SILVA PORTO

E
LIVINGSTONE

MANUSCRIPTO DE SILVA PORTO

ENCONTRADO NO SEU ESPOLIO

LISBOA
Typographia da Academia Real das Sciencias
1891

APONTAMENTOS SOBRE A OBRA

DO
EX.MO SR. D. JOSÉ DE LACERDA

«EXAME DAS VIAGENS DO DR. DAVID LIVINGSTONE»

POR
UM PORTUENSE

Leitor

Meu illustre amigo.


Bihé,22 de setembro de1861.


Os grandes heroes que a historia proclama, a mór parte dasvezes o são, assolando a terra, e devastando araça humana. A esses,pois, tal titulo significa uma blasfemia! Em identicas circumstancias,mas por fórmadiversa, que é por certo maior gloria, ao vosso zelo,perseverante vontade, e ácusta de immensos sacrificios a prol das sciencias, e a favor dahumanidade, ella comjustiça e verdade, vos terá de acclamar de seuheroe.
Poderei ser tão feliz que tenha a dita de vos tornar avêr? Se assim se verificar desde já ponho a minhagente ás ordens do meuillustre amigo, para estas paragens, e n'ellas, ou mesmo para qualquerparte que pretenda seguir,a minha pessoa fica desde já tambem á suadisposição.
Assigno-me com toda a consideração
DeV. S.a
Amigo attencioso
Antonio Francisco Ferreira da SilvaPorto

Lui, 14 de setembro de 1868

Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto

«A extincção das ordens religiosas, e com ella a de todas as missões, foi perda irreparavel para as nossas possessões africanas, que tanto podiam e deviam ter com ellas aproveitado. As funestas consequencias estão-se experimentando, e desde logo tinham de prever-se: de certo, porque de todo o ponto é fóra de duvida que, missões regularmente constituidas, e d'onde hajam a esperar-se effectivos e avantajados resultados, só por via das corporações religiosas podem obter-se. O que, n'este intuito, podem fazer as corporações religiosas, só ellas podem fasel-o, porque só ellas podem preparar, escolher e ter á mão, mediante os votos monasticos, os obreiros mais competentes; as condições tão especiaes, proporcionadas pelos votos, mormente pelo da obediencia, não ha nenhum outro modo de serem suppridas. É por isso que tanto fizeram outr'ora os nossos missionarios em uma e outra Africa, e na India, e na America, e na China, e no Japão, e na Cochinchina, e em toda a parte; e é por isso tambem que tão pouco têem feito quaesquer outros missionarios não pertencentes ás congregações religiosas: estes vão aonde querem ou aonde podem, aquelles aonde os mandam: para estes, tudo são estorvos e tropeços, para aquelles, sem familia, sem bolsa e sem vontade propria, não ha obstaculo, porque obdecem: estes hesitam, porque deliberam; aquelles obram, porque não carecem de resolver-se. etc.»

«Vou occupar-me do lago Ngami, um dos descobrimentos de que tão grande alardo fez o dr. Livingstone. [No capitulo] 3.º lê-se a pag. 65 o seguinte: Doze dias depois que nos apartámos dos wagons em Ngabisane chegamos á extremidade nordeste do lago Ngami; e no 1.º de agosto de 1849 descemos todos à bacia do lago, e, pela primeira vez, observaram europeus este magnifico lanço de agua.»

«Contando-nos a sua marcha para o interior do continente africano, e o seu encontro com Sebituane, celebre chefe indigena, em o esboço que desveladamente d'elle nos bosquejou, diz o dr. Livingstone: «Tendo conquistado todas as convisinhanças do lago Kumadau (Mculadau), ouvio fallar dos homens brancos, que viviam na costa occidental; e esporeado pelo que parece ter sido o sonho de toda a sua vida, o desejo de abrir communicação com os brancos, passou ao sudoeste.» Mais adeante se lê: «Sebituane (Xabitane?) formou o designo de descer o Zambeze até ás terras dos homens brancos. Tinha a idéa fixa, que não sei d'onde lhe viera, de que, se possuisse uma peça de artilharia, lhe seria possivel viver em paz. Sebituane passara a vida na guerra, e todavia ninguem mostrava desejar a paz tanto como elle. Um propheta o persuadiu a voltar de novo para oeste. Aquelle homem, por nome Tlapano, era chamado «Senoga», isto é, que trata com deuses... Tlapano apontando para o oriente, exclamou: Alli, Sebituane, vejo fogo: evita-o: é fogo que pode abrazar-te. Os deuses dizem que não vas alli.» Voltando-se para o oeste, exclamou: «Vejo uma cidade e uma nação de homens negros, homens da agua: o seu gado é vermelho: a tua tribu está a acabar, e toda será destruida: tu has de governar os homens negros, e depois que os teus guerreiros tiverem captivado o gado vermelho, não consintas que os donos d'elle sejam mortos. São elles a tua futura tribu, elles hão de formar a tua cidade. Sejam poupados, para que te obriguem a edifical-a. E tu, Ramosini, sabe que a tua aldêa será totalmente arruinada. Se Mokari se apartar d'aquella aldêa elle perecerá primeiro, e tu, Ramosini, perecerás ao depois.» Com respeito a si proprio accrescentou. «Os deuses foram causa de que outros homens tivessem agua para beber; porém a mim só me concederam a pessima bebida do chakuru (rhinoceros.) Chamam-me para si. Não posso demorar-me mais.»

«Conta o Dr. Livingstone que, tendo-se dirigido de Naliele a Sesheke (deve ser de Rinhande), cento e trinta milhas ao nordeste, e descoberto o Zambeze no centro do continente, e visitado o paiz limitrophe, fôra procurado, e o seu companheiro Oswell, por muitos individuos, que trajavam baetas de differentes cores, e um d'elles algodão pintado; e nos informa de que taes mercadorias eram obtidas por via dos Mambari, que demoram nas proximidades do Bihé, os quaes as tinham trocado por creanças de ambos os sexos. Accrescenta que, em 1851, se realisara um rasgate de duzentos rapazes de 13 a 14 annos de idade por espingardas portuguezas, as quaes tinham a marca de Ligitimo de Braga. Ora os Mambari eram, por assim dizer, commorcãos do Bihé, e estavam em intimas relações com os portuguezes, com quem traficavam em escravatura, e de quem eram corretores, e a quem, como é sabido, e, como veremos, attesta o mesmo Dr. Livingstone, acompanhavam nas suas excursões commerciaes pelo interior de todas aquellas regiões. Não póde pois deixar de ter-se por certo, porque se torna incrivel o contrario, que tinham dado os Mambari largas noticias do Zambeze central.»

«Quando os Mambari (narra Livingstone) divulgaram entre os seus, em 1850, noticias favoraveis do novo mercado, aberto no Oeste, muitos mulatos portuguezes, dados ao commercio da escravatura, foram induzidos a ir alli em 1853; e um, que similhava perfeitamente um portuguez, chegou a Liniante (Rinhande?) emquanto eu alli estava. Este homem não trazia mercadorias, e affirmava ter vindo unicamente com o fim de indagar que sorte de fazendas teriam sahida no mercado. Pareceu-me muito transtornado com a minha presença. Sekeletu (Hiquereto?), deu-lhe de mimo um dente de elephante e um boi, e, tendo-se (o portuguez) encaminhado a distancia de perto de cincoenta milhas a Oeste, levou comsigo uma aldeia inteira de Bakalahari (Bacalaliari?) pertencente ao Makololo (Macorrolos?). Trazia comsigo grande numero de escravos armados; e como todos os habitantes da aldeia, homens, mulheres e creanças foram levados, e o facto ficou ignorado até muito tempo depois, não se sabe se elle realizou o seu intento por meio da força, ou se mediante seductoras promessas. Em todo o caso a escravidão foi a sua sorte. O portuguez era conduzido n'uma maca, dependurada de duas varas, de modo que tendo a configuração de um sacco, os Makololo, o nomeavam «o pae-do-sacco.»

«Mpepe (Pepe?) favorecia estes commerciantes de escravos, e elles, segundo o seu costume, fundavam as esperanças de se tornarem preponderantes no bom resultado da rebellião meditada. Conheceram que o apparecer eu em scena havia de pezar na balança contra os seus interesses. Um grande golpe de Mambari tinham vindo a Liniante (Rinhande), quando eu andava herborisando nos prados ao sul do Chobe (Rio Quando?). Chegando-lhes a noticia de eu estar alli proximo, mudaram de rosto; e quando alguns Makololo, que nos tinham ajudado a atravessar o rio voltaram com os chapéos que eu lhes dera, os Mambari fugiram precipitadamente. É do costume que os visitantes peçam licença com formalidade antes de se retirarem da terra do chefe onde se acham, porém a apparição dos chapéos fez que os Mambari enfardassem á pressa. Os Makololo informaram-se da causa da precipitada retirada, e lhes disseram que, se eu alli estivesse, lhes tomaria os escravos e as fazendas; e posto que Sekeletu lhes assegurasse que eu não era salteador, mas sim homem de paz, fugiram de noite, achando-me eu a sessenta milhas de distancia. Marcharam para o norte, sob a protecção de Mpepe, construíram uma forte estacada, d'onde alguns mulatos, commerciantes de escravos, capitaneados pelo portuguez nativo, continuaram no seu trafico, sem fazerem caso do chefe, em cujo territorio tinham feito incursão com a maior semceremonia.»
«Accresce que, n'outro logar Livingstone, referindo-se a este mesmo facto, accrescenta: Alguns Mambari nos visitaram quando estavamos em Naliele.» São da familia Ambonda (Quimbunda?) que habita o territorio ao sueste de Angola, e falla o dialecto bunda (Quimbundo?) commum aos Barosse, (Brose, Bruse?) Baicie, etc. São tão negros como Barosse, mas vive entre elles grande numero de mulatos, distinctos pela sua côr peculiar de amarello doente. Os mulatos, os portuguezes nativos, todos sabem lêr, e escrever, e o cabeça do bando, se realmente não é portuguez, tem o cabello europeu, e obrigado provavelmente pela carta de recommendação do cavalleiro Duprat, arbitro por parte do governo de S. M. F. na commissão mixta ingleza e portugueza na cidade do Cabo, mostrou-se sinceramente desejoso de apresentar-me todos os bons officios ao seu alcançe. Estas pessoas, estou certo, foram os primeiros individuos de sangue portuguez, que viram o Zambeze no centro do paiz, e chegaram lá dois annos depois da nossa descoberta em 1851.»

Mr. Oswell e eu nos dirigimos para Sesheh (Quiceque?) a cento e trinta milhas ao Nordeste, e, no fim de junho de 1851, fomos recompensados das nossas fadigas com o descobrimento do Zambeze no interior do continente. Isto era de grande momento, porque d'antes não se sabia que existisse alli aquelle rio. Os mappas portuguezes todos o representam como tendo origem muito mais a Éste do lado onde nos achavamos, e se em algum tempo tivesse existido coisa que semelhasse uma serie de postos commerciaes atravez do paiz, entre as latitudes 12.° e 18.° Sul, esta magnifica porção d'aquelle rio devia ter sido conhecida. Nós o vimos no fim da estação estiva, tempo em que o rio está mais diminuido, e comtudo levava então corrente de agua profunda na largura de tresentas a seis centas jardas. Mr. Oswell declarou que nunca vira rio tão formoso (que não tem em tal logar formosura, visto ser despido de arvoredo), nem mesmo na sua India. No tempo da sua inundação annual eleva-se perpendicularmente vinte pés e alaga quinze ou vinte milhas de terras adjacentes ás suas margens.»

«Fallando do reino de Matiamvo, e do desejo que tivera de visitar este potentado, diz o dr. Livingstone: Que lhe asseguram, assim os commerciantes indigenas, como os naturaes de Balonda (Calundas?) que um braço consideravel do Zambeze, corre no territorio a leste da capital, e caminha ao sul. «Todo este braço (accrescenta o dr. Livingstone) incluindo o ponto, d'onde toma a oeste, para Masiko (Machico?) está assignalado no mappa (d'elle Livingstone) provavelmente em demasia ao nascente. Foi assim marcado quando eu pensava que o Matiamvo e Cazembe ficavam mais a leste do que tive ao depois motivo para julgar. Sendo todas estas indicações derivadas do testemunho dos indigenas, eu as dou com desconfiança, e como carecendo de ser verificadas por novos exploradores.

«Expondo a extranheza que lhe causou o phenomeno de um rio correndo em duas direcções oppostas, nota o dr. Livingstone que não advertira, quando tinha atravessado o Lotembua, qual direcção toma a corrente d'este rio; mas que, tendo feito reparo, ao achar-se da outra banda do lago Dilolo, de que seguia para o sul, presumiu que nascia no grande paúl, que observara indo para o nordeste, e continuava correndo para o meio dia; porém que chegando á margem meridional, ali o informaram de que a parte do rio, que tinha acabado de atravessar, caminha ao norte, e não desagua no lago Dilolo, mas sim no rio Kasai. Posto que eu não observei a corrente (adverte Livingstone) de nenhuma sorte duvido de que seja exacta a asserção, que aliás me foi confirmada, nem de que, por conseguinte, o lago Dilolo sirva de reservatorio commum dos rios que vão correndo uns para o nascente, outros para o poente.»

«Eis aqui as palavras do homem tão competente, como insuspeito a que me referi, fallo de mr. V. A. Malte-Brum, que dando noticia do mappa de Zambezia e Sofalla do sr. visconde (hoje marquez) de Sá da Bandeira, que vae publicado no fim d'este volume (do exame) assim se explica. «[A carta] que temos á vista comprehende a parte da Africa Austral, que se estende do 10.º ao 24.º grao de latitude meridional, e do 25.º ao 41.º gráo de longitude oriental do meridiano de Greenwich.
O mappa representa o curso do Zambeze desde Seshek, capital dos Makololos, até á foz do rio, e tem por objecto fazer conhecido, qual é sobre as suas duas margens, e no interior do continente africano austral, os estados dos conhecimentos e dos dominios portuguezes.
Não ha duvida em que, por esta costa oriental da Africa, os portuguezes hajam ha muito penetrado muito mais ávante do que nenhuma nação europea; mas tambem nada mais certo do que, quer fosse por motivos politicos, quer fosse por indifferença [relativamente] aos interesses scientificos, haver-se guardado silencio ácerca de descobertas que só o engodo commercial tinha provocado. Hoje os portuguezes parece que soffrem o castigo d'este silencio premeditado; silencio que deu naturalmente occasião ao esquecimento; e comtudo elles reclamam a prioridade das descobertas feitas pelo reverendo David Livingstone sobre as margens do Chire e do Nhanja... O mappa permitte que se faça idéa exacta da extensão que tinha adquerido o dominio portuguez sobre a costa de Sofalla, e sobre as margens do Zambeze, e contem indicações uteis, que debalde se procurariam n'outra parte.»

«Procurando certificar-me se por ventura Santura (Sanduro?) tinha sido visitado em algum tempo por homens brancos, não pude achar vestigios de tal visita: não existe prova de que alguem da tribu de Santura tivesse visto um homem branco antes da minha chegada e de Mr. Oswell em 1851. Aquelles povos não tem, é certo, recordações escriptas; porém os acontecimentos notaveis são commemorados por nomes, como Parke observou ser costume nas terras por onde viajara. O anno da minha chegada foi honrado com o nome do anno em que chegou o homem branco. Depois da primeira visita de minha mulher muitas creanças tiveram o nome de Ma-Roberto (applicado á mãe e não ao filho, synonimo das primeiras lettras; depois do traço é o nome do filho. A tribu Quimbunda serve-se das lettras Ma, para designar Mãe) ou mãe de Roberto, nome do seu filho mais velho, outros tiveram o nome de Espingarda, Wagon, Monare, Jesus, etc, porém posto que os nossos nomes e os dos nativos portuguezes, que vieram em 1853, foram adoptados, não ha vestigio de que tivesse logar cousa semelhante mais cedo entre os Barotse: a visita do homem branco é acontecimento tão notavel, que, se tivesse occorrido durante os ultimos cem annos, devia ter d'ella ficado tradição.»
«É muito para notar esta insistencia do dr. Livingstone em que não eram os portuguezes conhecidos dos Barotse. Esta demasiada insistencia faz desde logo nascer suspeitas no animo do leitor desprevenido, e mórmente se porventura está familiarisado com a maneira de escrever do celebre missionario: n'elle a insistencia longe de significar segurança, quasi sempre indica hesitação, e não acontecerá agora o mesmo? Examinemos.»
«Em uma nota ao logar citado diz o dr. Livingstone: «Os Barotse dão a si o nome de Buloiana, ou pequenos Baloi, como procedendo do Loi ou Lui, segundo a commum pronunciação. Lui tem sido visitado pelos portuguezes, porém como a posição de Lui não está bem fixada, voltaram-se as minhas indagações para verificar se porventura era a mesma que a de Naliele. Perguntando ao cabo dos Mambari, chamado Porto, se tinha ouvido dizer que Naliele tivesse anteriormente sido visitada, respondeu negativamente, e declarou «que por tres vezes tentara elle ir alli do Bihé, porém que sempre lhe tolhêra o intento a tribu dos Ganguellas.» Elle quasi o conseguiu em 1852, porém foi repellido. Agora (1853) tentou ir ao nascente de Naliele, mas retrocedeu para Barotse, não podendo ir além de Kamko, povoação situada junto ao rio Bashukulompo, a oito dias de distancia. A gente de Porto desejava com ardor obter a recompensa promettida pelo governo portuguez. O não ter sido elle bem succedido, confirmou-me na intenção de ir para Oeste. Porto benevolamente se offereceu a acompanhar-me, querendo eu ir com elle ao Bihé, porém, não acceitando eu, precedeu-me a Loanda, e, estava publicando o Diario da sua viagem, quando cheguei áquella cidade. Ben-Habibe contou-me que Porto tinha remettido cartas para Moçambique pelo arabe Ben-Chombo, que eu conheci; e depois assegurou, em Portugal, que elle mesmo fôra a Moçambique com as suas cartas.»

«Por occasião de encarecer a affeição dos Bechuanas aos filhos, quando estes ainda em tenra edade, diz o dr. Livingstone: «Tive conhecimento de varios casos de avós que amamentaram os netos. Masina de Kuruman não tinha tornado a ter filhos desde o nascimento de sua filha Sina, e não tinha leite depois que Sina fora desmamada, o que costuma ter logar quando a creança tem dois ou tres annos de edade. Sina casou quando contava dezesete ou dezoito annos, e teve dois gemeos. Masina, decorrido o intervallo pelo menos de quinze annos desde que amamentara o ultimo filho, pegou de uma das creanças e a poz ao peito, e o leite correu em tal abundancia, que ella poude só por si alimental-a. Masina contava então pelo menos quarenta annos.»

«As aldéas dos Barotse são construidas sobre defezas, algumas das quaes dizem que foram elevadas [artificialmente] por Santuru, antigo chefe dos Barotse, e, durante a inundação, todo o valle toma a apparencia de um grande lago, com as aldêas sobre as defezas como ilhas, do mesmo modo que succede no Egypto com as aldêas dos egypcios.»

«Terça feira 17 de janeiro (1854) fomos honrados (narra Livingstone) com uma grande recepção por Shinto. Sambanza reclamou a honra de nos apresentar, porque Manenko se achou um tanto doente. Os portuguezes nativos e os Mambari iam armados de espingardas a fim de darem uma salva a Shinto, fazendo o tambor e o trombeteiro todo o ruido que lhes era possivel com instrumentos muito velhos. O Kotta, ou logar da audiencia era uma praça de perto de cem jardas, e viam-se em uma das extremidades dois agradaveis specimens de uma especie de Baniána, (arvore, cujos ramos pendem para a terra, e, tomando n'ella raiz, engrossam e formam novos troncos, etc., «Eçandeira, ou ulemba dos Quimbundos; existem seis especies.») Debaixo de uma d'ellas estava assentado Shinto, sobre uma especie de throno, coberto com uma pelle de leopardo; trajava com véstia variegada, saiote de baeta vermelha agaloada de verde, pendiam-lhe do pescoço muitos fios de contas grossas, e os braços e as pernas enfeitadas de braceletes e varios ornamentos de ferro e de cobre, na cabeça tinha posto uma sorte de capacete feito de contas de vidro entretecidas com primor, e coroado de grande penacho de pennas de pato. Proximo a elle estavam assentados tres mancebos com grandes feixes de settas sobre os hombros, etc.»

O dr. Livingstone censura Manuel Caetano Pereira de ter exagerado egualmente o seu poder. «Indagando eu, escreve Livingstone, se ainda se faziam sacrificios humanos no reino de Cazembe, como no tempo de Pereira, informaram-me que taes sacrificios nunca tinham sido tão communs como Pereira os representara, e que só tinham logar occasionalmente, quando o chefe carecia de certos encantamentos, porque então era morto um homem por serem para aquelle precizas algumas partes do seu corpo.» N'outro logar accrescenta: «O Cazembe além de ser visitado por Lacerda, tambem o foi por Pereira, que deu do poder d'aquelle chefe grandiosa informação, a qual não foi confirmada pelas minhas investigações».

A situação do Bihé não é bem conhecida. Estando nós em Sanza, asseveraram-nos, que demora ao sul d'aquelle ponto, a oito dias de distancia. Esta noticia pareceu confirmar-se pelo facto de encontrar-nos muita gente, que vinha do Bihé para o Matianvo (Sobre este ponto consulte o Diario de Joaquim Rodrigues á sahida do Bihé) e para Loanda. Toda esta gente veiu reunida até Sanza, e alli se separou, tomando uns para o nascente, e outros para oeste. A nascente do Coanza por conseguinte não fica provavelmente longe do Bihé.»

«Chegado ao rio Loembua, no proseguimento da marcha começada, refere o dr. Livingstone, que a presença de um homem branco infundio terror nas mulheres, e que, n'estes casos, pareciam muito contentes quando elle dr. Livingstone acabava de passar sem se ter apoderado d'ellas; que o espreitavam das fendas das portas, atê que elle se approximava, e então se recolhiam fugindo para o interior da casa.»

«Como d'este ponto (do Zambeze interior) deviamos separar-nos para o nordeste, resolvi-me a visitar na seguinte manhã a catarata Victoria, chamada pelos [indigenas] Mosioatunia, e mais antigamente Shonguê (Chungo?) Tinha-mos ouvido fallar d'ella desde que entramos n'estas terras, e uma das perguntas que me fez Sebituane foi «Tendes na vossa terra fumo que faça estampido? Elles (os indigenas) não se atrevem a approximar-se tão perto que possam examinal-a; porém, referindo-se ao vapor e ao estrondo «Mosi-va-tunia» o fumo alli estrondea. Outr'ora a catarata chamava-se Shonguê, mas nunca pude saber a razão de lhe darem este nome. A palavra que entre elles designa a vasilha de cozer a comida tem similhança com aquella, e acaso quereriam significar uma caldeira a ferver, comtudo não tenho certeza d'isto. Persuadido de que Mr. Oswell e eu fomos os primeiros europeus, que visitámos o Zambeze no interior do paiz, e de ser esta catarata o annel que prende as duas porções, conhecidas e desconhecidas, d'aquelle rio, decedi-me a usar da mesma liberdade com que se auctorisaram os Makololo, e lhe dei aquelle nome inglez, sendo esta a só occasião em que appliquei um nome da minha nação a alguma parte das terras que investiguei...»

«N'outro logar conta Livingstone que, achando-se na tribu de Mpende, cujo chefe lhe difficultára o passo, dous velhos vieram, de ordem d'este, perguntar-lhe quem era. E que lhes respondera. «Sou inglez.» A isto replicaram os velhos que não conheciam aquella tribu, e que suppunham que elle e os seus eram Muzungos (portuguezes) com os quaes n'outro tempo haviam combatido. «Então (accrescenta Livingstone) como eu ainda não sabia que a palavra Muzungo era applicada aos portuguezes, e pensei que queriam com ella designar os mulatos, mostrei-lhes o meu cabello e a pelle do meu peito, e perguntei se os Muzungos tinham o cabello e a pelle como eu? Como os portuguezes costumam cortar o cabello rente, e são além d'isso menos claros de que nós, os velhos responderam. «Não, nós nunca vimos pelle como essa tão branca.» E continuaram «Ah! vós decerto pertenceis á tribu que tem coração para os homens pretos.» Eu com satisfação lhe respondi que sim, etc.»

Fim


Manuel de Almeida e Vasconcellos.

Para V. Ex.cia ver.

Por Despacho de S. Ex.a de 11 de Maio de 1791.

Reg.da af. 39 do L.o 25 de Patentes e af. 41 do L.o 5.º dos Postos para fora fica assentada a sua Praça.

Thesouraria Geral das Tropas 12 de Maio de 1791

Manuel Pinto Delgado

Cumpra-se e registe-se.
Q.el de Benguella 25 de maio de 1791.

Francisco Paym da Camara e Ornellas

Reg.da af do L.o 21 de Patentes que deve n'esta Secretaria do Estado d'este Reino. São Paulo da Assumpção a 11 de Maio de 1791.

Joaquim José da Silva

Reg.da af. 111 do Registo Geral d'esta Capitania. Benguella 26 de julho de 1791.

Francisco Bermesso

Bihé 2 de março de 1869.

Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto