POESIAS AMERICANAS.


I.
O GIGANTE DE PEDRA.

O guerriers! ne laissez pas ma dépouille au corbeau!

Ensevelissez-moi parmi des monts sublimes,

Afin que l’étranger cherche, en voyant leurs cimes,

Quelle montagne est mon tombeau!

V. HUGO. Le Géant.

I.

Gigante orgulhoso, de fero semblante,

N’um leito de pedra lá jaz a dormir!

Em duro granito repousa o gigante,

Que os raios sómente podérão fundir.

Dormido atalaia no serro empinado

Devera cuidoso, sanhudo velar;

O raio passando o deixou fulminado,

E á aurora, que surge, não ha de acordar!

Co’os braços no peito cruzados nervosos,

Mais alto que as nuvens, os céos a encarar,

Seu corpo se estende por montes fragosos,

Seus pés sobranceiros se elevão do mar!

De lavas ardentes seus membros fundidos

Avultão immensos: só Deos poderá

Rebelde lançal-o dos montes erguidos,

Curvados ao peso, que sobre lhe ’stá.

E o céo, e as estrellas e os astros fulgentes

São velas, são tochas, são vivos brandões,

E o branco sudario são nevoas algentes,

E o crepe, que o cobre, são negros bulcões.

Da noite, que surge, no manto fagueiro

Quiz Deos que se erguesse, de junto a seos pés,

A cruz sempre viva do sul no cruzeiro,

Deitada nos braços do eterno Moysés.

Perfumão-no odores que as flores exhalão,

Bafejão-no carmes de um hymno de amor

Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalão,

Dos ventos que rugem, do mar em furor.

E lá na montanha, deitado dormido

Campeia o gigante,—nem póde acordar!

Cruzados os braços de ferro fundido,

A fronte nas nuvens, os pés sobre o mar!

II.

Banha o sol os horisontes,

Trepa os castellos dos céos,

Aclara serras e fontes,

Vigia os dominios seus:

Já descahe p’ra o occidente,

E em globo de fogo ardente

Vai-se no mar esconder;

E lá campeia o gigante,

Sem destorcer o semblante,

Immovel, mudo, a jazer!

Vem a noite após o dia,

Vem o silencio, o frescor,

E a brisa leve e macia,

Que lhe suspira ao redor;

E da noite entre os negrores,

Das estrellas os fulgores

Brilhão na face do mar:

Brilha a lua scintillante,

E sempre mudo o gigante,

Immovel, sem acordar!

Depois outro sol desponta,

E outra noite tambem,

Outra lua que aos céos monta,

Outro sol que após lhe vem:

Após um dia outro dia,

Noite após noite sombria,

Após a luz o bulcão,

E sempre o duro gigante,

Immovel, mudo, constante

Na calma e na cerração!

Corre o tempo fugidio,

Vem das aguas a estação,

Após ella o quente estio;

E na calma do verão

Crescem folhas, vingão flores,

Entre galas e verdores

Sazonão-se fructos mil;

Cobrem-se os prados de relva,

Murmura o vento na selva,

Azulão-se os céos de anil!

Tornão prados a despir-se,

Tornão flores a murchar,

Tornão de novo a vestir-se,

Tornão depois a seccar;

E como gota filtrada

De uma abobada escavada

Sempre, incessante a cahir,

Tombão as horas e os dias,

Como phantasmas sombrias,

Nos abysmos do porvir!

E no feretro de montes

Inconcusso, immovel, fito,

Escurece os horisontes

O gigante de granito:

Com soberba indifferença

Sente extincta a antiga crença

Dos Tamoyos, dos Pagés;

Nem vê que duras desgraças,

Que lutas de novas raças

Se lhe atropellão aos pés!

III.

E lá na montanha deitado dormido

Campeia o gigante!—nem póde acordar!

Cruzados os braços de ferro fundido,

A fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!....

IV.

Vio primeiro os incolas

Robustos, das florestas,

Batendo os arcos rigidos,

Traçando homereas festas,

Á luz dos fogos rutilos,

Aos sons do murmuré!

E em Guanabara esplendida

As danças dos guerreiros,

E o guáu cadente e vário

Dos moços prazenteiros,

E os cantos da victoria

Tangidos no boré.

E das ygaras concavas

A frota aparelhada,

Vistosa e formosissima

Cortando a undosa estrada,

Sabendo, mas que frageis,

Os ventos contrastar:

E a caça leda e rapida

Por serras, por devesas,

E os cantos da janubia

Junto ás lenhas accesas,

Quanto o tapuya misero

Seos feitos vai narrar!

E o germen da discordia

Crescendo em duras brigas,

Ceifando os brios rusticos

Das tribus sempre amigas,

—Tamoy a raça antigua,

Feroz Tupinambá.

La vai a gente improvida,

Nação vencida, imbelle,

Buscando as matas invias,

Donde outra tribu a expelle;

Jaz o pagé sem gloria,

Sem gloria a maracá.

Depois em náos flammivomas

Um troço hardido e forte,

Cobrindo os campos humidos

De fumo, e sangue, e morte,

Traz dos reparos horridos

D’altissimo pavez:

E do sangrento pelago

Em miseras ruinas

Surgir galhardas, limpidas

As portuguezas quinas,

Murchos os lises candidos

Do improvido gaulez!

V.

Mudarão-se os tempos e a face da terra,

Cidades alastrão o antigo paúl;

Mas inda o gigante, que dorme na serra,

Se abraça ao immenso cruzeiro do sul.

Nas duras montanhas os membros gelados

Talhados a golpes de ignoto buril,

Descança, ó gigante, que encerras os fados,

Que os terminos guardas do vasto Brasil.

Porêm se algum dia fortuna inconstante

Poder-nos a crença e a patria acabar,

Arroja-te ás ondas, ó duro gigante,

Inunda estes montes, desloca este mar!


II.
LEITO DE FOLHAS VERDES.

Porque tardas, Jatyr, que tanto a custo

Á voz do meu amor moves teus passos?

Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva

Nosso leito gentil cobri zeloza

Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores.

Do tamarindo a flôr abriu-se, ha pouco,

Já solta o bogarî mais doce aroma!

Como prece de amor, como estas preces,

No silencio da noite o bosque exhala.

Brilha a lua no céo, brilhão estrellas,

Correm perfumes no correr da brisa,

A cujo influxo magico respira-se

Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flôr que desabrocha ao romper d’alva

Um só gyro do sol, não mais, vegeta:

Eu sou aquella flôr que espero ainda

Doce raio do sol que me dê vida.

Sejão valles ou montes, lago ou terra,

Onde quer que tu vas, ou dia ou noite,

Vai seguindo após ti meu pensamento;

Outro amor nunca tive: es meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca virão,

Não sentirão meus labios outros labios,

Nem outras mãos, Jatyr, que não as tuas

A arasoya na cinta me apertarão.

Do tamarindo a flôr jaz entre-aberta,

Já solta o bogarî mais doce aroma;

Tambem meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exhala!

Não me escutas, Jatyr! nem tardo acodes

Á voz do meu amor, que em vão te chama!

Tupan! lá rompe o sol! do leito inutil

A brisa da manhã sacuda as folhas!


III.
Y-JUCA-PYRAMA.

I.

No meio das tabas de amenos verdores,

Cercadas de troncos—cobertos de flores,

Alteião-se os tectos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos animos fortes,

Temiveis na guerra, que em densas cohortes

Assombrão das matas a immensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de gloria,

Já prelios incitão, já cantão victoria,

Já meigos attendem á voz do cantor:

São todos Tymbiras, guerreiros, valentes!

Seu nome lá vôa na bocca das gentes,

Condão de prodigios, de gloria e terror!

As tribus visinhas, sem forças, sem brio,

As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspirárão dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes accendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem,

Aos duros guerreiros sugeitos na paz.

No centro da taba se extende um terreiro,

Onde ora se aduna o concilio guerreiro

Da tribu senhora, das tribus servis:

Os velhos sentados praticão d’outr’ora,

E os moços inquietos, que a festa enamora,

Derramão-se em torno d’um indio infeliz.

Quem é?—ninguem sabe: seu nome é ignoto,

Sua tribu não diz:—de um povo remoto

Descende por certo—d’um povo gentil;

Assim lá na Grecia ao escravo insulano

Tornavão distincto do vil musulmano

As linhas correctas do nobre perfil.

Por casos de guerra cahiu prisioneiro

Nas mãos dos Tymbiras:—no extenso terreiro

Assola-se o tecto, que o teve em prisão;

Convidão-se as tribus dos seus arredores,

Cuidosos se incumbem do vaso das cores,

Dos varios aprestos da honrosa funcção.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira,

Entesa-se a corda da embira ligeira,

Adorna-se a maça com pennas gentis:

Á custo, entre as vagas do povo da aldeia

Caminha o Tymbira, que a turba rodeia,

Garboso nas plumas de vario matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança,

Affeitas ao rito da barbara usança,

O indio já querem captivo acabar:

A coma lhe cortão, os membros lhe tingem,

Brilhante enduápe no corpo lhe cingem,

Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.

II.

Em fundos vasos d’alvacenta argilla

Ferve o cauim;

Enchem-se as copas, o prazer começa,

Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anceião,

Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no occaso

Jámais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o collo,

Mostra-lhe o fim

Da vida escura, que será mais breve

Do que o festim!

Com tudo os olhos d’ignobil pranto

Seccos estão;

Mudos os labios não descerrão queixas

Do coração.

Mas um martyrio, que encobrir não póde,

Em rugas faz

A mentirosa placidez do rosto

Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta

No passo horrendo?

Honra das tabas que nascer te virão,

Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, á chuva,

Lá murcha e pende:

Sómente ao tronco, que devassa os ares,

O raio offende!

Que foi? Tupan mandou que elle cahisse,

Como viveu;

E o caçador que o avistou prostrado

Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

III.

Em larga roda de noveis guerreiros

Ledo caminha o festival Tymbira,

A quem do sacrificio cabe as honras.

Na fronte o kanitar sacode em ondas,

O enduápe na cinta se embalança,

Na dextra mão sopesa a iverapeme,

Orgulhoso e pujante.—Ao menor passo

Collar d’alvo marfim, insignia d’honra,

Que lhe orna o collo e o peito, ruge e freme,

Como que por feitiço não sabido

Encantadas alli as almas grandes

Dos vencidos Tapuyas, inda chorem

Serem gloria e brasão d’imigos feros.

«Eis-me aqui, diz ao indio prisioneiro;

«Pois que fraco, e sem tribu, e sem familia,

«As nossas matas devassaste ousado,

«Morrerás morte vil da mão de um forte.»

Vem a terreiro o misero contrario;

Do collo á cinta a musurana desce:

«Dize-nos quem es, teus feitos canta,

«Ou se mais te apraz, defende-te.» Começa

O indio, que ao redor derrama os olhos,

Com triste voz que os animos commove.

IV.

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribu tupi.

Da tribu pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci:

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,

De tribus imigas,

E as duras fadigas

Da guerra provei;

Nas ondas mendaces

Senti pelas faces

Os silvos fugaces

Dos ventos que amei.

Andei longes terras,

Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras

Dos vis Aymorés;

Vi lutas de bravos,

Vi fortes—escravos!

De estranhos ignavos

Calcados aos pés.

E os campos talados,

E os arcos quebrados,

E os piagas coitados

Já sem maracás;

E os meigos cantores,

Servindo a senhores,

Que vinhão traidores,

Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo

Meu ultimo amigo,

Sem lar, sem abrigo

Cahio junto a mi!

Com placido rosto,

Sereno e composto,

O acerbo desgosto

Commigo soffri.

Meu pae a meu lado

Já cego e quebrado,

De penas ralado,

Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos,

Por invios caminhos,

Cobertos d’espinhos

Chegamos aqui!

O velho no em tanto

Soffrendo já tanto

De fome e quebranto,

Só qu’ria morrer!

Não mais me contenho,

Nas matas me embrenho,

Das frechas que tenho

Me quero valer.

Então, forasteiro,

Cahi prisioneiro

De um troço guerreiro

Com que me encontrei:

O cru dessocego

Do pae fraco e cego,

Em quanto não chego,

Qual seja,—dizei!

Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deos lhe deixou:

Em mim se apoiava,

Em mim se firmava,

Em mim descançava,

Que filho lhe sou.

Ao velho coitado

De penas ralado,

Já cego e quebrado,

Que resta?—Morrer.

Em quanto descreve

O gyro tão breve

Da vida que teve,

Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,

Mas forte, mas bravo,

Serei vosso escravo:

Aqui virei ter.

Guerreiros, não córo

Do pranto que choro;

Se a vida deploro,

Tambem sei morrer.

V.

Soltai-o!—diz o chefe. Pasma a turba;

Os guerreiros murmurão: mal ouvírão,

Nem poude nunca um chefe dar tal ordem!

Brada segunda vez com voz mais alta,

Afrouxão-se as prisões, a embira cede,

A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

—Tymbira, diz o indio enternecido,

Solto apenas dos nós que o seguravão:

Es um guerreiro illustre, um grande chefe,

Tu que assim do meu mal te commoveste,

Nem soffres que, transposta a natureza,

Com olhos onde a luz já não scintilla,

Chore a morte do lho o pae cançado,

Que somente por seu na voz conhece.

—Es livre; parte.

—E voltarei.

—Debalde.

—Sim, voltarei, morto meu pai.

—Não voltes!

E bem feliz, se existe, em que não veja,

Que filho tem, qual chora: es livre; parte.

—Acaso tu suppões que me acobardo,

Que receio morrer!

—Es livre; parte!

—Ora não partirei; quero provar-te

Que um filho dos Tupis vive com honra,

E com honra maior, se acaso o vencem,

Da morte o passo glorioso affronta.

—Mentiste, que um Tupi não chora nunca,

E tu choraste!... parte; não queremos

Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi:—arfando em ondas

O rebater do coração se ouvia

Precipite.—Do rosto afogueado

Gelidas bagas de suor corrião:

Talvez que o assaltava um pensamento...

Já não ... que na enlutada fantasia,

Um pesar, um martyrio ao mesmo tempo,

Do velho pae a moribunda imagem

Quasi bradar-lhe ouvia:—Ingrato! ingrato!

Curvado o collo, taciturno e frio,

Espectro d’homem, penetrou no bosque!

VI.

—Filho meu, onde estás?

—Ao vosso lado;

Aqui vos trago provisões: tomai-as,

As vossas forças restaurai perdidas,

E a caminho, e já!

—Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste,

E frouxo o seu calor já sinto agora!

—Sim, demorei-me a divagar sem rumo,

Perdi-me nestas matas intrincadas,

Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;

Convem partir, e já!

—Que novos males

Nos resta de soffrer?—que novas dores,

Que outro fado pior Tupan nos guarda?

—As setas da afflicção já se esgotárão,

Nem para novo golpe espaço intacto

Em nossos corpos resta.

—Mas tu tremes!

—Talvez do afan da caça...

—Oh filho caro!

Um quê mysterioso aqui me falla,

Aqui no coração; piedosa fraude

Será por certo, que não mentes nunca!

Não conheces temor, e agora temes?

Vejo e sei: é Tupan que nos afflige,

E contra o seu querer não valem brios.

Partamos!...—

E com mão tremula, incerta

Procura o filho, tateando as trevas

Da sua noite lugubre e medonha.

Sentindo o acre odor das frescas tintas,

Uma idéa fatal correu-lhe á mente....

Do filho os membros gelidos apalpa,

E a dolorosa maciez das plumas

Conhece estremecendo:—foge, volta,

Encontra sob as mãos o duro craneo,

Despido então do natural ornato!....

Recúa afflicto e pavido, cobrindo

Ás mãos ambas os olhos fulminados,

Como que teme ainda o triste velho

De ver, não mais cruel, porêm mais clara,

D’aquelle exicio grande a imagem viva

Ante os olhos do corpo afigurada.

Não era que a verdade conhecesse

Inteira e tão cruel qual tinha sido;

Mas que funesto azar correra o filho,

Elle o via; elle o tinha alli presente;

E era de repetir-se a cada instante.

A dôr passada, a previsão futura

E o presente tão negro, alli os tinha;

Alli no coração se concentrava,

Era n’um ponto só, mas era a morte!

—Tu prisioneiro, tu?

—Vós dissestes.

—Dos indios?

—Sim.

—De que nação?

—Tymbiras.

—E a musurana funeral rompeste,

Dos falsos manitôs quebraste a maça....

—Nada fiz ... aqui estou.

—Nada!—

Emmudecem;

Curto instante depois prosegue o velho:

—Tu es valente, bem o sei; confessa,

Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!

—Nada fiz; mas souberão da existencia

De um pobre velho, que em mim só vivia....

—E depois?...

—Eis me aqui.

—Fica esse taba?

—Na direcção do sol, quando transmonta.

—Longe?

—Não muito.

—Tens razão: partamos.

—E quereis ir?...

—Na direcção do occaso.

VII.

«Por amor de um triste velho,

Que ao termo fatal já chega,

Vós, guerreiros, concedestes

A vida a um prisioneiro.

Acção tão nobre vos honra,

Nem tão alta cortesia

Vi eu jámais praticada

Entre os Tupis,—e mas forão

Senhores em gentileza.

«Eu porêm nunca vencido,

Nem nos combates por armas,

Nem por nobreza nos actos;

Aqui venho, e o filho trago.

Vós o dizeis prisioneiro,

Seja assim como dizeis;

Mandai vir a lenha, o fogo,

A maça do sacrificio

E a musurana ligeira:

Em tudo o rito se cumpra!

E quando eu for só na terra,

Certo acharei entre os vossos,

Que tão gentis se revelão,

Alguem que meus passos guie;

Alguem, que vendo o meu peito

Coberto de cicatrizes,

Tomando a vez de meu filho,

De haver-me por pae se ufane!»

Mas o chefe dos Tymbiras,

Os sobrolhos encrespando,

Ao velho Tupi guerreiro

Responde com torvo accento:

—Nada farei do que dizes:

É teu filho imbelle e fraco!

Aviltaria o triumpho

Da mais guerreira das tribus

Derramar seu ignobil sangue:

Elle chorou de cobarde;

Nós outros, fortes Tymbiras,

Só de heróes fazemos pasto.—

Do velho Tupi guerreiro

A surda voz na garganta

Faz ouvir uns sons confusos,

Como os rugidos de um tigre,

Que pouco a pouco se assanha!

VIII.

«Tu choraste em presença da morte?

Na presença de estranhos choraste?

Não descende o cobarde do forte;

Pois choraste, meu filho não es!

Possas tu, descendente maldicto

De uma tribu de nobres guerreiros,

Implorando crueis forasteiros,

Seres presa de vis Aymorés.

«Possas tu, isolado na terra,

Sem arrimo e sem patria vagando,

Regeitado da morte na guerra,

Regeitado dos homens na paz,

Ser das gentes o espectro execrado;

Não encontres amor nas mulheres,

Teus amigos, se amigos tiveres,

Tenhão alma inconstante e falaz!

«Não encontres doçura no dia,

Nem as cores da aurora te ameiguem,

E entre as larvas da noite sombria

Nunca possas descanço gozar:

Não encontres um tronco, uma pedra,

Posta ao sol, posta as chuvas e aos ventos,

Padecendo os maiores tormentos,

Onde possas a fronte pousar.

«Que a teus passos a relva se torre;

Murchem prados, a flor desfalleça,

E o regato que limpido corre,

Mais te accenda o vesano furor;

Suas agoas depressa se tornem,

Ao contacto dos labios sedentos,

Lago impuro de vermes nojentos,

Donde fujas com asco e terror!

«Sempre o céo, como um tecto incendido,

Creste e punja teus membros maldictos

E o oceano de pó denegrido

Seja a terra ao ignavo tupi!

Miseravel, faminto, sedento,

Manitôs lhe não fallem nos sonhos,

E do horror os espectros medonhos

Traga sempre o cobarde após si.

«Um amigo não tenhas piedoso

Que o teu corpo na terra embalsame,

Pondo em vaso d’argilla cuidoso

Arco e frecha e tacápe a teus pés!

Sê maldicto, e sosinho na terra;

Pois que a tanta vileza chegaste,

Que em presença da morte choraste,

Tu, cobarde, meu filho não es.»

IX.

Isto dizendo, o miserando velho

A quem Tupan tamanha dôr, tal fado

Já nos confins da vida reservára,

Vae com tremulo pé, com as mãos já frias

Da sua noite escura as densas trevas

Palpando.—Alarma! alarma!—O velho pára!

O grito que escutou é voz do filho,

Voz de guerra que ouvio já tantas vezes

N’outra quadra melhor.—Alarma! alarma!

—Esse momento só vale apagar-lhe

Os tão compridos trances, as angustias,

Que o frio coração lhe atormentarão

De guerreiro e de pae:—vale, e de sobra.

Elle que em tanta dôr se contivera,

Tomado pelo subito contraste,

Desfaz-se agora em pranto copioso,

Que o exhaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem,

Gritos, imprecações profundas soão,

Emmaranhada a multidão braveja,

Revolve-se, ennovela-se confusa,

E mais revolta em mor furor se accende.

E os sons dos golpes que incessantes fervem,

Vozes, gemidos, estertor de morte

Vão longe pelas ermas serranias

Da humana tempestade propagando

Quantas vagas de povo enfurecido

Contra um rochedo vivo se quebravão.

Era elle, o Tupi; nem fôra justo

Que a fama dos Tupis—o nome, a gloria,

Aturado labor de tantos annos,

Derradeiro brasão da raça extincta,

De um jacto e por um só se aniquilasse.

—Basta! clama o chefe dos Tymbiras,

—Basta, guerreiro illustre! assás lutaste,

—E para o sacrificio é mister forças.—

O guerreiro parou, cahio nos braços

Do velho pae, que o cinge contra o peito,

Com lagrimas de jubilo bradando:

«Este, sim, que é meu filho muito amado!

«E pois que o acho em fim, qual sempre o tive,

«Corrão livres as lagrimas que choro,

«Estas lagrimas, sim, que não deshonrão.»

X.

Um velho Tymbira, coberto de gloria,

Guardou a memoria

Do moço guerreiro, do velho Tupi!

E á noite, nas tabas, se alguem duvidava

Do que elle contava,

Dizia prudente:—«Meninos, eu vi!

«Eu vi o brioso no largo terreiro

Cantar prisioneiro

Seu canto de morte, que nunca esqueci:

Valente, como era, chorou sem ter pejo;

Parece que o vejo,

Que o tenho nest’hora diante de mi’.

«Eu disse comigo: Que infamia d’escravo!

Pois não, era um bravo;

Valente e brioso, como elle, não vi!

E á fé que vos digo: parece-me encanto

Que quem chorou tanto,

Tivesse a coragem que tinha o Tupi!»

Assim o Tymbira, coberto de gloria,

Guardava a memoria

Do moço guerreiro, do velho Tupi.

E á noite nas tabas, se alguem duvidava

Do que elle contava,

Tornava prudente: «Meninos, eu vi!»


IV.
MARABÁ.

Eu vivo sosinha; ninguem me procura!

Acaso feitura

Não sou de Tupá!

Se algum d’entre os homens de mim não se esconde,

—Tu es, me responde,

—Tu es Marabá!

—Meus olhos são garços, são côr das saphiras,

—Tem luz das estrellas, tem meigo brilhar;

—Imitão as nuvens de um céo anilado,

—As cores imitão das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:

«Teus olhos são garços,»

Responde anojado; «mas es Marabá:

«Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,

«Uns olhos fulgentes,

«Bem pretos, retinctos, não côr d’anajá!»

—É alvo meu rosto da alvura dos lyrios,

—Da côr das areias batidas do mar;

—As aves mais brancas, as conchas mais puras

—Não tem mais alvura, não tem mais brilhar.—

Se ainda me escuta meus agros delirios:

«Es alva de lyrios»

Sorrindo responde; «mas es marabá:

«Quero antes um rosto de jambo corado,

«Um rosto crestado

«Do sol do deserto, não flor de cajá.»

—Meu collo de leve se encurva engraçado,

—Como hastea pendente do cactos em flor;

—Mimosa, indolente, resvalo no prado,

—Como um soluçado suspiro de amor!—

«Eu amo a estatura flexivel, ligeira,

«Qual duma palmeira,»

Então me respondem; «tu es Marabá:

«Quero antes o collo da ema orgulhosa,

«Que pisa vaidosa,

«Que as floreas campinas governa, onde está.»

—Meus loiros cabellos em ondas se annelão,

—O oiro mais puro não tem seu fulgor;

—As brisas nos bosques de os ver se enamorão,

—De os ver tão formosos como um beija-flor!—

Mas elles respondem: «Teus longos cabellos,

«São loiros, são bellos,

«Mas são annelados; tu es Marabá:

«Quero antes cabellos, bem lisos, corridos,

«Cabellos compridos,

«Não côr d’oiro fino, nem côr d’anajá.»


E as doces palavras que eu tinha cá dentro

A quem n’as direi?

O ramo d’acacia na fronte de um homem

Jámais cingirei:

Jámais um guerreiro da minha arasoya

Me desprenderá:

Eu vivo sosinha, chorando mesquinha,

Que sou Marabá!


V.
CANÇÃO DO TAMOYO.

(Natalicia.)

I.

Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos,

Só pode exaltar.

II.

Um dia vivemos!

O homem que é forte

Não teme da morte;

Só teme fugir;

No arco que enteza

Tem certa uma presa,

Quer seja tapuya,

Condor ou tapyr.

III.

O forte, o cobarde

Seus feitos inveja

De o ver na peleja

Garboso e feroz;

E os timidos velhos

Nos graves concelhos,

Curvadas as frontes,

Escutão-lhe a voz!

IV.

Domina, se vive;

Se morre, descança

Dos seus na lembrança,

Na voz do porvir.

Não cures da vida!

Sê bravo, sê forte!

Não fujas da morte,

Que a morte ha de vir!

V.

E pois que es meu filho,

Meus brios reveste;

Tamoyo nasceste,

Valente serás.

Sê duro guerreiro,

Robuste, fragueiro,

Brasão dos tamoyos

Na guerra e na paz.

VI.

Teu grito de guerra

Retumbe aos ouvidos

D’imigos transidos

Por vil commoção;

E tremão d’ouvil-o

Peor que o sibilo

Das seta ligeiras,

Peor que o trovão.

VII.

E a mãe nessas tabas,

Querendo calados

Os filhos creados

Na lei do terror;

Teu nome lhes diga,

Que a gente inimiga

Talvez não escute

Sem pranto, sem dôr!

VIII.

Porêm se a fortuna,

Trahindo teus passos,

Te arroja nos laços

Do imigo fallaz!

Na ultima hora

Teus feitos memora,

Tranquillo nos gestos,

Impavido, audaz.

IX.

E cae como o tronco

Do raio tocado,

Partido, rojado

Por larga extenção;

Assim morre o forte!

No passo da morte

Triunfa, conquista

Mais alto brasão.

X.

As armas ensaia,

Penetra na vida:

Pesada ou querida,

Viver é lutar.

Se o duro combate

Os fracos abate,

Aos fortes, aos bravos,

Só pode exaltar.


VI.
A MANGUEIRA.

Já viste cousa mais bella

Do que uma bella mangueira,

E a doce fruta amarella,

Sorrindo entre as folhas della,

E a leve copa altaneira?

Já viste cousa mais bella

Do que uma bella mangueira?

Nos seus alegres verdores

Se embalança o passarinho;

Todo é graça, todo amores,

Decantando seus ardores

Á beira do casto ninho:

Nos seos alegres verdores

Se embalança o passarinho!

O cançado viandante

Á sombra della acha abrigo;

Traz-lhe a aragem susurrante,

Que lhe passa no semblante,

Talvez o adeos d’um amigo;

E o cançado viandante

Á sombra della acha abrigo.

A sombra que ella derrama

Todas as dores acalma;

Seja dôr que o peito inflamma,

Ou voraz, nociva chamma

Que nos mora dentro d’alma,

A sombra que ella derrama

Todas as dores acalma.

O mancebo namorado

Para ella se encaminha;

Bate-lhe o peito açodado,

Quando chega o praso dado,

Quando ao tronco se avisinha,

E o mancebo namorado

Para o tronco se encaminha.

Sob a copa deleitosa

Mil suspiros se entrelação,

E d’uma hora aventurosa

Guarda a prova a casca annosa

Nas cifras que alli se abração:

Sob a copa venturosa

Mil suspiros se entrelação.

Grata estação dos amores,

Abrigo dos que o não tem,

Deixa-me ouvir teos cantores,

Admirar teos verdores;

Presta-me abrigo tambem,

Grata estação dos amores,

Abrigo dos que o não tem!


VII.
A MÃE D’AGUA.

«Minha mãe, olha aqui dentro,

Olha a bella creatura,

Que dentro d’agoa se vê!

São d’ouro os longos cabellos,

Gentil a doce figura,

Airosa, leve a estatura;

Olha, vê no fundo d’agua

Que bella moça não é!

«Minha mãe, no fundo d’agua

Vê essa mulher tão bella!

O sorrir dos labios della,

Inda mais doce que o teu,

É como a nuvem rosada,

Que no romper da alvorada,

Passa risonha no céo.

«Olha, mãe, olha depressa!

Inclina a leve cabeça

E nas mãosinhas resume

A fina trança mimosa,

E com pente de marfim!...

Olha agora que me avista

A bella moça formosa,

Como se fez toda rosa,

Toda candura e jasmim!

Dize, mãe, dize: tu julgas

Que ella se ri para mim!

«São seus labios entre-abertos

Semilhantes a romã;

Tem ares d’uma princesa,

E no emtanto é tão medrosa!...

Inda mais que minha irmã.

Olha, mãe, sabes quem é

A bella moça formosa,

Que dentro d’agua se vê?»

—Tem-te, meu filho; não olhes

Na funda, lisa corrente:

A imagem que te embelleza

É mais do que uma princesa,

É menos do que é a gente.

—Oh! quantas mães desgraçadas

Chorão seus filhos perdidos!

Meu filho, sabes porquê?

Foi porque derão ouvidos

Á leve sombra enganosa,

Que dentro d’agua se vê.

—O seu sorriso é mentira,

Não é mais que sombra vã;

Não vale aquillo que eu valho,

Nem o que val tua irmã:

É como a nuvem sem corpo,

De quando rompe a manhã.

—É a mãe d’agua traidora,

Que illude os faceis meninos,

Quando elles são pequeninos

E obedientes não são;

Olha, filho, não a escutes,

Filho do meu coração:

O seu sorriso é mentira,

É terrivel tentação.—


Junto ao rio chrystallino

Brincava o ledo menino,

Molhando o pé;

O fresco humor o convida,

Menos que a imagem querida,

Que n’agua vê.

Cauteloso de repente,

Ouve o concelho prudente,

Que a mãe lhe dá;

Não é anjo, não é fada;

Mas uma bruxa malvada,

E cousa má.

Ella é quem rouba os meninos

Para os tragar pequeninos,

Ou mais talvez!

E para vingar-se n’agua

Da causa tanta magoa,

Remeche os pés.

Turba a fonte n’um instante,

Já não vê o bello infante

A sombra vã,

E as brancas mãos delicadas

E as longas tranças douradas

Da sua irmã.

O menino arrependido

Diz comsigo entristecido:

—Que mal fiz eu!

Minha mãe, bem que indulgente,

Só por não me ver contente,

Me repr’hendeu.—

Era figura tão bella!

E que expressão tão singela,

Que riso o seu!

Oh! minha mãe certamente

Só por não me ver contente,

Me repr’hendeu!

Espreita, sim, mas duvída

Que a bella imagem querida

Torne a volver;

E na fonte crystallina

Para ver todo se inclina

Se a póde ver!

Acha-se ainda turbada,

E a bella moça agastada

Não quer voltar;

Sacode leve a cabeça,

Em quanto o pranto começa

A borbulhar.

E de triste e arrependido

Diz comsigo entristecido:

—Que mal fiz eu!...

—Leda ao ver-me parecia,

—Era boa, e me sorria....

—Que riso o seu!


As aguas no em tanto de novo se aplacão,

A lisa corrente se espelha outra vez;

E a imagem querida no fundo apparece

Com mil peixes varios brincando a seus pés.

Do collo uma charpa trazia pendente,

Cortando-lhe o seio de brancos jasmins,

Um iris nas cores, e as franjas bordadas

De prata luzente, de vivos rubins.

Uma harpa a seu lado frisava a corrente,

Gemendo queixosa da leve pressão,

Como harpas ethereas, que as brisas conversão,

Achando-as perdidas em mesta soidão.

Sentida, chorosa parece que estava,

E o bello menino, sentado, a chorar

«Perdôa, dizia-lhe, o mal que te hei feito;

Por minha vontade não hei de tornar!»

A harpa dourada de subito vibra,

A charpa se agita do seio ao travez;

Das franjas garbosas as pedras reflectem

Infindos luzeiros nos humidos pés.

Os peixes pasmados de subito parão

No fundo luzente de puro crystal;

Fantasticos seres assomão ás grutas

Do nitido ambar, do vivo coral!

Em tanto o menino se curva e se inclina

Por ver mais de perto a donosa visão;

A mãe, longe delle, dizia:—Meu filho,

Não oiças, não vejas, que é má tentação.—


«Vem meu amigo, dizia

A bella fada engraçada,

Pulsando a harpa dourada:

—Sou boa, não faço mal,

Vem ver meus bellos palacios,

Meus dominios dilatados,

Meus thesouros encantados

No meu reino de crystal.

«Vem, te chamo: vê a limpha

Como é bella e crystallina;

Vê esta areia tão fina,

Que mais que a neve seduz!

Vem, verás como aqui dentro

Brincão mil leves amores,

Como em listas multicores

Do sol se desfaz a luz.

«Se não achas borboletas

Nem as vagas mariposas,

Que brincão por entre as rosas

Do teu ameno jardim;

Tens mil peixinhos brilhantes,

Mais luzentes e mais bellos

Que o oiro dos meus cabellos,

Que a nitidez do setim.»


Em tanto o menino se curva e se inclina

Por ver de mais perto a donosa visão;

E a mãe longe delle, dizia: meu filho,

Não oiças, não vejas, que é má tentação.


«Vem, meu amigo, tornava

A bella fada engraçada,

Vem ver a minha morada,

O meu reino de crystal:

Não se sente a tempestade

Na minha espaçosa gruta,

Nem voz do trovão se escuta,

Nem roncos do vendaval.

«Aqui, ao findar do dia,

Tudo rapido se accende,

E o meu palacio resplende

De vivo, ethereo clarão.

Mil figuras apparecem,

Mil donzellas encantadas

Com angelicas toadas

De ameigar o coração.

«Quando passo, as brandas aguas

Por me ver passar se afastão,

E mil estrellas se engastão

Nas paredes do crystal.

Surgem luzes multicores,

Como desses perilampos,

Que tu vês andar nos campos,

Sem comtudo fazer mal.

«Quando passo, mil sereias,

Deixando as grutas limosas,

Formão ledas, pressurosas

O meu sequito real:

Vem! dar-te-hei meus palacios,

Meus dominios dilatados,

Meus thesouros encantados

E o meu reino de crystal.»


Em tanto o menino se curva e se inclina

Para a visão;

E a mãe lhe dizia: Não vejas, meu filho,

Que é tentação.

E o bello menino, dizendo comsigo:—

Que bem fiz eu!

Por ver o thesouro gentil, engraçado,

Que já é seu:

Atira-se ás aguas: n’um grito medonho

A mãe lastimavel—Meu filho!—bradou:

Respondem-lhe os echos; porêm voz humana

Aos gritos da triste não torna:—aqui estou!