II
É fria como a neve sobre o polo
E pura como uma alma de creança.
Olha uma rocha como olha um collo;
E-lhe estranha a tormenta ou a bonança.
Nem lhe estremece o labio virginal
Ao beijar a nudeza de Jesus,
O grande martyr, sonhador ideal
Que expira mansamente n'uma cruz.
Quando morrer na cella do mosteiro,
Á cova n'um esquife hão de leval-a;
Serão então os braços do coveiro
—Ultimos e primeiros a abraçal-a…
Abril
Enorme, arredondado, reluzente,
Como se fôra um olho de Titan,
O sol no azul olhava fixamente
A natureza lubrica, pagã.
E á luminosidade transparente
Do céu avelludado da manhã,
Um melro ia cantando alegremente
Uma canção brejeira e folgazã.
Nuvens de fumo tenues, vaporosas,
Evolavam-se em fórmas caprichosas
Das chaminés esguias dos casaes.
E em choreação festiva, galhofeira,
Ouvia-se nas bandas da ribeira
Um concertante alegre de pardaes..
Aldeã
Podem dizer talvez que ella não tem
As fórmas peregrinas, delicadas,
Das cortezãs de peito de cecem
Que vão á noite aos bailes, decotadas.
Podem dizer talvez, e dizem bem,
Que ás suas faces tumidas, rosadas,
Falta a côr macilenta que convém
Ás virgens dos sonetos e balladas.
Á elegancia doente e vaporosa
Eu prefiro, comtudo, a fórma airosa
Do seu corpo gentil de mulher sã;
Por isso adoro e préso mais que tudo
Os seus olhos dolentes de velludo,
Os seus labios vermelhos de romã.
Amor omnia vincit