AOS PERNAMBUCANOS.

Salve, terra formosa, ó Pernambuco,

Veneza Americana, transportada

Boiante sobre as agoas!

Amigo genio te formou na Europa,

Genio melhor te despertou sorrindo

Á sombra dos coqueiros.

Salve, risonha terra! são teos montes

Arrelvados, innumeros teos valles,

Cujas veias são rios!

Doces teos prados, tuas varzeas ferteis,

Onde reluz o fructo sasonado

Entre o matiz das flores!

Outros, patria d’heroes, teos feitos cantem,

E a bella historia de colonia exaltem,

E os nomes forasteiros;

Não eu, que nada almejo senão ver-vos,

Tu e Olinda, ambas vós, co’os olhos longos,

Expraiados no mar!

Ambas vós, sobre tudo americanas,

Doces flores dos mares de Colombo,

Filhas do norte ardente!

Virgens irmãs, que vão de mãos travadas

Sorrirem d’innocencia á propria imagem,

Que luz em claro arroyo.

Andei, por vós somente, em vossas matas,

Colhendo agrestes flores na floresta,

Não respiradas nunca,

Singelas, como vós,—como vós, bellas,

Ennastrei-as em forma de grinalda

Fino, extremoso amante!

Não vivem muito as flores: são meos versos

Ephemeros como ellas; côr sem brilho,

Ou perfume apagado,

Ou trino fraco d’ave matutina,

Ou echo de um baixel que passa ao longe

Com descante saudoso.


TABYRA.
(POESIA AMERICANA.)

Les peaux rouges, plus nobles, mais plus infortunées
que les peaux noires, qui arriveront un jour á la
liberté par l’esclavage, n’ont d’autre recours que la
mort, parce que leur nature se refuse à la servitude.

* * *

I.

É Tabyra guerreiro valente,

Cumpre as partes de chefe e soldado;

É caudilho de tribu potente,

—Tobajaras—o povo senhor;

Ninguem mais observa o tratado,

Ninguem menos de p’rigos se aterra,

Ninguem corre aos acenos da guerra

Mais depressa que o bom lidador!

II.

Seo viver é batalha aturada,

Dos contrarios a traça aventando;

É dispor a cilada arriscada,

Onde o imigo se venha metter!

Levão noites com elle sonhando

Potiguares, que o virão de perto;

Potiguares, que assellão por certo

Que Tabyra só sabe vencer!

III.

Mil enganos lhe têm já tecido,

Mil ciladas lhe têm preparado;

Mas Tabyra, fatal, destemido,

Tem feitiço, ou encanto, ou condão!

Sempre o plano da guerra é frustrado,

Sempre bravo fronteiro apparece,

Que os enganos crueis lhes destece,

Face a face, arco e setas na mão.

IV.

Já dos Luzos o troço apoucado,

Paz firmando com elle traidora,

Dorme illeso na fé do tratado,

Que Tabyra é valente e leal.

Sem Tabyra dos Luzos que fôra?

Sem Tabyra que os guarda e defende,

Que das pazes talvez se arrepende

Já feridas outr’ora em seo mal!

V.

Chefe stulto d’um povo de bravos,

Mas que os piagas victorias te fadem,

Hão de os teos, miserandos escravos,

Taes triunfos um dia chorar!

Caraibas taes feitos applaudem,

Mas sorrindo vos forjão cadeias,

E pesadas algemas, e peias,

Que traidores vos hão de lançar!

VI.

Chefe stolido, insano, imprudente,

Sangue e vida dos teos malbaratas?!

Mingua as forças da tribu potente,

Vencedora da raça Tupi!

Hão de os teca, acoçados nas matas

Mal feridos, sangrentos, ignavos,

Não podendo viver como escravos,

Dar o resto do sangue por ti!

VII.

Vivem homens de pel’ côr da noite

Neste solo, que a vida embelleza;

Podem, servos, debaixo do açoite,

Nenias tristes da patria cantar!

Mas o indio que a vida só preza

Por amor dos combates, e festas

Dos triunfos sangrentos, e sestas

Resguardadas do sol no palmar;

VIII.

Ocioso, indolente, vadio,

Ou activo, incançavel, fragueiro;

Já nas matas, no bosque erradio,

Já disposto a lutar, a vencer;

Ama as selvas, e o vento palreiro,

Ama a gloria, ama a vida; mas antes

Que viver amargados instantes,

Quer e pode e bem sabe morrer!

IX.

Eis, avante! ó caudilho valente!

Potiguares lá vêm denodados;

Tão cerrado concurso de gente,

Ninguem vio nestas partes assim!

Poucos são, mas briosos soldados;

Não são homens de aspecto jocundo!

Restos são, mas são restos d’um mundo;

Poucos são, mas soldados por fim!

X.

Os seos velhos disserão comsigo,

Discutindo os motivos da guerra:

«É Tabyra—cruel, inimigo,

Já nem crê, renegado, em Tupan!»

Pés robustos lá batem na terra,

Pó ligeiro se expande nos ares:

Era noite! milhar de milhares

São armados, mal rompe a manhã.

XI.

Vêm soberbos,—o sol luz apenas!

Confiados, galhardos, lustrosos,

Vêm bizarros nas armas, nas pennas,

Atrevidos no accento e na voz!

Um d’entre elles, dos mais orgulhosos,

Sóbe á pressa nas aspas d’um monte:

Dalli brada, postado defronte

De Tabyra—com geito feroz:

XII.

«Ó Tabyra, Tabyra! aqui somos

A provar nossas forças comtigo;

Dizes tu que vencidos já fomos!

Dil’-o tu, não n’o diz mais ninguem.

Ora eu só a vós todos vos digo:

Sois cobardes, irmãos de Tabyra!

Propagastes solemne mentira,

Que vencer não sabemos tão bem.

XIII.

«Para o vosso terreiro vos chamo,

Contra mim vinde todos,—sou forte:

Occorrei ao meo nobre reclamo!

Aqui sou, nem me parto daqui!

Vinde todos em densa cohorte:

Travaremos combate sangrento,

Mas por fim do triunfo cruento

Direis vós, se fui eu quem menti.»

XIV.

Disse o arauto: eis a turba ufanosa

Lhe responde, arco e setas brandindo,

Pés batidos, voz alta e ruidosa:

—Bem fallado, ó guerreiro, mui bem!

Assim é; mas Tabyra rugindo,

Resentido de offensas tamanhas,

O rancor mal encobre das sanhas,

Que não lava no sangue de alguem.

XV.

Raso outeiro alli perto se off’rece:

Vinga-o prestes, hardido, açodado!...

Como leiva de pallida messe,

Já madura, tremendo no pé;

Todo o campo descobre occupado

Por guerreiros,—no extremo horisonte

Não destingue nas faldas do monte,

O que é gente, o que gente não é.

XVI.

Não se abala o preclaro guerreiro,

Do que vê seo valor não fraqueia;

Diz comsigo: «Um só golpe certeiro

Vai de todo esta raça apagar!

Juntos são, mas são meos!»—Já vozeia;

Logo os seos lhe respondem gritando,

Taes rugidos, taes roncos soltando

Que aos seus proprios deverão turbar!

XVII.

Diz a fama que então de assustadas

Muitas aves que o espaço crusavão,

De pavor subitaneo tomadas,

Descahião pasmadas no chão:

Já com silvos e atitos voavão

Muitas outras, que o triste gemido

No conflicto, abafado e sumido,

Talvez darão,—mas fraco, mas vão!

XVIII.

Eis que os arcos de longe se encurvão,

Eis que as setas aladas já voão,

Eis que os ares se cobrem, se turvão,

De frexados, de surdos que são.

Novos gritos mais altos reboão,

Entre as hostes se apaga o terreno,

Já tornado apoucado e pequeno,

Já coberto de mortos o chão!

XIX.

Peito a peito encontrados afoutos,

Braço a braço travados briosos,

Fervem todos inquietos, revoltos,

Qu’indicisa a victoria inda está.

Todos movem tacápes pesados;

Qual resvala, qual todo se enterra

No imigo que morde na terra,

Que sepulcro talvez lhe será.

XX.

«Mas Tabyra! Tabyra! que é delle?

«Onde agora se esconde o pujante?»

—Não n’o vedes?!—Tabyra é aquelle

—Que sangrento, impiedoso la vai!

—Vel-o-heis andar sempre adiante,

—Larga esteira de mortos deixando

—Traz de si, como o raio cortando

—Ramos, troncos do bosque, onde cai.—

XXI.

«Foge! foge! leal Tobajara;

«Quantos arcos que em ti fazem mira?!»

—Muitos são; porém medos encara

—Face a face, quem é como eu sou!—

Muitas setas cravejão Tabyra:

Bello quadro!—mas vel-o era horrivel!

Porco-espim que sangrado e terrivel

Duras cerdas raivando espetou!

XXII.

Tem um olho d’um tiro frexado!

Quebra as setas que os passos lh’impedem,

E do rosto, em seo sangue lavado,

Frexa e olho arrebata sem do!

E aos imigos que o campo não cedem,

Olho e frexa mostrando extorquidos

Diz, em voz que mais erão rugidos:

—Basta, vis, por vencer-vos um só!

XXIII.

E com furia tão grande arremettem,

Com despego tão nobre da vida;

Tantos golpes, tão fundos repetem,

Que senhores do campo já são!

Potiguares lá vão de fugida,

Inda á fera mais torva e bravia

Disputando guarida d’um dia

No mais fundo do vasto sertão!

XXIV.

Potiguares, que a aurora risonha

Vio nação numerosa e potente,

Não já povo na tarde medonha,

Mas só restos d’um povo infeliz!

Insepultos na terra inclemente

Muitos dormem; mas ha quem lh’inveja

Essa morte do bravo em peleja,

Quem a vida do escravo maldiz!

XXV.

«Este o conto que os Indios contavão,

«A deshoras, na triste senzalla;

«Outros homens alli descançavão,

«Negra pel’; mas escravos tão bem.

«Não choravão; somente na falla

«Era um quê da tristeza que mora

«Dentro d’alma do homem que chora

«O passado e o presente que tem!»