JUDAS

Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar,
Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar,
Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto,
E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.

MARIA com simplicidade, avançando um pouco:

Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa
Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença.
Ao passo que me opprime este cruel receio
De vêr barafustar o nosso Mestre em meio
Dos inimigos seus, mais frio do que a neve
Se torna o meu olhar.

JUDAS tôrvamente:

Deve ser isso, deve...

E depois de algum silencio, ironico:

Costumado a subir nos estos d'esse amor
Aos mundos do Ideal, o candido fulgor
Transforma-se em desdem, e apenas se descerra
Perante a mesquinhez que roja pela terra!

O olhar bem fito n'ella, animando-se:

Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo,
Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo,
Brilha sinistramente e vem caír direito
N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!

N'um arranco d'alma:

Em verdade te digo, ó mulher altaneira,
Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira,
Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama,
Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!

Crescendo em furia:

Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós
Para que emfim termine este supplicio atroz!
Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda,E vae saír de mim, como em torpel a onda,
Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido!
—Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido,
E deixa de cuidar n'essa paixão agora,
Que é maior a paixão que todo me devora!

Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto:

Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar:
É puro o teu amor, não é amor vulgar...
Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida,
No centro da minha alma em sangue e dolorída
Existe uma paixão tambem que me envenena,
Podendo ser mortal, assim como a gangrena...

Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a roupagem:

Ah! no supremo arranco um peito esfacelado
Como este, não receia o que haja mais sagrado,
E julga-se capaz, co'o seu valor enorme,
De luctar e vencer o ente mais disforme,
Terrivel como Deus, gigante como Adão,
Possuindo na voz as frases do trovão!
E porque sinto aqui as contorsões finaes,
Espando francamente as máculas brutaes,
Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo:
Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!

Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.

MARIA que não se moveu, serenamente:

Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas;
Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.

JUDAS n'um rugido:

Maria!

MARIA sempre immovel:

Com franqueza, eu disse-te por vezes:Em castidade egual ás innocentes rezes
No Templo do Senhor dadas em sacrificio,
Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio,
Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha
Acrisolado amor, amor... como de filha.
Na terra nada mais preciso que uma coisa:
A Crença.

Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal:

O meu amor longe d'aqui repoisa,
Estrella que não teme as nuvens tempestuosas.
Brando como o dormir das aguas silenciosas,
Vago como o misterio enorme do futuro,
Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro,
Nos espaços do azul vive risonho e inerme.
A estrella é sempre estrella...

Descendo o olhar para Judas:

e o verme é sempre verme.

JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:

Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor,
Fugindo á grande lei do grande Creador,
Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre
Para tornar assim fecundo o estéril ventre!

MARIA sem se perturbar:

Enlouqueceste!

JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto dolorido, n'um queixume:

Mas se eu nunca fui amado!
Assim como o terreno a que não chega o arado,
Semelhante em mudez ás pedras do caminho,
Era o meu coração. Via-me tão sósinho,
Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus,
Interrogava o Espaço, interrogava Deus,
Procurava arrancar ás trevas o motivo
De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.

Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido, como revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em curvas graciosas, languidas:

Mas desde que no teu o meu olhar depuz,
Enxerguei o brilhar d'uma divina luz
Na immensa escuridão d'este viver amargo
E senti-me surgir do fundo do lethargo.
Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem,
Adorada Maria, envolta na roupagem
Tão alva como o arminho, immaculada e honesta:
No prado sorridente, em meio da floresta,
Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros,
No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros...
Por toda a parte, em summa!—Adoro-te, Maria!
No caminho da vida o teu olhar me guia...
Vem dar uma esperança ao pobre coração
Que vive para ti, que te pertence...

MARIA com ligeiro movimento de cabeça:

Não.

JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:

Oh! que negra palavra, amarga como fel!

MARIA com a voz tranquilla:

Á doutrina do Mestre...

JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz:

O Mestre!...

MARIA

... és infiel.
Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro
Do que seja o dever, e que se torna avaro,
Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista!
Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista!
Se não queres viver do amor pela virtude,
Se á pureza é rebelde essa tua alma rude,
Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte:
Foge para distante, ou foge para a Morte.

JUDAS allucinado, avançando para ella:

Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala!
Fica sabendo pois que isto que me avassala,
O que por fim se espande e que ha de ser funesto,
Nunca foi do amor um sentimento honesto!

MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:

Maldito sejas tu, se acaso me tocares!

JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos, agarrando-a:

Que importam maldições inuteis e vulgares?
Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os,
Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!

E tenta beijal-a, soffrego:

MARIA evitando-lhe os beijos:

Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!

JUDAS arrastando-a para o triclinio:

Chamaste muito bem á minha ardente furia,
Como o fogo voraz, cruel e deshumana,
Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.

MARIA com a voz estrangulada, luctando:

Soccorro! Eleazar!

JUDAS pondo-lhe a mão na bôca:

Oh! cala-te!

MARIA já sem forças:

Meu Deus!

JUDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:

Ah! como são gentis assim os olhos teus!
Como é rosada e fina a tua debil mão!
Vaes ser minha, afinal!

Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade, abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas, diz n'um murmurio de desespero:

Desfallecida?!...

Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção, com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza lhe désse um grito na alma:

Não!!

E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um lirio d'Issachar...