MIMOSA E BELLA.

N’UM ALBUM.

De anno em anno se torna mais formosa,

E novo brilho, novas graças cria.

CALDAS.

I.

Tão bella es, tão mimosa,

Qual viçosa

Fresca rosa,

Que em serena madrugada,

Despontada,

Rorejada

Foi pelo orvalho do céo;

E a aurora que tudo esmalta,

Brilha reflexos de prata

No orvalho que alli prendeo.

II.

Quando um penar afflictivo,

Sem motivo,

D’improviso

Tua alma occupa e entristece,

Que padece,

Que esmorece

Com aquelle imaginar;

Augmenta a tua belleza

Languido véo de tristeza,

Pallor de quem sabe amar.

III.

Assim murcha a sensitiva,

Sempre viva,

Sempre esquiva;

Assim perde o colorido

Por um toque irreflectido,

Mal sentido:

Assim vai o nenuphar,

Como que soffre e tem magoas,

Esconder-se em fundas agoas,

Té que o sol torne a brilhar.

IV.

Mas tão bem a flôr brincada,

Perfumada,

Debruçada

Sobre a tranquilla corrente;

Logo sente

Vir a enchente

Longe, longe a rouquejar,

Que a pobrezinha desfolha,

Sem lhe deixar uma folha,

Sem deixal-a em seo logar.

V.

Não consintas pois que as magoas,

Como as agoas,

Que das fragas

Furiosas vem tombando,

Vão tomando,

Vão levando

A flôr do teu coração!

Ha na vida u’ amor somente,

Um só amor innocente,

Uma só firme paixão.

VI.

Sê antes flôr bemfadada,

Suspirada,

Bafejada

Pela brisa que a namora,

Pela frescura da aurora,

Que a colora:

Á luz do sol se recreia,

E de noite se retrata

Da fonte na lisa prata,

Quando o céo de luz se arreia.