AS FLORES.
Ao Snr. JOSÉ PRAXEDES PEREIRA PACHECO, incançavel Botanico-florista, a quem devemos a introducção no paiz das mais bellas e curiosas especies de flores, que jámais aqui se virão.
Simples tributs du coeur, vos dons sont chaque jour
Offerts par l’amitié, hasardés par l’amour.
Les Jardins.—DELILLE.
Tu que com tanto afan, com tanto custo,
Estudando, inquirindo, e meditando,
De estranhos climas transplantaste aos nossos
As flores varias no matiz, nas formas,
Modesto horticultor, dos teos desvelos
Este só galardão recebe ao menos!
Recebe-o: tambem eu gosto das flores,
Folgo tambem de as ver n’um campo estreito
De estranhas terras revelando os mimos
E as galas d’outros céos:—aqui perfumão
Nossos jardins de peregrina essencia!
Melhorão-se talvez, que as não contristão
Raios tibios do sol, nem turvos ares,
Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Em vós inspirações o bardo encontra,
Devaneios de amor a ingenua virgem,
A abelha o mel, a humanidade encantos,
Odores, nutrição, balsamo e cores.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Linda virgem no albor da vida incerta,
No meio das vivaces companheiras,
Em forma de capella as vai tecendo
Para cingir com ella a fronte e a coma,
Que os annos no passar não enrugarão,
Nem as cans da velhice embranquecerão.
Resplendor d’innocencia, onde casados
A açucena, e os jasmins aos brancos lirios
Um só perfume grato aos céos envia;
Meiga c’rôa d’angelica pureza,
Ornamento da vida—que se rompe
Ou quando os membros delicados vestem
O grosseiro burel da penitencia,
Ou do noivado as galas!—lá se acaba,
Por fim aos pés do thalamo ou n’um tumulo!
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Quantas vezes, nas horas da ventura,
A fallaz sensação d’um peito ingrato
Não julgamos eterna, immensa, infinda!....
Alli nossos anhelos se concentrão,
Nossa vida alli jaz:—cifra-se inteira
N’um brando volver d’olhos, n’um accento,
Que a ternura repassa, inspira, exhala!
Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto,
Valem thronos, e mais,—o mundo e a vida!
Mas esvae-se a paixão!... que fica? Apenas
Um saudoso lembrar d’éras passadas,
De scismadas venturas, não fruidas,
Ás vezes uma flor!...—Flor dos amores,
Quando extincta a paixão, porque inda existes?
Espinhos de uma rosa emmurchecida,
Porque sobreviveis ás folhas d’ella?
Mais firme, mais leal, mais vivedoura
Que a voluvel paixão, a flôr mimosa
Talvez irrita a dôr, talvez a acalma.
Emblemas do prazer, do soffrimento,
Mensageiras do amor ou da saudade,
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Geme a fresca odalisca entre ferrolhos,
Importuna presença a voz lhe tolhe
Do não piedoso eunucho;—e estatua negra
Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos:
Chora a guzla mourisca ao som dos ferros,
Lastima-se a cadeia ao som dos passos,
E a humana flôr definha entre as mais flores;
Mil ouvidos a voz lhe escutão sempre,
E cingidos de ferro, crús soldados
D’entorno ao mésto harem velão sanhudos!
Ruge, fero soldão! treplíca os bronzes
Da masmorra cruel:—a planta humilde,
E a escrava que recatas tão cioso,
Zombão dos feros teus! Muda e singela,
Ao través das prisões, dos teus soldados,
Passa a modesta flôr! Vai n’outro peito,
Mysterios não sabidos relatando,
Contar do infausto amor as provas duras,
Os martyrios da ausencia, as tristes lagrimas
Que chora—ao reiterar protestos novos!
Bem-fadadas do sol, do amor bemquistas,
O orvalho as cria, as lagrimas as murchão:
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Quem tem o coração a amor propenso,
Quem sente a interna voz que dentro falla,
Delicado sentir d’um brando peito,
Alma virgem que os homens não mancharão;
Quem soffre ou tem prazer, ou ama, ou espera
E vive e sente a vida, esse vos ama:
Encantos da existencia em quanto vivos,
Do revés, do triumpho companheiras,
No berço, no docel, no mudo esquife,
Sempre amigas eis vos encontramos.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Modesto horticultor, dos teus desvelos
Este só galardão recebe ao menos;
Paga-te sequer de ver mais bella,
Mais vaidosa, melhor, do sol na terra,
A flôr modesta, producção sublime
De estranhos climas transplantada ao nosso.
Rio, 29 de janeiro de 1849.