A SUA VOZ.

Por que ficasse a vida

Por o mundo em pedaços repartida.

CAMÕES CANÇ. X.

Ouvi-a! A sua voz me despertava

Tudo quanto de bom conservo n’alma.

Retratado o pudor no rosto,

E um suave dizer, um timbre doce

De voz, uma piedade extreme e sancta,

Que as mais profundas chagas animava,

D’ambrozia e de mel lhe ungia os labios.

Ouvi-a! A sua voz era mais branda,

Mais impressiva que o cantar das aves!

A aragem qu’entre flores se deslisa

E mal remeche a timida folhagem,

A veia de chrystal que triste sôa,

O saudoso arrulhar de mansas pombas,

As proprias notas d’um cantar longinquo

Ou de instrumento a conversar co’a noite,

Menos que a sua voz impressionavão!

Menos que a sua voz!—Os dois mais fortes,

Os dois mais puros sentimentos nossos

—A saudade e o amor,—as mais profundas

Das merencorias solidões da terra

—As florestas e o mar,—um scismar vago,

Um devaneio, uns extasis sem termo

D’alma perdida por um céo de amores,

Tanto como a sua voz não arroubavão!

Tanto como a sua voz!—somente o forão

Dulces notas de mysticos salterios

Té nós de um astro em outro repetidas.

Foi isto o que senti, quando a escutava,

Fluente, armoniosa, discorrendo

Em pratica singela, sobre assumptos

Diversos, sobre flores, menos bellas

Do que o seo rosto, e céos, como ella, puros.

Mas quem n’a ouvira conversar de amores

Trouxera n’alma como uma harpa eolia,

Dia e noite vibrando,

Como um cantar dos anjos

Do coração a estremecer-lhe as fibras!