A VILLA MALDICTA, CIDADE DE DEOS.
AO SEO QUERIDO E AFFECTUOSO AMIGO
A. T. DE CARVALHO LEAL.
Peccata peccavit Jerusalem, et propter
ea instabilis facta est; omnes qui glorificabant
eam, spreverunt illam, quia viderunt ignominiam
ejus; ipsa autem gemens conversa est retrorsum.
LAMENT.
I.
O immenso aposento a luz alaga
Com soberbo clarão,
E as mezas do banquete se devolvem
Pelo vasto salão;
E os instrumentos palpitantes sôão
Frenetica harmonia;
E o côro dos convivas se levanta
Pleno d’ebria alegria!
Alli se ostenta o nobre vicioso
Rebuçado em orgulho,—o rico infame,
Cheio de mesquinhez,—o envilecido,
Immundo pobre no seo manto involto
De miserias, torpeza e villanias;
—A prostituta que alardêa os vicios,
Menospresando a castidade e a honra,
Sem pejo, sem pudor, d’infamia eivada.
E o livre dithyrambo, a atroz blasphemia,
Os cantos immoraes, canções impudicas,
Gritos e orgia involta em negro manto
De fumo e vinho,—os ares aturdião;
E muito além, no meio d’alta noite,
Nos echos, ruas, praças rebatião.
II.
Depois, ainda suja a bocca, as faces,
D’immundo vomitar,
Com vacillante pé calcando a terra
Os viras levantar.
A larga porta despedia em turmas
A nocturna cohorte;
Ouviu-se depois por toda a parte
Gritos, horror de morte!
E ninguem vinha ao retinir de ferro,
Que assassinava;
Porque era d’um valente o punhal nobre,
Que as leis dictava.
Outra vez a cahir se emmaranhavão
Da porta pelo umbral:
Tinhão tinctas de sangue a face, as vestes,
Em sangue tincto o punhal.
E vinha o sol manifestar horrores
Da noite derradeira;
E a morte vária revelava a furia
Da turba carniceira.
E o sacrilego padre só vendia
O tum’lo por dinheiro;
Vendia a terra aos mortos insepultos,
O vil interesseiro!
Ou lá ficavão, como pasto aos corvos,
Por sobre a terra núa;
E ninguem de tal sorte se pesava,
Que ser podia a sua!
«E Deos maldisse a terra criminosa,
«Maldisse aos homens della,
«Maldisse a cobardia dos escravos
«D’essa terra tão bella.»
III.
E a mortifera peste luctuosa
Do inferno rebentou,
E nas azas dos ventos pavorosa
Sobre todos passou.
E o mancebo que via esperançoso
Longa vida futura,
Doido sentio quebrar-lhe as esperanças
Pedra de sepultura.
E a donzella tão linda que vivia
Confiada no amor,
Entre os braços da mãi provou bem cedo
Da morte o dissabor.
E o tremulo ancião qu’inda esperava
Morrer assim
Como um fructo maduro destacado
D’arvore emfim,
Sentio a morte esvoaçar-lhe em torno,
Como um bulcão,
Que affronta o nauta quando avista a terra
Da salvação.
Era deserta a villa, a casa, o templo—
Ar de morte soprou!
Mas a casa dos vis nos seos delirios
Ebria continuou!
«E Deos maldisse a terra criminosa,
«Maldisse os homens d’ella,
«Maldisse a cobardia dos escravos
«Dessa terra tão bella.»
IV.
Eis o aço da guerra lampeja,
Do fogoso corsel o nitrido,
Eis o bronzeo canhão que rouqueja,
Eis da morte represso o gemido.
Já se aprestão guerreiros luzentes,
Já se enfreião corseis bellicosos,
Já mancebos se partem contentes,
Augurando a victoria briosos.
Brilha a raiva nos olhos;—nas faces
O interno rancor pódes ler;
Eia, avante!—clamarão os bravos,
Eia, avante!—ou vencer ou morrer!
Eia, avante!—briosos corramos
Na peleja o imigo bater;
Crua morte na espada levamos!
Eia, avante!—ou vencer ou morrer!
Eis o aço da guerra lampeja,
Do corsel bellicoso o nitrido,
Eis o bronzeo canhão que rouqueja
E da morte represso o gemido.
V.
E a selva vomitou homens sem conto
A voz do omnipotente,
Como a neve hibernal que o sol derrete,
Engrossando a corrente.
E em redor d’essa villa se estreitarão,
Cingidos d’armadura;
E a villa se doeo no intimo seio
De tão acre amargura.
Mas os fortes bradarão:—Eia, avante!—
Promptos a batalhar;
Mas o braço e valor ante os imigos
Se vierão quebrar.
E um anno inteiro sem cessar lutarão,
Cheios de bizarria,
Como dois crocodilos que brigassem
D’um rio a primazia!
E renderão-se emfim, mas de famintos,
De sequiosos;
Valentes lidadores forão elles,
Se não briosos.
VI.
E o exercito contrario entra rugindo
Na villa, que as suas portas lhe franqueia:
Rasteiro corre o incendio e surdamente
O custoso edificio ataca e mina.
Eis que a chamma roaz amostra as fendas
Das portas que se abrasão; descortina
O torvo olhar do vencedor—apenas—
Lá dentro o incendio só, fóra só trevas!
Urros de frenesi, de dôr, de raiva
Escutão dos que, ás subitas colhidos,
Contra os muros em brasa se arremeção;
Dos que, perdido o tino, intentão loucos
Achar a salvação, e a morte encontrão.
Lá dentro confusão, silencio fóra!
São carrascos aqui, victimas dentro.
Geme o travejamento, estrala a pedra,
Cresce horror sobre horror, desaba o tecto,
E o fumo ennegrecido se ennovella
Co’o vertice sublime os céos roçando.
Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens,
Como ignea columna que da terra
Hiante rebentasse,—tal se eleva,
Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce
A labareda portentosa; e baixa,
E desce á terra, e o edificio enrola,
E o sorve inteiro, qual se forão vagas
Que a dura rocha do alicerce abalão,
Que a enlação, como a prêa,—e ao fundo pégo
Levão, deixando o mar branco d’espuma.
No horror da noite, sibilando os ventos,
Lingoas pyramidaes do atroz incendio,
Fumosas pelas ruas estalando,
Tingem da côr do inferno a côr da noite,
Tingem da côr do sangue a côr do inferno!
—O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.
VII.
E aquelles que inda sãos e immunes erão,
Os que a peste engeitou,
Que fome e sede e privações soffrerão...
A espada decepou.
E a donzella tremeo, da mãi nos braços
Não salva ainda,
Que incitava os prazeres do soldado
A face linda.
E o fido amante, que de a ver tão bella
Sentio prazer,
Sente martyrios por que a vê formosa
No seo morrer.
Coisa alguma escapou!—Já tudo é cinzas,
Tudo destruição:
A columna, o palacio, a casa, o templo,
O templo da oração!
Meninos, homens e mulheres,—todos
Já rojão sobre o pó;
Mas o Deos, o Deos bom já está vingado,
Por ella já sente dó.
E a villa d’outr’ora mais ruidosa,
Lá resurgio cidade;
Por que o Deos da justiça, o das armadas,
O Deos é de bondade.
QUADRAS DA MINHA VIDA.
RECORDAÇÃO E DESEJO.
AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.
Sol chi non lascia eredità d’affetti
Poca gioia ha dell’urna.
FOSCOLO.
I.
Houve tempo em que os meos olhos
Gostavão do sol brilhante,
E do negro véo da noite,
E da aurora scintillante.
Gostavão da branca nuvem
Em céo de azul espraiada,
Do terno gemer da fonte
Sobre pedras despenhada.
Gostavão das vivas côres
De bella flôr vicejante,
E da voz immensa e forte
Do verde bosque ondeante.
Inteira a natureza me sorria!
A luz brilhante, o susurrar da brisa,
O verde bosque, o rosicler d’aurora,
Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra,
D’esperança e d’amor minha alma ardente,
De luz e de calor meu peito enchião.
Inteira a natureza parecia
Meos mais fundos, mais intimos desejos
Perscrutar e cumprir;—almo sorriso
Parecia enfeitar co’os seos encantos,
Com todo o seo amor compor, doiral-o,
Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no,
Porque minha alma de o sentir folgasse.
Oh! quadra tão feliz!—Se ouvia a brisa
Nas folhas susurrando, o som das agoas,
Dos bosques o rugir;—se os desejava,
—O bosque, a brisa, a folha, o trepidante
Das agoas murmurar prestes ouvia.
Se o sol doirava os céos, se a lua casta,
Se as timidas estrellas scintillavão,
Se a flôr desabrochava involta em musgo,
—Era a flôr que eu amava,—erão estrellas
Meos amores sómente, o sol brilhante,
A lua merencoria—os meos amores!
Oh! quadra tão feliz!—doce harmonia,
Acordo extreme de vontade e força,
Que atava minha vida á natureza!
Ella era para mim bem como a esposa
Recem-casada, pudica sorrindo;
Alma de noiva—coração de virgem,
Que a minha vida inteira abrilhantava!
Quando um desejo me brotava n’alma.
Ella o desejo meo satisfazia;
E o quer que ella fizesse ou me dissesse,
Esse era o meo desejo, essa a voz minha,
Esse era o meo sentir do fundo d’alma,
Expresso pela voz que eu mais amava.
II.
Agora a flôr que m’importa,
Ou a brisa perfumada,
Ou o som d’amiga fonte
Sobre pedras despenhada?
Que me importa a voz confusa
Do bosque verde-frondoso.
Que m’importa a branca lua,
Que m’importa o sol formoso?
Que m’importa a nova aurora,
Quando se pinta no céo;
Que m’importa a feia noite,
Quando desdobra o seo véo?
Estas scenas, que amei, já me não causão
Nem dôr e nem prazer!—Indifferente,
Minha alma um só desejo não concebe,
Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde
Do meo imaginar as puras azas
Cercear, desprender-lhe as niveas plumas,
Roja-las sobre o pó, calca-las tristes?
Perante a creação tão vasta e bella
Minha alma é como a flôr que pende murcha;
E qual profundo abysmo:—embalde estrellas
Brilhão no azul dos céos, embalde a noite
Estende sobre a terra o negro manto:
Não póde a luz chegar ao fundo abysmo,
Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face;
Não póde a luz á flôr prestar mais brilho,
Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!
III.
Houve tempo em que os meos olhos
Se extasiavão de ver
Agil donzella formosa
Por entre flôres correr.
Gostavão de um gesto brando,
Que revelasse pudor;
Gostavão de uns olhos negros,
Que rutilassem de amor.
E gostavão meus ouvidos
De uma voz—toda harmonia,—
Quer pesares exprimisse,
Quer exprimisse alegria.
Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem
Indolente ou fugaz—alegre ou triste,
Da vida a estreita senda desflorando
Com pé ligeiro e animo tranquillo;
Improvida e brilhante parecendo
Seos dias desfolhar, uns após outros,
Como folhas de rosa;—e no futuro—
Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora.
Era deleite e dôr vê-la tão leda
Do mundo as afflicções, angustias, prantos
Affrontar co’um sorriso; era um descanso
Interno e fundo, que sentia a mente,
Um quadro em que os meos olhos repousavão,
Ver tanta formosura e tal pureza
Em rosto de mulher com alma d’anjo!
IV.
Houve tempo em que os meos olhos
Gostavão de lindo infante,
Com a candura e sorriso
Que adorna infantil semblante.
Gostavão do grave aspecto
De magestoso ancião,
Tendo nos labios conselhos,
Tendo amor no coração.
Um representa a innocencia,
Outro a verdade sem véo;
Ambos tão puros, tão graves,
Ambos tão perto do céo!
Infante e velho!—principio e fim da vida!—
Um entra neste mundo, outro sae delle,
Gozando ambos da aurora;—um sobre a terra,
E o outro lá nos céos.—O Deos, que é grande,
Do pobre velho compensando as dôres,
O chama para si; o Deos clemente
Sobre a innocencia de continuo vela.
Amei do velho o magestoso aspecto,
Amei o infante que não tem segredos,
Nem cobre o coração co’os folhos d’alma.
Amei as doces vozes da innocencia,
A rispida franqueza amei do velho,
E as rigidas verdades mal sabidas.
Só por labios senis pronunciadas.
V.
Houve tempo, em que possivel
Eu julguei no mundo achar
Dois amigos extremosos,
Dois irmãos do meu pensar;
Amigos que compr’hendessem
Meo prazer e minha dôr,
Dos meos labios o sorriso,
Da minha alma o dissabor;
Amigos, cuja existencia
Vivesse eu co’o meo viver:
Unidos sempre na vida,
Unidos—té no morrer.
Amizade!—união, virtude, encanto—
Consorcio do querer, de força e d’alma—
Dos grandes sentimentos cá da terra
Talvez o mais reciproco, o mais fundo!
Quem ha que diga: Eu sou feliz!—se acaso
Um amigo lhe falta?—um doce amigo,
Que sinta o seo prazer como elle o sente,
Que soffra a sua dôr como elle a soffre?
Quando a ventura lhes sorri na vida,
Um a par d’outro—ei-los lá vão felizes;
Quando um sente afflicção, nos braços do outro
A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos,
Encontra doce alivio o desditoso
No thesouro que encerra um peito amigo.
Candido par de cysnes, vão roçando
A face azul do mar co’as niveas azas
Em deleite amoroso;—acalentados
Pelo sereno espreguiçar das ondas,
Aspirando perfumes mal sentidos,
Por vesperina arajem bafejados,
É jogo o seo viver;—porém se o vento
No frondoso arvoredo ruge ao longe,
Se o mar, batendo irado as ermas praias,
Crusadas vagas em novello enrola,
Com grito de terror o par candente
Sacode as niveas azas, bate-as,—fogem.
VI.
Houve tempo em que eu pedia
Uma mulher ao meo Deos,
Uma mulher que eu amasse,
Um dos bellos anjos seos.
Em que eu a Deos só pedia
Com fervorosa oração
Um amor sincero e fundo,
Um amor do coração.
Qu’eu sentisse um peito amante
Contra o meu peito bater,
Sómente um dia ... sómente!
E depois delle morrer.
Amei! e o meo amor foi vida insana!
Um ardente anhelar, cauterio vivo,
Posto no coração, a remorde-lo.
Não tinha uma harmonia a natureza
Comparada a sua voz; não tinha côres
Formosas como as della,—nem perfumes
Como esse puro odor qu’ella esparzia
D’angelica dureza.—Meos ouvidos
O feiticeiro som dos meigos labios
Ouvião com prazer; meos olhos vagos
De a ver não se cansavão; labios d’homens
Não poderão dizer como eu a amava!
E achei que o amor mentia, e que o meo anjo
Era apenas mulher! chorei! deixei-a!
E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo,
A sorte, boa ou má, levou-m’os longe,
Bem longe quando eu perto os carecia.
Conclui que a amizade era um phantasma,
Na velhice prudente—habito apenas,
No joven—doudejar; em mim lembrança;
Lembrança!—porém tal que a não trocára
Pelos gozos da terra,—meos prazeres
Forão só meos amigos,—meos amores
Hão de ser neste mundo elles sómente.
VII.
Houve tempo em que eu sentia
Grave e solemne afflicção,
Quando ouvia junto ao morto
Cantar-se a triste oração.
Quando ouvia o sino escuro
Em sons pesados dobrar,
E os cantos do sacerdote
Erguidos junto do altar.
Quando via sobre um corpo
A fria lousa cahir;
Silencio debaixo della,
Sonhos talvez—e dormir.
Feliz quem dorme sob a lousa amiga,
Tepida talvez com o pranto amargo
Dos olhos da afflicção;—se os mortos sentem,
Ou se almas tem amor aos seos despojos,
Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia,
E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos,
Hão de lembrar-se com prazer dos vivos,
Que chorão sobre a campa, onde já brota
O denso musgo, e já desponta a relva.
Lagem fria dos mortos! quem me dera
Gozar do teo descanço, ir asilar-me
Sob o teo sancto horror, e nessas trevas
Do bulicio do mundo ir esconder-me!
Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse
No teo silencio fundo asilo eterno!
Ahi não pulsa o coração, nem sente
Martyrios de viver quem já não vive.