GULNARE E MUSTAPHÁ.

Deos Senhor foy quem nos céos

Pendurou milhões de estrellas,

Foy quem matisou a terra

De froles varias e bellas,

Quem ao mar por ser pujante

Areias deo por cancellas.

Mandou mais qu’arvoles fortes

Das sementes germinassem,

Que déssem froles mimosas,

Que perfumes trescalassem,

E mais fez que em tempo azado

As froles fructificassem.

Pois aquelle anjo das trevas,

Imigo da humanidade,

Nas arvoles poz carcoma,

Poz na frol muita ruindade,

Poz nos céos a nuvem negra,

Poz no mar a tempestade.

Nem só nas coisas terrenas

Damna, e faz mal o tredor,

A alma tambem por mil modos

Tenta com geito e sabor,

Que troca o prazer celeste

Em penas d’eterna dôr!

Mas não foy jamais que Deos

Em tal feito consentisse,

Senão porque suas posses

O homem bem claro visse;

Que sem elle fôra o mundo

Maldade só e sandice.

Mas que mal ha hy na terra

Que não venha pera bem?

Os d’aqui desta amargura

Dão coyta, e gloria porêm;

Dos outros que traz o demo

Deos o remedio lá tem.

Do mal que me foy commigo

Acontecido, al não sei,

Senão que por amor delle

Muito má vida levei,

Que me dá coyta mui grave

Do mal que me comportei.

Como já fiz penitencia,

Ora farei confissão;

Tal será, qual foy o escand’lo

De que fui occasião:

Não me tomem por modelo,

Mas tomem de mi licção.

Não he pera honra minha,

Mas pera honra dos céos,

Que eu direi publicamente

Os feios peccados meos;

Toda a vergonha foy minha,

Toda a honra cabe a Deos.

He uso assi na milicia

Celeste, e mais na d’aqui:

Dá batalha o cabo experto,

Desses muitos que ha per hy;

Toda a preza aos seos concede,

Só lôa quer pera si.


A Princeza Dona Joanna

Já vive dentro d’Aveiro;

Comsigo trouxe os escravos,

Que lhe trouxe o rey fragueiro;

O que ás terras africanas

Passou, e voltou primeiro.

Vierão aquelles feios

Netos d’Agar, inda mal!

Traçando vastas roupagens

Á maneira oriental;

Larga faxa na cintura,

Na faxa largo punhal.

Era pasmo vel-os juntos

Polas ruas passear,

Passo á passo—graves, mudos,

Com doairos d’espantar,

Profundas rugas na fronte

Rugas de máo meditar.

Levar traz si tanta gente

Nunca a ninguem vi assi;

Nem folias, nem cantares

Vi com tal cauda apoz si,

Bôdo, nem festa d’orago,

Bufão, e nem bolati’.

Mas quem vio acaso as turbas

Correrem traz algum bem?

Vão todas apoz engodos,

Apoz maldades tambem;

Mas seguir a Deos por gosto

Nem as vi, nem vio ninguem.

Com estes mouros descridos

Vierão tambem aquellas

Moiras, filhas da Mourama,

Donas, creio, muito bellas;

No trato e no galanteio

Outras que tais Magdanellas.

Vinha tambem a menina,

Aquella moira fatal,

Que nas ruas de Lisboa

Vi no cortejo real:

Cortejo del-rey Affonso

Vi-o eu, só por meo mal!

Quantas coisas que trazia,

Nulla rem lhe estava mal;

Dizião que tudo nella

Tinha graça natural,

Era coisa preciosa,

Como coisa oriental.

Aquella abelha sem dardo,

Aquella pomba sem fel

Passava noites inteiras

Tangendo n’hum arrabel,

Coando vivas saudades

Dos labios, em leite e mel.

E, alta noite, nas trevas

Ouvindo na solidão

Aquelle triste instrumento,

Al não disseras, senão

Que o mesmo demo voltado

Era n’aquella feição.

Zagales porêm da serra

Mil vezes, no fim do dia,

Polos montes não buscava

A sua ovelha erradia;

Mas no bordão apoiado,

De si mesmo se esquecia.

Cant’eu vendido e prasmado

De todos e mais de mi,

Mil vezes fugi da cella,

Té das matinas fugi,

Mil vezes, durante a noite,

Aquelle instrumento ouvi.

Mil vezes!... e não sei como

Isto foy, que o não sentia,

Quando mal me precatava,

Dava commigo que ouvia

Dilatar-se polos valles

Aquella doce harmonia.

Assi todo embevecido

Bons sonhos que então sonhei,

Boas venturas que tive,

Bons scismares que scismei!

Esqueci-me de ser frade!

Como isto foy, já não sei.

E se ás vezes me lembrava

Do juramento que dei,

Do encargo que me tomára,

E das vestes que eu tomei,

Chorava; e não sei bem como

Em pranto não me afundei.

Derramei n’aquellas brenhas,

Cheio d’extranha afoiteza,

Palavras dadas ao vento

Com muito feia crimeza,

Contra mi e contra todos,

Contra toda a natureza.

Polas serras, polos matos,

Polas voltas dos caminhos

Rojei nas sarças mordentes

E nos cardos montesinhos,

Rasgando os brancos vestidos

N’aquellas matas d’espinhos.

E não sei, oh! não sei como

Todo eu não fiquei aly,

Como eu que por tantas vezes

Rosto nas rochas feri,

Não perdi o ser de todo,

Nem siquer ensandeci.

Então ao Senhor clamava:

«Cegueira, Senhor, me dás!

Cinge-me os rins larga zona

De ferro, e bem me não traz;

Trago cilicios mordentes,

Usando burel mordaz.

«Abro e vejo o livro sancto,

E vejo que não sei ler!

Aquelles sanctos dictames

Já n’os não sei compr’hender;

Enojo occupa minha alma,

Hei pavor de me perder!»

Donde pois me vinha a mi

No proprio bem ver o mal?

Conheci no meo exemplo,

Que m’era do ser fatal:

Senhor, teo sancto remedio

He triaga cordial.

Bem como o ferro na fragoa,

No soffrer a alma se apura,

Assi que disse eu commigo

Que a triaga tambem cura,

Quanto mais amarga e punge,

Poder de sua amargura.


Aquella negra peçonha

Lavrando foy pouco e pouco;

Rohia coyta d’amores

Miôlo cavado e ôco,

Já era o mal dentro d’alma,

E eu delle rendido e louco.

Dizião meos bentos Padres:

«Que he feito de Frei Antão?

Negra dôr o tem por certo,

Negra dôr de coração:

O demo o fez, porque visse

Turbada tal perfeição.

«Parece já de esquecido

Que nem de si tem lembrança!

A taboa se achega apenas,

Não toma a sua pitança;

Té nos officios divinos

Perdeo a sua trigança.

«Sahe á noite muitas vezes,

Diz o bom do Guardião:

Sahir á noite, á deshoras,

Certo não he devação:

Que faz de noite nas ruas

Hum padre, ou frade ou christão?»

Com tudo alguns dos mais velhos

Dizião: «Que ha hy de mal?»

O quer que he que o pertuba,

Coisa não he natural:

Deve ser condão divino

Ou graça celestial!

«Pois hum sancto como aquelle!

Quem he que o ha de tentar?»

Eis senão quando começa

Voz, não sei donde, a zoar

Que Frei Antão ja não sabe

No seo rosairo rezar!

E o caso foy que hum noviço

Tirou-mo só de matreiro,

Tendo-o fechado comsigo

Por novena ou mez inteiro;

E eu d’outro me não provêra,

Sendo que tinha dinheiro!

Todolos meos defensores

Voltarão-se contra mi;

Dizião que era mal feito

Hum sancto mentir assi:

Seja-me Deos testemunha,

Nem sancto sou, nem menti.

Logo em Communidade

Propoz-me o Provincial:

«Dizei peccavi, meo Padre,

Que voz havedes tão mal,

Que não rezades as rosas

Da virgem celestial!»

Ouvido que foy por mi

Tão solemne mandamento,

Ámi, que primara sempre

Adentro do meo convento,

Não sei que pejo maldicto

Acorreo-me ao pensamento.

Não era feio o peccado,

Mas confessal-o; e assi

Fiquei de pavor tranzido,

Mal que tal preceito ouvi:

Homem não era de carne,

Montanha de pedra—si.

Torvado, calado e mudo

Nada não soube dizer;

Nem confessar meo peccado,

Nem ao menos responder:

Ficárão como suspensos

Os que erão aly a ver.

O grave Provincial

Rompe o silencio, e «Azinha

Trazei, disse elle, o hyssope,

Mais a benta caldeirinha;

Ver demo em corpo de frade

Coisa não he comezinha!»

Corre afanado o Sacrista

Pera a sua sacristia,

Traz prestes a caldeirinha

Banhada inteira na pia;

Rezava mil rezas suas,

Mil esconjuros dizia.

Do Sacrista amedrontado

Recebe o Provincial

O hyssope todo molhado,

Dizendo sacerdotal:

«Fugide, partes adversas,

Demonio, esprito do mal.

«E mais deixa a criatura

Por amor de quem Jezus

Soffreo marteyro affrontoso,

E morte vil n’huma cruz;

Em nome do Padre e Filho

E Esprito, que sempre luz!»

Ouvido aquelle exorcismo,

Cego de toda a razão,

Larguei-me do refeitorio,

Fugindo como hum ladrão:

Clamárão todos em grita:

«Chantou-se nelle o Legião!»

Enfiei os claustros todos,

Passei pola portaria,

Achei-me em logar, de noite,

Que eu mesmo não conhecia:

Os sons do arrabel mourisco

Somente daly se ouvia.

No entanto os Padres prudentes

Discursavão entre si,

Dizião dos esconjuros

Que mal cabião em mi,

Que era grande sacrilegio

Usarem commigo assi.

Ai! sacrilegio era o homem

Que ao inferno se vendia,

Era o christão que adorava

As filhas da idolatria,

Que dentro em si tinha o Demo,

E o Demo em si não sentia;

Era o Padre que trocára

O amor de seo Senhor

Por amor d’huma Donzella,

Filha d’aquelle impostor,

Mafoma, falso propheta,

Mafoma, judêo tredor!


A princeza Dona Joanna

Mandou ao nosso Convento:

Qu’eu prestes vá ter com ella

Manda por seo mandamento;

Não quer demora, nem falta,

Negocio diz de momento.

Qual seja o negocio urgente

Não m’o diz a mensageira;

Não sabe coiza de certo,

Não dirá coisa certeira:

O habito á pressa enfio,

Tomando-lhe a dianteira.

E logo, chamada á grade,

Veio a Princeza real:

«Meo Padre, disse-me entonces,

He fóra do natural

Qu’eu tenha escravos, e mouros,

Rainha de Portugal.

«Ide vós porêm chamal-os

Pera o rebanho christão;

Cazade-os vós muito embora,

Que bem dahy haverão:

Eu lhes darei corpo livre,

Deos Senhor a salvação.»

Siquer huma só palavra

Não tive n’aquelle ensejo,

Sustou-m’a já na garganta

Não sei que mesquinho pejo;

Por confessar meo peccado

Em vão trabalho e forcejo.

Vergonha foy o que eu tive,

Vergonha que todos têm;

Ultimo fructo colhido

N’aquelles jardins do Eden;

O Demo o tocou primeiro:

Todo o seo mal dahy vem!

Como está no fundo lago

O verde limo acamado,

Assi deitado e mimoso

Brilha lustre avelludado;

Tal é aquella vergonha,

Que vem apoz o peccado.

Mas remechei nas raizes

Do limo que he tão viçoso,

E vereis como se prendem

No fundo impuro e lodoso:

Aly com ellas se abraça

O feio verme asqueroso!

Aly mil serpes occultas

Vivem, cruzando laçadas,

Muitos sapos bufadores,

Muitas rãs esverdinhadas;

Humas coizas de má sina,

Outras coizas mal fadadas.


He força fallar a moira!

Disse commigo, e assi

Andava curtas passadas

Por não chegar; ai de mi!

Tem termo toda a jornada,

Cheguei! porque não morri?

Já d’aquelles outros mouros,

Tão feros, não se me dava;

Mas de suor de maleitas

O corpo se me banhava,

Quando d’aquella menina

Moirisca, me recordava.

Lançado em covil de feras

Foy o sancto Daniel,

Fui eu no covil lançado

D’aquella gente infiel;

Era elle experto em tais lutas,

Eu em tais lutas novel.

Entrei no quarto da moira

Leixando a mais gente vil,

Ardia doce perfume

Em transparente viril;

Sobre um bofete lavrado

Vi hum lavrado gomil.

Tinha o quarto huma só porta

Que hum reposteiro cobria,

E hum pano de seda verde

Sobre a estreita gelosia,

E mais hum denso tapete,

Que o som dos passos comia.

Trazia a moira mimosa

Vestes de branco setim

Entreteladas parece

De coiza de bocachim,

E humas largas pantalonas,

Respirando benjoim.

Trazia hum jubão mui justo

De seda azul anilado,

Com longas mangas perdidas,

De carmim todo ferrado,

Como se fôra hum alfange,

Na cintura recurvado.

Coifa branca auri-bordada

A negra coma apertava;

Que doces anneis brincados

A negra coma formava,

Quando por vezes no collo

De neve—se debruçava!

Sob as largas pantalonas

Hum pesinho delicado

Sahia nusinho e bello,

Mimoso e branco e nevado;

Em chapins dos mais pequenos

Parecia andar folgado.

Em cada hum dos seos dedinhos

Trazia a moira hum annel;

Meio deitada, á desleixo,

Tangia no arrabel;

Tangia-o com tanta graça,

Nem que fôra hum menestrel.

A lettra que ella cantava

Era de lingoa algemia;

Era qual trinar das aves

As notas em que gemia

Saudades de longes terras

Em peregrina harmonia!

Era menina e formosa,

Nunca lhe vi sua igual!

Coiza assim tam primorosa

E tanto celestial,

Ou era filha dos anjos,

Ou filha do pay do mal.

Deos Senhor, entre luzeiros,

E o demo em sua cegueira,

Fazem quasi as mesmas coizas

Mas por diversa maneira;

O demo como quem he,

Deos como luz verdadeira.

Pois este pôz a virtude

Entre afflicções dolorosas,

Qual frol de rosa entre espinhos;

Em ledices enganosas

Poz o demo o seo peccado,

Qual feia serpe entre rosas.


Quanto o sol mais se abaixava,

Tanto mais alto gemia

Aquella moira mimosa,

Que as suas magoas carpia:

He hora que espalha enlevos

A hora do fim do dia!

O passaro então das ramas,

Louvor a nosso Senhor!

Ultimo vôo desprega

E hum doce grito de amor;

Nas pennas esconde o bico,

Nem teme o visgo tredor.

As froles do sol viuvas

Definhão, só de tristura:

O mar soluçando geme,

Mais alto a fonte murmura,

Reina o silencio que falla,

Bafeja a doce frescura.

«Vistes vós meo bem amado,

(Dizia a filha d’Allah)

«Vistes vós meo bem amado,

«O meo senhor Mustaphá!

«Se o vistes, dizei-me onde!

«Por alma vossa, onde está?

«A noite o deixou fechado

«Portas a dentro do harem:

«Sorvia aquelles perfumes,

«Que lá d’Arabia nos vem;

«Trajava os reais vestidos,

«Que lhe cahião tão bem.

«Já era sobre-manhã

«Quando de mi se apartou;

«Seo negro corsel d’Arabia

«D’um pulo só cavalgou,

«E o sol que vinha raiando

«Lá na montanha o topou.

«Vio daly seos bons guerreiros,

«Em alas promptos estão;

«De fronte mal enxergava

«O troço do rey christão;

«Disse o crente musulmano:

«Allah m’os trouxe, meos são!

«Allah! lhes grita o guerreiro,

«Respondem-lhe os seos: Allah!

«Gritão Christãos: Sam Tiago!

«E o meo senhor Mustaphá

«Desceo então da montanha,

«Que nunca mais subirá.

«Desceo elle da montanha

«Qual rocha descommunal,

«D’agudo cimo tombando,

«Arrazando o pinheiral;

«Mas a rocha em fundo valle

«Faz-se pedaços, em mal!

“Desceo elle ao fundo valle,

“Como o tufão queimador;

“Polos christãos inimigos

“Cortou sem pena e sem dôr;

“Raio d’esforço na guerra

“Foy Mustaphá, meo Senhor!

“Mas o vento do deserto

“Depois de médas formar

“Das areias que agglomera,

“Onde he que vai acabar?

“Mafoma e Allah que mo digão,

“Que eu não sei senão chorar!

“Allah quebrou teo orgulho,

“Meo bom senhor Mustaphá!

“Allah quebrou teo orgulho,

“Mas quando se acabará

“Vida que Vives de escravo,

“Vida que levas tam má?

“Doces Huris do Propheta,

“Lá do palacio de Allah,

“Olhavão cá pera baixo

“Só pera ver Mustaphá!

“Guerreiro não foi como elle,

“Como elle ninguem será.

«De ser elle o meo amado,

«Ai que já fui bem feliz!

«De ser elle o meo amado

«Tinhão-me inveja as huris:

«Ora não ha quem m’inveje!

«Foy Allah que assim o quiz.

«Ora não ha quem m’inveje!

«Tenho no peito afflicção;

«Escrava sou d’hum escravo,

«Escravo d’hum vil christão!

«Mesquinha, que ainda o amo;

«Trago-o aqui no coração!»

Então pera junto della

Cheguei-me sem ser sentido;

Fallei-lhe em som cavernoso,

Medonho e baixo no ouvido:

¿Por que assi amas o escravo?

Disse eu, do meo mal vencido.

Foy certo o esprito malvado

Quem pera ally me arrastou,

Quem nos meos castos ouvidos

Palavras tais derramou,

Quem aos pés da moça moira

O velho padre acurvou.

Era elle quem nos meos hombros

Pezava co’o pezo seo,

Quando a moita espavorida

Do vasto leito se ergueo:

Vendo-me ally de giolhos,

Baixou de medrosa o véo.

O véo baixou de corrida,

Mas antes seos olhos vi;

Aquelles olhos fermosos

Lavar-me o rosto senti,

Tocar-me no fundo d’alma,

Tirar-me todo de mi.

Luz que vi d’aquelles olhos!

Ora bem se me afigura

A lua rasgando as trevas

Em meio de noite escura:

Vi Diana, a caçadora,

N’aquella hardida postura.


Mas a moira de repente

Hum grito franzino dá!

De mi se parte voando,

¿Senhor Deos, o que será?

Volto prestes a cabeça...

Vejo o mouro Mustaphá!

Em roda do seo pescoço

A moita os braços prendeo;

Arfa-lhe o peito açodado;

Pera traz roja o seo véo,

Off’rece o rosto mimoso

Aos beijos d’aquelle incréo!

Era assi qual amorosa

Hera que hum robre vingou;

Ligou-se estreita com elle,

Do tope se debruçou,

Folha metteo pelas folhas,

Vida com vida cazou.

«Gulnare, disse-lhe o mouro,

Gulnare, meo doce amor,

Melhor que a rosa da Persia,

Que arabio incenso melhor,

Frol dos jardins do propheta,

Que dás mate a minha dôr!»

Responde a moira mimosa:

«Dizes bem, meo Mustaphá;

O fogo chegou-se ao incenso,

O incenso effluvios dará;

O sol scintilla na rosa,

A rosa resurgirá.»

Abelha, tornou-lhe o mouro,

Que susurras de agastada;

Herva, que as folhas constringes,

De estranho corpo tocada;

Quem tocou na minha abelha,

Quem na herva delicada?

Ella entonces de malquista

Deo-lhe d’olhos pera mi;

Sancto Jezus! em que apertos

N’aquelle ensejo me vi,

Prendera-me força occulta,

Foy porêm que não fugi!

Trazia o moiro atrevido

Adaga no boldrié;

Deixar a moiros com armas,

Gente de baixa ralé,

Em que escravos de Princeza,

He certo extranha mercê!

A mão no punho da adaga,

A passo, vem sobre mi;

Trinca as pontas do bigode,

Quais cerdas de javali;

A barba toda se erriça,

Que feio rosto lhe vi!

Os olhos que me lançou,

Jamais não vi seos iguais;

Devião ser puro fogo,

Senão faiscas fatais

D’aquelle sol do deserto,

Que abraza e funde areais.

Negros olhos de panthera,

Luzindo em feia spelunca;

Olhos, que o gyro do sangue

Nas veias demora e trunca;

Olhos cheios de carniça

E della não fartos nunca.


A mi chegou-se, inquirindo,

“Que vieste aqui fazer?”

Fiquei deslogo tremendo,

Sem lhe poder responder:

“Senhor,... em nome do céo!...”

Disse eu; que havia dizer?

“Em nome das tres pessoas

“Da trindade, em huma só,

“Eu vos rógo, senhor mouro,

“Que siquer tenhades dó

“Da alma vossa arriscada,

“Já não do corpo, que he pó.”

N’aquelle ensejo apertado

De sancto ardil me vali;

Lembrou-mo o exemplo sagrado

Da forte hebréa Judith!

Ser isso influxo divino

Sabendo fiquei daly.

Tornou-me o mouro descrido:

“E a mi que m’importa mais

“Que viver entre valentes,

“Em gozes celestiais,

“Entre jardins prazenteiros,

“Entre fagueiros rosais?

“Tu me fallas dos teos Deoses!

“Ha outros sem ser Allah?

“Allah, que o vôo dirige

“Do bemfazejo Kathá!

“Christão, dos teos falsos Deoses

“Bem pouco a mi se me dá.

“Digo-te eu, que elles não podem,

“Mais que digas que são trinos,

“Suster no ar do propheta

“Os sanctos restos divinos,

“Que a Meca chamão por anno

“Milhares de peregrinos.”

Ouvindo aquellas blasfemias,

Senti arrojo dos céos;

Hia fallar, mas o mouro

Tornou-me: “Só Deos he Deos,

“E Mafoma o seo Propheta,

“Em que pêze isto aos increos!

“O que penso, sem resguardo

“Dirt’o-hei, christão, alfim;

“Não uza como vós outros,

“Mahometano Muezzin,

“Não vai á caza dos crentes,

“Não leva tenção ruim.

“Não rója, não, de giolhos

“Aos pés de christã donzella;

“Mas lá dentro da Mesquita

“Vive sempre e sempre vela,

“Ou do alto minarete

“Á prece os crentes appella.

“Portas á dentro do templo,

“Imagem da crença pura:

“De alto do minarete,

“A imagem d’Allah figura,

“Bradando incessante e sempre

“Aos homens, daquella altura.”

“He assi entre vós outros,”

Tornei-lhe, que entre nós não.

“Queremos em cada caza

“Hum templo de devação,

“Em cada peito hum sacrario,

“Hum padre em cada christão.”


Sobresteve mudo e quedo,

E como que reflectia

O moiro, que me parece

A graça já presentia;

A graça que o céo nos manda,

Como orvalho em noite fria.

Mas não era inda chegado

Aquelle ensejo feliz,

Que passado curto prazo,

Severo o moiro me diz:

“O que Deos faz he bem feito:

“Mouro nasci, não me fiz!

“Deixemos pois tal assumpto,

“Delle não quero tratar;

“Ou antes dizei, bom Padre,

“Qu’hides carreira tomar,

“Adoptando novo ensino,

“Novo modo de pregar.

“Andai por essas estradas

“E dizei á vossa gente:

“A vós que mal vos hão feito

“Os homens lá do oriente,

“Que vos livrárão dos godos,

“E do servir inclemente?

“As vossas artes que tendes

“Cujo as havedes?—de quem?

“Donde vêm ás vossas terras

“Campos de lavra que têm,

“E as torres acastelladas,

“E as mesquitas, donde vêm?

“Quem nos vossos negros montes

“As alcáçovas plantou,

“Como candido turbante,

“Que na fronte se enrolou

“De hum homem da côr da noite,

“Que a Nubia ardente engendrou?

“Ou s’isto melhor te praz:

“São obras de reys pujantes,

“Tendas ricas e pomposas

“No dorso dos elefantes;

“Cr’oas de pedra lavrada

“Na fronte d’altos gigantes.”

Estes mouros na verdade

Qu’esprito e graça que têm?

Quando vos dizem mentiras,

Sabem dize-las taõbem,

Que havemos de perdoar-lhes,

E em cima querer-lhes bem.

Mas andão tanto enfrascados

No seo maldicto alkorão,

Que era de ser o primeiro

A soffrer condemnação

N’aquelle sancto concilio,

Honra do nome christão.

Se d’algo me peza a mi,

Hé só polos não ver mais;

Fazião prompta justiça

Destes e d’outros que tais:

Ardião com seos authores

Em bons applausos gerais.

Se delles houvesse agora,

De que pró nos não seria?

Vive tal livro entre gabos,

Que ally no fogo arderia,

Com pasmo de seos authores,

Que os têm por coiza mui pia.

E d’outros que só por artes

Fruem da voga que têm,

Que não sei onde he seu preço,

Nem donde apreço lhe vem,

Senão por vias occultas,

Que as não descobre ninguem!

Mas deixemos estas coisas,

Que não são de boa avença!

O livro que eu reprovára

Por muito justa sentença

Trouxera-me coyta grave,

Com mais grave malquerença.

Deixemos pois estas coisas;

Bem qu’eu não saiba fallar,

Senão com longos rodeios:

(Vem-me o séstro de pregar)

Quando me julgo no cabo,

Mais longe estou de acabar.


“Mouro, n’aquella batalha,”

Disse eu, “ouvidos me dá,

“Quando o reyno teo perdeste,

“Não chamaste por Allah?

“Não te ouvio!—chama por Christo,

“E Christo, Deos, te ouvirá.

“Vás as terras da Moirama,

“Ou fiques em Portugal,

“Senhor serás do teo corpo,

“Vida terás natural:

“Vê, se Gulnare formosa

“O teo propheta não val!

“A moira que não foy feita

“Pera servir a senhor,

“Que de bella e de mimosa,

“Parece que o mesmo amor

“O corpo tem de quebrar-lhe,

“E de apagar-lhe o candor.

“A moira doce nascida,

“Doce creada; perol

“Que só sabe apavonar-se

“Da manhã polo arrebol,

“Não nos jardins destas partes,

“Mas onde mais queima o sol.

“A moira bella e mimosa!

“Avezinha pipitante,

“Qu’ama ar puro, espaço livre,

“E céo de cor deslumbrante,

“Que o vôo fugaz desprega,

“Quando o sol he mais brilhante!

“Ai! não guardes a avezinha

“Dentro de estreita prisão,

“Não mudes a frol mimosa,

“Que bem está no seo torrão:

“Vai ás terras da Moirama;

“Se queres hir, sê christão.”

Huma lagrima brilhante,

Como que a furto luzia

Nos olhos da moça moira,

Que o moço moiro cingia;

Em que nada lhe dicesse,

Muitas coisas lhe pedia.

Em que algo não lhe escutasse,

O mouro bem compr’endia

Que mudas fallas fallava

O pranto que ella vertia:

Saudades erão da Patria,

Que o mouro em sonhos só via.

Como havia resistir-lhe,

Se ella pedia chorando;

Se o mal por que ella passava,

Tambem ’stava elle passando;

Se o bem, que lh’ella pedia,

Lhe estava dentro fallando?

Mas quando os vi abraçados

E aquelle amor entendi,

Do effeito das minhas vozes

Eu mesmo me arrependi;

Cravei as unhas no peito,

Pezar de morte senti.

Té cheguei a ter desejos

De ouvir-lhes hum não revel,

E que então a moça moira,

E mais o mouro donzel

Parassem no fundo inferno,

Provassem, como eu, seo fel.

Mas n’hum coração sincero

Que poder que o pranto tem,

Quando no peito o sentimos,

Quando de huns olhos nos vem,

Que fôra morrer por elles

Prazer e mui grande bem!

Pedido tam gracioso

O mouro agreste rendeo;

De leixar o seo Mafoma

Logo desly prometteo,

Deixando a avença do demo,

E os ritos do culto seo!

Já me não sinto enleiado

Se o padre Adão manducou

Aquelle fructo do Eden;

Foy Eva quem lh’o offertou,

Eva, mulher e sozinha,

A qu’elle primeiro amou.

Mas quem tem visto mulheres,

E tem a sua mulher,

Ceder-lhe do seo proposto

Por mero condescender!

Se não he coisa do demo,

Não sinto o que possa ser.

Mas fez mais a linda moira!

Que sem me fazer pedido,

Entendi que por amores

Não devia andar perdido;

Quando por outro era amada,

Por outro della querido.

Hum pobre frade coitado

Bem sabe que nada tem

Nesta vida mal passada,

Onde quitou todo o bem;

Ninguem que vele por elle,

Sobre quem vele—ninguem!

Curar da may infermada

Bem pode o homem segral;

Ha sempre casta donzella,

Que se dôa do seo mal:

O frade só, despojado

Vive do fôro humanal.


Viverão aquelles mouros

Depois desta occasião,

Muitos annos bem logrados,

Em amor e devação;

Louvor ao sancto baptismo!

Louvor ao nome christão!

Mas quando foy que nos veio

Aquella peste primeira,

Seta que o alvo attingia

De bem talhada e certeira,

Chegou ao christão novato

Hora vital derradeira.

E a moira por este evento,

Cheia de muita afflicção,

Recolheo-se irmã noviça

No convento d’Azeitão,

Onde viveo muitos annos

Em aturada oração.

Madres d’aquelle convento

Dizem que a virão rezar,

Em extasis jubilosas,

Suspensa, erguida no ar;

Favor do esposo divino,

Milagres do muito amar!

Ouvindo aquelles extremos,

Commigo logo assentei

Que eu fôra hum pastor perdido,

Que nas sombras divaguei,

Té qu’huma ovelha esgarrada,

Mercê de Deos, encontrei!

E a moira que eu tanto amára,

Desly se me figurou

Candida lã d’ovelhinha,

Que a sarça agreste cardou;

Ficou na sarça prendida,

Ao vento se meneou.

E alguem que ally divagava,

Felpas da lã recolheo,

Bateo-as na fonte pura,

E em branca tela as teceo;

Depois no altar consagrado

Ao Senhor Deos off’receo.

A mão de Deos poderoso

Bem claro se vê então,

Quando o torpe ismaelita

Faz-se devoto christão:

Só elle hum bom diamante

Póde fazer do carvão.

Mudar o vicio em virtude,

E a fraqueza em valor,

E o calor em frescura,

E a frescura em calor,

E tudo assi por davante,

Só elle, que é Deos Senhor.

Louvor a Deos nas alturas!

E aos homens de bom talante

Na terra paz e ventura;

Paz e ventura constante,

Senão na vida que passa,

Na vida que sempre dura.


SOLÁO
DO SENHOR REY DOM JOÃO.

Ora pois direi hum feito

Do senhor rey Dom João,

Segundo que foy do nome,

Primeiro na devação,

Primeiro mais que o primeiro,

Mais que nenhum rey christão.

Nem sempre rezar no côro,

Nem sempre velar convem;

He mister algum descanço,

Alguma folga tambem,

Entre o labor já passado

E o novo, que perto vem.

Ao duro mal que passamos

Algum remedio he mister:

E se a nenhum conhecemos,

Que mais nos ha de valer

Que recordar o passado

E contos delle fazer?

He assi que no mar alto

O cançado mareante

Luta em vão contra a tormenta

E contra o vento inconstante;

Negras vagas se encapellão,

Negra morte tem diante.

Quando n’aquelle deserto

Languidos olhos estende,

Vê mar que ferve revolto

E chuva que do céo pende:

Como deixou seu alvergue,

O triste não comprehende!

Sembrão-lhe então formidaveis

Os p’rigos que elle affrontou;

Figura risonhos quadros

Dos gozos que já gozou,

Do que na terra o convida,

Dos que na terra deixou.

Do que outrora foy passado

E mais do que vai passando,

Medonho e máo parallelo

Vai o mesquinho traçando;

Dôr de espinhos penetrantes

O peito lhe está varando.

Dias lembrar já passados

E já passada ventura,

Quando o viver he tormento,

Tormento que sempre dura,

He certo desdita grande

E muito grande amargura.

Mas vede o que val a vida!

He aquella aventurada,

Se dizemos verdadeiros:

Houve hum dia, huma hora, hum nada,

Não do pezar combatida,

Mas do prazer bafejada.

Simelha quem pola calma

O dia inteiro vagou,

Depois no marco da estrada

Cançado e triste quedou;

Ally thesouro sem dono,

Ventura sua, encontrou.


Era na sancta semana,

Semana de devação!

Com jejuns e penitencias

Apresta-se o bom christão

Pera os mysterios mais altos

Da mais alta religião.

Quantas coizas que nos fallão

N’aquelle passo sagrado

D’aquelle homem divino,

D’aquelle Deos humanado,

Que por amor de seos filhos,

Ingratos, foy maltratado!

Não foy por odio ou vingança,

Mas por dinheiro trahido!

Por hum homem refalsado,

Por hum discip’lo querido;

Trahido por meio infame!...

Hum falso beijo vendido!

Foy mister por mór tormento,

Que morresse polos seos!

Entregue por hum eleito

Nas garras dos Fariseos,

Homem morreo polos homens,

Morreo judeo por judeos.

C’roou a fronte sagrada

C’roa d’espinhos tecida,

Correrão dados infames

Em taboa vil, denegrida;

Em hastea foy rematada

Tunica em sangue tingida.

Tormentos, baldões e mófa

Quem mais do qu’elle soffreo?

Quem mais comprido marteyro,

Quem mais affronta e labéo?

Tal foy que o homem divino

O rosto ao calix torceo.

Tal foy que o Deos humanado

Disse ao Deos, que era seu pay:

«Senhor Deos, s’inda he possivel,

Do vosso intento tornai;

Este calix de amargura

Dos labios meos affastai!»

Carpindo males alheios,

Quantos não vemos per hy,

Que nem siquer se recordão

De quanto soffreo por si,

Hum Deos na cruz affixado,

Mil dores soffrendo ally!

Ante esta victima augusta

Da mais feroz crueldade,

Cala quanto o homem soffre,

Quanto soffre a humanidade:

Tormento não foy como elle,

Não foy como ella impiedade.

E comtudo alguns increos

E refalsados atheos,

Guardão n’as extasis todas

E mais os transportes seos,

Pera Socrates que morre,

Que não pola dôr de hum Deos!

E não vê a cega gente,

Imiga de toda luz,

Que longe que vai do Grego

Ao Nazareno Jezus,

E da masmorra ao calvario,

E da cicuta a huma cruz!

E aos effeitos da morte

Não attenderão tambem:

Se emparelhamos idéas

Ás coizas que corpo tem;

Entre elles vai mór distancia,

Que vai da Grecia á Belem.

Morre o Grego, e não dá fruitos;

Morre Jezus por nos dar

A ley do céo pera a terra;

Ley que só pôde lavrar

O sangue do bom cordeiro

Dos falsos Deoses no altar.

Vivem algozes d’aquelle,

E huns homens apenas são;

Em quanto os algozes deste,

Em que povo de eleição,

Sumirão-se, como argueiro

Nas azas d’hum furacão.


Era na sancta semana,

Semana de devação:

Comsigo mesmo propunha

O senhor rey Dom João:

«Confessarei minhas culpas,

Que alem de rey, sou christão.

«Ao Senhor, pay de nós todos,

Meos erros confessarei;

Que me dê força indomavel

Pera guardar minha ley,

Pera punir os culpados;

Que alem de christão, sou rey.»

Azinha chamando hum pagem

Lhe diz, e lhe ordena assi:

«Hide aos Padres Dominicos

(Melhor lhes quero que a mi)

Dir-lhes-heis que sou lá prestes,

Que vou commungar ally.»

Veio logo o mensageiro

Com a mensagem real;

Recado qu’el-rey lhe dera,

Dá elle ao Provincial.

«He certo mercê mui grande,

Responde,—tenho-a por tal.»

Ao padre Thomaz da Costa

Chama n’huma Ave-Maria;

Sabia o bom do Prelado

O muito qu’el-rey lhe qu’ria:

De tam lisongeiro acerto

Comsigo mesmo sorria.

Demais que o bom do Prelado

Dizia com bem justeza:

«Prazer aos Reis cá da terra

Não he nenhuma vileza;

Praz a Deos que lhes prazamos,

Pois vem delle a realeza.»

Apresta-se com trigança

Tudo quanto era mister:

Sabia o Padre Thomaz

Encargos do seo dever;

«Vergar colossos, dizia,

Quem tem posses de o poder?

«Sob as mãos do jardineiro

Torto arbusto lá se ageita;

Mas onde existe essa força

Que hum rudo tronco sugeita,

Se a força he balda no tronco,

Se o tronco a força regeita?

«Em bem do pastor sagrado,

Que por mercê divinal

Vive no ermo escondido,

Como hum singelo zagal;

Cúra pastor de pastores,

Não de pessoa real.

«He facil o seo encargo,

Pejo, nem dôr lhe não traz;

Não he assi nos palacios,

Onde só vejo disfraz:

Vêm logo as razões de estado,

Inventos de Satanaz.

«Vêm logo as leys cá da terra

Contrapor-se ás leys dos céos:

Sêde christãos, reys senhores,

Ou então de todo incréos!

Leys dos homens não se cazão,

Não seguem ás leys de Deos.

«Não ligueis n’hum só consorcio

Terra feia e céo luzente:

Leys da terra a terra buscão,

Como a raiz da semente;

Leys do céo os céos procurão,

Como flor que o sol presente.»


Era aly na pedra raza

O senhor rey Dom João;

Ante o velho sacerdote

Fazia a sua oração,

As mãos em cruz sobre o peito,

Giolhos postos no chão.

Armas que sempre cingia,

Todalas tinha despido;

Não tinha sedas, nem joias,

Mas peito d’aço batido:

Era qual homem vivente

Em ferrea prizão mettido.

Curva-se hum rey poderoso

Perante hum homem de pé;

Perante hum Padre coitado,

Que nada tem, nada he:

Licção profunda e subida,

Preceitos da nossa fé!

Portas á dentro do templo,

Onde Deos eterno habita,

Onde aquelle amor sem zelos

Somente os peitos agita,

Nas differenças do mundo

Fiel christão não cogita.

Foy assi na antiga Roma

Polas festas saturnais,

Folgavão, senhor e servo,

Como se forão iguais;

Mas o que lá foy licença,

Aqui são leys divinais:

Aqui são todos curvados,

Todos—o servo, o senhor;

Aquelles que a vida fruem,

E aquelles que só tem dôr;

Pobres, que almejão a morte,

Ricos, que á morte hão pavor.

Nem he por vil comezaina,

Que ally reunidos estão;

Mas sim, por que a Deos importa

Que não haja distincção

Entre irmãos, no patrio abrigo,

Rezando a mesma oração.

Sóbe assi aquella prece

Da multidão apinhada,

Qual lisongeiro perfume

Das flores d’huma grinalda;

Tem huma odor, outra espinhos,

Outras tem côr, outras nada.


Era aly na pedra raza

O senhor rey Dom João;

Já disse as culpas que tinha,

Já fez a sua oração:

O Padre vai ministrar-lhe

A hostia da communhão.

Tem no rosto grave e serio

Expressão nobre e subida;

Maneiras cheias de brio

Em postura comedida,

Parece que vão mostrando

Quanto val o pão da vida.

Parece que mostra, quanto

Por vil e baixo se tem,

Merecendo honra tamanha,

Que a não merece ninguem;

Dahy lhe vem ser humilde,

Nobreza dahy lhe vem.

Perfez-se o rito sagrado,

Vai ser dado o sacramento;

Principia el-rey—confiteor,—

Quando n’aquelle momento

Surge ao pé delle um guerreiro

De marcial hardimento.

Tinha feroz catadura,

Só aço e ferro vestia,

Polas grades da vizeira

Raios de luz despedia:

Medonho e fero apparato

Nas sombras da sacristia.

Era o rey brioso e forte,

Homem de muito valor,

Mas olhos lançou á espada

A furto!... seja o que for,

Não creio que homens d’aquelles

Possão jamais ter pavor.

Em voz carregada e forte

Assi começa o guerreiro:

«Em nome do Senhor Deos,

Meo Padre, aqui vos requeiro;

O senhor rey não commungue,

Pois que não he justiceiro.»

A hostia das mãos do Padre

Cahio do calix no fundo;

El rey carrega os sobr’olhos...

Certo não era jocundo

Affrontar de rosto a rosto

As sanhas de João segundo.

Era então fresca a memoria

De hum caso máo, miserando:

De noite se ergueo a forca;

Mas quando o sol foy raiando,

Não vio ninguem mais a forca,

Nem mais ao duque Fernando!

Comtudo o bravo guerreiro

Sanhas do rey não quiz ver;

Não ha que lhe ponha embargos,

Nem que lhe possa empecer:

«Senhor, sou Padre Tavares!»

Fita-o el-rey sem querer.

Depois lhe diz (que tal nome

Quebrára a furia real):

«Em bem, meo bravo guerreiro!

Mas esse trem, de que val?

Somos em terras d’Hespanha,

Ou somos em Portugal?»

—«Senhor, não uzo brocados

Vedes-me assi, e he razão,

Que havedes os meos haveres

Sem me deixardes, senão

Armas comidas no peito,

Armas gastadas na mão.

—«Fui ter ao vosso palacio,

Ninguem me não conheceo;

Quantos ally são comvosco,

Eu vos direi, senhor meo:

Nunca os eu vi nos combates,

Nunca na guerra os vi eu!

—«Voltei d’ally, protestando

Jamais não voltar ally;

Conheceis as minhas armas,

Se não conheceis a mi;

Vesti-me á modo de guerra,

Vim ter comvosco,—eis-me aqui!

—«As minhas alcaydarias

De Portal’gre e Assumar,

Senhor rey, vós m’as tirastes,

O que se chama tirar;

Ficavão perto da raya,

Máo azo de guerrear.

—«Das minhas alcaydarias

Eu tinha as rendas reais;

As guerras já são passadas,

Porque ora m’as não tornais?

Mal cabe em reys a cubiça,

Senhor, se m’as cubiçais.

—«Nem porque o velho guerreiro

Já nada vos presta e val,

Vos deveis portar com elle,

Qual dono pouco leal,

Que o seo corsel de batalla

Despreza no almargeal.

—«Assi que, Senhor, vos digo

Que vos não peço mercê;

Aquillo que me he devido,

Só peço que se me dê!—»

Prouve ao rey aquelles ditos

E mais o geito que vê.

Depois a mão estendendo

Ao seo leal lidador:

«Nós vos faremos justiça,

Assi como justo for;

Tendes a nossa palavra,

Seja-vos ella penhor!»

Alegre o Padre Thomaz

O seo mister rematou;

Hostia tomada do calix

Aos labios do rey chegou,

El-rey d’hum copo doirado

Hum gole d’agoa tomou.

Mimoso tempo d’outrora

Qual nunca mais o verei,

Nem tam inteiros sugeitos,

Hum ao outro dando a ley:

No Paço o rey ao vassallo,

Na Igreja o vassallo ao rey!


SOLÁO
DE GONÇALO HERMIGUEZ.

Não ha mais d’aquelle tempo,

Em que era tudo lhaneza!

Acções e vida e costumes

Desta gente portugueza,

Por tal geito se trocárão,

Que he hoje tudo impureza.

Não trato d’este ou d’aquelle,

Pois ha em tudo exeições;

Mas trato da grande lépra

Que vejo hy nos corações:

Desprêso do amor da gloria

E apêgo ás ruins tenções.

Outrora, sabeis vós como

Garboso Donzel se havia

Por captar nobres extremos

Da moça que requeria,

Sempre grave, honesto e brando,

Sempre uzando cortezia?

Não trescalava pivetes,

Fitas, nem laços comprava,

Nem toda a manhã divina

Seos enfeites concertava,

Nem nos chapins se revia,

Nem nos cabellos primava.

Não corria seca e meca

Traz de mimosa donzella,

Que nas ruas lobrigava;

E por ver mais perto a bella

Não hia ao templo sagrado,

Somente por amor della.

Nem as noites janeirinhas

Mais compridas e mais frias,

Levava mono amante,

Por baixo das gelozias,

Desenfiando hum rosairo

De trovas e ninharias.

Jamais não foy esse o estilo

Do moço em armas novel,

Em que experto dedilhasse

Na lyra do menestrel,

No tempo em que, não domada,

Lutava a gente infiel.

Por mais que amores amasse,

Por mais que fosse gentil,

Ninguem n’o vira a deshoras,

Como homem de tenção vil,

Como hum ladrão que de medo

Vai passo e manso e subtil.

Não pedia manto ás sombras,

Nem ao silencio mercê,

Nem do sol se arreceiava,

Como homem que pouco vê,

Nem da lua appellidada

A casta, não sei porquê.

Mas antes no amphitheatro,

Coberto de espectadores,

Onde mais povo corria,

Mais bellas e justadores,

Na arena se apresentava

Com letra e tenções d’amores.

No meio d’aquella chusma

D’arautos e passavantes,

Mantenedores do campo

Reys d’armas e circunstantes,

Feixes d’armas resplendentes,

Ondas de plumas brilhantes:

Entrava o novel guerreiro

No cerco dos justadores!

De alguma dona sizuda

Na charpa trazia as cores,

Tinhão amores ás claras,

Por que erão nobres amores.

Silencio! que sôa a trompa,

A justa vai começar!

Entre si ferem mil lutas

Guerreiros a par e par:

Da lança feita pedaços

Voão estilhas ao ar.

Levão logo mão da espada;

Que feios golpes se dão!

Abolão-se capacetes,

Talhão-se arnezes; e a mão

Certeira ao travez da malha,

Vai direita ao coração.

La sôa de novo a trompa,

Proclama-se o vencedor,

Que aos pés da bella entre as bellas

O seo trophéo vem depor:

Ao mais valente a mais bella,

Ao mais gentil mais amor.

Era a ley,—e até parece

De acordo co’a natureza,

Que se compraz no consorcio

Da força co’a gentileza;

Mais alma com mais coragem,

Mais brio com mais nobreza.

A abelha construe seos favos

Em troncos alevantados;

E eis a hera graciosa,

Que em abraços apertados

Não cinge mesquinho junco,

Mas carvalhos alentados.

Boa era a ley!—mas eu creio

Que lhe descubro hum senão;

Quem nos diz que o mais valente

Deva de ter mais razão,

Porque seja a sua dona

Como hum vaso d’eleição?

Seria coiza de ver-se,

E coiza de mui folgar,

Ver um dragão de mulher,

Chamada a bella sem par,

Á pura força de espada,

Sem mais pôr, nem mais tirar!

He bella: e al não digais,

Sob pena d’hum fendente,

Que vem do céo, como hum raio,

Provar ao villão que mente,

Co’os dentes que tem na bocca,

Como hum perro maldizente!

Fosse o caso como fosse,

He certo que d’ahy vem

Ás nossas donas de agora,

Aquelle sestro que têm

De amarem a militança

Melhor do que a nenhum bem.

Qual não gosta de ser bella,

Ao menos de o parecer?

Em quanto muitas ... Deos meo,

Eu me sei compadecer,

Soffro o mal que os outros passão,

Mais talvez que o meo soffrer.

Muitas ha hy, que eu conheço,

Que aqui na terra não são,

Senão porque as vós mandastes,

Meo Deos, por occasião

De tedio e nojo ao peccado,

E morte da tentação.

Té os moços, que as namorão,

Dirão no confessional,

Jurando por Deos eterno

E pola vida eternal,

Que se fallão delle e della,

He puro aleive e não al.

Vede pois qual não seria

O pasmo dessa donzella,

Proclamada ao meio dia

Fermosa como huma estrella,

Sem que houvesse ahy no mundo

Coiza melhor, nem mais bella!

Logo no fraco bestunto

Julgára, sem mais razão,

Que n’este mundo mesquinho

He tudo engano e buzão,

E té que a propria belleza

He coiza de convenção!

Era assi que n’outras eras

Garboso donzel se havia

Por captar nobres extremos

Da moça que requeria,

A ponta de fina espada

E arrojos de valentia.


No tempo de Alphonso Henriques,

Que foy nosso rey primeiro,

Havia na sua côrte,

Côrte de rey mui fragueiro,

Hum tal Gonçalo Hermiguez,

Destemido cavalleiro.

Era moço e mui donoso,

De mui boa nomeada:

Fiava el-rey muito delle,

E a raynha Mafalda

Folgava de ouvir-lhe os cantos

Aos sons da lyra afinada.

Portas a dentro do Paço

Não tinha nenhum rival

Em compor trovas mimosas;

E no campo e no arrayal

Não n’o havia mais valente,

Mais forte, nem mais leal.

Quanta sanha que elle tinha,

Votára a gente infiel,

Porque o pay lhe havião morto,

Era elle ainda novel;

Vel-os porêm não podia,

Nem pintados no papel.

Era o mesmo ver a hum destes

E entrar logo em sanha tal,

Que era força ter mão d’elle,

Ou saltava-lhe ao gorjal

Pera torcer-lhe o gasnate,

Como se fôra hum pardal.

Mas se tinhão tento n’elle,

Era outro conto ruim!

Cabia logo em desmaios,

Que era hum desmaio sem fim!

Dó era ver tal sugeito

Prostrado e defuncto assi.

Andava sempre occupado

Em perpetua correria

Polas terras do mourisco,

E muito mal lhes fazia;

Dava porêm mór realce

Ao nome que já trazia.


Como fosse e os companheiros

Em hum saráo folgazão,

Lembrou-se que perto vinha

A noite de Sam João,

Azado ensejo de aos Mouros

Fazer-se affronta e lezão.

Cheia de bello hardimento,

Aquella nobre nobreza

Por amor de seos amores

Commette tam grande empreza,

Qual a de hir terras de Mouros

Com feros, ronco e braveza.

Qual apresta o seo ginete,

Qual a fita dependura

No collo nunca domado;

Qual a pesada armadura

Inverga, e ahy se recolhe,

Como em arce mui segura!

Qual a Deos por testemunha

Toma da sua tenção,

Qual aos pés da sua dona

Requer-lhe extremo condão,

Extremo volver dos olhos,

Extremo apertar da mão!

Qual desly toma algum nome

Por grito de accommetter,

Que nas lidas e pelejas

Saberá fazer valer!

Qual sente o nojo futuro,

Em mal, que lá vai morrer!

Mas nunca será que o rosto

Mostre o que n’alma lhe mora:

Quem vio a morte passar-lhe

De perto, já não descora

Por hum presagio funesto,

Sendo ella coiza d’huma hora.


Aquelles bons cavalleiros

Azinha promptos estão;

Lá se partem de Coimbra,

Montes alem já lá vão!

Ninguem vio mais escolhido,

Nem mais luzido esquadrão.

Entre elles por mais robusto

Gonçalo Hermiguez campeia;

Diz seo porte sublimado,

Que de nada se arreceia,

Mas antes que a todos repta,

De tanto que o collo alteia!

Caminho vão de Lisboa

Com todo apercebimento!

Não convem que se aprecatem

D’aquelle accommettimento

Mouros que vivem na regra

Do seo alkorão nojento!

Sabeis a regra qual seja?

He viver dentro do harem,

Dizendo mal do toicinho

E mais do vinho tambem,

Sem que lhe pêze este mundo,

Sem que lhe pêze ninguem!

He vegetar entre flores,

He viver vida folgada,

Aspirando incenso e odores

Em molleza effeminada,

Nem que fosse huma odalisca,

Ou mulher alambicada.


Pozerão todos a mira

Em Alcacere do Sal,

Covil de feras humanas,

Não de cordeiros curral;

Nó gordio do vil mourisco,

O ferro o corta, não al!

Os que por terra a demandão

Vão em procura d’Almada,

Alcáçova dura e forte,

Em rija pedra assentada,

Como pedra preciosa

Em ferrea c’roa engastada.

Outros lá vão Tejo arriba!

Ó Tejo, quanto me he grata

Essa placida corrente,

Quando a lua se retrata,

Chovendo chuva de raios,

No teo chão de lisa prata!

Que doce que he teo remanso,

Quando manso o vento gyra,

Que nas folhas rumoreja,

E como que ally suspira

Melindres d’amor suave,

Que nem tangidos na lyra!

Que arroubos que infiltras n’alma,

Quando vai ao som das agoas

Navegando o passageiro;

Já, se as tem, não sente as fragoas,

Que no peito a dôr derrama,

Como huma enchente de magoas!

Mas talvez dos cavos olhos

Polas faces a correr

Sinta o pranto represado

Polo seo muito soffrer:

Corra embora, qu’esse pranto

Dôr não he, senão prazer!

Que neste val’ de amarguras,

Onde viemos penar,

Por cada dia hum marteyro

Por cada instante hum pezar,

He bem feliz quem só passa

Dores que fazem chorar!

Não sei ledice o que seja,

Nem o que seja prazer;

Nunca os senti n’esta vida,

Nem n’os posso conhecer;

Que não sou dos bemfadados,

E nunca o não hei de ser!

Mas o pranto extravasado

Não he quem nos dá morrer,

Nem quem o viço dos annos

Faz seccar e emmurchecer;

He antes aquelle pranto

Que não sabemos verter.


Lá vão hindo Tejo acima,

Olhos longos polo mar,

Lá onde enchergão Lisboa

Com fogueiras de espantar;

Fogo accendido na terra

Sóbe em centelhas ao ar!

D’aquelles fogos accesos

Em roda os velhos estão,

E as donzellas feiticeiras

Com sorriso folgazão,

Cantando coytas de amores,

Quites de coytas então.

He a noite milagrosa

Do Bautista milagroso,

Té dos mouros da mourama

Havido por glorioso:

Folgão nobres e senhores,

Folga o villão descuidoso.

Horas de noite folgada

Não tardão, não têm vagar:

A noite assi do Bautista

Vai serena a escorregar,

Como areia da ampulheta,

Hum grão e outro a tombar!

Vai assi como o perfume

Respirado d’uma frol,

Que não vemos, mas sentimos;

Que sentimos no arrebol

Da manhã, que pola terra

Se espalha em antes do sol!

Vai assi como o rocio

De serena madrugada,

Rorejado gota a gota

De branca nuvem prenhada

Sobre o calice musgoso

De huma flor avelludada.

Vai assi, qual sóe prender-se,

Em quem de amores não cura,

Doce peçonha de amores:

Donzella de vida pura,

Quando ha temores de havel-o,

He qu’elle já não tem cura.


Do Alcacer as lindas filhas,

Já era nascida a aurora,

Pera ver uma corrida

Sahirão portas a fóra,

E mais pera colher flores,

Persuadidas da hora.

Logo sahidas no prado

Forão, qual sohem de ser

Mansas agoas d’hum regato

Em chão sem leito a correr,

Cada qual por seo caminho,

Cada qual a seo prazer!

Desly pulando e cantando

Vão nas matas de alecrim,

Colhem a rosa corada

E a branca flor do jasmim;

Brincão brinquedos contentes,

Folgão folguedos sem fim!

Oh! que festas! que alegrias!

Que arruido vai no prado!

Que bem cantado rimance,

Que soláo tãobem cantado!

Não têm as aves atito,

Nem gorgeio mais brincado!

Oh! que vozes melindrosas,

Que accentos encantadores

N’aquelle prazer d’huma hora!

As moças vão colher flores,

E os moços que vão com ellas

Vão lá por colher amores.

Eis nisto ... estranho arruido!

Rouca trompa abala o ar;

Logo assomão cavalleiros

Com figuras de espantar:

Allah nos valha, mofinas!

Dizem moiras a chorar.

Allah! repetem n’os Mouros,

Vendo o pendão portuguez;

E do alfange recurvado

Levão mão sem pavidez!

Feios golpes se preparão,

Outra folgança outra vez!

Retine o ferro no ferro,

Talhão-se cotas e arnezes;

O fino alfange mourisco

Abre o elmo aos portuguezes;

E a espada que bem degola,

Bem multiplica os revezes.

Lá chega o alarma á Cidade!

Lá vem mouros descançados

Em descançados ginetes:

Cavalleiros esforçados,

Que por Christo Deos pelejão,

Não têm de que ter cuidados.

Gonçalo Hermiguez, o cabo,

Avante! brada, e não al:

Brilha o valente nas lides,

Que ally não acha rival,

Aquelle cabo entre todos

Sanhudo e forte e fatal.

Maneja tam facilmente

O seo pesado montante,

Que Alcides com sua clava,

E nem o Titan gigante,

Serra a serra sobrepondo

Não tinha aquelle semblante.

Eilo vai per entre os mouros,

Abre entre elles larga estrada;

Quem fica em prisão de guerra,

Quem lá foge em debandada!

Ficão moiras prisioneiras,

Mulheres—gente coitada!

Gonçalo Hermiguez em tanto

Vio que longe lhe fugia

Linda moira desmaiada,

Que hum moço mouro cingia,

Dando d’esporas ao bruto,

Que mais que o vento corria!

Vai sobre elles sem tardança:

Com quanto de arremeção

Matal-o tambem podera,

Certo o fizera, senão

Temesse que a moira bella

Morresse de sua mão.

Mais logo que foy com elle,

D’hum golpe que despedio,

Cerce o cortou pelo meio:

Golpe assi nunca se vio!

E a moira tomando em braços,

Azinha daly fugio.

Passou terrivel com ella

Por meio da gente fera;

Quem n’o vira tam sanhudo,

Leão raivoso dissera,

Passando a travez dos homens

Com a preza que fizera.

Eis nasce novo combate,

Nova peleja maior!

Muitos homens contra hum homem,

Contra hum forte lutador;

Mas hum só que a todos vence

Em força, esforço, e valor!

Mal podia a mão sinistra

Vibrar a sangrenta espada,

Co’o pejo d’aquella moira

Disputada e desmaiada,

Cujo corpo em dois pendia,

Como huma frexa quebrada.

Mas inda assi despedia

Hum golpe e outro cruel:

E de encontro á este, á aquelle

Mandava o seo bom corsel,

Que a turba multa alastrava

Aos pés do nobre donzel.

Quando a ventura he incerta,

Acerta em aventurar

Quem a empreza disputada

Tem desejos de acabar:

Só elle demora em terra,

Que os seos já são sobre o mar!

Torce as redeas ao ginete,

Larga carreira arrepia,

Larga estrada co’o montante

Por entre os mouros se abria,

Despedia muitos golpes,

Muitos estragos fazia.

Chega a praia, os seos avista

Mas os mouros perto vêm!

Como isto vio, torce o rosto,

Medonho como ninguem;

Temem-se mouros de o verem;

Párão, como elle, tambem!

Vão assi feros monteiros

Traz d’hum urso mal sangrado,

Que de repente a carreira

Revira, e vólta agastado:

Parão monteiros ao vel-o

Raivoso e mal assombrada.

E a fera d’aquelle pasmo,

Sabendo, em seo bem, valer-se,

Vai a passos descançados

Em densa mata esconder-se,

Sem temor da montaria,

Sem dos monteiros temer-se.

Tal o forte Traga-mouros

Salta dentro do baixel;

Na praia ficão pasmados

Mouros, do feito novel,

Tamanho, que nem sonhado

Foy jamais por menestrel.

E os companheiros aos ventos

Desfraldão velas e panos,

Deixando as praias tingidas

Em sangue por muitos annos;

Quantos bastem, porque chorem

Seo dezar os musulmanos.

Aos alegres companheiros

Disse o guerreiro feliz:

«Das prezas, que nos fizemos,

Quero tam só a que eu fiz,

A moira que por seo nome

Fatima em Turco se diz!»

Então aquelle seo canto

Principiou a compor:

Cant’eu, por vergonha minha,

Em bem que o saiba de cór,

Digo que sal lhe não acho,

Nem sei de coiza pior.

Mas era o soláo por certo

Aos tempos accommodado,

Que de outro cantar não acho

Que fosse mais decantado,

Nem Figueiral Figueredo,

Nem o Ficade coitado.

E a moira já bautisada

Pertenceo ao lidador,

Duas vezes conquistada

Polo donzel, seo senhor,

Primeiro á força de espada,

Depois á força de amor.


Era assi n’aquelle tempo

Coiza sabida e seguida,

Remanso depois da gloria,

Descanço depois da lida,

E a fé que espera e milita

Nos actos todos da vida!

Vede vós quamanho he o lucro,

Que lucra a moira pagã,

Desposando o cavalleiro,

Tomada e feita christã;

He vida e sangue de hum homem,

Não de infieis barregã!

He como tropheo ganhado

Em guerras de religião

Por algum peito devoto,

Que por sua devação

Prometteo dependural-o

Dentro de templo christão.

O canto aqui finaliso!

Não devo d’hir por diante,

Narrando casos da vida

Per natureza inconstante,

Trabalhos que sempre durão,

Prazer que dura hum instante!

Foy o cabo dos amores

A moça moira acabar

E sobre hum covão aberto

Hum homem posto a chorar,

Hum homem de dó coberto,

A carpir-se, a prantear!