TE DEUM.
Nós, Senhor, nós te louvamos,
Nós, Senhor, te confessamos.
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto,
Immenso é o teo poder, tua força immensa,
Teos prodigios sem conta;—e os céos e a terra
Teo ser e nome e gloria preconisão.
E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,
E o côro dos prophetas, e dos martyres
A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto.
Na innocencia do infante es tu quem fallas;
A belleza, o pudor—es tu que as gravas
Nas faces da mulher,—es tu que ao velho
Prudencia dás,—e o que verdade e força
Nos puros labios, do que é justo, imprimes.
Es tu quem dás rumor á quieta noite,
Es tu quem dás frescor á mansa brisa,
Quem dás fulgor ao raio, azas ao vento,
Quem na voz do trovão longe rouquejas.
Es tu que do oceano á furia insana
Pões limites e cobro,—es tu que a terra
No seo vôo equilibras,—quem dos astros
Governas a harmonia, como notas
Acordes, simultaneas, palpitando
Nas cordas d’Harpa do teo Rei Propheta,
Quando elle em teo louvor hymnos soltava,
Qu’ ião, cheios de amor, beijar teo solio.
Sancto! Sancto! Sancto!—teos prodigios
São grandes, como os astros,—são immensos
Como arêa delgada em quadra estiva.
E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,
E o côro dos prophetas, e dos martyres
A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão,
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes grande.
ADEOS
AOS MEOS AMIGOS DO MARANHÃO.
Meos Amigos, Adeos! Já no horizonte
O fulgor da manhã se empurpurece:
É puro e branco o céo,—as ondas mansas,
—Favoravel a brisa;—irei de novo
Sorver o ar purissimo das ondas,
E na vasta amplidão dos céos e mares
De vago imaginar embriagar-me!
Meos Amigos, Adeos!—Verei fulgindo
A lua em campo azul, e o sol no occaso
Tingir de fogo a implacidez das agoas;
Verei horridas trevas lento e lento
Descerem, como um crepe funerario
Em negro esquife, onde repoisa a morte;
Verei a tempestade quando alarga
As negras azas de bulcões, e as vagas
Soberbas encastella, esporeando
O curto bojo de ligeiro barco,
Que geme, e ruge, e empina-se insoffrido
Galgando os escarceos,—bem larga esteira
De phosphoro e de luz traz si deixando:
Generoso corsel, que sente as cruzes
Agudas de teimosos acicates
Lacerarem-lhe rabidas o ventre.
Inda uma vez, Adeos! Curtos instantes
De ineffavel prazer—horas bem curtas
De ventura e de paz frui comvosco:
Oasis que encontrei no meo deserto,
Tepido valle entre fragosas serras
Virente derramado, foi a quadra
Da minha vida, que passei comvosco.
Aqui de quanto amei, do que hei soffrido,
De tudo quanto almejo, espero, ou temo
Deslembrado vivi!—Oh! quem me dera
Que entre vós outros me alvejasse a fronte,
E que eu morresse entre vós! Mas força occulta,
Irresistivel, me persegue e impelle.
Qual folha instavel em ventoso estio
Do vento ao sopro a esvoaçar sem custo;
Assim vou eu sem tino,—aqui pegadas
Mal firmes assentando—além pedaços
De mim mesmo deixando. Na floresta
O lasso viandante extraviado
Por todo o verde bosque estende os olhos,
E cançado esmorece,—cáe, medita,
Respira mais de espaço, cobra alento,
E nas solidões de novo eil-o se entranha.
Vestigios mal seguros sopra o vento,
Ou nivella-os a chuva, ou relva os cobre:
Talvez que folhas asperas de arbusto
Mordão vellos da tunica, e denotem
(Duvída o viajor, que os vê com pasmo)
Que errante caminheiro alli passasse.
E eu parti!—Não chorei, que do meo pranto
A larga fonte jaz de ha muito exhausta;
Ha muito que os meos olhos não gotejão
O repassado fel d’acre amargura;
E o pranto no meo peito represado
Em cinza o coração me ha convertido.
É assim que um vulcão se torna fonte
De lympha amarga e quente; e a fonte em ermo,
Onde não crescem perfumadas flôres,
Nem tenras aves seos gorgeios soltão,
Nem triste viajor encontra abrigo.
Rasgado o coração de pena acerba,
Transido de afflicções, cheio de magoa,
Miserando parti! tal quando reprobo,
Adão, cobrindo os olhos coas mãos ambas,
Em meio a sua dôr só descobria
Do Archanjo os candidissimos vestidos,
E os lampejos da espada fulminante,
Que o Eden tão mimoso lhe vedava.
Porém quando algum dia o colorido
Das vivas illusões, que inda conservo,
Sem força esmorecer,—e as tão viçosas
Esp’ranças, que eu educo, se afundarem
Em mar de desenganos;—a desgraça
Do naufragio da vida ha de arrojar-me
Á praia tão querida, que ora deixo.
Tal parte o desterrado: um dia as vagas
Hão de os seos restos regeitar na praia,
D’onde tão novo se partira, e onde
Procura a cinza fria achar jazigo.