A LEVIANA.

Souvent femme varie,

Bien fol est qui s’y fie.

FRANCISCO I.

Es engraçada e formosa

Como a rosa,

Como a rosa em mez d’Abril;

Es como a nuvem doirada

Deslisada,

Deslisada em céos d’anil.

Tu es vária e melindrosa,

Qual formosa

Borboleta n’um jardim,

Que as flores todas afaga,

E divaga

Em devaneio sem fim.

Es pura, como uma estrella

Doce e bella,

Que treme incerta no mar;

Mostras nos olhos tua alma

Terna e calma,

Como a luz d’almo luar.

Tuas formas tão donosas,

Tão airosas,

Formas da terra não são;

Pareces anjo formoso,

Vaporoso,

Vindo da etherea mansão.

Assim, beijar-te receio,

Contra o seio

Eu tremo de te apertar;

Pois me parece que um beijo

É sobejo

Para o teo corpo quebrar.

Mas não digas que es so minha!

Passa azinha

A vida, como a ventura,

Que te não vejão brincando,

E folgando

Sobre a minha sepultura.

Tal os sepulcros colora

Bella aurora

De fulgores radiante;

Tal a vaga maripôsa

Brinca e pousa

D’um cadaver no semblante.