JUDAS

Que hão de fugir ao tumulto...

PONCIO que os ouviu taciturno, balbucia, como falando a si proprio:

«Um cadaver de mais, um cadaver de menos
É coisa que não traz aos meus dias serenos
Nenhuma inquietação, nenhum remorso...»—Hanan,
Dás-me a tua palavra...?

HANAN

O Proféta, ámanhã
Por esta hora, se Deus não se mostrar contrário,
Ha de estar preso.

PONCIO

Bem! Pois n'esse caso...

Dirige-se ao terraço e batendo as palmas, chamando:

Ostiario!

HANAN radiante de alegria, ao ouvido de Judas:

Ganhámos, afinal! Serás recompensado
Pelo teu grande zelo, ó Judas.

JUDAS soturno:

Obrigado...

HANAN

Um prémio te darei. Trinta moedas; queres?
De prata!

JUDAS indifferente:

Sim, Hanan... Acceito o que me deres.

O OSTIARIO que appareceu no terraço:

Chamaste-me?

PONCIO

É de crêr que no Pretorio esteja
Algum centurião. É Poncio quem deseja
Que se dê cumprimento a tudo que estes dois
Homens disserem.

O OSTIARIO

Bem.

PONCIO

Fique entendido pois.
Ao Pretorio tu mesmo agora os encaminha.

E passando pela frente de Judas e de Hanan, sem para elles olhar, retira-se para os seus aposentos.

HANAN que se curvára muito á passagem de Poncio, murmúra:

Moysés ha de vencer!...

JUDAS tambem n'um murmurio, quasi inaudivel:

Maria ha de ser minha!...

Vão-se com o Ostiario pela outra porta.

Apparece então a escrava Geda, que se encaminha para o terraço.

GEDA affasta o coxim, trazendo-o para o interior da quadra e faz correr parte do reposteiro que pende do arco.

Vae repoisar a minha ama...
Como a noite é calma e linda!
Mas ninguem ha que prescinda
Das indolencias da cama!
Muito ingrata a Humanidade,
Que acha as trévas de Morpheu
Preferiveis a este ceu
De risonha castidade!
Talvez seja por vingança
Que a mostrar-nos a outra face
A Lua não se abalança!
Seja lá pelo que fôr, Que sem protesto não passe,
Diana, o teu desamor!

Acaba de fazer correr brandamente o reposteiro. Depois vae buscar o candalabro e dispõe-se a leval-o comsigo.

Mas o reposteiro agita-se, é corrido pela parte exterior por mão nervosa e resoluta, e uma mulher d'Israel apparece offegante, com o rosto occulto por espesso veu de lã negra.

A MULHER adiantando-se como procurando alguem:

Claudia?

GEDA admirada e insolente:

Quem te deu a livre entrada?
Que vens fazer aqui, judía?

A MULHER

Venho
Para falar a Claudia, unicamente
É este o meu empenho.

GEDA

E que importa o motivo, se é costume
Não entrar sem licença do Ostiario?

A MULHER

Em pouco a minha falta se resume:
Vi tudo solitario...

GEDA

Esperasses.

A MULHER

Desculpa-me...

GEDA

Duvído
De que a minha ama te receba. É tarde.
A menos que a tivesses prevenido
De vir, e que te aguarde.

A MULHER assumindo attitude imperiosa:

Urge que eu fale a Claudia. É muito sério
O que me traz!

GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na meza.

Eu vou...—Temos misterio!

E entra nos aposentos de Claudia.

A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral.

MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma préce:

Ó essencia do Bem! ó divinal encanto,
Que fazes do Amor a tua crença unica!
Presinto que a Desgraça estende o negro manto
E deixa a descoberto a sanguinaria tunica,
Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora
Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura,
Em breve deixará de ser como é a aurora,
Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura!
Mostra-te para mim bondoso e esmoler:
Escuta-me, Senhor! E que seja bastante,
Para fazer da noite aurora triunfante,
Uma lagrima ardente e pura de mulher.

E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio.

CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu assombro.

Maria de Bethania?! O quê? Pois tu
Ousaste vir aqui? Pois desafías
Com a tua presença o meu rancor?
Tens a loucura, a falta de criterio,
De brincar com as cinzas inda quentes?

MARIA baixou a fronte; e a meia voz:

Perdôa-me, Senhora...

CLAUDIA

O que fizeste
Da altivez soberana e do teu odio?

MARIA

Perdôa-me, senhora. Quem se humilha,
É porque tudo esquece, e quem supplíca
O perdão d'uma offensa, tem direito
A ser ouvida...

CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua figura:

Apraz-me isso que dizes.
Tu propria te encarregas de vingar-me.
Optimamente!—O que é que tu me queres?

MARIA com meiguice:

Nunca viste, depois da tempestade,
Quando vem a bonança,
Resplandecer de luz na immensidade
O Arco da Alliança?
Pois que venha, senhora, em tal momento,
Um meigo olhar bondoso
Alegrar do teu rosto o firmamento
Como o divino traço luminoso.

CLAUDIA com uma risada:

Não faças poesia, que Virgilio
Mandou lançar a sua Eneida ao fogo!
Começas muito mal. Por um idilio!...
Do teu poema a sorte pões em jogo...

MARIA docemente:

Na ironia cruel quanta amargura!
Esta hora é suprema.
Vou falar-te d'um ser todo candura...

CLAUDIA zombeteira, petulante:

O heroe do teu poema?

MARIA animando-se pouco a pouco:

Heroe, disseste bem, mas que regeita
O gladio vingador,
E que tem na palavra uma arma affeita
Á bondade, ao amor...
Ouvindo-lhe o falar tão meigo e doce
Que de manso deslisa,
Perfumado, subtil, como se fosse
O perpassar da brisa,
As almas estremecem, de sentidas,
E ficam-se amorosas, Desabrochando trémulas, florídas,
Como botões de rosas!
Ha já trez dias, Claudia, que o terror
É para mim veneno!
Querem matal-o! Ai! salva o meu amor!
Ai! salva o Nazareno!
Não deixes que lhe roubem a existencia,
E termina o martirio
D'esta paixão que tem do Sol a ardencia,
E a pureza d'um lirio!
Ordena que o não matem, Claudia! acalma
Os monstros malfasejos,
Que eu a teus pés arrojarei minh'alma
N'um effluvio de beijos!

E cáe de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril, os braços estendidos, supplicante.

CLAUDIA depois de nova risada:

Isto é completamente um caso novo,
E agrada-me de véras
Que sejas tu, mulher, em vez do povo,
Quem venha interceder pelo Profeta
Com lagrimas sinceras!
É bello!

MARIA

Tem piedade!

CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:

Honra o teu sexo
O platonico amor que te inquieta;
E n'elle vejo mais do que um reflexo
Do feminil civismo d'outras eras.
Tu excedes Cornelia,
E de Coriolano a mãe Veturia!
—Tenho notado haver n'esta Judéa
Mais valor nas mulheres que nos homens,
O que toma o aspecto d'uma injuria Ás patricias de Rhéa!
Judith a Holofernes rouba a vida,
Para salvar o povo seu amante,
Ao vêr que elle agonisa;
Esther, em patrio amor toda incendida,
De Assuéro affronta a crueldade e insânia;
Debóra, a profetisa,
Entra na lucta e sae-se triunfante...
Agora vem Maria de Bethania!
—Palavra, que a Judéa é divertida!

Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois de ageitar-lhe as almofadas.

MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação:

Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime!
Quando uma alma se dobra e tanto se deprime,
Quando um peito soluça, a compaixão ordena
Que a ironia que esmaga e o riso que envena...

A um olhar severo de Claudia, humildemente:

Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo
Que não seja o tormento indómito e agudo,
Que me offusca a razão e o peito me lacéra!
Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera
Que soubesses tambem como é risonha a vida,
Que toda se consagra a uma entidade querida:
Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora;
Respirar o subtil perfume que evapora;
Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama;
Silenciosamente, amar tudo o que ella ama;
Ouvir-lhe da palavra a doce melodía
Tão limpida, tão casta e pura, que enebría,
Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal,
Semelhante, no brilho, ao riso divinal
Da estrella que, tremente, em candidez scintilla,
Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla.

Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.

Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido:
Tu poderás talvez, pedindo a teu marido...
Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana
Quando te respondi com altivez soberana.
Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor
E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr...
—Mas fala, mas responde a isto que eu te peço!
Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!

E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados no coxim.

Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar.

Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:

Não me resta uma esperança,
Pois não me escuta ninguem!
Dorme a eterna Divindade
No azul da Immensidade,
Nos horisontes d'além,
Onde não chega um suspiro,
Onde o silencio é profundo.
Ha de ser bom tal dormir,
Descuidoso do porvir,
Descuidoso d'este mundo,
N'aquelle reino divino
Tecido por andorinhas,
Feito só para os honrados,
Para os bons e desprezados,
Para as meigas creancinhas...
Tão sereno como o lago
Da Galiléa florída,
Que se formou por encanto
Do arrependido pranto

Da mãe Eva arrependida...
—Parece mesmo que o vejo
No seu manto azul. Dir-se-ia
Que o firmamento amoroso
Teve a alegre fantasía
De enviar á terra um beijo
Puro, suave, bondoso...
Parece mesmo que o vejo.
—É seu olhar calmo e doce;
A tudo o mais fica estranho,
Quando distingue o fulgor
Dos astros, como se fosse
O cuidadoso pastor
Do scintillante rebanho...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

É seu olhar calmo e doce...

MARIA continuando alheiada a tudo:

Tem o brilho das seáras
O cabello perfumado,
Que nos hombros lhe descansa
E lhe cerca as faces claras.
É tão formoso e doirado
Como um sorrir de creança...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

Tem o brilho das searas
Seu cabello perfumado...

MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:

Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir
E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir.
Reconheço por fim que era a esperança fátua.
É inutil chorar em frente d'uma estátua...
—Retiro-me vencida, assim como o pagão,
Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão,
Os gritos da sua alma e os canticos do amor.
Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr!

E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em passos vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo pendente ao longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida escadaria.

O somno de Claudia é agora profundo. Tudo ficou silencioso. Estinguem-se uma a uma, com lentidão, as véllas no candalabro; e o luar, a que o arco sem peias dá passagem, faz projectar o busto de Tiberio na parede fronteira, como um enorme phantasma negro...