na bolsa.—Tributos devem-se exigir, proporcionando-se meios de os pagar.—Os poisios deviam repartir-se pelos soldados.—Como seria um bom Governo.—Aqui não entra «Politica» segundo hoje a entendem.—Declaração de qual é a do autor.—Como as Côrtes e o Governo podem felicitar sem custo a Nação.—Se elles o não fizerem, façam-n-o os particulares, associando se.

Por um interessante periodico do Funchal, O Madeirense, vemos com prazer, que tambem ali se torna a olhar com amor para a terra, a grande Mãe, como philosophicamente lhe chamavam os Antigos.

A terra é o campo neutro, no qual, ainda hoje, se podem congregar os animos, que as contendas sociaes dissociaram e lançaram a monte. Não é senão no seio da Natureza immutavel, universal, inexhaurivel, que os homens podem encontrar novamente a convivencia de ideias, e a fraternidade, a que os leva o seu instincto, tanto como a sua razão. Se o trabalho é a condição indispensavel de todos os bens, se a união é a indispensavel condição de todo o trabalho de veras fecundo, ¿quem não vê que as Associações agricolas, além do grande beneficio de tornarem a enfeixar um pouco a familia humana, hão de promover o trabalho, Anjo custodio de saude e bons costumes? O que as Associações agricolas estão dando de si nos povos representantes e coripheus da civilisação, é historia já tão publica e corrente, que ainda aquelles que a não estudam a sabem pouco mais ou menos. Mas, preterindo, como logares communs, a França e a Inglaterra, figuras obrigadas em qualquer pagina dos nossos contemporaneos, como aquell’ outras de Grecia e Roma em cada escrito dos nossos paes, préguemos á nossa gente com o exemplo, muito mais persuasivo, dos «santos de casa.»


A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense é a demonstração viva do que taes corpos valem, e podem, para o aperfeiçoamento dos lavradores.

Nascida de hontem, se pode dizer, sem amparo algum externo, sem uma dotação larga, para converter em factos a decima parte dos seus bons desejos, constantemente a braços com as difficuldades dos tempos, ainda não apreciada nem comprehendida na propria terra, e com mais de metade das suas forças intrinzecas desaproveitadas, com um viver intermittente, reduzida a hibernar por quasi toda a bella estação, e no inverno mesmo só incompletamente concorrida de seus membros e sem ouvintes para a animarem recolhendo-lhe o fruto das discussões; n’uma palavra: não havendo tido, por si até agora mais que tres ou quatro vontades perseverantes, mas inquebrantaveis, mas inflexiveis, mas cheias de fé e amor, esta Sociedade contém já nos seus fastos algumas paginas, que a gratidão da Historia ha-de doirar, e os futuros lavradores beijar com enternecimento.

O rusticissimo horror das innovações agrarias, esse ridiculo espantalho millanario de todas as ideias uteis, não se destruiu, porque não pode destruir-se; mas vai recuando para dentro dos limites de uma prudente e cautelosa espectativa; isto é: a curiosidade moderada, que não dá passo sem primeiro palpar o terreno, mas que, apenas o sente solido, adianta e assenta o pé para não retroceder, occupa já o logar do empyrismo intolerante e indomesticavel.

Não se instruiu ainda o camponez; a tarefa de seculos não cabe em dias; mas fez-se-lhe entrever a sua ignorancia; é uma grande passada no caminho do Progresso. Fez-se-lhe conjecturar, por factos sensiveis, que havia, fora da sombra do seu campanario, e mesmo dentro nas cidades, amigos seus e da terra, habilitados pelo estudo para mestres e guias; que os livros não eram todos sonhos vãos de charlatães, e que de muitos d’elles sabiam raios, luminosos como os do sol, que fertilisavam a terra largamente; que não havia sacrilegio em trocar a enxada de Adão pelo instrumento só de hontem inventado, mas que multiplica as forças, as horas, os frutos, as moedas, os ocios innocentes, e os praseres.

Insinuou-se a pouco e pouco, e sem rumor, nas praticas do serão da Aldeia:

primeiro, a crença de que o Mundo era mais amplo que os confins da parochia ou do municipio, e muita planta boa, e muito animal prestadio opulentavam outros paizes, que, se viessem ao municipio e á parochia, lhes accrescentariam os haveres;

que se podia produzir mais e melhor em frutos e materias primas, para industrias que ao longe se enxergavam;

e que o pretender aperfeiçoar as raças brutas, as manadas, os rebanhos, e os animaes domesticos, não era absurdo nem impiedade, pois que a tudo isso se chegava sem mais feitiço que o entendimento que Deus nos deu.

Não queremos affirmar que o poisío secular, sêcco e maninho, dos espiritos da população rustica se ache já desmoitado. Affirmâmos porém, e poderia provar-se, que da fundação da Sociedade promotora data um progresso notavel na Agricultura d’este paiz; que ha hoje ahi em exercicio muito instrumento moderno de inquestionavel prestimo; que alguma raça de animaes caminha para o aperfeiçoamento; que as plantas preciosas estrangeiras são desejadas e bemvindas; que se vai pegando a curiosidade do experimentar. N’uma palavra: um observador attento e sagaz sente nas ideias rusticas o que quer que seja de vivaz, de vegetativo, de medrançoso; semelhante ao que se percebe nas hortas, de verão, pela calada da noite, quando ao luar se está suavemente devaneando: um rumor vago e tenue pela folhagem; um cheiro suave de vitalidade, que é circular de seiva, encorpar de hásteas, desabrolhar de gomos, explicar de folhas, nascer de botões, abrir de flores, enchar e amadurecer de frutos; são os fluidos impalpaveis do dia que passou, que por ali se estão ás escuras corporificando para abundancia; d’aquelle ruído sem nome, e quasi imperceptivel, é que lá para o diante se hão-de acogular as eiras, encher os celleiros e os lagares, assoberbar-se os carros, os portos, e os navios, nutrir-se os homens e os animaes, as aldeias e as cidades.

Deixae continuar em sua acção a causa impulsiva d’este movimento, que já se opera nos espiritos camponezes, e vereis as innovações cada vez menos repugnadas, a sciencia pratica avantajada de anno para anno, e com ella vir raiando um pouco tambem da sciencia especulativa, unica fonte dos progressos ulteriores e indefinidos.


Felizmente, este exemplo grande e nobre que a Sociedade Michaelense está dando a todos os dominios Portuguezes, e á metrópole mesma, é grão lançado em terreno, que nos parece achar-se já devida e sufficientemente preparado.

De toda a parte onde ha Portuguezes, isto é: de toda a parte onde sobre um solo fertil negreja a penuria, saem gritos clamando pela Agricultura ausente, como pelo ultimo e unico Messias terrestre; e esses clamores, quando assim se tornam geraes, são sempre prophecia.

A convicção chegou a todos os animos: a uns pelo raciocinio, aos outros pelo mero instincto; mas em todos está; em quasi todos clama; e já em muitos se agita insoffrida, para se converter em obras.

Se os commodos da vida, isto é os deleites do corpo, os do coração, e os do espirito, são o alvo a que tiram de longe, e de encontrados pontos, todas as opiniões, todos os systemas, todas as parcialidades, a Agricultura para Portugal deve (e não pode deixar de ser) havida pela Politica suprema, pela Politica das Politicas; pois quando, renascida e adulta, a nossa Agricultura nos houver feito laboriosos, abastados, modestos, bons, unidos, e irmãos, então, e só então, é que as theorias de liberdade deixarão de fluctuar e transformar-se ao sôpro das palavras, como as nuvens inconsistentes ao capricho dos ventos.

As instituições sociaes querem todas uma base; e não ha para ellas alicerce, como é a terra a desentranhar-se em riqueza; tanto assim, que o proprio regimen absoluto, e ainda o despótico, em quanto não faltam ao Povo com pão e um pouco de recreio, permanecem, não combatidos, nem quasi murmurados; ao mesmo passo que as mais philosophicas e altisonantes constituições em terra faminta, isto é em terra pelos homens desaproveitada, são victima, muitas vezes innocente, mas sempre victima, dos irreconciliaveis odios da indigencia.


Não se ha mistér ser profundo sabedor na historia das revoluções, para reconhecer que todas ellas, proxima ou remotamente, teem na bolsa a sua origem; assim como é evidente, que em quasi toda a parte é a terra trabalhada quem enche a bolsa; ou, pelo menos, que é só ella quem, enchendo-a, pode prometter com affoiteza conserval-a cheia.

Um dos mais deploraveis erros, se não o mais deploravel, é procurar acudir aos males produzidos pela miseria, extorquindo aos proprios miseraveis com uma das mãos o que depois, bem ou mal, em todo ou em parte, se derrama sobre elles. O Thesoiro publico só é abastado, ou, mais verdadeiramente, só ha Thesoiro publico, onde se não é obrigado a arrecadar para elle sangue, lagrimas, e maldições.

Os tributos são uma necessidade; mas para os Governos justos e previdentes não no é menor subministrar aos governados meios de producção, com que satisfaçam aos tributos.

Facilitae-me encher a minha tulha, e pedi-me embora metade d’ella para remir o desamparo dos meus visinhos. Mas se pela minha porta aberta não vedes, em toda a minha poisada terrea, nem lume, nem pão, nem assento, nem mais vestido que os andrajos que andam no corpo, não me vendais para o tributo o bercinho nú do filho, e a enxerga desconchegada da mãe; não m’os vendais que o não quer Deus; não m’os vendais, não m’os vendais, que por um tostão ou dois os havereis matado a elles e a mim, e á vossa consciencia tambem; e todos estes mortos se alevantarão á hora prescrita, para matarem a vossa causa.

Se os haveres são o sangue do corpo social, e se o corpo social jaz por debilidade, ¿pensaria alguem cural-o abrindo-lhe as veias e as artérias?

Em quanto houver terras devoluto, a dar cardos e urzes em logar de trigo e azeite; em quanto houver braços com ociosas armas ás costas, ou encruzados sobre o peito descarnado; em quanto não repartirdes esses braços por essas terras, e essas terras por esses braços, com um alvião, um punhado de sementes, dois ou tres cruzados para uma choça de colmo, um cathecismosinho de Agricultura, e uma boa isenção de direitos até que a abençoada plantação se desate toda em frutos; em quanto fordes tolerando que o vicio, o ruim exemplo, a indiligencia, e a ignorancia, lancem quotidianamente na voragem sempre crescente da prostituição milhares de moças, nascidas com entendimento e coração para mães de familias, e a maior parte das quaes o haveriam ido ser, se o seu hediondo celibato não fôra effeito necessario do celibato forçado de tantos homens; em quanto, pelo concurso de tamanhos desconcertos, deixardes que permaneçam estereis, despresadas, e despresiveis, as duas mais formosas e mais santamente productivas coisas do mundo, a terra, e o seio da mulher; sereis mendigos a governar mendigos, sereis loucos a vexar attribulados.

Podereis chamar-vos Governo, segundo o Direito constituido, e pelas trombetas de uma parcialidade, da vossa; mas pela Natureza, mas pela philosophia, mas pelo vosso proprio senso intimo... nunca merecereis tal qualificação.


Damos por superfluo declarar que, se algum nescio, ou maligno, vir d’isso a que ahi chamam Politica nas poucas linhas que deixamos escritas, não foi absolutamente nossa intenção, nem o é, nem o será nunca, descer das alturas serenas e claras do raciocinio até essas escuras e lodacentas encruzilhadas.

Não processâmos nenhum homem, nenhum bando, nenhum systema; ou processâmol-os todos.

Hoje (comprazemo-nos de o repetir) não commungâmos senão á Meza catholica da Philosophia. Todas as variações protestantes da egreja politica liberal nos são desconhecidas. Lançâmos ao ar e ao vento as palavras de bom conselho, com hombridade e sem odio, como todos devem; é a nossa consciencia a respirar alto.

A parcialidade que fizer obra do que nós só fazemos discurso, será essa a que nós bemdiremos. Os primeiros estadistas, que arvorarem por estandarte na ponta de sua lança sem ferro a relha da charrua e o sacco da semente, serão os que nos movam, sem que nol o peçam, a irmos á urna; e á fé que não votaremos senão por elles, porque esses nos haverão feito acreditar na edade de oiro. A edade de oiro não está no passado, como a sonharam os poetas, mas no porvir, e bem proxima se o quizermos. Não ha de baixar do Ceo com deuses, mas ha-de rebentar da terra com frutos e creanças, quando os homens se encurvarem para a invocar.


Segundo os axiomas que deixamos tocados, grandes, imperiosos, e urgentissimos são os deveres, que ás autoridades executivas e legislativas incumbem, de remover obstaculos, e proporcionar meios para que a Agricultura nacional se levante e cresça, com aquella espantosa rapidez, com aquelle vigor prodigioso, que todas as coisas nobres assumiram sempre em nossa terra, quando de veras as quizemos.

Legisladores e governantes, dizei «Faça-se»; de todos os cantos da Monarchia se repetirá em milhões de eccos: «Faça-se». E far-se-ha. E o Povo Portuguez reapparecerá aos olhos do mundo tão grande e magnifico nos seus trajos de lavrador, e coroado de oliveira, como outr’ora soldado e conquistador, coroado de loiros, e cicatrizes; mas com uma vantagem summa na sua nova transformação: que as conquistas e pelejas o matavam afogado em oiro e sangue; em quanto a Agricultura o haverá remoçado como o Esão da fabula, e opulentado do oiro vegetal, unico oiro que sustenta e se semeia para mais oiro.

Pois se acha emfim conhecido o caminho largo e facil que nos ha-de levar á felicidade; pois que tantos desejos o devoram já em espirito, ¿por que não nos poremos desde hoje em marcha para a conseguirmos quanto antes?

Se os Legisladores, se os Governantes, se as supremas Autoridades não souberem, ou não poderem, ou não ousarem, collocar se á nossa frente; se houver interesses, que se lhes representem maiores do que o interesse maximo; saibâmos e ousemos nós, nós os cidadãos, nós o Povo, nós que o podemos, progredir sem mais impulso que o nosso instincto salvador, sem mais guia que a razão demonstrada. Tambem uma columna de luz levou o Povo eleito, atravez do deserto, para a Terra da Promissão. ¿Quem nos dará força? a associação. ¿É ella possivel? facilima.

¿Como se organisará?

Vamos vel-o.

Agosto de 1848.

III
Continuação do assumpto

SUMMARIO

O Jornalismo deve ser prégador da fraternidade agraria, exhortador e mestre de cultura, sendo o Diario do Governo quem dê o exemplo.—Como se formou a Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense, podem outras formar-se e imital-a.—Uma Sociedade Promotora para cada cidade em que houver centro episcopal e administrativo.—Sociedades filiaes fomentadas por ambos estes poderes.—Relações mutuas entre as primeiras e as segundas.—Quadro dos resultados provaveis de tal systema.—Para a sua realisação bastam os cidadãos, sem auxilio do Governo.—Desenho geral da proposta machina de Sociedades, e descripção do seu jogo.—Indicação de meios pecuniarios para a manutenção d’estas Sociedades.—Summa conveniencia de um Ministerio dos negocios da Agricultura.—O que se tornaria Portugal, realisados todos estes alvitres.—Deseja-se que no Parlamento se alevante um homem.

Antes de tudo, é necessario que a Imprensa, representante n’este caso da opinião publica, tome a si o excital-a ainda mais, o esclarecel-a sobre os meios, o alvitrar, o discutir, o convencer os incrédulos, o afervorar os tibios; emfim, que procure compenetrar-se de profunda fé, para a transmittir egualmente profunda a seus ouvintes; armar se de constancia, de pertinacia, de fanatismo (se é licito dizel-o) até ver consumada a regeneração.

O Jornalismo, que, podendo, deixa de ser missionario do Progresso, é alguma coisa peor que uma ociosidade: é um musgo, que devora á arvore multiforme da instrucção proficua, parte da seiva que a devia alimentar.

Em vez pois das questões futeis e ephémeras, saturnaes da Imprensa, que ás almas bem nascidas já repugnam; em vez das quotidianas batalhas dadas no campo das utopias, com descargas cerradas de impropérios; dêem os jornaes, uma e muitas vezes, parte das suas columnas, como expiação (quando mais não seja), á exhortação para a fraternidade agrária, exhortação que se tornará de tanto maior pezo, quanto elles proprios, os jornaes, discordes em todos os outros pontos, se apresentarão n’este unanimes e amigos.

Mais: alguma porção do espaço que por posse velha vão encher ás folhas estrangeiras, de novellas excusadas (quando não nocivas) de anecdotas ridiculas, de vanidades de toda a casta, franqueiem n-o a originaes, traducções, ou imitações, que, ensinando ao lavrador alguma novidade util, no tocante ao seu officio, lh’o ensoberbeçam aos seus proprios olhos, pela prova de que a Imprensa, os sabios, e as nações crescidas e policiadas, o não desprezam.


Dada e conservada aos espiritos, por via dos periodicos, esta saudavel e fecunda excitação, o arbitrio de se formarem Associações promotoras da Agricultura espontaneamente nasceria, se fosse possivel que a mesma Imprensa se houvesse esquecido de o suscitar, e aconselhal-o.

¿Presumimos nós demasiadamente dos nossos collegas, os escriptores publicos, quando para tal coadjuvação os convidâmos? Certo que não. O amor patrio, que todos elles professam, o egoismo que todos nós temos, a louvavel ambição de contribuir para um resgate, e depois tambem a precisão de refocillar a espaços a alma, fatigada de sobresaltos e pelejas, tudo nos afiança que a maior parte d’elles, pelo menos, acudirá ao chamamento: e primeiro que nenhum o Diario do Governo, pois por vinte rasões o deve, e por mil modos o pode mais que todos.


¿Como se formou a Sociedade promotora Michaelense?

Pela vontade de alguns poucos particulares amantes do seu torrão; sem prévia suggestão externa, sem mão que de cima se lhe estendesse. Nasceu por si, e de si; foi uma formação espontanea; e comtudo vingou, cresceu, e aqui a estamos já hoje citando por modelo.

Logo, onde quer que haja tres ou quatro cidadãos egualmente esclarecidos e zelosos, esses poderão o que estes poderam; e tanto mais facilmente ainda o poderão esses, quanto haverão, para os guiar, a experiencia dos seus predecessores, as lições do tempo para se amestrarem, e já maior favor publico para os influir.

Começadas por pequeno mas forte nucleo nos pontos do territorio mais bem situados, ou mais bem relacionados para servirem de centros, as Sociedades promotoras da Agricultura não tardarão em se encorpar e robustecer, absorvendo e assimilando em si quantos homens, quantas influencias, quantos meios de acção, se encontrarem ao seu alcance.

Estas Sociedades primordiaes, conviria talvez, que fossem tantas em numero, quantas são as terras, em que ha uma capital administrativa, e uma séde episcopal, ou mesmo uma só d’estas duas poderosas entidades. Sob a presidencia de taes cabeças, eil-as ahi podendo desde logo diffundir em torno de si, por toda a parte, Sociedades filiaes. Pelo Governador Civil, cada Administração de Concelho formaria a sua. Pelo Bispo, aggregar-se-hia uma á sombra de cada campanario.

Algumas, bem o antevemos, abortariam pelo desfervor, pela ignorancia, ou pela impopularidade de um ou de outro d’estes agentes subalternos; mas outras pululariam, não semeadas, no logar d’essas; e, quando mesmo ficassem na seára, aqui ou acolá, algumas rareiras, paciencia; o fruto da restante sobraria para consolar.

Por este systema, as luzes se diffundiriam dos grandes focos, por uma irradiação constante, para todos os pontos; e de todos os pontos convergiriam para os grandes centros as noticias dos resultados das tentativas, para ahi serem comparados, pesados, e formulados em regras; e o clamor das precisões locaes, para se lhes dar logo, ou se lhes sollicitar de mais alto, o competente remedio.


Imaginemo-nos já chegados ao tempo, em que taes votos sejam cumpridos.

¡Que movimento nos espiritos! ¡que actividade nos homens! ¡que producção na terra! ¡que aproveitamento do tempo, das forças, e dos cabedaes! ¡que duplicação na sociabilidade! ¡que fraternisação das cidades com os campos! Desappareceram os mendigos; todos os braços acham trabalho; todo o trabalho cria pão; o Thesoiro recebe sem sacrificios, paga sem tergiversações, resgata o passado, olha para o futuro sem pavor, ouve bençãos em vez de maldições; da sua voragem vulcanica rebentou uma fonte, que nunca mais ha-de seccar; todo o Paiz ri, floreja, e canta; todas as aldeias enxameiam em creanças, como todas as charnecas em frutas e casaes; os rios e as estradas carreiam abastanças; bandeiras de todas as Nações se esvoaçam em cardume nos portos, permutando com os productos do solo as obras das suas industrias variadas, e ainda parte do seu oiro.

Sim; a tamanho paraizo nos pode chegar a Agricultura, só com a mera protecção dos cidadãos; mas protecção crente, energica, regular, e inquebrantavel, sem até se necessitar de que o Governo directamente a coadjuve; basta que lhe não empeça, e lhe remova um ou outro estorvo grande e conhecido.


Desenhêmos agora em contornos as rodas d’esta machina de Sociedades, que tantos milagres ha-de perfazer, e indiquemos o seu movimento, e o seu jogo.

Cada Sociedade-mãe terá sempre em vista dois objectos capitaes:

infiltrar nos lavradores e operarios rusticos a possivel instrucção análoga, proporcionando-lhes, ao mesmo tempo, meios para aperfeiçoamentos; e

sollicitar dos poderes supremos do Estado a promulgação de boas Leis agrarias, a revogação ou emenda das damnosas:

O primeiro fim conseguil-o-hão:

estabelecendo e augmentando continuamente, com discernimento e desvelo, uma bibliotheca de Agronomia, Veterinaria, Historia natural, e mais sciencias accessorias;

dando ao publico, por via de catalogos impressos, uma noticia succinta de taes obras, facilitando o seu estudo a todos os interessados, quer sejam socios, quer não;

discutindo nas suas sessões todos os pontos agronomicos de interesse local;

recebendo, e até provocando, consultas sobre as materias duvidosas, procurando, por meio de estudo e debate, acudir-lhes com solução prompta;

publicando um Jornal de Agricultura, accommodado principalmente á natureza, condições, circumstancias, interesses, illustração, e costumes, do seu Districto;

por meio d’este Jornal aconselhando as sementeiras e plantações novas de vantagem bem averiguada, a importação de novos animaes uteis, ou de aperfeiçoadores das raças já existentes, bem como o uso dos instrumentos serviçaes, inventados ou aperfeiçoados;

encarregando-se de mandar vir qualquer d’esses objectos para qualquer cidadão que lh’os encommende, mediante uma segurança que responda pelo reembolso;

procurando ter, a par com a bibliotheca, um deposito de instrumentos e machinas, em grande ou em modelos, ou, quando menos, em estampas, e sempre franco;

de algumas das machinas ou instrumentos tendo mesmo para alugar ou emprestar áquellas pessoas, que para os comprarem não possuirem meios;

inserindo constantemente no seu periodico, em linguagem chan e sincera, o quadro das operações ruraes immediatas para o Districto agrario da sua residencia;

renovando de anno para anno este trabalho, sempre a melhor;

fazendo annualmente uma festa rural para distribuição de premios, tanto aos lavradores e creadores, como aos fabricantes de objectos de primeira necessidade, aos inventores e autores de alguma coisa util, aos mestres que mais fruto houverem produzido no ensino primario, e mesmo ao homem ou á mulher, que, por alguma excellencia moral, haja merecido um solemne testemunho de apreço e gratidão dos seus concidadãos;

estabelecendo emfim, que esta festa rural caia, se fôr possivel, na estação formosa, e coincida com a principal romaria, ou festa religiosa, ou feira, do seu Districto, procurando imprimir n’este acto a maior solemnidade religiosa e civil; para o que, os Prelados e os Governadores Civis com a melhor vontade coadjuvarão.

Quanto ao segundo fim, facilmente se desempenharão d’elle as Sociedades-mães, examinando, com circumspecção e madureza, por via de discussão nas suas sessões, e de publicidade no seu jornal, e em outros, os pontos carecentes de reformação legislativa ou executiva, quer em relação aos tributos e direitos, quer ás isenções, quer aos premios, quer aos tratados de commercio, quer ás communicações de terra e agua, etc.


Para quasi todas estas coisas necessitam de dinheiro as Sociedades mães; e nem é justo, nem prudente, pretender que sobre os homens zelosos que as compõem caia mais esse ónus; antes é nossa opinião, que de nenhum d’elles se deve exigir nem joia, nem mensalidade, nem quotisação. Pelo contrario: se fosse possivel, todos os que ás sessões concorressem, todos os que trabalhassem, haviam de ter direito a uma determinada remuneração, como em certas Academias Reaes e dotadas acontece. Fôra isso mais um penhor de estabilidade, mais um estimulo para acção.

¿D’onde porém ha-de vir o dinheiro? de uma loteria annual do Districto, autorisada pelo Governo, e cujos premios poderiam ser em bens de raiz, animaes, e instrumentos agrarios; premios muito mais prestadios que o dinheiro, em relação aos fins do instituto.

Poderia vir mais, de doações ou heranças (que não deixaria de as haver), logo que a experiencia houvesse demonstrado a firmeza e efficacia de taes institutos. Os documentos d’esta asserção acham-se em bom numero nas historias das Misericordias, Hospitaes, Albergarias, Casas-pias, Asylos de infancia e de velhice, e mais instituições de beneficencia, tanto dentro como fóra de Portugal.

Poderia vir de beneficios nos theatros, assemblêas, phylarmonicas e outras.

Poderia vir, e muito provavelmente viria, de christianissimas oblatas dos Prelados.

Poderia vir do producto dos alugueres de animaes para creação, e de instrumentos.

Poderia vir da venda dos jornaes, cathecismos, e mais obras uteis vulgarisadas pela mesma Sociedade.

Poderia vir, finalmente, de uma quinta, ou predio exemplar, propriedade que cada uma das Sociedades mães deveria ter, para as suas experiencias e demonstrações praticas, e com que, ao mesmo tempo que ensinasse mudamente aos seus visinhos, redobraria a fé e fervor nos seus consocios.

Em summa: tudo quanto concorresse para abastar, acreditar, influir, radicar, e perpetuar estas Sociedades, poderosissimos focos de fecundação, tudo seria para tentar e aproveitar.

Quizeramos nós ver já chegado o tempo, em que cada uma d’estas Sociedades promotoras ha-de reunir no seu gremio todas as illustrações agricolas e scientificas dos seus contornos, todos os proprietarios territoriaes e industriaes, os philanthrophos e caritativos, os ricos e os negociantes, as autoridades e as forças de todo o genero, os mundanos mesmo, e até os avarentos.

Tomáramos vel-a no meio de um torrão bem seu, bem cultivado, bem jardim e bem palmito; em casas suas bem suas, bem alegres, bem hospedeiras, bem convidativas; com a sua bibliothecasinha muito franca; com o seu deposito patente de instrumentos e machinas, arsenal de guerra contra a esterilidade.

Tomáramos vel-a, centro attractivo para os passeios dos domingos por entre as hortas frescas, os pomares avergados, as searas luxuriantes, e os jardins ridentissimos.

Ás conferencias de tão feiticeira corporação, ¿como deixariam de concorrer até as damas e os mancebos, com mais fervor que aos Parlamentos, quasi com tanto como aos theatros?


Eis collocadas as rodas grandes, ás quaes o juizo do Governo e o do publico hão-de servir de motor e mola real. Consideremos as pequenas rodas, as que, engranzadas com estas, e recebendo d’ellas o movimento hão-de ir actuar sobre cada pequeno lavrador, sobre cada palmo de terreno.

São as Sociedades filiaes.

Compôr-se ha cada uma d’ellas dos grandes ou pequenos cultores, proprietarios, e mais interessados da circumvisinhança, sob a presidencia do Parocho, do Administrador do Concelho, ou qualquer dos socios, preferido á pluralidade de votos.

Reunir-se-hão em dias e horas, em que a cessação, dos trabalhos ruraes lhes dê vaga para discutirem, e aos não socios occasião para assistirem á discussão, e illustrar-se.

O jornal da Sociedade-mãe subministrará a estas Sociedades-filhas assaz de pontos de sólido interesse, com que se occupem.

Quando porém assim não aconteça, as conveniencias locaes são em toda a parte um thema inexgotavel.

N’estas pequenas reuniões se elaborarão os projectos de melhoramento, e se procurarão os meios para se elles realisarem.

Os melhoramentos podem depender unicamente de boa vontade e exforços dos moradores da terra; podem depender de soccorros intellectuaes ou materiaes da Sociedade-mãe; ou podem ser taes, que só o Throno, ou só o Parlamento, lhes abra caminho. No primeiro caso, a Sociedade-filial, por si e pelos seus adherentes, tratará de os realisar; no segundo caso, recorrerá á Sociedade-mãe para que lhe acuda. No terceiro, recorrerá ainda a ella, para que requeira, apadrinhe, e faça apadrinhar o requerimento.

Cada uma das Sociedades filiaes estará pois em continua correspondencia com a respectiva Sociedade mãe, com mutua e manifesta utilidade; pois se, por um lado, as innovações e progressos podem vir das nações mais peritas em Agricultura até ao casal mais embrenhado nas serras, como, pela irrigação, as aguas, hauridas das entranhas da terra, vão desde o tanque que as recebe, até ao pé da plantinha mais afastada na fazenda, por outro lado, e em compensação, todas as phases e circumstancias das culturas parciaes, nas suas ultimas ramificações, convergirão, por que assim o digâmos, para o sensorio commum do Districto, habilitando-o d’est’arte a raciocinar, com exacção e segurança, sobre as necessidades e conveniencias de todos e de cada um.


A estas propostas, pede o rigor logico ajuntemos outra, que lhes valerá de complemento natural. Esta proposta, a mais importante de todas quantas se podem fazer, é a creação de um Ministerio dos negocios da Agricultura.

N’este Ministerio se centralisariam as luzes de todas as Sociedades-mães. N’elle, como em um espelho concavo, se reuniria, transmittido por ellas, o conhecimento preciso de todas as fracções topographicas do Paiz; e, como de um espelho convexo, d’elle se dispartiriam para os pontos mais remotos, como para os mais proximos, providencias salvadoras.

O Ministro da Agricultura, lavrador elle mesmo, comporia a sua Secretaría de homens da sua confiança, de reconhecida honra, patriotas, amantes da terra, agricultores, proprietarios ruraes, ou naturalistas.

Auxiliado pelas luzes de taes empregados, pelas luzes e communicações da Imprensa, e pelas representações das Sociedades-mães, elle poderia não só dar quotidianamente mil providencias importantes comprehendidas nas suas attribuições, mas ainda apresentar ao Parlamento grandes projectos para Leis salvadoras, que não tardariam a ser sanccionadas.


Resumâmos-nos, e terminemos.

Portugal está pobre; não tem para pagar as dividas; não tem para se manter; e de anno para anno se deteriora a sua sorte. O presente é um martyrio: o futuro, que deve resultar da continuação de tal presente, horrorisa a imaginação.

Portugal está desatado; ha insociabilidade, ha odios mutuos e acerbos, e que, herdados e transmittidos pela educação, se tornarão ainda mais implacaveis.

Portugal (consequencia legitima das duas verdades precedentes) tem a sua moralidade relaxada, ou perdida. O instincto de vida lhe está aconselhando Agricultura, como riqueza, como vinculo, como civilisação.

Portugal tem terras, que pedem braços e população, e tem muitos milheiros celibatarios ociosos, que folgariam de as cultivar; tem um Exercito, que o devora, tanto quanto o podia opulentar, e cuja existencia se não abona por nenhuma sincera consideração de independencia, de paz, ou de ordem publica.[1]

A philosophia, que festejou a abolição total das Ordens religiosas, a despeito de tão fortes argumentos moraes e juridicos, requer, sob pena de flagrante inconsequencia logica, a secularisação d’estes conventos militares.

Quem expulsou os Frades, do claustro para a fome, ¿por que não convidaria os Soldados, do quartel para a lavoira? O paralello entre os Soldados e os Frades poderia ser extenso, e conteria um grande poder de argumentação a fortiori; mas é obvio; qualquer por si o fará em querendo.

Portugal tem, afóra o Exercito, um crescido numero de individuos e de familias, que definham, que, litteralmente falando, morrem á fome. ¿Qual d’essas familias, qual d’esses individuos, recusaria um torrão, fosse onde fosse, se todo o torrão, com a boa vontade, é meza posta?

Dados á Agricultura operarios, que existem, e que lhe falecem, ella mesma pela sua energia vital intrinzeca se desenvolveria, pois vemos que assim mesmo, ao acaso e desajudada, lá começa a revolver-se para se querer alevantar. As Sociedades promotoras augmentariam e dirigiriam essa mesma energia, chegando com a sua acção, de um lado pelas Sociedades secundarias, até aos casaleiros; do outro lado, pelo seu crédito, pelas suas relações, pelo seu valimento, até ás Camaras legislativas e ao Governo. O Ministerio dos negocios da Agricultura daria unidade aos movimentos d’este vasto e bello corpo.

Então o futuro estaria conquistado, as dividas mortas, os males sanados e esquecidos. Então haveria força publica, porque haveria fé; haveria em todos os corações amor da Patria, porque haveria a todos os olhos uma Patria para amar. A guerra interna seria impossivel. A guerra externa, se podesse jamais accommetter-nos, veria rebentar da terra exercitos invenciveis, porque defenderiam as suas lareiras, as suas hortas, e os seus filhos. O Thesoiro trasbordaria para todas as artes preciosas da paz, porque haveria fontes perennes e copiosas para a sua alimentação.


¿Será isto uma utopia?

¡Utopia!... A utopia, a chymera, o absurdo, é pretender colher fruto de arvore sem raiz e carcomida de musgo; é presumir, que a um edificio arruinado se acode remendando lhe com barro, aqui e acolá, as paredes exteriormente; é cuidar, que se ressuscitará um afogado calcando-o para o fundo do lodo, e lançando-lhe penedos para cima. A utopia, a desgraça, e a miseria, é crer que as palavras, as estenographias, os algarismos, são capazes de crear coisa alguma. Creadores, abaixo de Deus, não os ha senão o campo, e o amor. O senso commum o sabe, e a Historia não sabe outra coisa.

Feliz o Deputado, que entrasse pelas salas do Parlamento com um projecto de organisação agricola, egual ou semelhante a este, e, levantando o por cima da sua cabeça, exclamasse:

«Por amor de vós e da vossa descendencia, salvemos a Patria, hoje que ainda é tempo. Adiemos, por consenso unanime, todas as outras questões alcunhadas maximas. Decidida esta, todas se haverão n’ella resolvido.»

Setembro de 1848