NOTAS DE RODAPÉ:
[2] Pode consultar-se o Agricultor Michaelense, publicação mensal, orgam da Sociedade, n.ᵒ 2, de Fevereiro de 1848. Refere-se Castilho a uma proposta do seu consocio José do Canto, intitulada Banco Rural.
Nota dos editores
V
Côrtes agricolas
SUMMARIO
A Patria está em perigo; deve-se deixar de curandeiros. O campo e o trabalho hão-de salval-a.—Singular historia de um mancebo Inglez.—O regresso da Agricultura não é desagradavel, nem vil, nem rude; e é o unico possivel para nós.—Desenvolve-se a já tocada idéia de Côrtes de lavradores.—Prova-se, que só por este meio teremos Governo, que mereça o nome de representativo.—Quadro de um tal Parlamento.
Não saiâmos da cabeceira da nossa querida e atribulada enferma.
Foi poderosa, opulenta, rainha, e bella; jaz sem forças, nua, desprezada, e agonisante; só a belleza não perdeu ainda. De mais, é nossa mãe. D’ella e n’ella nos formámos e nos nutrimos; d’ella recebemos a vida, a fala, as orações da infancia, os conhecimentos, os brasões, as glorias de todo o genero; d’ella os objectos de todas nossas affeições mais intimas. O seu ser é o nosso ser; os seus infortunios são nossos; a nossa prosperidade seria a sua.
Gratidão, piedade, interesse, sentimento religioso, nos obrigam a não desamparar a Patria, em quanto respira.
Superior a ella, não ha senão o genero humano, como acima do genero humano só ha Deus.
Mas, pela admiravel harmonia, com que a universalidade das coisas está ligada, não só a Deus e ao genero humano serve quem serve á Patria, se não que serve ainda á familia, e ao seu proprio individuo.
Irmãos, não nol-o dissimulemos: a enfermidade de nossa mãe é grave; os seus males, complicados e antigos; o seu virar-se e revirar-se tão a miudo, sem poder estar de lado algum, prova desequilibrio geral nos principios vitaes. Se a queremos salvar, e salvar-nos, não ha remedio senão lançar fóra todas as beberagens, com que medicos e charlatães nol-a teem peorado de dia para dia, e recorrer a novo tratamento. ¿Mas qual? o que muitas vezes tem salvo a doentes já desenganados da medicina: os ares e os exercicios do campo.
Um mancebo Inglez, nobre, opulento, e excessivamente mimoso da fortuna, via-se chegado pelos prazeres á insensibilidade, e pelo abuso da vida ao inevitavel termo d’ella. A Natureza o abandonava; a alma se lhe anoitecêra; no coração mesmo não lhe vicejava já um só desejo, a não ser o vago instincto de existencia, que é o ultimum moriens. Nem a mocidade nem a fortuna tinham já forças para reanimar a sua victima. A sciencia, baldadas as derradeiras tentativas, lhe voltára as costas confusa e desconsolada. Não era um moribundo aquelle homem; era um morto. Para ser enterrado só lhe faltava o acabar de cahir.
Em Paris estava; estatua entre danças; acipreste entre flores; holocausto entre fragrancias e musicas; e o seu derradeiro sol ia pôr-se. Reune os servos; despede se d’elles, que choram recebendo os copiosos effeitos da sua liberalidade. Cerra n’um cofre os papeis, algumas joias, e um retrato de mulher formosa... que se esquece de beijar; e, guardando a chave, entrega ao seu hospedeiro este deposito, com tal declaração de ultima vontade:
—«Se eu não voltar dentro em um anno, arrombae este cofre; arrecadae para vós as preciosidades que n’elle achardes; o de mais, que vos seria inutil, remettei para Londres á pessoa que ahi mesmo fica designada.»
Não era ainda passado o anno, e já todos, os que o haviam conhecido, consagravam saudade e algumas lagrimas... (talvez uma lagrima) ao prematuro e ignorado fim de um mancebo amavel e bom, a quem a felicidade se azedára em morte.
¡Eil-o que reapparece, como que de baixo da terra!
¡Mas quão outro!¡ reverdecido e florescente! o rosto alto; as faces risonhas; os olhos vívidos; andar ligeiro; todos os movimentos faceis e graciosos. O semblante crestado revéla que foi o sol e a Natureza quem o retemperou.
Pede o seu cofre; abre-o com alvoroço; dá as joias ao seu depositario fiel; mas o retrato.... ¡beija-o com lagrimas, com alegria, com soffreguidão! ressuscitára-lhe o coração com a saude.
¿Que feiticeira, ou que magico, operou tamanho prodigio? o Trabalho, e a Natureza.
O pouco vigor que lhe restava, empregou-o, como quem põe a ultima peça de cobre n’um jogo de parar, na tentativa de um viver duro e sóbrio; metteu-se ás estradas, obscuro moço de cavalgaduras; sujeitou-se a todos os caprichos dos viajantes, das estações e do acaso; despejou a pé, a léguas e léguas, e muitas vezes de um só fôlego, os caminhos mais asperos, como os suaves, por soes e chuvas, por neves e ventanias; dormiu contente onde a sorte lh’o deparou: aqui sobre o feno, ou ao lume; além entre lençoes; mais longe na terra nua e humida; a fome, cosinheiro optimo, lhe temperou o pão negro e os legumes grosseiros; o costume dentro em pouco lhe tornou agradavel o remedio, a principio amargoso. O exforço, que lhe reconquistára a existencia, ficou para lh’a guardar.
A historia d’aquelle mancebo podéra ser lição para Nações. O luxo e o desconcerto tambem as matam, como aos individuos. Tambem, como aos individuos, o Trabalho e a Natureza as podem ressuscitar.
De mais, a occupação agricola para um povo nem sequer é desabrida. Se tem espinhos.... verdura, flores, e frutos lh’os disfarçam. Se a sua lida é continua, a variedade a acompanha; se lhe chamam canceira, ella é saude; se pobreza, ella a fonte de todos os haveres; se obscura e humilde, ella a menos dependente; se rude, ella a mais cheia de conhecimentos praticos, a mais visinha do Creador, e, como tal, a mais fecunda em inspirações.
Accrescentemos que para Portugal não ha já hoje outra occupação possivel.
¿A conquista? não. ¿Os descobrimentos? não. ¿As minas? não. ¿A industria? não. As nossas conquistas, os nossos descobrimentos, as nossas minas, a nossa industria, é o solo da Patria. É o unico mister para que ainda nos restam braços, instrumentos, forças, e liberdade. É o unico lavor, em que nenhumas invejas estrangeiras perigosas hão-de vir perturbar-nos.
O Sceptro de D. Affonso Henriques, e o de D. Manuel, perderam-se; o de D. José quebrou-se. Sceptro, e não escárneo, só pode ser hoje no Throno Portuguez o de D. Sancho I, e o de D. Diniz.
Em um dos nossos precedentes artigos suscitámos a ideia de Côrtes lavradoras.
Este assumpto, que desde então não cessámos ainda de considerar, cada vez se nos representa mais fundamental, e mais ponderoso para a nova e desejada reformação; e isto por muitas rasões; mas principalmente porque é por Leis novas que a Agricultura só pode ser protegida: e essas Leis, quanto mais agricola for o Parlamento que as dictar, tanto mais concretas e acertadas hão-de sahir.
Quem primeiro estreou na terra virgem
o arado creador, primeiro aos homens
deu macio sustento em aureas messes,
e em meditadas Leis costumes, Patria,
Céres foi; tudo é dádiva de Céres.
São palavras postas bem dignamente na bocca de uma das Musas por um dos maiores poetas do mundo, por Ovidio, que amava e praticava tambem a Agricultura, e, onde convinha, sabia elevar-se á Philosophia.
Como faremos nós, porém, para que o Parlamento se componha de verdadeiros representantes dos interesses agricolas?
Excellentemente; facillimamente: associando-nos desde já, por toda a parte, para trabalharmos para as primeiras eleições nacionaes em sentido nacional.
Que as sociedades secretas enredem e machinem, no esconderijo das noites, para a candidatura dos seus politicos. Reunâmo-nos nós, ao olho do sol dos domingos, depois da Missa do dia, sobre a relva do adro de cada Parochia rural, a discutir qual é dos visinhos o que melhor cultiva a terra da Patria, o que tem mostrado mais sincero amor á lavoira, aos operarios, aos filhos, e a toda a familia; mais caridade para com os indigentes, mais desvelo para com os animaes do seu uso, mais observancia das Leis, mais actividade no grangear, mais innocencia e concerto no viver. Descobertas essas phénices (que existem, e depressa se descobrem) dêmo-nos fortemente as mãos para não commettermos a outrem os mais caros dos nossos interesses. Façâmos d’estas listas de consciencia, que possam entrar sem vergonha na urna, só então propriamente collocada na casa de Deus e da oração.
E em verdade: ¡com que despejo se ousa ainda, depois de vinte e oito annos de experiencia e demonstração[3], chamar representante ou mandatario, de Gôa ou dos Açores, o homem, de quem os Açores e Gôa não ouviram jámais falar, e que nem talvez, em carta geographica, jámais os visse!
¿Como veio o alemtejano procurador de Traz-os-montes, e o minhoto do Alemtejo, e quasi sempre o lisboeta de toda a parte, quando o triste (ou antes o alegre) tudo ignora de todo o Reino, afóra os corredores de S. Carlos, as alamedas do Passeio Publico, as galerias de S. Bento, e as arcadas do Terreiro do Paço, d’onde se sobe para as secretarias onde se requer?
Eleições de facção. Eleições de dependencia. Eleições de compra, ou de compadria. Eleições sem côr, ao menos, de verosemelhança ou possibilidade. Eleições sem eleição. Eleições verdadeiramente fabricadas nas trevas, e para trevas. Comedia, que seria para rir, se não fosse para chorar, e mais van cem vezes que as dos tablados, pois que ahi, ao menos, se o actor não é a personagem que representa, apparece falando acertadamente como ella, e advogando nos termos proprios os seus interesses.
¿Fazem-no assim os representantes parlamentares? Pedi, a uma e uma, a cada Provincia, que vos mostre o rol dos beneficios, de que foi devedora ás diligencias da maior parte dos desconhecidos mandatarios em quem votou.
Uma reforma para fazer, até por Lei, seria que ninguem podesse dar o seu suffragio a cidadão fora do seu districto demarcado. Então sim, que poderia existir de veras representação nacional. Os subornos seriam ainda possiveis, assim como os enganos de vontade, e as fraudes; mas do mero possivel ao certo, ao constante, ao inevitavel, vai infinita distancia; e de dois methodos viciosos (mormente onde se trata da felicidade de um Povo) é sempre ao menos vicioso que se deve dar a preferencia.
Ao Governo monarchico absoluto pôz a philosophia uma accusação peremptoria; a saber: a falsidade manifesta, e conseguintemente a nullidade, do seu fundamento unico, o Direito Divino.
¿Aos olhos d’essa mesma philosophia, como poderemos nós sustentar o chamado regimen liberal, se a sua base, tambem unica, a representação do Povo, fôr manifestamente uma chimera? ¿Ha ahi quem negue que ella o seja? ¿Onde está elle? ¿em que parcialidade? ¿e como o provaria?
Confessemos, meus amigos, que todos havemos peccado até hoje um grande peccado contra a Liberdade e contra a Patria, e contra a nossa consciencia, e contra o senso commum. Confessemol-o, que será nobre, e sobre tudo será util, a confissão, pois a ella se poderá seguir a vergonha, á vergonha a emenda, e á emenda o remedio.
As sociedades eleitoraes, uma vez instituidas, poderiam estender a sua acção benefica a muito mais que á escolha e nomeação dos Legisladores. Não falamos já nas Juntas de Parochia, cujas attribuições, em ponto pequeno, são relevantes; mas as Camaras dos Municipios não são talvez de menos importancia que o Parlamento mesmo; já pela sua influencia, mais ou menos directa, na feitura dos Deputados, e na formação da Junta geral do Districto e do Conselho de Districto, isto é na acção legislativa e na administrativa, já pelas suas proprias attribuições municipaes, isto é maternaes, domesticas, e economicas.
Em quanto só se procurarem campeões da Politica para Vereadores, como geralmente se costuma, os campos e as aldeias, a lavoira, e mil pequenas industrias, só terão padrastos em vez de paes.
N’uma palavra:
Para que o Systema representativo seja uma realidade, uma formosura, uma salvação; para que se coadune com o entendimento, com a vontade, com os multiplicadissimos interesses de todos; não é só util e necessario, é indispensavel, que os cargos electivos, de qualquer natureza que sejam, se dêem segundo as aptidões, para bem se preencherem sem respeito algum ás opiniões politicas, nem á indifferença e á incredulidade, pois muita gente ha ahi hoje, e da melhor em consciencia e em patriotismo, a quem tão longas decepções tornaram incrédula, e apparentemente indifferentista sobre os negocios publicos.
Não nos explicámos bem. Ha muita gente, que, enfadada de ver a Politica substituida constantemente pela individualidade, as coisas pelas pessoas, e os principios pelas ambições, não vai enxovalhar o seu patriotismo na tauromachia das eleições, nem nas orgias dos clubs; conserva latente, e como que de reserva para melhores tempos, o seu patriotismo; mas que, chegada a hora de o mostrar por obras, o presentará inteiro, energico, productivo, desinteressado, incorruptivel, e inquebrantavel.
Eis ahi, sobre tudo, os salvadores de que havemos grandemente mistér para Deputados, para Vereadôres, para Conselheiros de Districto, para membros da Junta geral de Districto, e das Juntas de Parochia, em summa, para todos os postos que forem electivos, desde a base até ao vértice da pyramide; ¡e oxalá que electivos fossem todos os cargos, havendo, por toda a parte para as eleições a confederação, que propomos, dos homens sinceros, de bem, e patrioticos! assim como ¡oxalá não houvesse um só cargo electivo em quanto a eleição fosse uma mentira e uma injuria! injuria tanto para os que diante da urna arremedam votar, lançando listas que não leram, como para aquelles sobre quem taes escolhas recaem; como para quem, no fundo de espeluncas, fabricou a seu bel praser essa expressão de uma vontade popular que não existe.
Este alvitre, este conselho, esta supplica, que a philosophia, que a honra, que o santo amor da Patria dirigem a todos e a cada um de nós, só os ambiciosos vís, só os mal amigos da Patria, só os insensatos, os poderiam repellir.
Maravilhosamente salutares para os governados, elles o são não menos para os governantes. O Rei, o Ministerio, que por esta estrada franca e descoberta uma vez se resolvessem a caminhar, seriam o mais popular e o mais abençoado dos Reis, e o mais duradoiro de todos os Ministerios.
As revoluções não nascem de mais de tres causas: o horror instinctivo do homem para com o engano, para com a violencia, e para com a fome.
O Governo representativo, assim, não seria uma burla; as consciencias fariam a sua obra sem coacção; e, por uma consequencia necessaria, Leis boas trariam por toda a parte abundancia, e com ella contentamento e bons costumes.
O Povo, que não é jamais suicida, e tem um maravilhoso instincto do bem, defenderia como arca de alliança o Governo que a taes destinos o houvesse conduzido.
... Deus nobis hæc otia fecit.
Limitemo-nos porém ao nosso ponto primario, Côrtes agricolas, pois, conseguidas ellas, por ellas, que fazem as Leis, facilmente se conseguirão todas as outras necessarias innovações.
Seja pois o incançavel empenho das sociedades eleitoraes, que desde já se devem formar, o contrabalançar, vencer, e destruir, a influencia maléfica das sociedades eleitoraes já existentes, secretas ou publicas, mas todas ellas exclusivamente politicas; diversas entre si, e até inimigas mutuas, mas todas comprovadamente impotentes para bemfazer.
Á vista da incontestabilidade de ser a Agricultura a que só nos pode restaurar, poderia perguntar-se: ¿Não conviria votar unicamente em agricultores para Deputados?
A nossa opinião é que o Parlamento deve conter de tudo; sem o que, não seria representação nacional; e por outra parte, a não ser assim, se acharia carecente de muitos conhecimentos necessarios. Entretanto, pela mesma rasão de dever elle ser representação nacional, deve compôr-se de lavradores a sua grande maioria, pois ou em exercicio, ou em propriedade, lavradora é, e lavradora deve ser, a pluralidade da nossa gente.
Entretanto, como as nossas associações eleitoraes não hão-de ser as unicas a trabalhar, como as do egoismo mal entendido e incorrigivel hão-de sempre existir, e sollicitar com tanto mais força, quanto mais se sentirem contrastadas pelas nossas diligencias, prudentissimo arbitrio fôra que nos cerrassemos nós outros em esquadrão, para só votarmos em lavradores, e, quando muito, em um ou outro industrial benemerito e de esperanças. ¡Felizes, ainda assim, se os nossos eleitos constituissem a maioria, e se os exforços e machinações dos inimigos só lograssem pôr na teia parlamentar a proporcionada e necessaria mescla dos outros interesses secundarios!
Outra consideração, que muita força nos faz para instarmos pela maioria agricola no Congresso, é que, mesmo para só equilibrar os interesses da terra com todos os outros bem ou mal entendidos interesses, é indispensavel que os partidarios dos primeiros sejam muito mais numerosos que os dos segundos.
A Arithmetica, com parecer de exacção absoluta, é, por via de regra, em coisas moraes, a mais erronea de todas as medidas. As decisões por votos nol-o provam a cada hora: nas assembleas dez podem ser mais que cem, e todos os dias o são.
Christovão Colombo era um só contra toda uma armada; Galileu um só contra todo o mundo: e todavia, com um só voto contra tantos, a America descobriu-se, e a Terra move-se.
Não pretendemos inferir d’aqui o absurdo de que se outorgue a palma ás minorias; a nossa consequencia d’aquelle principio inquestionavel é que n’uma corporação destinada a um grande fim social, mas que por força tem de ser composta de elementos heterogeneos, alguns nullos, e não poucos hostis, se os presumptivos partidarios da boa causa são por sua natureza menos atrevidos e influentes que os seus antagonistas, só pelo excesso do numero é que poderão compensar o que em forças e importancia lhes falleça; e portanto, se ambicionâmos que triumphe a boa causa, temos de fazer pela quantidade d’elles a compensação da sua qualidade.
Os filhos dos campos, qualquer jerarchia, educação, illustração, que aliás lhes supponhâmos, teem, em toda a parte, em presença dos filhos das Cidades, um não-sei-quê de pudor e timidez, que parece ser fruto indigena da solidão. Como as creanças e as mulheres, perdem elles metade das suas forças e recursos naturaes, logo que sentem que são observados. A duplice desconfiança em que estão, por uma parte, da sua rudez, por outra, da superioridade e maligno escarneo dos bem falantes, lustrosos, e regalados moradores das cidades, onde elles só entram como fornecedores e servos, quebra-lhes metade da sua energia varonil. Creados com o falar sóbrio, chão, e sem atavios, não só a eloquencia dos fazedores de phrases os deslumbra, mas até a verbosidade esteril os enleia e os sophisma; esgrimindo com arrogancia, se os não convence, muitas vezes lhes desarma o bom senso, só forte da sua força intrinzeca. Finalmente, a tatica e estrategia parlamentar, sciencia occulta que se não aprende em poucos dias, por mais predisposição que se tenha para desleal e ruim, hão-de sempre trazer o pobre aldeão sincero como vendido, romper-lhe as fileiras no fervor do combate, voltar-lhe as armas contra si, precipital-o em ciladas, converter-lhe a miudo a victoria ganha em derrota, endoidecel-o, desgostal-o, e pôl-o em fuga para o seu campo amado, que o conhece, e que é d’elle conhecido, e para entre os seus visinhos, cujos enganos elle sabe antever e illudir.
É por tudo isto que, se o numero os não affoitar, elles serão sempre derrotados; e o beneficio, que á Patria poderiam fazer, se mallogrará a despeito das suas consciencias, sans como os seus ares, e das suas rasões, robustas, mas informes como os seus troncos.
Estas Côrtes levariam ainda muitas outras vantagens a quantas para ahi se nos teem feito em nosso nome. As provincias, pelo trato mutuo dos seus representantes, ficar-se-hiam conhecendo; fraternisariam; aprenderiam, umas de outras, com que adiantar ou aperfeiçoar as suas culturas.
Seria applicar á primeira das artes beneficios proporcionaes aos que as luzes superiores teem ultimamente recebido dos Congressos scientificos.
Ainda mais, e ainda melhor: o Rei, que tudo deve presencear, e não pode demover-se do seu Throno, ouviria e veria d’est’arte as provincias; abrangeria com a imaginação, com o amor, e com as providencias, alguma coisa mais que o recinto confuso da sua Capital.
Pintae, meus amigos, desde já, na phantasia, o que serão taes Côrtes, se a Divina Bondade nol-as tem de outorgar:
Homens fortes, sizudos, vestidos do seu linho, e modestas lans fiadas e tecidas por suas filhas e companheiras; condecorados, não com fitas, mas com os honrosos calos da charrua; não frizados pelo cabelleireiro parisiense, mas com o semblante bello de hombridade, e crestado dos soes; sem pomposos nomes herdados, mas creando cada um d’elles um, de que seus descendentes se não hão-de envergonhar. Madrugam para o grangeio da Patria, como lá costumavam fazel-o para o da fazenda; aproveitam em cheio as horas, como nos dias apressados da sementeira. As suas vozes, sem outras entoações que as da convicção e do affecto, expõem as verdades com a graça inimitavel da nudez, como na eira do seu casal deixavam espairecer sem vestidos os seus filhinhos e netos. Os seus discursos são como os seus predios: frutos, e não jardins; pão, gado, azeite, vinho, madeira de córte, em vez de flores ephémeras e estéreis. As suas argumentações não lh’as ensinou a logica das assemblêas, essa perigosa tintureira de verdades e mentiras; dos factos positivos lhes saem sem exforço as consequencias, como do grão do trigo a espiga do trigo, do caroço a arvore, e do amor dos homens a virtude.
Os talentos, as boas vontades, as emprezas promettedoras, não expirarão á mingua; elles sabem que uma pouca de rega tem dado vida e fruto a muito pomar. Não mesquinharão os salarios ao trabalho, mas exigirão que o trabalho os mereça, porque ouviram ao seu Pastor ler no Evangelho, que se não deve amarrar a bocca ao animal que está suando na debulha. Não sorriem com philosophica sobranceria do que se refere ao unico principio sólido de toda a moral humana; elles presencearam sempre, assim como o carvalho da serra e a hervinha emboscada no vallado, que luz e calor não procedem senão de cima. Ao votar, não interrogam os olhos ou os acenos de ninguem; ¿perguntaram elles jamais se se devia plantar na estação propria, ou se ao rebanho sequioso se havia de dar de beber? Os motivos ruins, não os entendem; ¿que insensato dispôz nunca tojos e espinheiros na herdade amanhada para o manter? O medo das contrariedades não lhes tolhe pugnar pelo que é de sua natureza prestadio; estão affeitos a ver as intempéries das estações ameaçarem a seára, e a seára, por derradeiro, encher a tulha. Ignoram a sciencia dos financeiros, mas sabem que a diligencia e a boa-fé grangeiam cabedaes. Os pontos duvidosos, meditam n-os antes de os decidir, como antes de comprar uma courella examinavam comsigo e com os visinhos a indole do chão, as conveniencias e as desconveniencias do seu fabrico. Não armam á fama, nem trepidam diante das injurias; as phrases dos periodicos malignos, como as dos lisonjeiros, lhes resvalam pelo ouvido sem entrar; ¿ha-de-se deter a junta de bois no meio do sulco, porque zuniu o mosquito?
No fim de cada sessão, retiram-se contentes do que fizeram, para meditarem, cada um a sós, com o seu entendimento e coração, o que lhes resta para fazer. O amor do genero humano é o seu ultimo pensamento antes de adormecer; a ventura da sua aldeia, da sua provincia, e da Patria, o seu sonho de toda a noite, de todas as noites, e de todos os dias.
¡Oh! ¡meu abençoado Parlamento de lavradores! Semelhante ao enxame industrioso, vós fabricareis sem estrondo, do que ha mais bello e amavel sobre a terra: para ella o oiro liquido e medicinal do mel, para o Ceo os santos lumes dos altares.
Como vós, todos nós gosaremos da doçura que houverdes preparado; só os zangãos vos odiarão. A vossa Rainha, no cimo da colmeia, feliz e abençoada, não terá inveja aos maiores Soberanos.
¡Oh! ¡podesse Ella, entre os seus innocentes e maternaes sonhos de ante-manhan, perceber, levados por algum Genio de amor, uns eccos sequer d’estes nossos votos!
O seu entendimento avaliaria quanto ha de intrinzeca bondade, e de affecto aos homens, e de devoção para com Ella mesma, n’estes votos de Portuguez.
A felicidade de um Povo, e a de quem o rege, são uma e indivisivel.
Novembro de 1848.