JUDAS

Chiméras, illusões...

JOÃO

Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres
Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres
Supplícas com aspecto humilde uma parcella
P'ra o Mestre!—Na verdade, é preciosa e bella
Tanta dedicação! Provoca o elogío!
—Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío
O teu olhar matreiro, o brilho da avareza
A dar-lhe um tom sinistro?—Odeias a pobreza!

Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas
Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!

JUDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o olhar ameaçador:

João!

JOÃO cruza os braços e sereno:

Podes bater, amigo! Por que esperas?

Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E João, agora ainda mais excitado:

E chamas illusões! e vens chamar chiméras
Ao que é verdade núa e positiva?!—Agora
Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora;
No actual momento em que até eu vacílo,
Presentindo que não poderá ser tranquillo
O futuro do Mestre e de nós todos, mudas
Em odio declarado essa frieza, Judas?!
Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso?
Confessa que proveito, ou que terrivel goso
Encontras n'essa infamia abjecta!

Desesperado pela indifferença apparente de Judas:

Que supplicio!
Não poder arrancar-te ao menos um indicio!
Não poder descobrir a causa que assim léva
O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva!
Ah! não poder, depois do que disseste aqui,
Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!

E senta-se, febril, n'uma das camilhas.

JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente, diz-lhe emfim com muita ironía:

Está bem! muito bem! Ao menos, esperava
Que soubesses deter a incandescente lava,
Que todo me queimou, transformando em carvão
A minha consciencia... embora de ladrão.

Resoluto, firme, altivo:

Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino;
Mas isso que te importa? Um ser tão viperino,
Como eu, só tem logar no meio da ralé,
E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!

JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:

Acalma a excitação, Judas. O principal
Resume-se, ao presente, em confessares qual
A origem do teu odio. É isto o que eu te peço,
É isto o que eu desejo.

JUDAS n'um brusco impulso de independencia:

Isso é que não! Confesso
Á minha consciencia o que me vae no peito!
Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito
De desvendar em mim reconditos misterios?
Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios!
—Pediste por acaso ao mar em que nasceste
Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste
A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo?
Pois o meu coração como elle é tão profundo,
Que se alguem pretendesse abrir uma passagem,
Teria de morrer submerso na voragem!

João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem, detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas verdadeiras intenções:

Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça
Conseguirei vergar esta alma tão submissa.
Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis...
Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis,
Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos,
Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos...
Depois quando vier o derradeiro instante,
Desamparado, nú, febril, agonisante,
Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas,
Em vez de maldições, tem palavras bemditas,Para quem desprezou teu pobre coração,
Deixando-o succumbir como se fosse um cão!
—Adeus e para sempre.

Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:

Acceita em pensamento
O que d'aqui te envio: em tão cruel momento,
Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo
Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo
Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha!
—Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.

E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:

Canalha!

JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria consciencia:

Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se
Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse
Pedir ao exagero o auxilio necessario
Para augmentar de vulto o crime involuntario,
Ou a leviandade alheia á malvadez.
Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez
Arrastar pelo mundo uma existencia nua
De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...

Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de Bethania.

ELEAZAR indicando João aos companheiros:

Eil-o aqui está! E nós á tua espera!

SIMÃO PEDRA

São horas de partir para a cidade.

JOÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu pensamento entregue ao Mestre:

Não deve ser pequena a caravana!

MATHEUS

Junto do Mestre, o povo delibera
Acompanhal-o.

SIMÃO PEDRA

O que é grande imprudencia!

JOÃO

Grande imprudencia?!

SIMÃO PEDRA

Os nossos companheiros
Em vão procuram com docilidade
Suster o passo á gente leviana...

JOÃO

E porquê? Não são elles verdadeiros
Defensores do Mestre?

SIMÃO PEDRA

Mas reflecte...

JOÃO

O povo quer seguir-nos? Pois que venha!

SIMÃO PEDRA

Mas pode provocar algum tumulto.
É preciso que a dentro da muralha
Evitemos qualquer indisciplina.

JOÃO

Tu que dizes? Que pensamento occulto
Encerram taes palavras? Será crivel
Que te arreceies da imbecil gentalha,
Que anda a rosnar as suas ameaças
Contra a força que temos, invencivel,
Justiceira e tremenda?!

SIMÃO PEDRA

E porque não?
Onde possues algemas e mordaças
Para conter as furias imminentes?
Pode acaso fugir-se a uma traição?
Reflecte bem: devemos ser prudentes,
Evitando que Hanan tenha pretexto
Para exercer emfim uma vingança,
Roubando ao Mestre a preciosa vida.

JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:

Não tens portanto uma unica esperança
Em ver surgir a aurora promettida?
—Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto
Do Profeta, que vamos afinal
Assistir ao enorme vendaval,
Que ha de causar a todo o mundo espanto!
Da Lei não ficará nem uma linha,
E as pedras do Templo hão de cahir!
Eu antevejo, amigos, o porvir,
Que de instante a instante se avisinha!
Como cães a ulular, de toda a parte
Hão de saír as abominações!
Entre espadas de fogo e maldições,
Vae tremular um sólido estandarte!
Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus
Ribombará como um trovão gigante,
E o vento ha de levar para distante,
Onde não haja terra, mar, ou ceus,
As ultimas parcellas do monturo
A que chamamos hoje humanidade!
Álerta! vae rugir a tempestade!
—Confia em Deus! Espera no futuro!

Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:

Gamaliel?!

GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova terrivel.

Eu proprio. E vejo que cheguei
A tempo de lembrar que existe de uma Lei
A rispida crueza, a inquebrantavel força,
E que por mais que a tua exaltação retorça
O positivo, elle ha de emfim prevalecer!
Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder.
—O perigo é enorme.

Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:

Ouvide: Nicodemo,
Um homem de honradez e que respeita em estremo
O vosso Mestre, não me occulta o que se passa
A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça,
Fazendo-se abortar o plano vingador!

TODOS em sobresalto:

Um plano?!

JOÃO

Como?!

SIMÃO PEDRA

Dize!

MATHEUS

É de grande valor
O que disséres.

JOÃO

Sim! deves dizer-nos tudo!

E acercam-se d'elle ainda mais:

GAMALIEL pausada e custosamente:

Hanan possue no genro o seu melhor escudo.
Se transformou Kaíapha em Grande Sacerdote,
Foi para ter alguem que cegamente vote
Na sua opinião. Mais do que o genro, alcança
Dos homens do Conselho estima e confiança.

E custando-lhe a despegar dos labios as palavras:

Eis por que hontem á noite, e em sessão secreta,
Por elles foi votada a morte do Profeta!

SIMÃO PEDRA, erguendo as mãos aos ceus:

O meu presentimento!

MATHEUS, convulsamente:

Infamia!

JOÃO, n'um grito:

Cobardia!

ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso:

É tempo de calcar aos pés a tirannía!

Todos, excepto Gamaliel, estão nervosos, irrequietos, consultam-se, animam-se, invectivam Jerusalem. João foi á janella, e com os dentes cerrados, o braço erguido, ameaça-a de esterminio.

GAMALIEL

Tende serenidade!

JOÃO

Oh! não, Gamaliel!

ELEAZAR

Liberte-se de vez o reino d'Israel!

GAMALIEL

Que poderá tornar-se em grande mar vermelho,
Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!

JOÃO

As espadas de Roma, as furias de Tiberio,
Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio!
O povo ha de gritar, raivoso, leonino,
Rasgando a face impura ao despota assassino!

GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas:

Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto
No livro da experiencia, amigos, que é de pranto
A minha pobre offerta á causa alevantada!
Vós não podeis brandir a rutilante espada;
Nem elle, todo amor, consentiria nunca
Na transfiguração do verbo em garra adunca.
Parti, pois que é preciso apparecer ao povo,
Mas fugide a que venha um incidente novo
Aguçar ao tiranno o sanguinario intento.
Entrae com desassombro a porta do aposento
Onde finge dormir, silencioso, o crime;
Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime
O seu rancor feroz!

SIMÃO PEDRA tambem resoluto:

Seja o que Deus quizer!

JOÃO

Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher,
Pode esfriar em mim a indignação!

GAMALIEL

Piedade!

ELEAZAR

Vamos!

MATHEUS

Jerusalem!

SIMÃO

Coragem!

JOÃO

Na cidade
Havemos de formar com os nossos companheiros
Possante legião d'impávidos guerreiros!

E vão-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldão o velho Gamaliel.

Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simão ficou abandonada, Maria e Martha veem de fóra. Martha sempre alegre; a irmã sempre absorta em grande melancolía. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se á janella, seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vão a caminho de Jerusalem.

MARTHA

E uma vez que partiram
Para a cidade, afinal,
Entreguemo-nos agora
Ao que julgo essencial:
Tratemos da nossa casa.

MARIA, indolente:

Espera. Não tenhas pressa...

MARTHA

É que está tudo em desordem,
E o nosso irmão começa
Dentro em breve a murmurar
Que ninguem aqui trabalha!...

MARIA

Martha, vae tu repoisar,
Que eu tratarei do preciso.

MARTHA

Não teimes, que me aproveito
Do teu conselho.

MARIA

Careces
De alguns momentos no leito;
Deves estar fatigada.

MARTHA

E não te enganas. Ergui-me
Ao romper da madrugada...

MARIA

E foste uma das primeiras
Que se juntaram co'os Dôse
No Monte das Oliveiras,
Onde passaram a noite,
Como é costume.

MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:

E não ficas
De mal comigo?

MARIA

Porquê?
Se em nada me prejudicas...

E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:

O que ha de novo, Judas?