JUDAS
Sim, talvez;
Porque não julgo prova de criterio,
Antes se me affigura insensatez,
Explicar um segredo co'um misterio.
MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção, melodiosamente:
Anda a tua alma fugida
Ao bom caminho da crença... Quem foi que d'elle a affastou
E que dentro em ti deixou
Uma escuridão immensa?
Hontem á noite... (Desculpa
Se acaso te contrarío
Ao falar agora d'isto)
Por todos nós foi mal visto,
Judas, o teu desvarío.
De tão modesta homenagem
Não era merecedor
Aquelle Mestre sublime
Em cujo rosto se exprime
A bondade e o amor?
—Anda a tua alma fugida
Ao bom caminho da crença.
Que Deus de novo a conduza
E o brilho reproduza
Na tua alma, treva immensa!
Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o convencido, diz então baixinho á irmã:
Não responde. Pode ser
Que facilmente consigas
Descobrir toda a verdade.
MARIA, querendo esquivar-se:
Eu?
MARTHA
Com palavras amigas
Interroga-o, porque, em summa,
Custa ver n'um coração,
Que deveria ser meigo,
Semelhante ingratidão.
E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado. Judas e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas, observa-a.
MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo a si propria:
E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:
JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:
Maria,
Pareces que vaes fugindo...
MARIA baixando o olhar:
Para não te incommodar,
Quando estiveres dormindo.
E retira-se tambem, fechando a porta castamente:
JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:
É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa...
Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa,
Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim.
Provem este rancor, que ella sente por mim,
Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala,
Do ente extraordinario a que nenhum se eguala,
Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito.
Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito!
—Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo,
Ainda que me sinta a resvalar no lodo!
E erguendo-se, impetuoso:
E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços!
Quando o trovão ribomba altivo nos espaços,
Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho!
Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho!
—... Mas quem me diz não ser este sinistro plano
Improficuo, ou então summamente leviano!
Se elle fugir á morte, ao estertor final,
Por um processo occulto e sobrenatural,Contra mim lançará todo o furor do ceu,
Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!
Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:
Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz,
O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz,
Ó Deus, entoaria, agradecido a ti,
Uma canção igual aos psalmos de David,
Transformando o meu peito em grande tabernaculo!
—Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!
Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um sorriso malevolo, animando-se:
E se, como se diz, elle não fôr divino?
Se obedecer, como eu, á força do destino?...
—Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso
E possante vigor d'um corajoso pulso!
Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente, Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, agora acobardado:
Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime.
E como poderei matar, sem ver o crime?
Armando um braço vil? comprando uma consciencia?
É pouco, é muito pouco... e é tudo!—Que demencia!
Quem poderá saber onde reside a féra,
Que tenha peito humano e garras de pantéra?
Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca espumando:
—Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha,
Que vive silenciosa em tua negra entranha,
Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo,
Enorme como Deus, mesquinha como um sapo!
Genio amante do crime e á virtude adverso,
Que mora num covil... e zomba do Universo!Eu quero conhecer o amigo dos devassos:
Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços!
Com grande desanimo:
Nem elle me protege! E eu preciso, emfim,
D'um ser bastante infame!
BENJAMIM com muita humildade:
Aqui me tens, a mim...
JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca:
Quem és tu?
BENJAMIM avergado, mas sempre humilde:
Sou alguem que te escutava.
O tempo, como vês, não desperdiço...
Não perguntes quem sou. Aqui me tens,
Amigo, ao teu serviço.
JUDAS sem o largar:
Ignoro quem tu sejas, mas se acaso
Divulgar o meu odio tencionas,
Juro que em curto praso
No fio de uma lamina abandonas
Co'o meu segredo a vida!
BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa:
Cala a bôca!
Não blasfemes de coisas respeitaveis.
Venho fazer propostas acceitaveis,
Dizer tudo o que sinto,
E só respondes co'uma furia louca!
Se me has de receber com effusão,
Achando em mim o teu melhor amigo,
Alevantas a mão,
Ameaçador como um guerreiro antigo!
É ser ingrato!
JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um braço:
Dize-me o que sabes!
BENJAMIM sinceramente:
Ora! sei que a tua alma se abalança, Depois do que houve aqui hontem á noite,
A seguir o caminho da vingança.
Naturalmente, sentes-te offendido
Co'a resposta que teve o teu reparo
Tão justo e merecido...
JUDAS como comsigo, satisfeito:
Portanto, ignora...
BENJAMIM
É isto amigo?
JUDAS, rapido:
É isso!
BENJAMIM explicando:
Eu hontem ouvi tudo junto á porta...
—Manda, que eu te obedeço. Aqui me tens,
Humilde, ao teu serviço.
JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes com Josué.
Mas se eu não sei...
BENJAMIM agora senhor de si:
Não sabes? Pois sei eu.
O Mestre será morto, em poucos dias;
Depende só de ti, fica sabendo!
JUDAS nervosamente:
Que dizes, fariseu?
BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que parece devorar-lhe as palavras:
Ouve: É tremendo
O odio que lhe tem todo o Conselho,
O qual procura o instante mais propicio
De pôr em exercicio
O plano da prisão, do julgamento...