DESALENTO.

Without a hope in life!

CRABBE.

Nascer, lutar, soffrer!—eis toda a vida:

D’esperança e de amor um raio breve

Se mistura e confunde

Ás cruas dores d’um viver cançado,

Como raio fugaz que luz nas trevas

Para as tornar mais feias!

Da verde infancia os sonhos melindrosos,

Nobres aspirações da juventude,

Amor de gloria stulto,

Com que mais alto a mente se extasia;

São vãos phantasmas, que produz a febre,

São illusões que mentem!

São as folhas virentes arrancadas

D’um arbusto viçoso, antes que brotem

Da primavera as flores;

A pennugem que nasce antes das azas,

Um esteril botão, que não dá flores,

Ou flôr que não dá fructos!

Foge, mancebo, lá te espreita o mundo!

Como areas d’um paramo deserto,

Resequido, abrasado;

Provoca o teo soffrer, teo pranto espreita,

Sedento almeja as lagrimas, qu’entornas

Nos areaes da vida.

S’inda tens coração, hão de esmagar-te;

As setas da calumnia irão cravar-t’o

Na parte mais sensivel:

Se tens alma, se electrico palpitas

De patria e de virtude aos nomes sanctos,

Foge outra vez ao mundo.

Não queiras, n’um accesso doloroso,

Ás mãos ambas ferindo o peito credulo

Exclamar delirante:

«Minha patria onde está?—Onde estes homens,

«Que a par de meos irmãos amar devera,

«Da mesma patria filhos?

«E a virtude tambem, onde hei de achal-a?

«Se é mais que nome vão, onde é que existe?

«Onde é que se pratica?

«Se os modernos Catões a graça esmolão

«Do rei—ou, cortesãos da populaça,

«Rojão por terra ignobeis!

«Se a mão do poderoso, a mão dourada

«Do crime impune—esbofeteia as faces

«Do homem vil, que a beija!

«Oh! meos irmãos não são, não são os filhos

«Desta patria, que eu amo;—torce o rosto

«De os vêr a humanidade.»

Despe-se a vida então dos seos encantos,

E o homem na lembrança revivendo

O percorrido estadio,

Tem por marcos de estrada o monumento,

Com que os mais fortes laços se desatão,

—A pyramide e a campa!

Do sonho juvenil murchas as cores,

Sem illusões, sem fé—nublado, escuro

O presente e o porvir,

No crepe d’abortadas esperanças

S’involve—e os olhos tesos no sepulchro,

A tarda morte aguarda!

Mas eu, qual viajor, vago perdido

Pela face da terra!—amigo lume

Não me convida ao longe;

E ao sentar-me na mesa dos estranhos,

Digo:—longe serei antes do occaso;—

E a divagar prosigo.

Mal aceito conviva me despeço!...

As calumnias que soffro, a dôr que passo,

Não me ferem profundas;

Bem como a rola, que das matas desce,

E nas azas recebe o pó da estrada,

Que voando sacode.

Minha hora derradeira sôe em breve,

A só esperança que aos mortaes não falha!

Morrerei tranquillo;

Bem como a ave, ao por do sol, deitando

Debaixo d’aza a timida cabeça,

Da noite o somno aguarda.