A SAUDADE.
Saudade, ó bella flor, quando te faltem
Coração ou jardim, onde tu cresças;
Vem, vem ter commigo;
Deixa os que te não seguem,
Terás em peito amigo
Lagrimas, que te reguem,
Espaço, em que floresças.
Das pegadas da ausencia tu despontas,
Entre as memorias cresces do passado,
Quando um objecto amado
Quando um logar distante,
Noite e dia,
Nos enluta e apouquenta a fantasia.
Vem, ó Saudade, vem
A mim tambem
Consolar de gemidos suspirosos
E de partidos ais!
Oh! seja a punição dos insensiveis
Não te sentir jamais!
Propicia Deosa, e se não fosse a esperança,
Deosa melhor da vida; qu’insensato,
A quem mitigas turbidos pezares
Haverá tão ingrato
Que te não queime incenso em teos altares?
O presente o que é?—Breve momento
D’incommodo ou desgraça
Ou de prazer, que passa
Mais veloz que o ligeiro pensamento.
Véo escuro,
Que nem sempre a illusão nos adelgaça,
Nos encobre os caminhos do futuro.
O que nos resta pois?—Resta a saudade,
Que dos passados dias
De magoas e alegrias
Balsamo sancto extrahe consolador!
Resta a saudade, que alimenta a vida
Á luz do facho que adormenta a dôr!
Hera do coração, memoria delle,
Ó Saudade, ó rainha do passado,
Simelhas a romantica donzella
De roupas alvejantes
Nas ruinas de castello levantado:
Grinaldas fluctuantes,
Que das fendas brotarão,
Movem-se do nordeste
Ao sopro agudo e frio;
Em quanto vendo-o ao longe o senhorio,
De posses decahido,
D’invernos alquebrado,
Recorda triste os annos que passarão!
Em que plagas inhospitas e duras
Não me tens sido companheira e amiga?
Em que hora, em que instante
De folga ou de fadiga
Já deixei de sentir o penetrante
Espinho teo, a repassar-me todo
D’um prazer melancholico e suave?
Pois nasces nos desertos da tristeza,
Ó Saudade, ó rainha do passado!
Quando te falte gleba, onde tu cresças,
Vem, vem ter commigo;
Deixa os que te não seguem,
Terás em peito amigo
Lagrimas, que te reguem,
Espaço, em que floresças!
Entra em meo coração, occupa-o todo,
Fibra por fibra enlaça-te com elle,
Desce com elle á sepultura; e quando
Jazer eu na eternidade,
Minha flôr, minha saudade,
Tu procura a aura celeste,
Rompe a terra, transforma-te em cypreste,
Qu’enlute o meo jazigo;
E ao meneio das ramas funerarias,
Meo derradeiro amigo,
Descance morto quem viveo comtigo.