A TARDE.
Ave Maria! blessed be the hour!
The time, the clime, the spot where I so oft
Have felt that moment in its fullest power
Sink o’er the earth so beautiful and soft....
BYRON.
Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores,
Mãe da meditação, meo doce encanto!
Os rogos da minha alma emfim ouviste,
E grato refrigerio vens trazer-lhe
No teo remansear prenhe de enlevos!
Em quanto de te ver gostão meos olhos,
Em quanto sinto a minha voz nos labios,
Em quanto a morte me não rouba á vida,
Um hymno em teo louvor minha alma exhale,
Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores!
I.
É bella a noite, quando grave estende
Sobre a terra dormente o negro manto
De brilhantes estrellas recamado;
Mas nessa escuridão, nesse silencio
Que ella comsigo traz, ha um quê de horrivel
Que espanta e desespera e geme n’alma;
Um quê de triste que nos lembra a morte!
No romper d’alva ha tanto amor, tal vida,
Ha tantas côres, brilhantismo e pompa,
Que fascina, que attrahe, que a amar convida;
Não pode supportal-a homem que soffre,
Orfãos de coração não podem vel-a.
Só tu, feliz, só tu, a todos prendes!
A mente, o coração, sentidos, olhos,
A ledice e a dôr, o pranto e o riso,
Folgão de te avistar;—são teos,—es d’elles.
Homem que sente dôr folga comtigo,
Homem que tem prazer folga de ver-te!
Comtigo sympathisão, porque es bella,
Qu’es mãe de merencorios pensamentos,
Entre os céos e a terra extasis doce,
Entre dôr e prazer celeste arroubo.
II.
A brisa que murmura na folhagem,
As aves que pipitão docemente,
A estrella que desponta, que rutila,
Com duvidosa luz ferindo os mares,
O sol que vai nas agoas sepultar-se
Tingindo o azul dos céos de branco e d’oiro;
Perfumes, murmurar, vapores, brisa,
Estrellas, céos e mar, e sol e terra,
Tudo existe comtigo, e tu es tudo.
III.
Homem que vive agro viver de côrte,
Indifferente olhar derrama a custo
Sobre os fulgores teos;—homem do mundo
Mal pode o desbotado pensamento
Revolver sobre o pó; mas nunca, oh nunca!
Ha de elevar-se a Deos, e nunca ha de elle
Na abobada celeste ir pendurar-se,
Como de rosea flôr pendente abelha.
Homem da natureza, esse contemple
De purpura tingir a luz que morre
As nuvens lá no occaso vacillantes!
Ha de vida melhor sentir no peito,
Sentir doce prazer sorrir-lhe n’alma,
E fonte de ternura inexgotavel
Do fundo coração brotar-lhe em ondas.
Hora do pôr do sol!—hora fagueira,
Qu’encerras tanto amor, tristeza tanta!
Quem ha que de te ver não sinta enlevos,
Quem ha na terra que não sinta as fibras
Todas do coração pulsar-lhe amigas,
Quando d’esse teo manto as pardas franjas
Sóltas, roçando a habitação dos homens?
Ha hi prazer tamanho que embriaga,
Ha hi prazer tão puro, que parece
Haver anjos dos céos com seos acordes
A misera existencia acalentado!
IV.
Socia do forasteiro, tu, saudade,
N’esta hora os teos espinhos mais pungentes
Cravas no coração do que anda errante.
Só elle, o peregrino, onde acolher-se,
Não tem tugurio seo, nem pae, nem ’sposa,
Ninguem que o espere com sorrir nos labios
E paz no coração,—ninguem que extranhe,
Que anceie afflicto de o não ver comsigo!
Cravas então, saudade, os teos espinhos;
E elles, tão pungentes, tão agudos,
Varando o coração de um lado a outro,
Nem trazem dôr, nem desespero incitão;
Mas remanso de dôr, mas um suave
Recordar do passado,—um quê de triste
Que ri ao coração, chamando aos olhos,
Tão espontaneo, tio fagueiro pranto,
Que não fora prazer não derramal-o.
E quem—ah tão feliz!—quem peregrino
Sobre a terra não foi? Quem sempre ha visto
Sereno e brando deslisar-se o fumo
Sobre o tecto dos seos; e sobre os cumes
Que os seos olhos hão visto á luz primeira
Crescer branca neblina que se enrola,
Como incenso que aos céos a terra envia?
Tão feliz! quando a morte involta em pranto
Com gelado suor lh’enerva os membros,
Procura inda outra mão co’a mão sem vida,
E o extremo scintillar dos olhos baços,
De um ente amado procurando os olhos,
Sem prazer, mas sem dôr, alli se apaga.
O exilado! esse não; tão só na vida,
Como no passamento ermo e sosinho,
Sente dôres crueis, torvos pezares
Do leito afflicto esvoaçar-lhe em torno,
Roçar-lhe o frio, o pallido semblante,
E o instante derradeiro amargurar-lhe.
Porém, no meo passar da vida á morte,
Possa co’a extrema luz d’estes meos olhos
Trocar ultimo adeos com os teos fulgores!
Ah! possa o teo alento perfumado,
Do que na terra estimo, docemente
Minha alma separar, e derramal-a
Como um vago perfume aos pés do Eterno.