A INFANCIA.

A Mlle J. PICOT.

I.

Bello raio do sol da existencia,

Meninice fagueira e gentil,

Doce riso de pura innocencia

Sempre adorne teu rosto infantil.

Sempre tenhas, anginho innocente,

Quem se apresse a teus passos guiar,

E uma voz que o teu somno acalente,

E um sorriso no teu acordar.

Enlevada nos sonhos jucundos,

Voz etherea te venha fallar,

E visão d’outros céos, d’outros mundos,

Venha amiga tua alma encantar.


Leda infancia gentil! e quem não te ama?

Quem tão de pedra o coração não sente

Aos teus encantos meigos mais tranquillo?

Quem não sente memorias d’outras eras

Travarem-lhe da mente, ao recordar-se

Aquelle gozo puro e suavissimo

De vida, que jámais não tem logrado?

Recordações de um mundo adormecido

Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando,

Como harpejos de musica longinqua!

E a mente nos seus quadros embebida,

Por magica illusão enfeitiçada,

Como outr’ora, talvez sómente veja

Na terra—um chão de flôres estrellado,

E nos céos—outro chão de flôres vivas!

II.

Afagada e bem vinda e querida,

Travessuras scismando infantis,

Nos caminhos floridos da vida

Vai mimosa, imprudente e feliz!

É-lhe a vida continuo festejo,

Sonhos d’oiro só sabe sonhar,

Toda ella um afan, um desejo

D’outros jogos contente brincar.

Puro riso o semblante lhe adorna,

Logo pranto começa a verter,

E depois outro riso lhe torna,

E depois outro pranto a correr.


Tão perto jaz a fonte da amargura

Da fonte do prazer!—porêm tão doces

Essas lagrimas são!—tão abundantes,

Tão sem causa e sympathicas gotejão

N’uma tez de carmim, n’um rosto bello!

Quem a vê, que sorrindo as não enchuga?

Mas não todo consumas o thesouro

Unico e triste, que ao infeliz sobeja

Nas horas do soffrer; no tempo amargo,

No qual o rosto pallido se enruga,

E os olhos seccos, aridos chammejão,

Será talvez bem grato refrigerio

Uma lagrima só, em que arrancada

A força da afflicção dos seios d’alma.

Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida,

Como um rio entre flores, se deslisa

Macio, puro e recendendo aromas.

III.

Bello raio do sol da existencia,

Flôr da vida, mimosa e gentil,

Fonte pura de meiga innocencia,

Leve gozo da quadra infantil!

Quem fruir-te outra vez não deseja,

Quando vê sobre a veiga formosa

A menina travessa e ruidosa,

Borboleta, que alegre doudeja?

A menina é uma flôr de poesia,

Um composto de rosa e jasmim,

Um sorriso que Deos alumia,

Um amor de gentil serafim!


Folga e ri no começo da existencia,

Borboleta gentil! a flôr dos valles,

Da noite á viração abrindo o calix,

O puro orvalho da manhã te guarda;

Inda perfumes dá, que te embriagão,

Inda o sol quando aquece os vivos raios,

Nas azas multicores scintillando,

Com terno amor de pae, em torno esparge

Pó subtil de rubins e de safiras.

Folga e ri no começo da existencia,

Humano serafim, que esse perfume

São das azas do anjo, que s’impregnão

Dos aromas do céo, quando atear-se,

Roaz fogo de vida começando,

Quanto havemos de Deos consome e apaga.

IV.

Porêm tu, afagada e querida,

Com requebros donosos, gentis,

Vai contente caminho da vida,

Bello anginho, mimoso e feliz!

E do bardo a canção magoada,

Quando a possas um dia escutar,

Ha de ser como rota grinalda,

Que perfumes deixou de exhalar!

E esta mão talvez seja sem vida,

E este peito talvez sem calor,

E memoria apagada e sumida,

Talvez seja a do triste cantor!