EGLOGA.
SEGUNDA PARTE.
DO MESMO AUTHOR.
INTERLOCULORES.
GALATÉA, LAURINDO, E ÁCIS.
GALATÉA.
EGLOGA.
A bella, incomparavel Galatéa, A Nynfa, tutelar, gloria d'Aldêa O seu Ácis perdido busca afflicta: Corre, examina, geme, chora, e grita: "Ácis! Ácis! Meu bem! Onde te escondes? "Eu rouca de chamar-te, e não respondes? "Se nas margens do rio por ti clamo; "Mais foge o rio, quanto mais te chamo. "Se á fonte vou teu nome repetindo, "Ella vai murmurando, e vai-se rindo. "Só este monte de me ouvir magoado, "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado! "Ah meu Ácis! meu bem, se inda tens vida, "Soccorre esta, que he tua, assáz perdida. "E se aos campos Elysios já partiste, "Lá verás breve a Galatéa triste. "A ti me ha de ligar a morte crua; Pois tu és a minha alma: eu alma tua.
LAURINDO.
Que vozes, ternas vozes tão sentidas Os montes ferem de afflicção nascidas!
GALATÉA.
Ah Pastores, que, alegres, divertidos Cantais ao triste som dos meus gemidos! Se este pranto vos move á caridade, Deparai-me o meu Ácis, por piedade.
LAURINDO.
A voz he de mulher. que ao longe grita. Quem pudéra valer á triste afflicta! Os duros écos, que este valle atrôão, Senão me engano, desta encosta sôão. Eu vou por este pedregoso atalho Ver, se encontro, quem he, ver se lhe valho.
GALATÉA.
Ah! Ninguem já responde aos meus clamores? Já não acho piedade nos Pastores? Misera Galatéa! A que chegaste, Depois que amor no coração geraste! Mas ah! Senão me engana a mata espessa, Hum homem para mim o passo apressa! He Pastor: quem será? Não vejo tanto, Pois me escurece a vista o grosso pranto. Será o meu bom Ácis? Se elle fôra, Huma nova alma eu concebêra agora. Ácis! Ácis! És tu? Responde, falla: Ou não he elle, ou não me estima, e cala:
LAURINDO.
He Pastora; e se não me engana a idéa Pelo gentil semblante he Galatéa.
GALATÉA.
Ah! Já vejo: já estou desenganada, Que o meu Ácis não he. Ó desgraçada!
LAURINDO.
Galatéa, que tens? Tu, que algum dia Semeavas os campos de alegria, Hoje com pranto, e vozes, que enternecem, Murchas as plantas, que ao teu riso crescem!
GALATÉA.
Feliz foi esse tempo; porém hoje De mim (qual rez ferida) o prazer foge. Mas dize-me, Laurindo, acaso viste O meu Ácis, por quem suspiro triste?
LAURINDO.
Ha dias, que o não vi; mas que motivo Banha o teu lindo rosto em pranto activo?
GALATÉA.
Eu te mostro a origem, que ao mostralla, No triste peito o coração me estalla. Ha tres dias... Oh dias de amargura, Mais negros para mim, que a noite escura! Quando o Sol hia ver outro Orizonte, Deixando triste o rio, o valle, o monte, Metto o fuso na róca, o gado chamo Para o pobre curral, vem ao reclamo: Conto as cabeças, falta-me a Ovelhinha, Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha, Por brincadora, esperta, e tão malhada, Que parecia com pincel pintada. Tinha-me tanto amor, que se eu gemia Ella então nem brincava, nem comia. Mas se me via alegre, ou se eu cantava, Ella ao meu lado de prazer saltava. Eu afflicta a busquei té junto ao Téjo; Quando na margem o meu Ácis vejo. Corre a ver-me, e no riso amor explica; Porém vendo-me afflicta, afflicto fica. Pergunta-me a razão: conto o successo, E que procure a minha rez lhe pesso. Elle me diz então com vozes ternas, Vozes, que esta alma ha de guardar eternas: "Ah! Não chores, meu bem, minha alegria. "Em cujos olhos brilha a luz do dia! "Se os encobres com pranto, e magoa enorme, "Queres, que o dia em noite se transforme? "Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro; "E por teus lindos olhos eu te juro, "Que se ella viva está, e eu souber della, "Inda que arrisque a vida, hei de trazella; "Mas se baldado for o meu empenho, "Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho, E com tão terno amor me enchuga o rosto, Que me leva metade do desgosto. Quiz partir, dava hum passo, então parava, Como que em mim seu coração deixava: Partio; e a cada passo.... (ó que retiro!) Voltava para mim, dava hum suspiro; Que o coração presago lhe dizia, Que era a ultima vez, em que me via. E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!) Que não me ha de ver mais, porque he já morto.
LAURINDO.
Ácis morto! Que dizes, Galatéa? Isso he certo, ou te engana a falsa idéa?
GALATÉA.
Eu te exponho a razão, em que me fundo. Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo Ácis partio: passárão-se dois dias, Dias de magoas, noites de agonias, Em cada instante, que elle me tardava, Mil desgraças a idéa me pintava. Porém hoje no valle d'azinheira, Junto á ponte da plácida ribeira, Debaixo de hum cipreste levantado, Cópia de mim, eu vigiava o gado; Se bem que pouco vigiar podia, Quem de chorar já quasi nada via. Cançada de lutar com meu tormento, Meu unico, amargoso mantimento, A affligida cabeça ao tronco encosto, E sobre a curva mão inclino o rosto. O somno, que ha dois dias meu não era, Veio piedoso, que antes não viera! Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça! A causa desta dor, que me traspassa. Eu vi... triste visão! Que além da serra, Por hum dos regos da lavrada terra, Hia o meu Ácis triste, suspirando Com prompta vista a minha rez buscando; Outras vezes, olhando para a Aldêa, Clama saudoso: "Ah minha Galatéa! Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo: Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo. Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito Com dardo agudo lhe traspassa o peito: Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo, "Que inda mereces mais cruel castigo. "Chama agora o teu bem, chama a fingida, "Grita por ella, que te torne a vida. Á violencia do golpe, o desgraçado Solta do peito afflicto hum ai magoado Trémulo, curvo, com a mão convulsa O peito aperta, donde o sangue pulsa: Quer suster-se, não póde, a força falta: A mão solta do peito, o sangue salta: Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra: Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra; E sobre hum mar de sangue da ferida Cahe exhalando a preciosa vida. Com vista incerta, os olhos vidracentos, Trémula a voz, sem côr, já sem alentos, Exclama, em fim, nas mãos da morte feia: "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa. E soltando hum suspiro, os olhos serra: Ferindo as plantas, magoando a terra. Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça; He qual farpão, que o peito me traspassa; E se he certa, mandai, que a dura morte Sobre mim venha, e descarregue o corte: Morreo Ácis por mim, por elle eu morra: Qual do seu, do meu peito o sangue corra:
LAURINDO.
Misera Galatéa enchuga o pranto, Que hum sonho falso não provoca a tanto.
GALATÉA.
Este sonho, a demora, e Polyfemo, Tudo me assusta, e a desgraça temo.
LAURINDO.
O sonho intimidar-me não devia Por ser falsa illusão da fantasia. Do Pastor a demora, que te assusta, Tambem póde nascer de causa justa. Se temes Polyfemo, o susto affasta: Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta. E desde que o domei por teu respeito, Tudo que eu mando, que elle faça, he feito. Piza, piza, a teus pés essa agonia: Faze, que a fonte com teu riso ria.
GALATÉA.
Tu destróes em parte o meu desgosto; Mas não consegues ver-me enchuto o rosto: Não: fazer que esta setta não me fira, Só póde o meu Pastor. Ah! Quem o víra! Só pódem os seus olhos engraçados Dar vista aos meus já cégos, e cançados. Mas temendo o rancor de Polyfemo, As proprias sombras dessas plantas temo.
LAURINDO.
Do triste Polyfemo o rancor deixa: Tu foste a causa, e só de ti te queixa.
GALATÉA.
A causa fui! Eu sou féra impestada, Que fizesse aquella alma invenenada?
LAURINDO.
A causa foste, sim, porque o amaste, E por Ácis, sem culpa, o desprezaste.
GALATÉA.
Pelos Deoses do Olympo Soberano Juro que nunca amei tal monstro insano.
LAURINDO.
Pois se he certo, que amor não lhe tiveste, Porque falsas promessas lhe fizeste?
GALATÉA.
Porque assim o meu Ácis defendia Da vingança, que o vil lhe promettia.
LAURINDO.
Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!) Gerar amor, que nasce da ternura!
GALATÉA.
Sim, com rigor queria, que o amasse, E que o meu peito ao meu Pastor fechasse. Clamando irado assim: "Cruel Pastora, "Tu desprezas soberba, a quem te adora? "És toda do teu Ácis? Pois discorre, "Que ou tu has de ser minha, ou Ácis morre. "Dize, resolve já, ou vou matallo; "E o coração aos olhos teus mostrallo. Eu ante o monstro vil de crueldade, Que não cede á razão, nem á piedade, Rogo-lhe compaixão: não se enternece: Choro humilde a seus pés: mais se embravece. Eu delirava neste lance forte De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte. Ácis morrer por mim, sendo innocente! Não, por livrallo fiz-me delinquente. Com o tyranno usei de idéas novas Para dar-lhe de amor fingidas provas; Mas o meu firme peito era impossivel, Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel. Se nisto te aggravei, Ácis desculpa; Se eu delinquente fui, foi tua a culpa.
LAURINDO.
Nao chores, virtuosa Galatéa: De ti fazia mui diversa idéa; Bem que eu não sigo as linguas venenosas, Que as mulheres só tratão de aleivosas: Sei, que muitas o são, sim, não duvido, Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido; Mas contem-se as traições d'ellas, e d'elles, Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles. Tu, exemplar Pastora, mostrar queres, Que és a gloria, o modelo das mulheres: Que os falsos homens pódes doutrinallos; E com teu mesmo exemplo envergonhallos. Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado: Do teu Ácis feliz dá-me o cuidado, Que eu hirei procurallo: em mim confia, Que hei de tornar-te a noite em claro dia.
GALATÉA.
Ah piedoso Laurindo! Se tal fazes, A hum corpo morto nova vida trazes.
ÁCIS.
Que triste vejo a serra, o valle, o monte! O rio pasma, corre turva a fonte. Sim, sem a minha amavel Galatéa A clara luz do Sol he triste, e feia. Mas onde te acharei, gentil Pastora, Para clamar então: já vejo a Aurora! Aves, tornais o canto em agonia Porque vos falta a Mestra d'harmonia? O Ceo com ella adoce o meu tormento, Tereis nova lição, e eu novo alento, Mas ah! Que vejo! Que gentil Pastora? Parece Galatéa! Oh feliz hora! Não, não me enganes, lisongeira idéa. N'altura... em trage... em gesto... he Galatéa, Que está banhando em pranto o lindo rosto: Eu corro, eu vou tornar-lhe a magoa em gosto.
GALATÉA.
Ácis, se és vivo, sorte igual não tive.
ÁCIS.
Inda o teu Ácis dos teus olhos vive.
GALATÉA.
Ah! Que vejo! Ácis! Ceos! Será mentira?
ÁCIS.
He verdade; o teu Ácis sou: respira.
GALATÉA.
Oh Providentes Ceos! Deoses Clementes, Que assim curais as chagas dos viventes.
ÁCIS.
Tu choras! He de gosto, ou de agonia?
GALATÉA.
Chorei de magoa, agora de alegria.
ÁCIS.
Tu choravas por mim! Mereço eu tanto?
GALATÉA.
Vê bem o estrago, que em mim fez o pranto. Estes olhos, que tu chamavas bellos, Hoje magoados fugirás de vêllos.
ÁCIS.
Assim mesmo são dois lindos diamantes, Quie inda eclipsados, sempre são brilhantes. Mas dize, Galatéa, que motivo Acendeo esse fogo, tão activo?
GALATÉA.
A ausencia de tres dias (longos dias!) De lagrimas, de sustos, de agonias; E mais que tudo hum sonho feio, horrivel, Que o não matar-me, não parece crivel: Sonho cruel, que me pintou na idéa A desgraça maior, scena mais feia: Que o monstro Polyfemo te arrancára A amavel vida, que esta vida ampara.
ÁCIS.
E credito lhe déste, sendo esperta?
GALATÉA.
Sim, que a má nova quasi sempre he certa.
LAURINDO.
Se eu não corro a tiralla da vareda, N'algum despenhadeiro achava a queda.
GALATÉA.
Laurindo nos meus males tomou parte, E até por compaixão quiz ir buscar-te.
ÁCIS.
Bom amigo, e bom Mestre, as sãs doutrinas Tu com virtuoso exemplo, nos ensinas: Tu semeas os campos de equidade, Nós colhemos os fructos da piedade.
LAURINDO.
Huns para os outros sermos bons devemos: Todos somos irmãos: de hum Pai nascemos: Se hum errar, deve o outro encaminhallo: Se hum cahir, deve o outro levantallo.
GALATÉA.
Perdoa, que eu atalhe o teu conselho, Proprio de hum Sábio, Virtuoso, e velho. Dize, meu Ácis, dize, por clemencia, Qual foi a causa de tão longa ausencia?
ÁCIS.
Foste tu: foi o amor, e foi o empenho De trazer-te a Ovelhinha, a qual já tenho. Ao casal ta levei; mas sem achar-te; Pois vieste a buscar-me, eu vim buscar-te.
GALATÉA.
Achaste a minha Ovelha! Ah! Onde estava? Bem que eu por ti nem della, me lembrava.
ÁCIS.
Visinhos campos, as distantes terras, Amenos valles, escabrosas serras, Tudo corri: examinei choupanhas, Pobres Aldêas, rusticas cabanas. Perguntei aos campinos, Lavradores: Rebanhos espreitei: busco aos Pastores: Todos dizem: "Não vimos, não sabemos: "Nem leve rasto dessa Ovelha temos. Eu de perdê-la já desenganado, De magoa afflicto, de buscar cançado, Voltar queria a ver teu lindo rosto; Mas dava gosto a mim, e a ti desgosto: Eu a dor da saudade em mim curava; Mas na má nova, nova dor te dava. Nisto pensava triste, e vacilante, Quando escuto berrar pouco distante, Parto, gyro, procuro, em vão procuro: Pois nada vejo: vejo hum bosque escuro, Que o Sol formoso nunca vio por dentro: Corro, o bosque examino; e lá no centro Vejo hum pobre roupeiro esfrangalhado, Dormindo, e a Ovelhinha preza ao lado. Eu, que a vejo, e conheço, ó que alegria Em teu obsequio a minha alma enchia! Com lentos passos vou muito manso andando, O sussurro das plantas receando, Se bem que o vento amigo me valia; Pois nem das folhas o brincar se ouvia. Chego ao ladrão: observo, que em socego Dorme roncando: na Ovelhinha pego: Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo, Do furto alegre, de alegria rindo. Trepando huma deserta ribanceira, Ouço hum grito, ólho a traz, vejo á carreira Seguindo-me a gritar o vil roupeiro: "Ó ladrão! Larga a Ovelha! Ó ratoneiro! Eu, que vejo o meu credito infamado, Páro, e com ira mostro-lhe o cajado. Prudente parto: segue-me as pizadas: Torço a vareda, corre-me ás pedradas. Dellas me affasto; e por final prejecto. Na leve funda grossa pedra metto. Agito a funda: corro então mais perto: Desparo a pedra, no vil peiro acérto. Fica o ladrão sem tino: quer suster-se: Não póde: cahe: forceja para erguer-se: Outra vez cahe de costas: vai rolando: Péga-se ás pedras, mas em vão pegando, Que as mesmas pedras, em que busca abrigo Rólão sobre elle por maior castigo; E despenhado assim pela barreira Vai té parar na margem da ribeira.
GALATÉA.
Ah! Que dizes! Mataste o desgraçado?
ÁCIS.
Não ficou morto, não, mas maltratado, Eu vi... com quanta dor o estive vendo! Cahio mortal; depois se ergueo gemendo. Olhou-me então com iras, e ameaços; E trémulo partio com lentos passos.
GALATÉA.
Tu, que es no coração manso cordeiro. Hoje tornado em lobo carniceiro!
ÁCIS.
Eu cordeiro não sou; porém se o fôra Tornar-me em lobo foi preciso agora.
LAURINDO.
Castiga-nos o Ceo, se nos vingamos; Mas tambem quer, que a vida defendamos.
ÁCIS.
Se mais piedade do ladrão eu tinha, Nem eu era já teu, nem tu já minha.
GALATÉA.
Se a amavel vida o ímpio te roubava, N'huma só morte duas mortes dava.
ÁCIS.
Esses extremos no meu peito os guardo Para atear de amor o fogo, em que ardo. Vamos, vamos, formosa Galatéa, Alegrar com teu rosto a triste Aldêa: A Aldêa, que por ti chorava agora, Qual bom Filho, que a Mãi perdida chora.
GALATÉA.
Chora a Pátria, por mim? Quanta amizade Devo aos bons, que se nutrem da piedade!
LAURINDO.
És bella, e inda mais bella por virtuosa; Que a virtude inda a feia faz formosa. Porém vê, que a Virtude cultivada, Cresce, bem como a planta, que he regada; Mas se falta a cultura, vai murchando; E qual planta sem agua vai secando. Hide: a benção do Ceo sobre vós desça: Aos vossos olhos branda relva cresça; E nella apascenteis grossas manadas De prenhes vaccas gordas, e malhadas. Tantas as cabras, tantos os cordeiros, Que enchão os valles, enchão os oiteiros. Hide, que he longe a Aldêa: hide, que he tarde: O Ceo vos abençôe, o Ceo vos guarde. A benção gere em vós dois bons Esposos, Que fructos dêm ao Ceo, fructos ditosos.
ÁCIS.
Adeos, meu bom Pastor, meu caro amigo, Gloria dos campos, deste povo abrigo.
GALATÉA.
Essa benção do Ceo, que em nós desejas, Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas. Ácis, vamos aqui pelo serrado, Que he mais perto, he mais doce, e he povoado.
ÁCIS.
Vamos cortando por entre estas faias: Dá cá a mão: salta o rego: olha, não caias. Tu saltas mais, do que eu: és bem ligeira!
GALATÉA.
Se eu quiser não me apanhas na carreira. Que farão hoje ao ver-me de contentes As amigas, visinhos, e os parentes, Que ao vêrem-me vagar só sem conforto Julgar-me-hão morta, por julgar-te morto?
ÁCIS.
Se o bem nos foge, atêa-se o desgosto: Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto. Tu verás nas Pastoras desgrenhadas Olhos feridos, faces desmaiadas. E ao ver-te, o riso, e pranto misturando, Humas ás outras com prazer chamando: Todas para te verem correm, voão: Vivas, applausos pelos ares sôão. Huma te beija a face alva, e rosada, Que a faz com pranto seu rosa orvalhada. Outra te enfeita as tranças graciosas De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas. Verás, que ao som das lyras vem cantar-te A magoa de perder-te, o bem de achar-te. Verás, como os chorosos innocentes, Quando te virem, brincaráõ contentes. Verás a fonte, que turbada a vejo, Corre alegre a dar a nova ao Téjo. Verás o Téjo, que sem ti bramia, Quão plácido vem ver-te á praia fria. Verás o Melro, o Rouxinol suave Convertendo a tristeza em canto grave. Verás saltando os tenros Cabritinhos Alegrarem os tristes Cordeirinhos, Verás curvar-se o tronco a dar-te as frutas; Correr o rio, vir trazer-te as trutas. Hoje farás feliz, farás contente A Aldêa, o rio, a fonte, o gado, a gente.
GALATÉA.
Feliz me fazes tu: viver me fazes: Aos meus bons dias novos dias trazes.
ÁCIS.
Como posso eu fazer a alguem ditoso, Quando só por ser teu, sou venturoso? Sem ti rustico sou, humilde, e pobre: Comtigo sábio sou, sou rico, e nobre.
GALATÉA.
Demos graças a Amor: Amor cantemos, Que assim nos téce a Santa paz, que temos.
ÁCIS.
Sim, cantemos Amor: a voz levanta, A voz sonora, com que Amor encanta.
GALATÉA.
Amor me fez guerra: Lutámos, venceo-me; O peito rompeo-me Para Ácis entrar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
ÁCIS.
Amor nos tens olhos Forjou doce flexa: Ferio-me: esta brexa Tu sabes curar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
GALATÉA.
Ao ver-me ferida, Primeiro assustei-me, Depois alegrei-me, Amor fui cantar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
ÁCIS.
Eu pude da seta Salvar o meu peito; Não quiz: puz-me a geito, Deixei-a entranhar. Taes laços, taes setas Devemos Beijar.
GALATÉA.
Depois de ferir-me Mostrou-me as algêmas; E diz-me; "Não temas "Quando eu tas lançar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
ÁCIS.
Ferir-me, prender-me Não era preciso, Bastava hum teu riso: Hum teu brando olhar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
GALATÉA.
Amor, abre as azas Vem, prende estes braços, Que os teus doces laços Não hei de quebrar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
ÁCIS.
Sou prezo por gosto, Por honra cativo: Por prezo he que vivo, Qual peixe no mar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
GALATÉA.
Amor, chama as Graças, E o Santo Hymeneo! Que venhão do Ceo Meu laço apertar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
ÁCIS.
Tu chammas as Graças? Não clames por ellas; Pois Graças mais bellas Em ti venho achar. Taes laços, taes setas Devemos beijar.
GALATÉA.
Basta: cançada vou: mais não cantemos: Logo melhor n'Aldêa cantaremos.
ÁCIS.
Pois vai tu pela encosta desse monte, Que a lyra vou buscar: lá saio á fonte.
GALATÉA.
Não te demores lá, minha alegria.
ÁCIS.
Já volto a ver-te, minha luz do dia.
GALATÉA.
Levas-me a vida, a jóia mais perfeita.
ÁCIS.
Em penhor dessa vida esta alma acceita.
GALATÉA.
Em penhor! Queres pois, que a restitua?
ÁCIS.
Não; se essa vida he minha, esta alma he tua.