A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA
Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos theatraes.
… O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do lar, nestas sombras de Rembrandt.
MICHELET. O Povo
A Manuel Penteado
Buscava em algum assunto adrede
A versos que inculcassem novidade,
Quando uma intensa e irreprimivel sêde
Me fez voltar do sonho á realidade.
E pedi agua (já se vê) que veio
Consoante é d'uzo cá por entre o povo
Num pucaro de barro ingenuo e feio,
Servindo-lhe de salva um prato côvo.
Bebi o liquido dum trago só;
E dito o «Deus te pague» habitual,
Subi de novo a escada de Jacob
No heroico intuito de escalar o ideal…
Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
Que os rios erguem pela madrugada;
O olhar destingue-a, quando está distante,
E da que nos rodeia—não vê nada…
De que serve afinal tentar a gente
Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
Ha tanta coisa que os attráia e valha?…
A agua vinda neste vaso fragil
Que um ignorado artista modelou
Num gesto—já mechanisado e agil—
Á força d'imitar o que encontrou,
É um assunto cheio de belleza,
Cheio de claro e alto ensinamento.
Assim na branda fala portuguêsa
O désse eu, como o tenho em pensamento!…
A agua é como a esp'rança
Que a tudo se sujeita…
Onde quer que se deita
Lá fica humildemente acommodada,
Seja a concha da mão duma creança,
Ou a taça lendaria da ballada…
Tanto sacia
Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
(Que um só valia
O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
Como a que se toma
Na argilla porosa,
Alegre trabalho dum simples oleiro…
E é
Até
Bem mais saborosa
No barro suarento
Deixado á janella,
Que num opulento
Copo lavrado
Que seja pertença de rica baixella
E sonho gentil, cinzel phantasista
Dalgum grande artista
Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…
Bichos humanos, féras em pé,
Sêde bondosos como a agua o é…
No luzente alcantil da magnitude,
Ou no áspero declive da pobreza,
Nunca cerreis o espirito á virtude,
Nunca fecheis os olhos á belleza.
Que todo o coração,
Desde o sabio de genio ao cavador,
Seja o Calix de paz e de perdão
Contendo a agua limpida e lustral
Dum irmanado e perpetuo amôr…
Agua que limpe a mácula do mal
E mitigue a miseria, a ancia, a magua
Desta cruenta e impiedosa guerra
Em que tantas creaturas se consomem.
Nem só da agua
Que vem da terra
Tem sêde o homem…
Nasce uma fonte
Rumurejante
Na encosta dum monte;
E mal que do seio
Da terra brotou,
Logo o seu veio
Transparente
E diligente
Buscou e achou
Mais baixo logar…
E sempre descendo,
E sempre a cantar,
Vae andando,
Galgando,
Vencendo,
(Ou tenta vencer…)
Folha, raíz, areia, o que tolher
A sua descida…
Ao brotar da dura frágoa
—É uma lagrima d'agua…
Mas esse humilde fiozinho,
Que um destino bom impelle,
Encontra pelo caminho
Um outro que é como elle…
Reunem-se, fundem-se os dois,
Proseguem de companhia,
E fica dupla depois
A força que os leva e guia…
Junta-se aos dois um terceiro,
Outros confluindo vão,
E o regato é já ribeiro
E o ribeiro é rio então…
E nada agora o domina
Ao fiozinho da fonte.
Entre collina e collina,
Ou entre um monte e outro monte,
Caminha sem descançar,
Circula atravez do mundo
—Até á beira do mar
Omnipotente e profundo…
Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
A vaidade é uma amante enganadora)
Que o mais alto de vós se humilhe e desça
Como se humilde e pobre sempre fôra…
E que os demais desçam tambem de todo
O orgulho e mando sobre escravas gentes
Até ao valle, de lagrimas e lôdo
Onde a miseria brada e range os dentes.
E como as aguas que se vão juntando
E juntas, e cantando, vão descendo,
Reuni o choro derramado, quando
Atravessardes esse valle horrendo.
E o atoleiro que se havia feito
No val, dantesco, pútrido, sombrio,
Mudar-se-ha no irrigante leito
Dum fertilisador e claro rio;
E o rio, andando, andando, hade alargar
—Com biliões de lagrimas vertidas—
Num infinito e luminoso mar
De novas e amplas e cantantes vidas!
Outubro de 1909.