NOTAS DE RODAPÉ:
[4] Nullus invitis dandus est Episcopus; ille omnibus prœferendus, quem cleri ac plebis consensus concorditer elegerit.—S. Gregor.—Epist. ad Nastas.
[5] Os nossos respeitos ás doutrinas canonicas é conhecido e provado. A innovação que propômos e que deverá ter iniciativa no Parlamento, para se tornar effectiva necessita da censura e regular approvação da Egreja.
Castilho.
[6] Com estas reflexões não pretendemos desapprovar a subordinação das mulheres a seus maridos nos termos em que a prescrevem os nossos livros sagrados. Só não queremos que esta dependencia se converta em escravidão, que a legitima autoridade marital degenere em tirannia. Eva, diz um Padre da Egreja commentando o Genesis, não foi formada da cabeça de Adão, para que não tivesse a presumpção de o querer dominar; nem tão pouco foi formada dos pés do homem, para que por elle não fosse considerada como serva; foi-o de uma costella, a fim de que se entendesse que era destinada a ser sua companheira.
Castilho.
VII
Primeiro serão do casal
Propriedade territorial
SUMMARIO
Vantagens do escrever.—Vantagens do ler.—O autor não pode por ora dizer o que tratará n’estes seus serões d’aqui avante, mas tenciona il-os empregando na sua ideia querida da felicitação da Patria pela Agricultura; para o que, vai proseguindo nas suas utopias.—A propriedade territorial não é um direito natural, mas é um dos direitos da sociedade permanente.—No direito de possuir terra não se contem o poder deixar de cultival-a.—Apontamentos para uma Lei importantissima a este respeito.—A theoria pode-se estender dos predios rusticos aos urbanos.
¡Que bella coisa, meus amigos camponezes, não é o escrever e o ler!
Uma folha de papel, que a principio não foi mais que umas hervinhas verdes, depois umas febras seccas e pardas, nos dias da sua maior gloria talvez uma camisa, e a final um trapo despresado e esquecido; uma folha de papel póde ser uma origem de delicias e venturas.
Por meio d’ella, um homem desconhecido, e fechado no seu cantinho, logo que Deus lhe lança na alma um reflexo passageiro da Verdade e do Summo Bem, prende esse raio de luz celeste, liberalisa-o para toda a parte, solidifica-o, bem como de um gaz, que se não vê nem palpa, se faz no fundo das minas um diamante; lança-o assim para o thesoiro commum dos conhecimentos humanos; e, quando ninguem mais lh’o diz, diz-lhe baixinho a sua consciencia:
«¡Oh! ¡Bem hajas, que déste a esmola da alma á alma! ¡Bem hajas, que as horas que podéras gastar no ocio, ou em gosos futeis, em dissipar ou em adquirir haveres, ou em me envenenar a mim, que sou a tua boa consciencia, empregaste-as em proveito dos teus semelhantes! ¡Bem hajas! ¡e bem haverás por certo! Os teus exforços não serão perdidos, nem para o Céo nem para a terra. Lá em cima, o Liberalisador de toda a verdade te coroará; e já, cá no mundo, uma especie de immortalidade e de omnipresença será a tua partilha. Sobreviver-te-has em parte a ti mesmo. O teu nome e os teus pensamentos estarão ao mesmo tempo em muitos logares, graças a esta folha de papel; e os annos, que hão-de destruir o teu corpo, deixarão a tua honrada memoria a crescer para os seculos.»
Mas, se tal é a boa sorte do escritor de veras; se os seus deleites lhe descontam o trabalho e penas que o acompanham; se da sua miseria elle se consola com a lisonjeira certeza de afortunar aos outros; se no silencio do seu albergue desguarnecido ouve já a sua futura fama, e na sua enxerga de palha riem sonhos, que nunca visitaram os colxões de plumas de soberbões inuteis; a mesma folha de papel, que, a baixo de Deus e do estudo, o tornou venturoso, multiplicada pela Imprensa vai fazer por elle muitos outros venturosos.
¡A leitura, meus amigos! ¿Sabeis vós bem o que é a leitura?! É de todas as artes a que menos custa, e a que mais rende.
Ha livros, que, semelhantes a barquinhas milagrosas, incorruptiveis e innaufragaveis, nos levam, pelo Oceano das edades, a descobrir, visitar, e conhecer todo o Mundo que lá vai....
Os povos antigos revivem para nós com todos os seus usos, costumes, trajos, feições, crenças, ideias, vicios, virtudes, interesses, e relações.
A Historia é a mestra da vida, e as suas lições ampliação e complemento ao nosso juizo natural. No que foi, aprendemos o que deve ser. ¡Dizem que mente ás vezes! tambem na seára ha joio, e nem por isso deixais vós de ceifar com alegria. Mas, apesar das suas mentiras, fica ainda sendo a Historia uma das mais verdadeiras coisas do mundo.
Os contemporaneos de cada um dos homens notaveis, heroes ou monstros, dos tempos antigos, talvez os não vissem tão ao natural como nós cá de longe. ¿Porquê? por isso mesmo que eram vivos; cercavam-n-os um estrondo confuso, e vozes contradictorias, que para nós emmudeceram. O amor e o odio, o terror e o enthusiasmo, tingiam nas suas cores os feitos e os ditos: o espectador, muito de perto, e distrahido com os seus proprios negocios, não podia abranger a totalidade de uma scena ás vezes immensa e complicada. Não é nem ao-pé em demasia, nem em demasia longe, que os objectos se julgam com exacção.
Mas não é só a Historia, meus amigos, que nos encanta instruindo-nos. Desde a Mathematica, que péza e mede os astros, até ao officio mais humilde, não ha sciencia, arte, nem mistér, que os livros nos não ensinem divirtindo-nos.
Vós, se lêdes ao serão, cultivais melhor e mais lucrativamente no dia seguinte; sabeis conservar melhor os vossos frutos administrar com mais interesse os vossos haveres. Outro tanto acontece aos vossos visinhos, ferreiro, carpinteiro, surrador, tintureiro, tecelão, etc.
A povoação onde se sabe ler, e se lê, floresce mais, é mais pacifica e morigerada, mais unida e rica, mais poderosa, mais contente, mais amavel, e mais amada.
Porque haveis de saber, meus amigos, que tudo quanto os homens teem descoberto e inventado para augmentar as suas forças, os seus cabedaes, a sua saude, as suas virtudes, as suas relações de amor, e o numero das horas suaves e alegres, tudo, de muitos seculos para cá, se tem ido guardando nos livros. É um patrimonio de sciencia e bondade, que vai sempre a crescer de paes a filhos, onde cada um pode tomar ás mãos cheias o que lhe convém, e para onde a cada um é licito, e até mesmo é dever muito agradavel, levar o pouco ou muito que o seu juizo lhe subministra. É um commercio mutuo de todos os tempos e de todas as almas, do qual ninguem sai lesado, e no qual mesmo dando se recebe.
Quanto a mim, meus bons visinhos, estou muito satisfeito com a minha tarefa litteraria. Outros, mais capazes de vos instruir na Agricultura, teem a bondade de tomar a si esse encargo, para o qual eu mesmo vos confessei já que me não sinto habilitado. Á minha conta está procurar desenfadar-vos algum serão do domingo. ¿Que quereis? quem nasceu para pouco... Um poeta é como um d’estes passarinhos, que Deus creou para recreação do lavrador na força dos seus trabalhos.
Se eu ao menos podesse dizer-vos desde já o em que havemos de entreter-nos.... mas ¡adivinhae-o lá! ¿O passarinho, um minuto antes de abrir o bico, sabe por ventura o que vai gorgear? é a verdura, é a viração, é o sol ou a estrella do momento, que o inspira; a sua hypocrene é muitas vezes a ultima gotta de orvalho, que bebeu no calix de uma flor por onde passou.
Mas, assim como nos cantares do plumoso poeta dos bosques ha sempre o que quer que seja de bom e affectuoso conselho, de revelação do Céo, com o qual elle parece tratar mais de perto do que nós; assim o meu espirito, que mora todo cá dentro no coração, e por elle vale alguma coisa, só praticará comvosco, segundo espero em Deus, em algum dos seus sonhos de felicitação para o genero humano.
Porque haveis de notar, boa gente, que, se o que está feito é muito, muito mais é ainda o que está para fazer. Cada geração adianta um passo; os netos sabem mais que os avós; cada anno floreja ideias, que os seguintes convertem em frutos, e outros, além, amadurecem e colhem. Nos ares andam sempre ideias de todas as edades (sem falar nas que vão cahindo mortas); umas decrépitas; outras recemnascidas, que ainda se não atrevem a voar; outras adultas e robustas; e nenhuma das que se chegam a transformar em obras, deixou de ser na origem muito extranhada, e muito havida por impossivel ou perigosa, e de padecer perseguição da parte de nescios e ruins.
Ora eu, que (Deus louvado) de ruins me não temo, e a escutar nescios me não detenho, parece-me que não poderia, por em quanto, empregar melhor a minha folha de papel, e o vosso serão no casal, do que em vos relatar os meus sonhos ou devaneios solitarios sobre a salvação da Patria pela Agricultura; axioma este já hoje comprehendido por todos os que a Natureza não condemnou a viver e morrer sem comprehenderem nunca nada.
E como é possivel que d’entre vós outros algum, ou muitos, vão um dia deputados áquelle bemdito Parlamento de lavradores, de que eu ha dois mezes vos falava, consentir-me-heis que, ao lume da vossa lareira, exponha aos vossos juizos, naturaes e não pervertidos, mais alguns alvitres para então.
¿Quem nos pode prohibir governarmos o mundo em sêcco o nosso poucochinho? Não só toda a gente o faz, e quasi que se não faz outra coisa, se não que a maior e talvez melhor parte das Leis, primeiro que fosse promulgada por legisladores, tinha sido inventada por homemzinhos obscuros como nós, e d’elles passada á consciencia geral.
Se alguns chamarem politica e ruindade a este uso que nós fizermos do pouco ou muito entendimento, que Deus nos deu para amarmos os nossos semelhantes, não vos haveis de agastar, nem eu tornar-lhes resposta; que, por mais que thesoirem, não nos descozem o saio,—como lá diziam os nossos velhos.
¿Vêdes vós? acostumaram-se áquillo de ver em tudo politica, e de chamarem politica a tudo; e depois, teem um medo, que se finam, até das verdades velhas, ¡quanto mais das novas! Lá se entendem; e assim é bom, para se não irem d’este mundo totalmente desentendidos.
Não, meus amigos, politica, no sentido estreito que elles dão a esta palavra, politica do soalheiro e do mexerico, de acreditar a Pedro e desacreditar a Paulo, de velhacar Leis e receitar venenos, d’essa não fazemos nós, que nos regala andar com o nosso rosto descoberto, e dormir as nossas noites de um somno e com as portas e janellas abertas em não fazendo frio.
Agora: se ás questões de philosophia social, que elles nunca leram, ou, se leram, não entenderam, ou que, se as entenderam, lhes não cahiram a elles em graça; se ao exame dos fundamentos da felicidade publica, sem referencia a tempos nem a pessoas, chamam politica, essa temol-a feito, e (por mais que lhes pése) havemos de fazel-a sempre, que não somos nenhuns Esaús da Liberdade, que vendessemos o nosso morgado, como por si dizia outro poeta chamado Lamartine, respondendo a um satyrico damnado da sua terra.
Mas.... para nos não parecermos com aquelle parvo do conto, que sabeis, que em logar de adiantar caminho, para chegar á feira a horas e negociar, se deteve todo o dia com o carapuço na mão diante de um pilriteiro, pedindo á sombra movediça licença para passar, eis aqui já, meus futuros Legisladores, um objecto, que assás me parece digno da vossa consideração.
A propriedade sobre o terreno, claro está não ser um direito natural; mas nem por isso podemos dizer que não seja direito, e muito respeitavel. Sem elle não existiria Agricultura. Sem Agricultura, não existiria sociedade fixa e civilisada.
Com a sociedade nasceu pois, assim como outros muitos direitos; confirmou-se com a posse; identificou-se com as ideias e consciencias, como com os interesses, e ficou sendo, por que assim o digamos, um direito natural relativo, e secundario. A philosophia, tanto como as Leis e a força, o deve proteger. Não é quanto a elle que vos lembro reformações, mas só quanto ao modo de regular o seu uso.
Adquiri eu uma terra por qualquer titulo legal; é minha, não ha duvida. Posso arrendal-a, posso doal-a, vendel-a, emprestal-a, edificar n’ella, cultival-a a meu sabor, etc. É corrente.
¿Mas posso eu por ventura, por ser minha, deixal-a estar improductiva?
O senso commum, quanto a mim, responde instantaneamente que não.
¿E porquê?
Porque haveria n’isso lesão de terceiro, que é a sociedade, para cujo beneficio extra-natureza, se não contra a natureza primitiva, se instituira e santificára este direito.
O avarento poderá ainda ter as suas preciosidades em inercia, e portanto perdidas; porque em realidade o oiro e a prata, posto que fecundantes, não são natural e essencialmente productivos. ¡Mas o torrão, que Deus fez para nos trazer, nos albergar, e nos alimentar! ¡o torrão, que por si reverdece todas as primaveras, que as nuvens e o sol andam regando e aquecendo todo o anno! ¡o torrão que é parte do solo patrio! ¡o torrão ficar dando ortigas e silvas, por indolencia de um homem estupido, quando á roda d’elle muitos braços carecem de trabalho, e muitas boccas pedem pão sem o obter!! Eis ahi o que, por mais velha que seja a posse, nunca jamais poderá chegar a ser bom direito.
Folgára de explanar comvosco este ponto, que é tão facil e abundante em considerações, quão momentoso para a felicidade commum; mas levar-nos hia longe.
Seria pois a Lei, que eu propozesse, substancialmente isto:
—O proprietario que passar um anno sem cultivar algum dos seus terrenos, pagará de multa tres vezes o valor do fruto que esse terreno, bem tratado, houvera podido produzir.
—O que o deixar dois annos de poisio perdel-o-ha, para ser dividido pelos pobresinhos da freguesia, ou do concelho, que não tiverem terra.
Meus amigos, se alguem lá por fora nos impugnar o alvitre, que é bom e santo, e que, adoptado, augmentaria de repente o trabalho, a riqueza dos particulares, e os recursos nacionaes; se alguem, digo, nol-o vier assoviar á porta e injuriar-nos sandiamente, pôl-o-hemos tão claro, que até esses o entendam; e ainda o accrescentaremos com algumas indicações sobre predios urbanos, que são tambem um dos usos, e podem ser um dos abusos, da terra.
Janeiro de 1849
VIII
Segundo serão do casal
Fraternisação da cidade e campo
SUMMARIO
Uma boa Lei sonhada.—Os proprietarios ruraes, residentes na Cidade, são obrigados a viver algum tempo nas suas fazendas.—Delicias novas que essa obrigação lhes proporciona.—Nos campos ha um vislumbre de egualdade.—Bens que a estada dos senhores no campo trará por elles aos camponezes, e pelos camponezes a elles.—O autor sabe, por experiencia, o como nos campos a Natureza mesma nos melhora e suavisa.—Os camponezes são menos ruins e infelizes que os cidadãos; e mais felizes e melhores se hão-de tornar, quando a Lei passar de sonho a realidade.—Apontam-se alguns dos muitos melhoramentos, materiaes.—agricolas, economicos, artisticos, etc., que hão-de com o tempo brotar d’esta Lei.
Sonhei eu, meus bons amigos, que se tinha a Providencia achado n’estes nossos tempos em maré de muita poesia: que já existia de veras um Parlamento de lavradores, e que as Leis, e com ellas os costumes, tinham chegado a final a grande concerto e formosura.
Uma d’estas Leis bemditas vos quero eu contar; porque se algum dia (que pode ser) as nossas semeadas Sociedades de Agricultura pegarem, e, por diligencias d’ellas, tal Parlamento chegar a apparecer, lá considerareis, com o vosso vagar, se do sonho se não deveria fazer realidade. O que lhe deu péga foi aquella nossa pratica do serão ultimo, sobre a obrigação que todo o dono de terra tinha de a aproveitar.
Sonhava eu pois, que todos os proprietarios de bens rusticos, a quem não assistia alguma particular rasão muito attendivel para o contrario, eram obrigados a morar nos seus campos alguma parte do anno.....
Reverdecia a primavera, e eil-os lá sahiam das cidades, colmeias grandes, onde, entre muitos zumbidos, se fabricam favos de fel. Até ás barreiras, ainda iam murmurando contra a salutar violencia, que os bania temporariamente.
Logo ali, ao desembocarem das ruas estreitas e sombrias, que nenhuma estação altéra, para a amplidão de campos e horizontes, a serenidade do ceo azul se lhes começa a filtrar dos olhos para a alma. A madre-silva de cima do cômoro lhes dá as suas rescendentes boas-vindas; e para o coração se lhes côa parte da bemaventurança que inspira aos seus filhinhos libertos o aspecto das papoilas côr de fogo, a rir na verdura sem limites; dos rebanhos, que ondeiam branquejando pelas planicies; dos moinhos, que bracejam cantando pelos oiteiros. Tudo para elles é descobrimento e maravilha: os passaros, que altercam graciosos pelos ramos; as aguas, que manam, a debuxar os arvoredos toucados de flores e sol; os cantares dos rusticos no trabalho; a choupaninha pobrissima, mas que tem ainda com que albergar hospedes; as andorinhas, que tambem vieram lá de outras terras pendurar-lhe por cima da janella unica, e ao abrigo do tecto de palha, o berço dos filhos.
Atravez d’estas scenas, tão antigas e sempre novas, tão sem artificio e tão cheias de harmonias, tão casuaes e tão sabiamente variadas e contrapostas, toda aquella opulenta familia cidadan vai já invejando a boa sorte dos filhos das aldeias, para quem só parece existir a Natureza. Ao estrépito da sua carroagem saem ás portas as creanças, cuja nudez mostra carnes dignas do cinzel de um Assis Rodrigues, e que riem sempre, como os Seraphins do retábulo da freguezia; moças esbeltas, a quem o carmim da aurora corou as faces, como pomos, e que em seus trajos de lan resplandecem como dahlias soberbas em vazos pobres; e bons velhos, que entre tres e quatro gerações de descendentes seus ainda os ajudam com o conselho, e o pão que em ocio lhes comem, lh’o pagam com as vivazes historias do passado.
A carroagem passa por entre essa multidão, tão afortunada quanto na terra se pode ser; passa; mas no seu vôo colheu e deixou sorrisos de benevolencia.
Chegada á sua nova residencia a familia cidadan, sente-se mais á larga em quartos pequenos, d’onde se descortinam campos e montes, do que lá nos doirados e espaçosos carceres de seus salões.
Tudo para todos os sentidos lhe é novo: a linguagem chan e respeitosa dos visinhos; as horas e qualidade das refeições; as danças e cantares do serão; o deitar antes que o sete-estrello vá alto; o erguer muito primeiro que o sol, e quando o passarinho vem dizer á vidraça que já é dia; o lavar e almoçar na fonte, por baixo da parreira; o sahir para toda a parte sem a pesada libré das galas; o descobrir em cada passeio um sitio incognito, e menos esperado do que para Colombo o foi o Novo Mundo. Não ha pessoa que os não saude pelos seus nomes, que não procure algum pretexto para lhes falar, que se não julgasse feliz de os poder servir. Os obsequios mais delicados lhes affluem a cada hora ás portas, trazidos por mãos, que só os seus callos accusam de grosseiras. Na cidade os visinhos não se conhecem, ou são inimigos mutuos; os do campo, quaesquer que sejam as differenças de gerarchia e fortuna, são irmãos da mesma tribu.
A donzella de vestido branco não teme perder o seu Dom dançando no seu jardim ao domingo com a filha do seu honrado hortelão; nem o mancebo esbelto, que sabe de cór todas as arias novas, e ambas as chronicas de cada prima-donna, se crê deshonrado passando na caça o dia com o soldado velho, que ainda voltou das guerras para vir morrer na freguezia de seus paes.
Ao luar, nas médas da eira, ¡vel-os como correm folgando, vozeando, mergulhando na palha, e reapparecendo ao som de palmas, os imberbes herdeiros de oito e dez nomes, e os pequeninos, que, sem terem menos avós, não receberam mais nomes que os de seus paes!
Se em alguma parte se encontra um vislumbre da egualdade, sonhada pelos philosophos para consolar penas, é só nos campos que essa filha de Deus se entrevê formosa, travêssa e risonha, como a Galatêa de Virgilio por entre os salgueiros.
¡D’esta convivencia, que as semanas e os mezes vão apertando cada vez mais, que vantagens não redundam para os moradores do palacio rustico, e para os camponezes! Os primeiros esquecem muito passatempo ruinoso, que julgam indispensavel; os segundos muita grosseria de trato, em que nunca haviam advertido. A casinha terrea ensinou ao solar sobriedade, e amor do trabalho; mas d’elle aprendeu o aceio, as commodidades faceis, e o gosto. O senhor deixou-se entrar da caridade, presenceando as fadigas e miserias dos seus rendeiros; o trabalhador, vendo-o bom, cessou de o temer e odiar como o seu genio mau e invisivel. As relações e valimentos na côrte attrahiram muitos favores, quando menos alguma justiça, ora para a viuva, a quem pretendiam arrancar o filho para o Exercito; ora para o lavrador, a quem contratempos desmerecidos vedaram pagar ao Fisco. As damas, quando se ausentarem, haverão deixado amigas, que repitam o seu nome sem inveja, e os seus louvores com desvanecimento; e lá para o inverno, a poisada em que tudo falta a fóra a esperança, verá muita vez acorrer-lhe lá de longe, do meio da Babylonia, a sua providencia: o fatinho conchegado para as creanças, o enxoval para a filha casadoira, o tabaco para a caixa vasia do velho, o linho para as rocas e o fiado para o tear, e a paga adiantada, para que o jantar não sejam suspiros, e a ceia lagrimas.
N’uma palavra: as cidades conhecerão e amarão os campos; e os campos perdoarão e abençoarão a opulencia das cidades. Os grandes terão ido lá retemperar a saude gastada dos vicios e cuidados, e repoisar a bolsa, dos duellos, do jogo, das tirannias da moda, das violencias da vaidade e das paixões.
Estas ferias, dadas a tres coisas tão damnosas, como são o gasto do corpo, a inanição da alma, e o desbarate da fazenda, pode ser que em bastantes dos que as disfrutarem venham a produzir mudanças de vida, mui sinceras, mui duradoiras, e sobre modo uteis para a pessoa e para o proximo.
Eu por mim, meus ricos pobres do campo, não duvido, se não que o creio com todas as veras d’alma: porque, ¿vedes vós? eu mesmo já tambem vivi, e annos, fora e muito longe das cidades, e sei como as estrellas conversam comnosco em nos colhendo a sós n’essas vossas solidões.
Sei como deitado a um meio-dia de estio, á sombra de um dos immensos guarda-soes verdes abertos por Deus aos passarinhos, aos rebanhos, e aos homens, respiramos ares bonissimos de saude, de sabedoria e benevolencia; folheamos o canhenho do nosso passado, e sorrimos de desprezo a tanto lidar por nadas, a tanta figura anan que ali fez papel de gigante, e a tantos montes de oiro, que representaram de grãos de areia.
¿Tinha-nos irritado a malignidade de um satyrico? Passa-nos por cima da cabeça um besoiro negro, e envergonhamo-nos de lhe ter dado attenção.
¿Tinhamo-nos consternado com o mallogro de um empenho? O ciciar da seára visinha nos diz: «Tambem aqui, entre as minhas espigas, vão algumas negras e vazias; mas nem por isso me chamam pobre.»
¿Tinhamos visto nos homens o egoismo? Estamos sentindo em torno de nós a prodigalidade a palpitar, a revolver-se, a rescender, a cantar, por toda a superficie da terra.
¿Tinhamos chegado pela tristeza ao scepticismo? Por cima de nós não descortinamos senão ceo, e ceos.
Erguendo nos, e afastando-nos d’ali, quando por entre as arvores, além, nos chama o fumo da nossa cosinha, saudamos ainda mais cordealmente ao visinho ou ao passageiro desconhecido; jantamos com mais apetite; e se o mendigo, enviado pela Providencia, vem n’essa hora entoar á porta o Padre Nosso, assentamol-o á nossa direita, alegramos a sua velhice com o nosso melhor vinho; e, finda a refeição, ambos damos graças ao Pae Commum, pela esmola que a um e outro acaba de fazer.
¡Oh que sim! cada folha no campo sabe mais, e aconselha melhor, para isto de contentamento interior, que todas quantas academias existem de Pekim até Lisboa, de Lisboa até aos confins da America.
—«Mas—perguntar-me-heis vós—sendo assim, ¿por que não somos nós, os do campo, inteiramente bons e bemaventurados?»
¡Inteiramente!!.... Não pode ser, que esse inteiramente não cabe ao mundo; porém menos desgraçados e menos ruins que nós outros, os da cidade, crêde firmemente que o sois.
Padeceis minguas, que o viandante descobre pela vossa janella sem vidraças. Sim, mas lá estão muitos palacios, onde, entre arrazes e sedas, se curtem amarguras, como entre flores se escondem viboras. Ali, sem espectadores, se representam tragedias inauditas. ¡Quantos de cima de um cofre de oiro se não levantam pallidos e blasphemando, para se irem pendurar n’um laço, algozes de si mesmos! ¡Quantos n’um coche envernizado por mão de pintor heraldico, ou montados n’um cavallo que lhes custou o preço de duas herdades, não vão lavar com o proprio sangue n’um duello a afronta, talvez chimerica, que receberam, ou, para tirarem um espinho da honra, carregar-se para toda a vida com o remorso de um homicidio!
¿Vedes vós?... E não vedes ainda nada; e nem eu vol-o quero nem devo mostrar.
Mas crêde; fiae-vos em mim: Lançadas bem as contas por quem experimentou ambos os vivêres, os menos maus dos maus, e dos infelizes os menos desaventurados, sois vós.
E a mais ireis, quanto mais d’estas verdades vos convencerdes; que já lá dizia, ha dois mil annos, outro poeta bem vosso amigo (como todos os de veras o são), um poeta que só para vós escreveu uma das mais admiraveis obras do mundo:—«¡Oh! ¡ditosos, ditosissimos os lavradores, se elles acabassem de entender as suas ditas!....»
Já vêdes, como podeis esmolar virtudes e satisfação aos desconsolados das ruas largas e das praças espaçosas.
Só por isto, já valia bem a pena de que o nosso Parlamento de amigos da terra promulgasse, muito depressa, a Lei com que eu sonhava, e com que ainda sonho.
......Mas cavae-me bem fundo com o discurso n’esta materia, e vereis¡ quantos outros bens vos não promette!
A vossa estrada e os vossos caminhos transversaes estão por fazer; o vosso rio, a obstruir-se de todo, a comer-vos os campos com areias, e as vidas com febres. Na vossa capella assovia o vento e côa a chuva; o seu calix é de estanho; o seu Missal rôto; o seu Crucifixo perdeu o doirado, e as rosas da corôa da Mãe de Deus, ainda que artificiaes, estão murchas como as das suas faces. O vosso cemiterio augmenta o horror á morte, pelo desamparo; lá os vossos parentes não teem sombra de arvore piedosa, onde a saudade sinta delicias em orar; e os cães e animaes do monte podem ir pela noite desenterral-os e comel-os.
Não digais nada a ninguem; mas todas essas lastimas, que vós deplorais ha tantos annos, hão-de findar, como quer que seja, com a estada dos ricos entre vós.
O solo mesmo sente que em vossas casas fallece a prata e o cobre. Ora deixae-os residir por ahi alguns mezes, e dir-me-heis, e dir-me-ha o mesmo solo, e ainda mais galhardamente que vós, se das cidades enriquecidas pela Agricultura não refluiu a final algum oiro para os campos.
Os vossos filhinhos carecem de mestres; os da cidade tambem teem coração, e tambem teem filhos; vereis como vos brindam com escolas.
Hoje frequentemente vos acontece desejardes n’um repente um bom conselho, que só a Sciencia pode dar, já para o vosso trato agrario, já para a vossa industria, já para o vosso commercio, já para a vossa demanda, ou para o governo da vossa vida. Esses homens da cidade teem livros; teem certas tinturas geraes, que dá o trato do mundo; teem amigos e conhecidos, a quem podem escrever e consultar. Até o amor proprio (quando não fosse já a humanidade) vol-os tornaria serviçaes.
O vosso domingo só escápa do tédio pelo somno, pela conversação ociosa, que degenera em maledicencia, ou... pelos praseres grosseiros, perigosos e funestos, da taberna. As vossas dansas já a vós proprios vos cançam de monótonas, e os vossos cantares sem pensamento já faziam bocejar aos bisavós.
Deixae estar: aquella gente da cidade vos trará (até por seu interesse), e vos ensinará, recreios que vos encantem. Vereis o que é um theatro. Amareis e cultivareis a musica. E Deus sabe ¡quantos talentos, que por entre vós se perdiam, se não hão-de aproveitar! ¡quantas divindades não dareis ainda ás adorações da Capital! ¡quantos brasões de verdadeiros meritos não grangeará para si o vosso logarejo!
Pensae n’isto, pensae n’isto, meus amigos; e (rebente de inveja quem rebentar, definhe quem quizer, de odio contra a ventura do Povo) trabalhae, e orae a Deus, para que venhamos a ter aquellas Côrtes que sabeis.
Fevereiro de 1849.
IX
Terceiro serão do casal
Indole campestre da Poesia
SUMMARIO
A Poesia nasceu nos campos, e para elles propendeu sempre.—Quem foi Ovidio.—O seu poema dos Fastos.—Duas amostras d’este poema.—Festa das sementeiras entre os Romanos.—Festa do deus Término.
Dizia-vos eu, meus camponezes, que todos os poetas de veras eram vossos amigos; não ha nada mais certo.
A Poesia nasceu nos campos, e por muito tempo só conheceu esse viver viçoso e perfumado. Veio a fazer-se dama ambiciosa de mais refinadas delicias; assentou vivenda nas cidades; fez-se muito sabia, muito altiva muito malédica, muito contradictoria; ora devota, ora impia, ora frivola, ora profunda; mas lá os seus campos nunca se lhe desluziram da lembrança.
Em nenhuma parte a ouvirieis cantar combates, viagens, descobrimentos, artes, luxo, amores, ou desejos de melhor vida para alem-mundo, que lhe não fugisse um olhar de saudade para o seu paraiso de flores.
A edade de oiro, que é a sua scisma contínua, posta umas vezes no passado, outras no futuro, a edade de oiro (que Deus sabe se é tão fabulosa como cuidam, a não ser em relação ao seu titulo), ¿que era ella se não a Arcádia, o viver campestre, manso e regalado?
Livros dos mais antigos do mundo, os de Moisés e os de Homero, uns e outros mananciaes de Poesia, não teem pagina, que nos não espelhe uns reflexos das bemaventuranças patriarchal e heroica, que são tambem Arcadia, com leves modificações.
Passaram os povos antigos, com as suas religiões e usos particulares. Nos escritos que de então sobreviveram, ¿que é o que mais nos encanta? Não são por certo as descripções dos seus usos exclusivos, ainda que para ahi se attrai fortemente a curiosidade; são, sim, os toques allusivos ao viver rural, porque emfim, ahi é que é o ponto de contacto de todas as edades, e de todas as civilisações. O campo é que é o centro de unidade da especie humana.
Se tivessemos vagar, muito nos haviamos de entreter relendo em commum, aqui no vosso casal, alguns dos mais guapos trechos dos poemas de eras mui diversas, e paizes mui remotos, por onde acabarieis de conhecer quanto o vosso trato namorou sempre aos bons engenhos. Fôra leitura para cem annos bem aproveitados.
Falemos de um só autor, mas, que, pela grandeza do seu talento, vale centos.
Nasceu este na Italia, em tempo do poderio Romano, vai em dezanove seculos, e quando o latim era ainda lingua viva e bizarra. Chamava-se Publio Ovidio Nasão, e era cavalleiro, ou fidalgo d’aquellas eras. Vivia na Côrte, bem relacionado com a principal Nobreza, e mui cabido no paço dos Imperadores.
Tinha um engenho prodigioso para a Poesia; cultivou o com os estudos da eloquencia, com o trato dos outros poetas contemporaneos, com as sciencias, com as viagens á Grecia, que era a França d’aquelles tempos, e Athenas a sua París. Compôz uma quantidade de obras, que ainda existem quasi todas; a maior parte amorosas e voluptuarias.
As mulheres eram para elle o maior bem do mundo; o segundo, as amenidades da Natureza (ninguem dirá que tivesse mau gosto o nosso Ovidio).
Este homem, depois de ter gosado quanto era possivel da vida de Roma, de repente, e já ao descahir para velho, é desterrado. ¡E que desterro! ¡De Italia, para a Russia! ¡do seio das delicias, para uma povoação barbara, glacial, sempre em contingencias de guerras! Ali se vê, longe de sua mulher, de sua filha, de seus amigos, dos campos do seu nascimento, das damas, e dos applausos.
A causa do seu desterro é um enigma, que tem desatinado os historiadores, e a que ainda ninguem rastreou solução provavel. Coisa de amores (ou seus ou alheios) deveu por certo de andar por ahi. O que sabemos é que, lá no desterro, lembrando-lhe com muitas saudades tudo quanto havia perdido, nada lhe doía mais no coração, que o ver-se privado do seu quintalinho nos arrabaldes de Roma, onde outr’ora a mão que tão gentis coisas escrevia se deliciava, muita vez, em podar e enxertar as suas arvores.
—«¡Coitado de mim!—dizia elle—ainda que eu aqui me quizesse metter a lavrador, os bois d’esta terra não entendem latim.»
Em tal e tamanho desamparo, que até á morte lhe durou, só as Musas o não desampararam. A isso devemos duas deliciosas collecções de magoadissimas Cartas em verso, á mulher, aos amigos, a Cesar mesmo, sollicitando vir morrer onde nascêra, e metade de um poema intitulado Os Fastos.
Eram os Fastos de Ovidio uma obra em doze Livros, de que só ficaram os primeiros seis. Tinham por objecto descrever e explicar as principaes festas religiosas pagans de cada um dos doze mezes; a origem archeologica de cada uma d’ellas; e a sua coincidencia com as revoluções astronomicas.
Eis aqui o como elle prepõe a totalidade do seu plano:
Festas do Lacio anno, origens suas
quaes astros vão, quaes veem, dirão meus versos.
Esta obra, além de outras suas, traduzi eu; e por signal que offereci a traducção a um muito particular amigo d’elle, meu, e vosso, que é o Secretario da nossa Sociedade de Agricultura.
Ha nos Fastos muitas e mui bellas provas do que eu ha pouco vos dizia: do amor que o bom do Ovidio tinha á vida campestre.
Amostrar-vos-hei algumas; e vá, por estreia, o final do seu mez de Janeiro.
Canta assim:
FESTA DAS SEMENTEIRAS
Nos Annaes, onde as festas veem marcadas,
festas em vão busquei das sementeiras.
Vendo-me a folhear, cuidoso, assiduo,
e entendendo-me o empenho,—«Em balde as buscas—rindo
a Musa me diz;—«¿festas mudaveis
das fixas no registro achar querias?
Teem marcada estação, e o dia incerto;
celebram-se no praso em que estão prenhes
de sementes os chãos. Gosae do ocio
á farta manjadoira, ó bois coroados;
lá virá logo a activa Primavera,
á cerviz repoisada impondo jugo,
co’a renascente lida afadigar-vos.
No abrigo do casal durma por ora
a cançada charrua; a terra fria
não deseja, não soffre, o ser rasgada.»
Agora, que jaz finda a sementeira,
lavradores, dae folga ao solo, aos braços;
lustrem colonos sua aldeia em festa,
dêem a seus fogos a annual fogaça.
Tellus e Céres, madres das seáras
já com seus mesmos grãos se propiciem,
já coa’s entranhas da suina fêmea.
D’entre ambas nasce o grão que nos sustenta:
Céres nol-o produz; mantem-n-o a Terra.
Ó consocias em dádiva tão rica,
deusas, por quem a rude antiguidade
se abrandou, se poliu, deixada a glande
por mais nobre manjar, dae aos colonos,
em premio a seu trabalho e a seus desvelos,
colheita sem medida, e que os sacie.
Dae augmento continuo aos germes tenros,
e que a neve á nascença os não destrua.
Em quanto disparzirmos as sementes,
alimpae-nos o ceo com ventos brandos;
mal que enterrada fôr, mandae-lhe as chuvas;
e, pois são gloria vossa as pingues messes,
que em vagas de oiro, ao longo d’essas veigas,
rumorejam fartura, ¡eia, salvae-as
do avido bico das aladas hostes!
Por ora, que inda a terra o grão recata,
vós, formigas poupae-o; usura grande
havereis d’elle, se aguardais a aceifa.
Livre de tôrpe alforra a messe vingue,
e côr de alma saude o Céu lhe influa;
que nem definhe pallida, nem perca
por excesso de viço e nimia pompa.
Joio, á vista nocivo, os chãos não brotem,
nem tôrpe aveia as sementeiras mescle.
Só se vejam medrar profusamente
as cevadas, o trigo, e a rija escándia,
a escándia, a fogos dois predestinada.
Lavradores, por vós taes são meus rogos.
Co’os rogos meus os vossos se misturem,
por que uma e outra deusa os ratifiquem.
Ferina longo tempo a humanidade
só nutriu bellicosos pensamentos.
Mais apreço que a relha a espada tinha,
e em foros de nobreza era anteposto
o corsel que peleja, ao boi que lavra.
Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças
dos alviões o ferro; o ensinho em elmos.
¡Graças, deusas, a vós, a vós, ó Cesares!
o Genio marcial agrilhoado
já sob os pés de Roma em vão se extorce.
O toiro acceite o jugo; o solo, os germes;
Céres, filha da paz, co’a paz triumphe.
Ouvi-lhe agora a narração da festa, que em seu tempo se fazia no mez de Fevereiro, em honra do deus Término, ou Têrmo.
Este deus não era mais nem menos que um marco, de pedra ou pau, que extremava os predios. Com rasão lhe davam aquelle culto; nada mais respeitavel, que a propriedade; nada mais judicioso, que santifical-a.
FESTA DO DEUS TÉRMINO
Finda a noite, alvoreça a costumada
festa do deus que nos comparte os campos.
Quer tôsca pedra, ó Término, te embleme,
quer tronco informe pela mão de antigos
enterrado no chão, sempre és deidade.
Para ti donos dois, de oppostas partes,
c’rôa e c’rôa te cingem; bôlo e bôlo
te vem de cá, de lá; como á porfia,
ahi se te engenhou ara campestre.
Lá nos traz a açodada fazendeira
no seu testo quebrado as áscuas vivas
que apurou do borralho. O bom do velho
racha a lenha miuda, ergue-a em pyramide;
sua a cravar no chão ramos festivos.
Agora em cascas sêccas ceva o fogo,
tendo em pé ao seu lado, em quanto assopra,
o filhinho abraçado a largo cesto.
Tres vezes d’ali tira e lança ao fogo
punhados de aurea Céres. Toma os favos,
que a filha pequenina lhe apresenta
pelo meio cortados. Trazem outros
o vinho; tudo aqui se liba ás chammas.
Alvitrajada a turba espectadora
religioso silencio attenta observa.
Co’o sangue quente de immolada ovelha
¡que ufano purpureja o vulto informe
do commum velador, o honrado Término!
e quando, em vez de ovelha, haja leitôa,
não temais que se anoje. O brodio é franco
aos bons visinhos, corações lavados,
que o celebram com fé, que jubilosos
vão tecendo um louvor a cada prato.
Ouvi, ouvi seu rustico descante;
é do deus do festejo o panegyrico:
¡Salve, ó Término sacro, ó tu, que extremas
bairros, cidades, reinos! cada campo
fôra sem ti um campo de batalha.
Mantens, desambicioso, insubornavel,
as herdades em paz das Leis á sombra.
Se a terra Thyreátide te houvéra,
não ceifaria a morte heroes seiscentos
de Argos e Esparta no fatal duello;
não se lêra de Othryades o nome
n’um vão tropheo de mentirosas armas,
que inda á Patria infeliz custou mais sangue.
Capitolino Jupiter que diga
que invencivel te achou, quando ao fundar-se-lhe
a área do templo, ao passo que os mais numes
para dar-lhe logar retrocediam,
tu só, qual nol-o conta annosa fama,
ousaste resistir, ficar, ter parte
no templo augusto, e adorações com Jove;
e inda lá, por que nada alfim te ensombre,
sobre ti ao ceo livre é rôta a abobada.
Nume de tão gentil perseverança,
em qualquer a leveza achára venia;
contradicção em ti suicidio fôra.
Mantém pois sempre, ó sacra sentinella,
mantém pois sempre, ó Término, teu posto.
Despréza os rogos do vizinho avaro;
não lhe concedas do terreno um ponto.
¡Ceder a humanos quem resiste a Jove?!
¿Vem bater-te enxadão, pulsar-te arado?
proclama a vozes: «Meus confins são estes;
d’além, tu; d’aquem, elle; ambos cohibo,
e em cohibir aos dois aos dois protejo.»
Uma estrada une Roma aos Laurentinos,
reino que o Teucro prófugo buscára;
lá, dos marcos o sexto em honra tua
vê que lanosa victima se immola.
Término, já que acceitas cultos nossos,
ampara nos; sustenta o nosso Imperio.
De cada povo o espaço é circumscripto;
são de Roma os confins confins do globo.
¡Quão grande, meus amigos, não era o Povo em que um Poeta podia dizer isto, sem medo de que o mundo, nem a posteridade, o desmentisse!
E nós tambem, nós, os Portuguezes, já houve um tempo, em que pouco menos fomos.
Ouvi como o nosso Camões o cantava:
Mas em tanto que cegos, e sedentos
andais do vosso sangue, ó gente insana,
não faltarão christãos atrevimentos
n’esta pequena Casa Lusitana.
De Africa tem maritimos assentos;
é na Asia mais que todas soberana;
na quarta parte nova os campos ara,
e, se mais mundo houvera, lá chegára.
¿Hoje...¿ que são aquella Roma, e este Portugal?
Roma pereceu. Portugal, se não agonisa, enferma gravemente.
Mas para Roma não ha já esperança; para nós ha ainda uma ¿Sabeis qual?
Sois vós, vós mesmos, vós unicamente, ó Lavradores.
Março de 1849.
X
Quarto serão do casal
Continuação do precedente
SUMMARIO
Mais Ovidio.—Recommenda a Germanico o Livro IV dos Fastos, por ser Abril consagrado a Venus, a ascendente da familia Julia.—Nobiliario troiano dos Romanos.—Rasão por que no calendario de Romulo era Março o primeiro mez, e Abril o segundo.—Uma etymologia grega de Abril.—Outra etymologia latina da mesma palavra.—Abril pertence de direito a Venus, como principio de toda a attracção e reproducção das especies.—Venus tirou os homens do estado silvestre, e fez nascer a Poesia, e todas as bellas, e boas Artes.—Roma, mais que todos os povos, deve a Venus adorações.—Origem de uma festa annual dos Romanos a esta deusa.
O nosso Ovidio, que já conheceis, é quem ha-de regalar-vos este Serão.
Ides ouvil-o no introito do seu Livro IV dos Fastos, cantar-vos as origens d’este mez.
Fala com o Imperador Germanico.
Abril de 1849.
N. B do editor—Seguia-se na 1ᵃ impressão d’esta obra um largo trecho da traducção dos Fastos; mas como esse fragmento pertence por sua indole a outro genero de estudos, e entraria aqui descabido até certo ponto, entendeu o editor, para não allongar demasiado o volume com um accessorio, aliás brilhante, supprimil-o, remettendo o leitor á edição especial dos Fastos.