RECORDAÇÃO.

Nessun maggior dolore....

DANTE.

Quando em meo peito as afflicções rebentão

Eivadas de soffrer acerbo e duro;

Quando a desgraça o coração me arrocha

Em circulos de ferro, com tal força,

Que delle o sangue em borbotões golfeja;

Quando minha alma de soffrer cançada,

Bem que affeita a soffrer, siquer não pode

Clamar: Senhor piedade;—e que os meos olhos

Rebeldes, uma lagrima não vertem

Do mar d’angustias que meo peito opprime:

Volvo aos instantes de ventura, e penso

Que a sós comtigo, em pratica serena,

Melhor futuro me augurava, as doces

Palavras tuas, sofregos, attentos

Sorvendo meos ouvidos,—nos teos olhos

Lendo os meos olhos tanto amor, que a vida

Longa, bem longa, não bastára ainda

Porque de os ver me saciasse!... O pranto

Então dos olhos meos corre espontaneo,

Que não mais te verei.—Em tal pensando

De martyrios calar sinto em meo peito

Tão grande plenitude, que a minha alma

Sente amargo prazer de quanto soffre.