PRIMEIROS CANTOS.

PROLOGO DA PRIMEIRA EDICÇÃO.

Dei o nome de “Primeiros Cantos” ás poesias que agora publíco, porque espero que não serão as ultimas.

Muitas dellas não tem uniformidade nas strophes, porque menospreço regras de mera convenção; adoptei todos os rhythmos da metrificação portugueza, e usei delles como me parecérão quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.

Não tem unidade de pensamento entre si, porque forão compostas em epochas diversas—debaixo de céo diverso—e sob a influencia de impressões momentaneas. Forão compostas nas margens viçosas do Mondego e nos pincaros ennegrecidos do Gerez—no Doiro e no Tejo—sobre as vagas do Atlantico, e nas florestas virgens da America. Escrevi-as para mim, e não para os outros; contentar-me-hei, se agradarem; e se não ... é sempre certo que tive o prazer de as ter composto.

Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena politica para lêr em minha alma, reduzindo á lingoagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéas que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano—o aspecto emfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento—o coração com o entendimento—a idéa com a paixão—colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia—a Poesia grande e sancta—a Poesia como eu a comprehendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.

O esforço—ainda vão—para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Publico o julgará; tanto melhor se elle o despreza, porque o Auctor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.

Rio de Janeiro—Julho de 1846.