A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
... Ibi hæc incondita solus
montibus et silvis studio jactabat inani.
¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! ¿Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
nada avistou jamais, no amplissimo horizonte,
de mundo a tumultuar, de cidades a rir...
n'este ermo ignaro, frio, mudo...
aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!
¡o meu presente e o meu porvir!
Genio invisivel da montanha,
de astros, de sol, o ceo te banha;
o mar de longe te acompanha
no livre cantico sem fim.
Escada de Jacob da terra ao firmamento,
a mansão tua é monumento
da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.
Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
a variedades sobranceiro
mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
e do diluvio assolador.
Silencio e paz comtigo habita;
o ermo é como o eremita;
loucas vaidades não cogita;
ama o seu rustico trajar;
em apparente inercia ama que ferva occulto
de seus affectos o tumulto,
seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.
Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
sim; mas eu, frivolo, profano,
á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
¿que hei-de esperar? ¿que tenho aqui?
Toda a minh'alma se entristece,
e se confrange, e se ennoitece,
ao ver que a sorte lhe destece
de um sopro os aureos sonhos seus.
Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
sonhava mundo... ¡acho um deserto!
sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!
Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...
oiço... escuto... medito... e em vão quero entender
é como uns sons de ignota fala;
qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
sem me abalar, nem me embeber.
¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
que importa, ó montanha soturna,
que de perfumes sejas urna
da terra erguida sobre o altar?
¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
que o sol doirado, ao teu deserto
mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?
Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
¡são mais pesares, mais saudades,
mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
mais tentações a dar-me fel!...»
¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
¡Tanto vate a ceifar louvores!...
¡Tanto moço a colher amores!...
¡Tantos loireiros e rosaes!...
E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
qual roble que geme indignado,
vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!
Assim ruge, baldão de vingativo nume,
esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cume
do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
Só o abutre de eterna fome,
que o grande coração algoz sem fim lhe come,
responde em ais á sua voz.
Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
que eu tanto amava! ¡hora fecunda
dos cantos meus! ¿por que me inunda
nova amargura o coração?
¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
a serra em luto se me encobre;
a nocturna mudez duplica a solidão.
Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
de luzeiros um labyrinto.
¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
é vento em selvas a rugir.
Calae, fugi, ventos agrestes;
sumi-vos, lampadas celestes;
n'um seio a delirios já prestes
não susciteis mais tentações.
Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
vós, astros, cifras de diamantes,
o arcano me aclarae lá d'essas regiões.
¡Oh! ¡se á minha razão, contradictoria, altiva,
que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
de vós, faroes do Ceo, baixasse a crença viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
¡se me volvesseis as ditosas
esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
com que se enfeita e esconde a Cruz!...
Tornar-se-me-hiam de improviso
a solidão, em paraizo;
a magua, em perenne sorriso;
em alto cantico, a mudez;
a mallograda lyra, o não colhido loiro,
em harpa augusta, em palmas d'oiro;
e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.
Delirios sempre vãos, fugi de um peito enfermo;
tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
ermo para ambições, é inferno, e não ermo;
para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
Gentis phantasmas de cidades,
vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
como um esquife em aureo veo.
¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
(embora em saudades me eu queime)!
O somno, as vigilias enchei-me
da vossa esplendida vizão.
¿Val o riso choroso as festas da loucura?
vinde, guiae-me á sepultura,
crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.
¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
não, no silvestre seio vosso,
nem de amenas ficções apascentar-me posso,
nem menos as posso esquecer.
¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
sondou jamais o abysmo escuro?
¡Apenas chego e já murmuro!
¿O de que tremo acaso sei?
Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
aqui me aguardem, recatados,
dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.
Se além, no presbyterio, humillima choupana,
(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor sollícito se afana
em me afôfar o ninho, a vida em me inflorar;
se n'um retiro verde e mudo,
por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
sombras no estio, o inverno ao lar;
se a solidão que me apavora,
sómente o fôr vista de fóra;
se em seus recôncavos demora
gente feliz, povo de irmãos;
se do antigo viver, das crenças de outra edade,
vestigios guarda a soledade;
se poesia se vive entre estes aldeãos;
se a alegria, serena, isenta de pesares,
como a fresca saude, habita os puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e mares,
se Deus em toda a parte á Natureza ri...
coração meu, não desanimes,
gozos que não prevês, e cantos mais sublimes,
encontrarás talvez aqui.
¡Ah! sendo assim, ¡que importa a fama!
Tambem philoméla derrama
sua harmonia ás selvas que ama
longe de ouvintes e do sol.
Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria
que a viva, a lustrosa poesia,
de perolas que a flux borbóta o rouxinol?
Castanheira do Vouga
Outubro de 1826.
II
O SEPULCRO
OU
HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOÃO
(POEMA)
INTRODUCÇÃO
(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)
(Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a cavallo, transviados na montanha.)
I
—Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;
a velha era por força alguma bruxa.
Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!
—Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)
tres vezes t'o ensinou.
—Nem trinta vezes
que eu passasse por elle, o aprenderia;
a não ser pelo rasto que deixasse
esmurrando o nariz por essas lapas.
Já levo sem ferrage ambas as mulas;
perdeu-se o norte; não descubro casa,
nem gente, nem caminho, e é quasi noite.
Patrão, por meia legua mais ou menos,
não se deixa uma estrada como aquella,
que costeava o monte á beira da agua.
A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
—Dize um que vale dois, mas dois não digas.
Se tomámos o atalho em vez da estrada,
toda a culpa foi tua; eu não queria,
porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.
—Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,
com ar de santa, e palavrinhas manças,
nos rabiscou co'o pau no pó da estrada
tão claramente as idas, as venidas
d'esta serra sem fim, não lhe escapando
lomba, moiteira, torcicólo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mappa!
¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.
E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscos
não tinham diabrura ou nigromancia
capazes de encarchar um Santo em carne?
¿E quem me diz a mim que a grenha russa
não vai ao pé de nós? ¡talvez sentada
na anca da mula!... ¡fúgite, demonios!
Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;
quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!
¿que havemos de fazer nestas alturas?
—Tornarmos para traz.
—¿Por este escuro?
¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
¡co'um milhão de diabos!!...
—Pois fiquemos.
—E as mulas comam terra, como os sapos,
e nós carqueja.
—As noites são bem curtas.
—Se ao menos se avistasse alguma venda...
—Em rompendo a manhan teremos tudo.
Por agora apeemo-nos.
(Apeiam-se.)
*
—No inferno
estoire entre um milhão de Satanazes
o que inventou primeiro andar de noite;
era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?
—Não é nada; uma pedra que rebola.
—¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito,
mas nem por isso engraço. ¿E aquelle bruto
lá em cima no pinhal, que guincha tanto!
—Algum mocho.
—Más balas o atravessem,
e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;
cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
valho por cinco ou seis; mas cá perdido,
e então de noite, um pisco me põe medo.
—Pois dorme.
—¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!
só se eu fôsse algum bêbado. Esta noite
nem pregar olho, nem largar das unhas
dois penedos; e ao pé já está reforço.
—Golgan, já que não foi por nossa escolha,
busquemos contentar-nos co'a poisada,
que inda não é tão má como o parece.
¡Quantos ha menos bem acomodados
por esse mundo agora! uns em cadeias,
outros entre ladrões, náufragos outros,
estes em luto, aquelles em doença.
Bastantes em colxões de plumas fôfas
revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,
cuidados tristes, asperos remorsos.
¡Quantos até nas salas mais alegres,
entre as luzes, e as muzicas, e as danças,
mas em face de um sôffrego banqueiro,
padecem mais que um reo chegando á fôrca
Não ha mal sem peor; qualquer estado
se se compara, é bom; com cara alegre
suavisam-se os incommodos; um fardo
n'um hombro impaciente é fardo e meio.
Quem não soffre um descommodo pequeno
nos grandes morre; um leve desagrado
dá realce ao prazer quando nos volta.
Qualquer estado, e pessimo que seja,
tem seu lado risonho; e é da prudencia
d'entre os picos da silva achar a amora.
Amen.—Brava o latim; dá ceia e cama.
—A falta d'esta ceia é novo adubo
do almoço de amanhan; e emquanto á cama,
¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?
Nem paredes nem tectos, que nos roubem
a viração da noite apoz a calma;
por entre essa quebrada dos penhascos
lá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;
sobre nós, e por baixo das estrellas,
pendendo como um lustre, este carvalho
cravejado de insectos que entre-luzem;
dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.
Vê; que soberba camara!; que leitos
desde a origem dos seculos nos guarda
no seio d'esta brenha a Natureza!
—Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha!
¡leva rumor! é bom pregar de coices.
Não durma, Sôr Doutor.
—Não tarda muito
que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhos
não devem ser os de uma noite d'estas!
—Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,
para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada
de casos que eu passei na minha vida;
tão rara, que podia ir á Gazeta!
*
Uma vez ia eu só; era em Novembro;
chuviscava e fazia um tal escuro
que era metter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a proposito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquelle; andava Christo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e andava o oiro aos pontapés da gente;
tambem... ¡já cá não torna! O grande caso
é que n'aquelle tempo era eu solteiro,
e rapaz bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,
que não pelos vintens; nem pela cara;
mas isto de casar co'um almocreve,
seja elle o diabo dos infernos,
parece a todas bem: é uma delicia
ter o seu homem só de vez em quando,
em logar do espião de um pegamaço
com residencia fixa em ar de abbade.
Mas... não é bom falar na vida alheia.
*
Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o Chupista. ¡Oh! que bolaxa
que eu pespeguei na cara do coécas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer creança lhe moia os queixos;
já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?
¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;
e andava com dez machos todo o anno
a correr quanto valle e monte havia
para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.
Que isto do fôro é bom, nem que pareça;
uns pagam-lhe borel, outros centeio,
queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
gallinhame por arte do diabo,
ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]
Não ha n'um pardieiro um desgraçado
que não deva pagar alguma nica.
Já vê donde me vinha a minha alcunha;
mas sem rasão; é porque andava ás ordens.
Tambem já tenho ouvido alguns autores,
tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
que é coisa bem mal feita a tal derriça;
Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.
Vamos cá co'o meu conto.
*
Era uma noite,
cuido que já lh'o disse, ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.
Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,
gósto de andar de noite havendo lua;
cá pelas brenhas não, que não sou lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de presuntos,
pela estrada real, co'os sete machos
a dormitar ao som da chocalhada.
Vinhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite, ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.
*
Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz não dá desgosto:
pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,
vendo os machos no pateo é uma alegria!...
¡aquillo até os olhos se lhes riem!
dão pinga, e de cear, e muitas vezes
vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que recebe o saque.
¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.
Não durma Sôr Doutor.
—Não durmo; acaba.
—¡Acabar! não acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarem; tinha um cachaço,...
por tal signal que até revia enxundia;
¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;
um sermãosinho d'elle atarantava
e punha tudo azul. Tinha a constancia
de arrumar prègações de duas horas.
N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,
já tinhamos dormido á regalada)
disse muito pausado: «Eu principio.»
Assim faço eu tambem. Todos devemos
tirar das prègações algum proveito.
Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;
porém tenha lá mão, que a levo errada.
*
Nesse dia á tardinha, na estalage
tinha entrado uma velha; era um diabo,
que isso... só visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo.
Tinha pela cabeça um lenço pardo
atado pela barba, um manteo ruço,
e uma mantinha exotica e de agoiro.
Tinha então uma cara não sei como;
nem parecia cara; era um nó cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas muito experta; e uns olhos como um bixo.
¡Tambem aquella rez tinha no corpo
muita pipa de sangue de creanças!
*
Cheguei eu á estalage, e ia com fome;
vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,
mando os frigir com mel, que é papa fina;
e então para quem tem de andar de noite
dizem que é bom, que livra do catarro,
já se sabe com quatro pingarolas.
Ia se preparando o meu guizado,
e era um cheiro tão bom pela cosinha,
que isso não ha dizer. Já dois gallegos,
e mais, tinham ceado; andavam tolos
a cochichar, e ás voltas pela casa,
um olho em mim, outro olho na tigella,
e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!
*
Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.
Mas o monstro da velha era uma estaca
ali muito direita ao pé dos ovos,
com cada olho aberto, ¡que te parto!
Era mesmo um olhar de inveja e zanga.
Logo eu tive má fé co'a tal menina
quando ella perguntou quem era o dono.
Porém quem mal não usa mal não cuida;
sentei-me á meza a codear nos ovos.
Ora agora o vereis: a minha amiga
amúa-se n'um canto, mais vermelha
que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.
Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
que a não ser por temer a Deus e a ella,
batia-lhe co'o prato pelas trombas.
Botava cada lagrima... ¡de punho!
dava cada suspiro, a excommungada,
¡que punha medo! accendo o meu cigarro,
pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.
Era já noite escura, e um vento frio
como o gran Satanaz.
*
¿Que diabo é isso?
ressona?; ou já na costa anda algum moiro?
—Avante; são as ramas que sussurram.
—Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada real por ser já tarde,
e a assobiar sósinho o tiroliro.
Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.
Á esquerda, como ahi, ficava um monte;
d'esta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e então mui longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem Roldão o andava áquellas horas.
Entrei logo a suar e a arripiar-me;
e as mulas n'um inferno de pinotes
sem quê nem para quê; davam taes rinchos,
que se fundia o chão; pregavam coices,
que assoviavam no ar; ¡que contradança!
era uma groza de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]
Aqui digo eu como dizia o Frade
n'outro sermão de um Santo; não lh'o pinto
por não ter um pincel. Mas faça ideia
que tal eu ficaria lobrigando
(¡eu te arrenego diabo!) uma luzerna
a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,
lá longe no pinhal. Que era bruxedo
tive eu logo de fé; muitos que m'o ouvem
riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;
que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!
Por força era algum sabbado lá d'ellas,
que as taes amigas juntam-se de noite
a fazer os seus sabbados, o mesmo
como nós no Natal á meia noite...
Ha muita comezana de creanças,
sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
e umas rizadas..... que até Deus se admira.
No meio anda um pretinho muito gordo,
que é o proprio diabo em carne e osso.
Diz então muita coisa a todas ellas,
dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
do que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
Untam-se co'uma untura que lá sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite até tal dia,
e ellas voltam-se a casa a armar já outras.
Isto sabia-o eu como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
e então é que dei tudo por perdido.
Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa
(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)
entrei eu co'as mãos postas para as mulas
a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,
pelas Almas Bemditas, que deixassem
todo aquelle motim, que me perdiam;
que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
e que pé ante pé viessem vindo;
que eu promettia uma ração dobrada.
Partimos. De repente desembésta
d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto
direito para nós como uma xára.
Com seis milhões de grozas de diabos!
¿quem havia de ser, senão a velha?
Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
chega ao cimo, e de lá muito sizuda
entra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)
a fazer-me uma cara dos infernos...
—¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
—Certo é que lembrou bem; tambem agora
lá me faz confusão ter visto a cara.
¿Escuro? isso era escuro como um prego;
não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;
¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
tão bem encasquetada no juizo,
que a podia pintar, e era pintura,
que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.
*
Mas o bom não foi isso; o mais bonito
foi entrar de repente o gallinhaço
nas canastras da carga em cantarolas,
a romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo ás cegas
sem as poder juntar. Foi se-me a noite
n'esta labutação; de cada canto
sentia um cacarejo, ia ás carreiras,
gallinha... por um oculo. Já rouco,
moido e desesp'rado, ao romper d'alva
vejo as minhas senhoras mui contentes
todas juntas n'um bando ao pé das mulas.
*
Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:
¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;
¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!
—Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?
—Para nós ambos de Fieis defuntos.
—De San João.
—¡Ah! sim; pois é fogueira,
e não é outra coisa. ¡Ora o diabo!
sempre tive uma colica soffrível.
Mas vamos nós a andar, se lhe parece.
Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
n'umas rasões que teve com meu tio,
que era barbeiro então, e o Padre Mestre
era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,
ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,
que era um tição que só á bofetada;
¡mas muito presumido! ¡e então por moças
dava o grande magano um cavaquinho!!...
Com que emfim, tinha o Padre este ditado:
aonde ha lume ha fumo; e eu então digo
que por força onde ha lume ha-de haver gente;
e que onde ha gente ha casa; e toda a casa
tem a sua cosinha, e então ceâmos.
E é partir de repente em quanto ha lume.
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II
Eis aqui um dialogo de ensanchas
sem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo—
grita o leitor perdendo as estribeiras.
¿Onde foi isto? ¿ou quando? ¿quem são elles?
¿onde vão? ¿d'onde veem?
*
Leitor amigo,
ha duas horas que soubéras tudo,
se o cruel arrieiro o permittisse;
mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.
Quanto a elle, presumo que o conheces;
o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um verso
não peor que outros muitos portuguezes:
Antonio Feliciano de Castilho.
Venho do Minho de assistir a bodas;
recolho me outra vez á Castanheira [3]
a casa do Prior, a fazer versos,
beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.
O theatro da scena é certo monte
de que me esquece o nome; o anno, e o dia,
Mil oitocentos e vinte e oito, á noite,
vespera de S. João. Se mais desejas,
é perguntar, que eu te respondo a tudo.
*
Mas o melhor (se queres um conselho)
é fazer-me um favor, ao qual protesto
ser toda a vida grato: anda comnosco;
a noite está bellissima; podemos
ir co'o nosso vagar pataratando,
e conduzindo as mulas pela redea.
Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites;
fica-te em paz, regala te, que eu juro
que estando em teu logar fazia o mesmo.
Se queres, faze ás paginas seguintes
onde vai mais Golgan (porque já agora
hei-de contar a historia por miudo)
faze, digo, a taes paginas o mesmo
que eu, tu, e elle, e nós, e vós, e elles,
fazemos ás dos Martyres do Padre,
que são apezar d'isso uma obra prima.
Passa-as em claro, e dize que já leste.
Quem fala assim não quer suor alheio.
E adeus; até mais ver que vou com pressa.
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III
—Olhe lá, Sôr Doutor; diz um livrito,
que a gente sem falar é como os burros;
e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe,
para ver se se encurta este caminho,
o mais que se passou depois da historia.
Mas vá picando a mula; ¡olhe a fogueira!
*
Com que, como eu já disse, ao outro dia
vi as gallinhas ao redor das bestas;
torno-as a pôr na carga, e digo logo:
A Santa-Cruz não vão vocês de certo;
nem vocês, nem a carga dos presuntos,
nem nada que aqui vai, ¡com trinta infernos!
Servos de Deus tão bons, tão meus amigos,
¡haviam comer tal! ¡metter no corpo
talvez quanto bruxedo ha neste mundo!
Deus me livre do mais, que de encarrêgos
posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas
direito á Hespanha, e vendo-as a uns ciganos,
com carga e tudo.
—¿As mulas!
—Pois as mulas
tinham tantos diabos na muchilla
como as gallinhas, os boreis, e os ovos.
Mas eu era rapaz; se fosse agora,
não digo que o fizesse. O divertido
foi andar eu trez annos para quatro
a correr Portugal e Hespanha toda
a buscar confessor; ¡tudo ignorante!
Padre douto, nem um que me absolvesse.
Por fim achei o filho de um cigano,
dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.
Mas então penitencia não falemos;
se a quizesse rezar, ¡nem toda a vida!
Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro,
e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;
mas disse-me que havia até ser velho
mortificar o corpo co'um vergalho,
e com muitos jejuns. ¡Se eu fôra pato!
Sabe então o que fiz inda algum tempo?
era correr de chôto os meus pedaços,
e depois descançar.
*
Deixemos isto,
que não lhe importa muito, e a mim nem nada;
vim para a minha terra apenas pude,
muito pimpão, e cheio como um ovo.
Namorei, namoraram-me bastantes;
por encurtar rasões, casei com uma
que era filha do irmão de um primo ou tio
de um meu compadre Abreu, que era cunhado
da sogra d'esta mesma rapariga,
e enteado do irmão do Cura velho;
tudo gente limpinha, muito boa,
e temente ao Senhor, que é todo o caso.
Gastei para impôr Bulla os meus tanturrios,
¡e não foi lá tão pouco! ¡Veja agora:
¡para a gente casar largar dinheiro!
É como ir para a India ou para a fôrca,
e pagar inda em cima aos da sentença.
Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto,
disse me elle que a causa era nós termos
quatro humores no corpo, e d'aqui vinha
haver os quatro grãos na parentela;
que ella era minha prima, e que entre primos
havia os quatro grãos todos inteiros.
Não se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peças
não só os quatro grãos que se não viam,
mas ainda mais cá certa brincadeira.
*
Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me.
Aquelle mez primeiro é uma delicia;
foi todo elle um cantate; muito amigos,
muito beijo, e comer; muita broega,
muita romage, e tudo muito e muito.
Nunca houve um par assim tão contentinho;
nanja na aldeia e na comarca em roda;
era até amizade escandalosa.
Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
de fazer a vontade a toda a gente,
n'um dia santo á pratica da Missa
deu-me um foguete ¡caspite! Disse elle
que marido e mulher com tal namoro
era coisa mais vil que mil diabos.
Fizemos-lhe a vontade antes de muito;
ella entrou-me a azoar com trinta coisas,
e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
o asneirão do Juiz, que era vizinho,
tomou isto em trambolho, e ameaçou-me
de me encaixar no fundo dos infernos.
*
¿E então que lhe parece a entaladella?
Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a,
vem o Juiz, promette-me a enxovia.
É como o conto de um palerma velho
que ia a pé co'um rapaz e mais um burro.
—Bem sei.
—Pois sim senhor. Com que, tivemos,
não digo bem; teve ella oito ou dez filhos;
e sempre a dois e dois; forte coelha!
Entrei a dar á bruta; acudiu povo,
ella fugiu, mas eu fugi sem ella.
E d'então para cá desandou tudo.
E hoje ando aqui por moço de arrieiro,
a perder noites, e a estrompar as ventas.
Aqui está por que eu digo que este mundo
é coisa muito celebre! uns ovitos
e uma pinga de mel fizeram tudo.
............................................................
*
¡Brava! ¿não ouve uns sinos que repicam?
¡olhe um foguete! ¡truz! ¡Viva o Vinagre!
¡e viva a ceia e a cama que estão perto!
IV
Com effeito, assim era; a poucos passos
já se ouvia tambor, gaita de folles,
risadas, bombas. Apressando as mulas
na direcção dos sons e da fogueira,
descemos uma encosta, a cujas abas,
entre uns poucos de antigos castanheiros,
uns cinco ou seis pastores se occupavam
a abobadar de murta uma fontinha.
Interromperam logo o seu trabalho
para nos vir saudar; mostraram pena
de ouvir que nos perdêramos no monte,
off'recendo á porfia os seus albergues.
Não findara a benevola contenda,
se um d'elles agarrando o freio á mula
me não posesse a andar; agradecendo
os desejos dos mais que inda ficavam,
segui affoitamente o nosso guia.
*
Uma ponte de pau que atravessámos
coberta de chorões, nos poz á borda
de um trigo já maduro e sussurrante,
contiguo ao seu casal. ¡Quanto eu folgara
de descrever tudo isto! Uma casinha
plantada ahi como risonha ilhota
n'um vasto mar de tremulas searas,
e clara como a neve, ou como a lua
que a espreitava do ceo por entre as folhas
de um esquivo parreiral. Junto ás paredes,
de rosas e limeiras revestidas,
canapés de cortiça apresentavam
a imagem do descanço e a do convite.
Não era necessario entrar a porta,
para já conhecer o domicilio
da hospedage e da paz; que as proprias auras,
como que em tão poeticas folhagens
se ouviam sussurrar: ¡«Bemvindo o estranho!»
*
Não longe lhe ficava a sua aldeia
na c'roa de um oiteiro; pensarieis,
vendo-as tão perto, e um bosque a separal-as,
a aldeia tão brilhante de fogueiras
e esta casa tão só mas tão alegre,
pensarieis, como eu, ver n'uma festa
moça ausente e feliz, amante e amada,
que entre o prazer commum não quer nem deve
ir desfazer seus pensamentos doces.
*
Visinho seu mui proximo era o templo,
aos valles do arredor alardeando
na sua torre branca um Anjo de oiro,
e a um lado a Residencia, occulta em parte
n'um ramilhete de altas cerejeiras.
*
Nunca mão de pintor juntou n'um quadro
objectos mais simpathicos. Tal como
trépido arroio em tacita espessura
das copas bebe a sombra, e envia ás copas,
do sol reflexo voadores raios,
do casal a presença alegra o templo;
a presença do templo está lançando
sobre o casal o sério da virtude.
Tudo isto sob um ceo de fertil benção,
sobre um chão de abundancia, e no ar mais puro!
—¡Meu Pae,!—grita o pastor entrando á pressa—
minhas irmans! ¡um hospede!—
*
A tal nome,
como se fosse á voz de alguma fada,
com repentina luz nos apparecem
creanças folgasans, esbeltas moças,
um ancião, e uma velha. Imagináreis
ver Graças, ver Amores, ver Napêas,
trajados de aldeãos, e honrando os lares
de Baucis e Philémon, que o parecem
na edade e na virtude os meus dois velhos.
*
Não mora entre seáras a etiqueta;
mas sobre herdada meza de pinheiro
em troco adeja a cordeal franqueza,
o bom desejo adubo da abundancia,
e a amisade dos bons, filha do instincto,
que nasce qual relampago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao comprimento,
logo o segundo aos commodos;
o resto á conversa, e ao bulicio de tal noite.
*
Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,
vital perfume de mellifluos bolos,
que em molles virações traz a alegria.
Aquella vai e vem compondo a meza;
esta afervora a ceia, e a cada instante
corre á janella que descobre a aldeia.
Juntam-se á bulha os sinos da parochia,
que o sacristão na vespera do Orago
jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra.
O festivo repique exalta as mentes,
os meninos não param, correm, gritam,
repartem bombas, furtam-se valverdes,
e rindo ameaçam fogo á pipa velha.
A boa annosa mãe ralha do estrondo,
e o faz inda maior; o esposo enfia
uma sobre outra historias do seu tempo.
O avito candieiro de tres lumes
cobre da meza o centro, e chama á ceia;
a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.
Não foi longo o festim, mas cada copo
lhe augmentava o praser. ¡Salve tres vezes,
ó dos tres lumes candieiro avito!
¡quanto amor, quanta paz, que bens, que festas
não tens visto florir em tua casa!
¡quantas mãos tão felizes como puras
te hão accendido em noite igual! ¡quem sabe
que de memorias para ti conservas!
¡Em premio da hospedage aqui te accendam
longas eras em noites semelhantes
dignos de seus avós contentes netos!
*
Iria a muda apostrophe adiante,
mas ouviu-se o zabumba.—¡Ahi veem! ¡são elles!—
dizem todos, e todos saem pulando.
—Olhae; olhae; ¡nem uma luz na aldeia!
este anno veio tudo. ¡Que alegria
terá o nosso Parocho!
—Maria,
dá cá o meu chapéo.
—¡Corre, Pedrinho!
—¿Onde está meu irmão?
—¡Não se demorem!
—Vamos dançar.
—Perdi as alcaxofras.
—Vinde por cá; passemos-lhes adiante;
que rancho que lá vem!.....................
..........................................................
........................... Golgan, que eu fosse,
não pintara a estrondosa miscellanea
que vôa do cazal ao Presbyterio.
Lavra nos proprios velhos o alvoroço;
vão co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo,
estranho á festa. O pateo illuminado
nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo.
—Viva o nosso Prior!...
—¡Viva!!!...
Mil vozes
restrugem o ecco apenas avistaram
rindo á janella o velho gordo e alegre.
—¡Viva o Senhor San João! ¡viva a alegria!
V
Bate o zabumba; a muzica rebenta;
fogem foguetes pelos ares livres
estrepitando; o campanario ovante
de jubilo endoidece; repentina
por dez partes acceza alta fogueira
dentro de um vasto circulo purpureo
mostra o prazer brincando em cada rosto.
Bello é ver n'este lance as raparigas
compondo mais o lenço, alevantando
o chapeo, que o semblante lhes encobre,
dando, como a descuido, um toque leve,
mas gracioso, ás flores que lh'o adornam,
e á flor do seio, e ao laço do collete.
¡Quantos nós ata amor n'esses instantes!
¡quantos outros aperta! ¡em quantos outros
embebe o espinho de um sutil ciume!
¡Chiton! temos o Parocho na frente;
e as cangalhas vêem mais do que parece.
A alegria decente, eis o estribilho
com que recheia as praticas. Se cantam,
co'a cabeça e co'o pé bate o compasso;
se pulam boa dança em honra ao Santo,
bota fora uma can. Por isso o baile
circula agora a estridula fogueira;
por isso o San João vai toda a noite
injuriado em canticos devotos.
VI
Meia noite. Que som mysterioso!
interrupção no baile e nos descantes.
*
Fada das amorosas prophecias,
tu, tu passaste agora em concha aerea
tirada pelo zephyro; sentimos
todos nós tua magica presença.
¡Boa viagem, Fada, e boa noite!
¡Salve, hora duodecima; bateste,
e descerrou-se a porta do futuro.
Sua nevoa desfeita em orvalhadas
vai nas plantas eleitas, vai nas flores
mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes
benção, certeza, amor, felicidade.
Já se interrompem bailes e descantes.
Embebida em potentes nigromancias
toda esta multidão por modos varios
exerce escrupulosa altos mysterios.
Mas renasce o alvoroço; é porque os copos
dos bilhetes fatidicos chegaram
da ama nas mãos com riso de importancia.
—Não falta aqui rapaz nem rapariga—
diz ella;—o senhor Padre escreveu todos,
mesmo á vista do rol dos confessados.
Meia noite já deu; quem quer casar-se,
pode vir vindo.
Ao grande reboliço
succedeu a attenção, que a cada sorte
outra vez se converte em gargalhadas.
Por cada par que amor approvaria,
veem disparates comicos ás duzias,
e dão rebate ás palmas e epigrammas.
O proprio bom do velho applaude a tudo,
e por primeira vez da sua vida
encontra em si chorrilhos de finuras.
Já pede a uma o bolo do noivado;
quer ser padrinho de outra; e ás mais bonitas
quer baptisar de graça os pequerruchos.
Muito custa no mundo o ser discreto
sem descambar o pé! coisas escapam...
que é por Deus não haver o Santo Officio,
como esta ao nosso padre:
—Olhae, rapazes,
vai n'estas sortes o que vai no mundo:
o acaso e a Providencia, ao que parece,
ambos lêem pelo mesmo Breviario.
Não foi dos mais christãos o epiphonema,
mas fez rir. O Golgan neste comenos
chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a:
—Esta, seja quem fôr, é cá p'ra nostri.
Pede que a leiam; lê-se-lhe:—O coveiro.—
Mudo o povo se entre-olha; e de repente
co'as pragas do Golgan destampam risos,
como os que o padre Homero encaixa aos deuses;
¡inextinguiveis risos! Mas não cede
a chufas nem a agoiro o varão forte;
e com mão bem segura extrae sublime
do outro copo outra sorte:—Ambrosia Trécula.
Então do pateo o riso clamoroso
deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana
retumbou nos ceos: Trécula... Trécula.
—¿Quem diabo é esta Ambrosia?—o heroe pergunta.
—Sou eu—responde a ama.
—¡Está brincando!
é talvez sua neta ou titrineta. —Vá-se, tolo.
—Olhe cá, senhora tia,
não vai a arrenegar; não lhe pergunto
por cara, corpo e modos, que são lindos;
¿mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa?
Com o desdem mais dramatico, a matrona
voltou costas; e o bêbado prosegue:
—Sô Reverendo, não lhe aceite os banhos,
que eu sou casado, e ponho impedimentos.
Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem
tirar tambem; tirei; ¿quem tiraria?
uma das filhas do meu bom Philémon.
Recebi parabens de todo o povo;
deixei-o bem disposto a divertir-se,
e tornei co'o o meu sogro ao nosso albergue.
Instou que me deitasse; respondi-lhe
que em noite de San-João ninguem se deita;
que alem d'isso a jornada fôra curta,
e sem nimia fadiga; ultimamente
que, pois que elle esperava a mais familia,
esperava eu tambem; não sendo airoso
faltar á noiva no primeiro dia.
—Cedo, mas só co'a clausula—disse elle—
que inda amanhan sois nosso.
—Assigno.
—¡Bello!
*
Então toca a palrar até que venham.
Saiâmos, que faz calma; alem, na eira,
sobre a alta palha do centeio novo
tomaremos a fresca e as orvalhadas.
*
Disse, e fez se. ¡Que ceo! ¡que paz! ¡que noite!
na molle aragem das fagueiras horas
meu coração feliz desabroxado
me enchia de um perfume egual ao vosso,
nocturnas flores, que o gosais sosinhas.
¡Quem podesse apanhar, prender na vida
estes momentos lubricos, momentos
que só caem do ceo durante a noite,
e só na solidão! Temi perdel-os
co'a triste distracção de mutuas falas.
Lembrou-me haver notado no meu velho
um genio amigo de contar historias;
pedi-lhe uma qualquer, bem decidido
a deixal-o á vontade espanejar-se
sem lhe dar attenção; mas enganei-me,
Pondo o rosto na mão, nos céos os olhos,
entra a buscar pela memoria antiga
algum caso mais raro; e como desse
casualmente co'a vista em certo lume
n'um cabeço remoto,
*
—Ouvi—me disse;—
por aquella luzinha lá ao longe
lembra-me um caso, e um caso que foi certo,
passado ali no Minho ha largos annos.
Inda eu conservo em casa uns Breviarios
de um Padre irmão da minha avó materna,
que poderão servir de documento.
Elle mesmo o escreveu nas folhas brancas
do principio e do fim dos quatro tomos.
E era um clerigo honrado, o que escrevia;
merece tanta fé como a Escritura.
Diz elle então ali (nem é só elle;
minha Avó sua irman dizia o mesmo):
que esta nossa familia inda descende
da Rosa de quem fala a dita historia.
A minha avó foi Rosa, e tinha o nome
de sua mãe; a minha mãe foi Rosa;
a vossa noiva é Rosa; e n'esta casa,
querendo Deus, sempre ha-de haver o nome.
*
Depois d'este preambulo de Rosas,
veio a historia, e encantou-me; ou fossem causa
hora e sitio, ou a amavel singeleza
com que narrava o historiador das medas,
ou já disposição com que eu me achasse.
Creio que sim: do espirito do ouvinte
vem mais de meio o merito das obras.
Por exemplo: da Eneida o livro quarto
dias ha que me enfada; ha tambem dias
em que se atura o Italico do Padre;[4]
e em que se entende um pouco a pálrea bruta
que aos brutos deu do amavel Lafontaine.[5]
Nada parece mal, trazido a tempo;
fora de tempo, tudo. A mesma coisa
entre obras e leitores acontece,
que entre os garfos e as arvores: se enxertam
quando o não pede o tronco e o veda a lua,
¡adeus ramo bastardo! e se ao contrario,
penetra a seiva toda, e pula o ramo.
Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto,
que protestei contar-vol-o a meu modo;
e o poema seguinte é o desempenho.
Tivesse elle, o que em vão lhe hei procurado,
da prosa do meu sogro o tom singelo,
talvez, leitores meus, o relerieis.
Inventar, descrever, compor os versos,
são os tres pés, da trípode de Apollo.
Já sabereis do Reverendo Kinsey
que eu não tenho invenção; que nada pinto
co'a verdadeira côr da Natureza;
que os versos meus são bons, mas que aborrecem;
o que não tira que um poéta eu seja
digno de ser notado entre os que vivem.
Ora, quanto á invenção d'este poema,
bem vedes que a não ha, ou se a ha que é d'outrem.
E quanto ás descripcões, fiz o possivel
para não metter mais que as do meu sogro.
Mas faltava o melhor, e o mais difficil:
versificar á moda. Atirei fora
o Virgilio, o Racine, e o Metastasio,
gebos todos monótonos, que enfiam
os versos bons e os optimos aos centos;
atirei-me ao Filinto e aos Filintistas;
estudei, fiz ensaios, compuz paginas
de embréxados velhissimos e esdruxulos,
e não foi sem proveito o estudo acerrimo.
*
Perdoae se este livro inda vai falho
d'esses donaires que travêssos fogem
de mal expertas mãos; soffrei-o em quanto
vou destilar sobre outro o Elucidario,
qual se espreme um limão sobre um guizote.
Abril de 1831.
FIM DA INTRODUCÇÃO[6]
III
EPISTOLA
A JOÃO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA
(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)
Da paz de um ermo ao turbilhão da côrte
a Musa de Castilho á do seu Costa
saude e amor. Já outra primavera
se enflora, a seu pesar, desde que ausente
pede aos montes a irman, que a não suspira,
e dorme ao lado de um feliz ingrato.
Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios
em cantos cujo ecco além não passa
..........................................................
1831—Abril, 21.