A UM MENINO.

OFFERECIDA Á EXma Sra D. M. L. L. V.

I.

Gentil, engraçado infante

Nos teos jogos inconstante,

Que tens tão bello semblante,

Que vives sempre a brincar,

—Dos teos brinquedos te esqueces

Á noitinha,—e te entristeces

Como a bonina,—e adormeces,

Adormeces a sonhar!

II.

Infante, serão as côres

De varias, viçosas flôres,

Ou são da aurora os fulgores

Que vem teos sonhos doirar?

Foi de algum ente celeste,

Que de luzeiros se veste,

Ou da brisa é que aprendeste,

Que aprendeste a suspirar?

III.

Tens no rosto afogueado

Um qual retrato acabado

De um sentir aventurado,

Que te ri no coração;

É talvez a voz mimosa

De uma fada caprichosa,

Que te promette amorosa

Algum brilhante condão!

IV.

Ou por ventura es contente,

Porque no sonho, que mente,

Phantasiaste innocente

Algum dos brinquedos teos!...

Senhor, tens bondade infinda!

Fizeste a aurora bem linda,

Creaste na vida ainda

Um’outra aurora dos céos.

V.

O som da corrente pura,

A folhagem que susurra,

Um accento de ternura,

De ternura divinal;

A indizivel harmonia

Dos astros no fim do dia,

A voz que Memnon dizia,

Que dizia matinal;

VI.

Nada d’isto tem o encanto,

Nada d’isto póde tanto

Como o risonho quebranto,

Divino—do seo dormir;

Que nada ha como a Donzella

Pensativa, doce e bella,

E a comparar-se com ella...

Só de um infante o sorrir.

VII.

Mas de repente chorando

Despertas do somno brando

Assustado e soluçando...

Foi uma revelação!

Esta vida acerba e dura

Por um dia de ventura

Dá-nos annos de amargura

E fragoas do coração.

VIII.

Só aquelle que da morte

Soffreo o terrivel córte,

Não tem dôres que supporte,

Nem sonhos o acordarão:

Gentil infante, engraçado,

Que vives tão sem cuidado,

Serás homem—mal peccado!

Findará teo sonho então.