DEPRECAÇÃO.
Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis;
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes déste da perda infeliz!
Tupan, ó Deos grande! teo rosto descobre:
Bastante soffremos com tua vingança!
Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,
Teos filhos que chórão tão grande mudança.
Anhangá impiedoso nos trouxe de longe
Os homens que o raio manejão cruentos,
Que vivem sem patria, que vagão sem tino
Tras do ouro correndo, voraces, sedentos.
E a terra em que pisão, e os campos e os rios
Que assaltão, são nossos; tu es nosso Deos:
Por que lhes concedes tão alta pujança,
Se os raios de morte, que vibrão, são teos?
Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis;
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes déste da perda infeliz.
Teos filhos valentes, temidos na guerra,
No albor da manhã quão fortes que os vi!
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça, no arco Tupi!
E hoje em que apenas a enchente do rio
Cem vezes hei visto crescer e baixar...
Já restão bem poucos dos teos, qu’inda possão
Dos seos, que já dormem, os ossos levar.
Teos filhos valentes causavão terror,
Teos filhos enchião as bordas do mar,
As ondas coalhavão de estreitas igáras,
De frexas cobrindo os espaços do ar.
Já hoje não cáção nas matas frondosas
A corça ligeira, o trombudo coati...
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça, no arco Tupi!
O Piaga nos disse que breve seria,
A que nos infliges cruel punição;
E os teos inda vagão por serras, por valles,
Buscando um asilo por invio sertão!
Tupan, ó Deos grande! descobre o teo rosto:
Bastante soffremos com tua vingança!
Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,
Teos filhos que chórão tão grande tardança.
Descobre o teo rosto, resurjão os bravos,
Que eu vi combatendo no albor da manhã;
Conheção-te os feros, confessem vencidos
Que es grande e te vingas, qu’es Deos, ó Tupan!