FADARIO.
Procura o íman sempre
Do pólo a firme estrella,
De viva luz o insecto
Se deixa embellezar;
E a nave contrastada
Das furias da procella,
Procura amigo porto,
No qual possa ancorar.
O íman sou constante,
A nave combatida,
O insecto encandeado
Com fulgido clarão;
E tu—a minha estrella,
A luz da minha vida,
O porto que me acena
Por entre a cerração.
Assim, por desgostar-me,
Severo no semblante,
No olhar, na voz—debalde
Me opprime o teu rigor;
Se fujo dos teus olhos,
Se mostro-me inconstante,
Na ausencia e no desterro
Me vai crescendo o amor!
Assim o insecto volta
Á luz que o já queimára,
E o íman na tormenta
Procura o norte seu;
Assim a nave rota,
Que o vento contrastára,
Entrando o porto, esquece
Que males já soffreu.
Debalde, pois, tua alma,
Que a minha dôr encherga,
Se mostra aspera e dura
Á voz do meu penar;
Aquelle verde ramo,
Que facilmente verga,
Resiste ao peso, emquanto
Não torna ao seu lugar.
Se, pois, te irrita e cança
De o ver revel comtigo,
Do tronco seu virente
Separa-o de uma vez:
Mais qu’elle venturoso
Me julgo, se consigo
Morrer vendo os teus olhos,
Cahir junto a teus pés.
Mas, inda assim, não creias,
Se finda o meu tormento,
Que nem lembrança minha
Terás de conservar:
A nave, que não toca
No porto a salvamento,
Talvez os rotos mastros
Atira á beira-mar.
Assim quando jazendo
Me achar na campa fria,
Talvez tenhas remorsos,
Da tua ingratidão;
Talvez que por mim sintas
Alguma sympathia;
Que em lagrimas desfeita
Me dês amor então.