AGAR NO DESERTO.

Et abiit, seditque e regione procul quantum potest arcus jacere: dixit enim: non videbo morientem puerum: et sedens contra, levavit vocem suam et flevit.

Genesis, Cap. 21, 16.

Pallido o rosto e queimado

Pelo sol do Egypto ardente,

Sahia a escrava innocente

Co’ o filho innocente ao lado

Da tenda patriarchal.

A pobresinha chorava!

Alguns pães e um frasco d’agoa

E um peito cheio de magoa!...

Vê, contempla, ó triste escrava,

Teo sepulchro no areal.

Abrahão se compadece;

Mas debalde o sollicita

Piedade sancta,—de afflicta

Sem queixar-se, lhe obedece

A triste escrava do amor.

Quizera talvez detel-a...

Porêm que?—Sarai lh’implora,

Deos lhe ordena:—vae-te embora,

Vae-te escrava; e a tua estrella

Te depare outro senhor.

O sol brilhante nascia

Sobre as tendas alvejantes;

E n’outros pontos distantes

Combros d’areia feria,

Outr’ora leito d’um mar;

Esse caminho procura,

Que nas ondas do deserto

Talvez ache por acerto

Patria, abrigo, amor, ventura

A prole infausta d’Agar.

Vae, caminha; mas ao passo

Que no deserto s’entranha,

Arde o sol com furia estranha,

Racha a areia o pé descalço,

Cresta o vento os labios seos;

E ao lado o filho innocente

Soltava tristes gemidos,

Co’os olhos humedecidos

Fitando a mãe ternamente,

Que os olhos tinha nos céos!

Procura terras do Egypto;

Porêm debalde as procura:

Vae a triste, sem ventura,

Lento o passo, o rosto afflicto,

Pela inculta Bersabé.

Seo Ismael desfallece;

No deserto immenso, adusto,

Não encherga um só arbusto:

Jehovah delles s’esquece!

Cresce a dôr, e mingua a fé.

Pede sombra o triste infante:

Não ha sombra,—agoa supplíca;

Exhaurido o vaso fica,

Pede mais d’instante a instante....

Pobre escrava, oh! quanto dó!

Podesses rasgar as veias,

Tomar agoas innocentes

Tuas lagrimas ardentes;

Mas só vês d’um lado areias,

D’outro lado areias só.

Pois não ha quem o proteja,

Diz a escrava lá comsigo,

Vendo o fado seu imigo,

Meu filho morrer não veja,

Bem qu’eu tenha de morrer.

A um tiro d’arco distante

Se arrasta com lento passo,

Tomba o corpo infermo e lasso,

E amargo pranto abundante

Deixa dos olhos correr.

Deos porêm ouvira a prece

Da escrava, da mãe coitada,

E da celeste morada

Librado um archanjo desce

Nas azas da compaixão.

Expira em torno ar de vida,

Um aroma deleitoso,

E n’um sonho aventuroso

Agar seus males olvida,

Olvida a sua afflicção.

Dorme e sonha, ó triste escrava,

Deos senhor sobre ti vela!

Dorme e sonha:—a tua estrella

Nasce como um romper d’alva

Sobre os netos d’Ismael.

Esquece a sorte mesquinha,

Que te vexa,—esquece tudo;

Deos senhor é teu escudo;

Já não es serva, es rainha

D’outro reino d’Israel.


Como quando elevados nas alturas

Descobrimos incognitas paisagens,

Densas florestas, aridas planuras

E de rios caudaes virentes margens;

Assim da vida o sonho te arrebata,

Rasgando o veo do tempo e do infinito,

E uma scena vistosa te retrata,

Que vai da Arabia ao portentoso Egypto.

Vê como o filho teu, feroz guerreiro,

Nos prainos do deserto eleva as tendas,

E, posto a seus irmãos sempre fronteiro,

Provoca e trama asperrimas contendas!

São doze os filhos—doze reis potentes—

Com elles Ismael tudo avassalla;

Sua espada é a lei das outras gentes,

Seus decretos os campos da batalha.

A sorte seus designios favoneia,

Segue seus passos a benção divina,

Povôa-se Faran, surge d’areia

De Meca o templo, os paços de Medina.

Crescem, dominão: largo reino ingente

Mesquinha habitação presta a seus netos,

Convertida em nação a grei potente,

Que opprime a cerviz mobil dos desertos.

Mas entre os filhos seus de nomeada,

Sup’rior dos heróes á grande altura,

Na sinistra o alkorão, na dextra a espada,

A effigie torva de Mahomet fulgura.

Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina

Á sua lei, da Persia o reino antigo;

Escutão Asia e Africa a doutrina

Do embusteiro que em Meca achou jazigo:

Mensageiro divino se declara

Aquelle que illudido o mundo adora;

Agar é mãe,—pela vergontea cara,

Entre orgulhosa e triste, a Deos implora.

Peccou; porêm da gloria que o circunda

A roxa luz, que o meteóro imita,

De vivo resplendor a fronte inunda,

Commove o peito a misera proscripta.

Curvado ao jugo seu todo o oriente,

Inda cubiça a Europa o Ismaelita;

E em frente á cruz, o pallido crescente

Apparece nas torres da mesquita.

Oh! quanto humano sangue derramado!

Que de prantos e lagrimas vertidas!

Entre irmãos o combate é porfiado,

A raiva intensa, as lutas mal feridas.

De avistar esse quadro tão medonho,

Embora no porvir todo escondido,

A escrava tenta orar; porêm no sonho

Resume a prece em languido gemido.

Geme de vêr em furia carniceira

A esposa de Mahomet desrespeitada,

E do seu genro a dynastia inteira

Por duro asar de guerra contrastada.

Succedem-se os Omiades valentes;

Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha

O sangue na mesquita: entre essas gentes

Vinga o punhal a sorte da batalha.

O vencedor então, não poucas vezes,

Chegando á bocca a taça corrompida,

Exp’rimenta os tristissimos revezes,

De quem sobre os tropheos exhala a vida!

Tudo é silencio e luto:—um só evita

O negro olvido,—ao templo da memoria

Vôa Al-Reschid,—unindo á gloria avita

O louro da sciencia e o da victoria.

Com seu vizir á noite, pelas ruas

Escuta dos estranhos mercadores

A gloria d’outros reis, menor que as suas,

E espreita do seu povo occultas dores!

Se ouviu a narração d’uma desgraça,

Se o pobre vê curvado a prepotencia,

Se o convidão a entrar, quando elle passa,

No abrigo do infortunio e da innocencia,

Entrou e viu! mas o fulgor crastino

Ri-se mais brando aos peitos soffredores;

Passa o rei, como orvalho matutino,

E, por onde passou, rescendem flores!

Mudado o sonho, a fugitiva escrava

Estranhos povos nota, estranhas terras,

Que o Darro ensopa e o Guadalete lava,

Nadando em sangue de cruentas guerras.


Quem foi que as altas portas

Abriu d’Hespanha aos mouros;

Que poz os verdes louros,

Dos reis godos conquista,

Ás plantas do infiel?

De tantos males causa

Tu foste, ó rei Rodrigo,

Tornando infesto, imigo,

O nobre conde, outr’ora

Vassallo teo fiel.

Debalde o affecto encobres

Do refalsado peito,

Se vais furtivo ao leito

Da virgem, que se mostra

Rebelde ao teo amor:

Qu’es godo e rei t’esqueces!

E o nobre resentido

Da offensa que ha soffrido,

No teu exemplo aprende

A ser tão bem traidor.

Em quanto pois devassas,

Com torpes pensamentos,

Os regios aposentos

Da nobre moça,—a c’rôa

Te cae da fronte ao chão;

E o pae, que a affronta punge,

Turbado, ardendo em ira,

Aos pés do mouro a atira.

O rei, que planta crimes,

Recolha vil traição.

Sus, ó rei, ás armas!

Empunha a larga espada,

E a fronte sombreada

Co’o negro elmo—deixa

Tingir-se em nobre pó:

D’encontro as alas densas

Do barbaro inimigo

Debalde, ó rei Rodrigo,

Te arrojas!—vence á força,

Foges vencido e só!

Vai só; mas occultando

No manto d’um soldado

O rosto demudado,

Emquanto passa o campo,

Escasso leito aos seos:

Ai! triste rei cahido!

Na solitaria ermida,

Que abriga a inutil vida,

No pó collada a fronte,

Lembra-te emfim de Deos.

Lembrem-te os muitos erros

E o crime grave, emquanto

As mães godas em pranto

O nome teu maldizem,

E ao céo clamando estão.

Emquanto pela Iberia

O arabe audaz e forte,

Espalha o susto, a morte,

Por onde quer que solta

Ao vento o seu pendão.

Passão avante, calcão

Dos Pyrenêos as serras,

Levando cruas guerras

Ao dilatado imperio

Do intrepido gaulez.

Debalde o grande Carlos

Oppõe-se-lhes,—que a historia

Nos traz inda á memoria

Dos tristes Roncesvalles

O misero revez.

Porêm do largo imperio

De Cordova e Granada

A c’rôa cahe pesada

Na fronte amollecida

Do moço Boabdil.

O fraco teme os echos

Ouvir da accesa guerra,

E perde a nobre terra

Ganhada em mil batalhas

Com pranto feminil.

Depois, inda outros quadros

Enxerga no futuro;

Mas é um ponto escuro,

São formas vagas, postas

Em duvidosa luz.

Já naves são, já hostes,

Tropel de varia gente,

Que parte do occidente,

Em cujos peitos brilha

De Christo a roxa cruz.

Agar emfim acorda!

Sustendo o filho caro,

Pelo deserto avaro

S’entranha novamente,

Mais solto o coração.

Parece que já sente

No rosto ao bello infante

A gloria radiante,

Que espera os descendentes

Da forte geração.

E como Deos lhe ha dito,

Seus filhos são guerreiros,

Que a seus irmãos fronteiros

Cruentos prelios movem:

Temidos são; porêm

As filhas desses bravos,

Da vida sequestradas,

Escravas são coitadas,

Que da materna origem

Recordão-se no Harem.


Vai, caminha, oh triste escrava,

Deos Senhor sobre ti vela;

Vai, caminha: a tua estrella

Nasce como um romper d’alva

Sobre os netos d’Ismael.

Esquece a sorte mesquinha

Que te vexa, esquece tudo,

Deos Senhor é teu escudo:

—Já não es serva, es rainha

D’outro reino d’Israel.