A TEMPESTADE.
Fervescere faciet, quasi ollam,
profundum mare.
JOB 41, 42.
I.
De côr azul brilhante o espaço immenso
Cobre-se inteiro; o sol vivo luzindo
Do bosque a verde coma esmalta e doira,
E na corrente dardejando á prumo
Scintilla e fulge em laminas doiradas.
Tudo é luz, tudo vida, e tudo cores!
Nos céos um ponto só negreja escuro!
Eis que das partes, onde o sol se esconde,
Brilha um clarão fugaz pallido e breve:
Outro vem apoz elle, inda outro, muitos;
Succedem-se frequentes,—mais frequentes,
Assumem côr mais viva,—inda mais viva,
E em breve espaço conquistando os ares
Os horisontes co’o fulgir roxeião.
Qual mancha d’oleo em tela assetinada
Que os fios todos lhe repassa e embebe;
Ou qual abutre do palacio aereo
Tombando acinte,—no descer sem azas
Um ponto só,—até que em meia altura
Abrindo-as, paira magestoso e horrendo:
Assim o negro ponto avulta e cresce,
E a cupola dos céos de côr medonha
Tinge, e os céos alastra, e o espaço occupa.
A abobada de trevas fabricada
Descança em capiteis de fogo ardente!
De quando em quando o vento na floresta
Silva, ruge, e morre; e o vento ao longe
Rouqueja, e brama, e cava-se empolado,
E aos pincaros da rocha ennegrecida
De iroso e mal soffrido a espuma arroja!
Raivoso turbilhão comsigo arrastra
O argueiro, a folha em vortice espantoso;
No valle arranca a flôr, sacode os troncos,
Na serra abala a rocha, e move as pedras,
No mar os vagalhões incita e crusa.
II.
Os sons da tempestade ao longe escuto!
Concentra a natureza os seos esforços
Primeiro que entre em luta; não lampeja
Invio fogo nos céos; não sopra o vento:
É tudo escuridão, silencio e trevas!
Somente o mar de soluçar não cessa,
Nem de rugir as ramas buliçosas,
Nem de soar confuso borborinho,
Incompr’ensivel, como que sem causa,
Immenso como o echo de mil vozes
No céo de extensa gruta repulsando.
Silencio! perto vem a tempestade!
Gravidas nuvens de fataes coriscos,
Sem rumo, como náo em mar desfeito,
Em muda escuridão negros phantasmas,
Indistinctos, sem forma,—ondulão, jogão.
Logo poder occulto impelle as nuvens,
Attrahem-se os castellos tenebrosos,
Embatem-se nos ares,—brilha o raio,
E o ronco do trovão após rimbomba!
III.
Ruge e brame, sublime tempestade!
Desprende as azas do tufão que enfreias,
Despega os élos do veloz corisco
E as nuvens rasga em rubidas crateras.
Os fuzis da cadeia temerosa
Desfaz e quebra; e o espaço e as nuvens
Do teo açoite aos lategos bramindo,
Occupem de pavor os céos e a terra.
Ruge, e o teo poder mostra rugindo;
Que assim por teos influxos me commoves,
Que todo me electrisas e me arroubas!
Qual foi Mazeppa no veloz ginete
Por desertos, por syrtes arenosas
Jungido e preso e attonito levado;
Assim minha alma sobe e vai comtigo,
E vinga os teos palacios mais subidos,
Contempla os teos horrores, e dos astros
No prazer, que lhe dás, toda embebida,
Máo grado teo horror, folga comtigo!
Parece que alli tem a regia c’roa
Que o feliz condemnado achou na Ukraina.
Ruge, ruge embora, ó tempestade!
IV.
Emfim descendo a chuva copiosa
Nuvens, bulcões desfaz; os rios crescem,
De perolas a relva se matisa,
O céo de puro azul todo se arreia,
Sorri-se a natureza, e o sol rutila!
V.
Assim, meo Deos, assim será no dia
Do final julgamento, quando o anjo
Soprar a tromba que desfez os muros
De Jerichó soberba!
O mar sobrepujando os seos limites,
Com roncos temerosos, nunca ouvidos,
Virá para sorver, com furia brava,
Ilhas e continentes.
O sol, perdendo o brilho e a natureza,
Não luz, mas puro fogo, ha de accender-se,
Como o fogo sagrado, que se prende
Nas cortinas do templo.
Os orbes dos seos eixos desmontados,
No abysmo hão de cahir com grande estrondo,
E, redomas de vidro, hão de partir-se
Em pedaços sem conto.
Do abysmo as solidões hão de acordar-se!
Flammivomos vapores condensados,
Té nós, e alem de nós, hão de elevar-se
Em pavoroso incendio.
O ar ha de accender-se, a terra em fogo
Tornar-se, como o ferro ardendo em fragoa.
Coalhar-se o mar e em aspera seccura
Converterem-se as ondas.
E nesta confusão de fumo e chammas,
Neste cháos, que a mente mal alcança,
Quando nada existir de quanto existe,
Será vencida a morte.
Logo, á um só dizer do Omnipotente,
O pó segunda vez ha de animar-se,
E os mortos, mal soffrendo a luz da vida,
Attonitos, pasmados;
Hão de erguer-se na campa, inteiros, vivos,
E como Adão, a tatear os membros,
Estranhos a existencia já vivida,
Perguntarão: Quem somos?
Então, Senhor, então,—tu o disseste—
Virás cheio de gloria e magestade,
Em solio de luzeiros resplendente,
E em celeste cortejo!
Virás, sol da justiça, em fins do mundo
Acalmar a procella, e quando aos mortos
Disseres tu, quem es,—lembrar-nos-hemos,
Senhor, do que já fomos.
Feliz então quem só viveo comtigo,
Quem n’ancora da fé prendeu sua alma,
Quem só em ti fundou sua esperança,
Pequeno e humilde!
Feliz então quem tua lei guardando,
Seos passos graduou nos teos caminhos;
Quem dia e noite revolveo comsigo,
Como aplacar-te.