III
Os olhos não são olhos, são punhaes.
E tanto mais me fita, quanto mais
Os crava no meu peito;
Comtudo heide dizer-lhe:—«Oh minha amada
Desfia-o, fibra a fibra, á punhalada
Que morro satisfeito!»…
O matrimonio
De banza a tiracollo e capa á trovador,
Eu nunca fui cantar endeixas amorosas,
Lyrismos de Romeu junto aos balcões em flor,
Por sob o luar dormente e as nuvens vaporosas.
Tão pouco tenho a linha airosa, aristocrata,
Da fina flor do tom, os dandys adamados
Que andam pelos salões, monoculando, á cata
D'um dote que lhes salve a pança de cuidados.
Tenho, como qualquer, a aspiração ideal
D'uma noiva gentil, d'um ninho conjugal;
Mas tudo se desfaz se penso um só momento
N'este quadro banal, depois do casamento:
O sogro, a sogra, a esposa, um filho já taludo
E eu, muito aborrecido… a olhar p'ra aquillo tudo.
Dolorosa
Deitada sobre o esquife funerario
E vista á chamma trémula dos cirios,
Tinha a alvura das hostias do sacrario
E a pallidez suavissima dos lirios.
No seu rosto gentil e sorridente
Havia a languidez da pomba mansa.
Parecia dormir serenamente,
Immersa em vagos sonhos de creança.
Annos passaram desde que morreu;
Comtudo vibra intensa no meu ser,
A sensação do beijo que me deu
Poucos momentos antes de morrer.
E julgo vel-a ainda á luz dos cirios,
Deitada sobre o esquife funerario,
Mais pallida que as petalas dos lirios,
Mais branca do que as hostias do sacrario.
Sonho de nupcias
Eu punha no teu labio a nota quente
A musica vibrante dos desejos,
Poisava-te no collo branco, ardente,
O poema rendilhado dos meus beijos.
Ao intimo contacto d'esses beijos,
Erguia-se em volutas de serpente
A curva delicada, alvinitente,
Das tuas fórmas, tremulas de pejos.
Senti então, allucinado e mudo,
O élo dos teus braços de velludo
Cingir-me contra a carne feiticeira.
E sobre o veu de gaze delicado,
Murchavam na capella do noivado
Os albentes botões da laranjeira…
Serenata
(A UMA VIZINHA)
Vae serena, desmaiada,
Entornando luar no azul,
A lua, taça quebrada
Dos festins do rei de Thule.
As estrellas maceradas
São como beijos de luz,
Ou lagrimas condensadas
Do martyrio de Jesus.
Serena como uma prece,
Cariciosa como um ninho,
A via-lactea parece
Estrada feita de arminho.
Estrada feita de arminho
E flocos alvinitentes,
Que talvez seja o caminho
Para a morada dos crentes.
Curvam-se os lirios abertos,
Escutando o som da aragem,
E os rouxinoes dão concertos
Sob as folhas da ramagem.
Na atmosphera encantada
Anda a vibrar soluçante
A voz doce e requebrada
D'um bandolim tremulante.
Oh dona de olhos sensuaes
—Olha o luar tão bonito!
Façamos os esponsaes
Do nosso amor infinito.
Vamos vibrar os harpejos
D'uma serenata louca.
As notas, serão meus beijos
E a guitarra… a tua bocca.
A Alberto de Oliveira
(IMPRESSÃO DA BIBLIA DO SONHO)
Emquanto os outros vão, ao som das guitarradas,
Capas a desfiar, batinas sem botões,
Entre explosões joviaes de intensas gargalhadas,
Cantando alegremente eroticas canções,
Elle despresa a vida, o riso, os corações
E n'um mystico horror d'almas fanatisadas,
Foge do mundo e vae, á busca de illusões,
Em frageis bergantins de velas enfunadas.
Talento peregrino o seu ideal recorda
Um extasis de monja em frente d'um altar,
Á hora em que o sol morre e a lua meiga acorda.
E o seu verso dolente evoca dentro em mim:
Ao longe, muito ao longe, á branca luz do luar,
Os tremulantes sons d'ignoto bandolim…
Perdularia
(A PIO CAVALHEIRO)
Passou junto de nós, pedindo esmola,
Uma creança rota, magra, invalida.
Deitaste-lhe dinheiro na sacola,
Beijaste-lhe em seguida a face pallida.
Que feliz foi o pobre da sacola!
O seu desejo era bem mais modesto.
Podias dar-lhe unicamente a esmola
E a mim—dares-me o resto…
Em wagon
A chaminé vomita fumarada.
A machina assobia: parto emfim.
Na gare, ao longe, a minha namorada
Agita o lenço branco para mim.
Como rectas traçadas a namkim,
Sobre um fundo ceruleo de aguada,
Vejo no espaço nitidas, assim,
As linhas telegraphicas da estrada.
O sol, hostia de luz resplandecente,
Vae-se elevando gloriosamente
Na abobada vastissima dos ceus
E dois choupos batidos pelo vento
Curvam-se num ligeiro cumprimento,
Cerimoniosos, a dizer-me adeus…
Blasphemia santa
Jurou-me eterno amor. A noite ia cahindo.
E, entre outras phantasias,
Eu disse-lhe sorrindo:
Se Deus surgisse agora, aqui, perante nós
O que é que lhe dizias?
—Que nos deixasse sós…
Á sobremesa
Variação sobre um Thema de Heine
(A EGAS MONIZ)
Na sala de jantar da baroneza
A conversa cahira mollemente,
E um creado esguio, sorridente,
Trazia sobremeza.
Os commensaes fallavam sobre a vida.
—Viver é ir morrendo lentamente—
Dizia suspirando, em voz sentida.
Um lyrico doente.
A vida, accrescentou, volvendo os olhos,
Um bacharel vermelho, de melenas:
—É um jardim de lirios e de abrolhos
De cardos e verbenas…
Continuou depois solemnemente
Um outro, litterato, de lunetas,
Com fama de escriptor intelligente,
Auctor de varias tretas:
—A vida é a viagem d'alguns dias:
Uns seguem n'ella a estrada dos revezes,
Outros a do prazer. As duas vias
Encontram-se por vezes…
O barão quasi calvo, de olhar vago,
Disse a sorrir, curvado na cadeira:
—A vida é isto. E despejou d'um trago
Um calix de Madeira.
Ao fundo, um par de jovens namorados
Fazia brindes intimos de amor
E a digestão punha nos convidados
Um languido torpor.
Ouviu-se então, em voz de confidencia,
Dizer á baroneza um titular:
—Minha Senhora, creia-me Vocencia,
A vida—é esse olhar…
Carmen
Sobre as dobras rendadas da mantilha
Brilham-te, como soes em pleno dia,
Os olhos mais galantes de Sevilha
Na fronte mais gentil d'Andaluzia.
A tua voz ao som da guitarrilha
Tem vibrações extranhas d'harmonia.
Ninguem canta melhor a seguidilha
N'esse paiz do Amor e da Alegria.
Nas voltas caprichosas do bolero
Não tens rival em graça e em salero
Carmen gentil, oh flôr das hispanholas!
Tu fazes-me o effeito inebriante
Dos vinhos de Xerez e de Alicante
Quando bailas ao som das castanholas!
Fervet amor
A conversa cahiu no casamento.
E defronte de nós, n'esse momento,
Noivava um par alegre de pardaes.
Ruborisada, attenta, olhaste os dois.
Em que meditas? disse, e tu depois,
Baixando o doce olhar—coraste mais.
Cantares
(A RAMIRO DE FIGUEIREDO)
A triste viuvez tua,
Creança de olhos suaves,
Lembra-me as noites sem lua,
Lembra-me os ninhos sem aves.
Tão bonita e sem amores,
Á minha mente recordas
Uma jarra sem ter flores
Um bandolim sem ter cordas.
Oh meiga rôla sem par,
Á phantasia revelas
Uma barca em pleno mar
Sem ter leme e sem ter velas.
Moreninha idolatrada
Que o loiro Amor não seduz,
És como estrella apagada
És como um astro sem luz;
És como um cofre doirado
Cheio de gemas d'Ophir,
Por tal maneira fechado
Que ninguem o possa abrir.
Oh virgem de negra coma,
Oh minha doce gazella,
És como flor sem aroma
Como moldura sem tela,
Galathea que amo tanto,
Meu amor, peccados meus,
És um altar sem ter sancto
—Um paraizo sem Deus!
Senhor Doutor
Não ha quem endoide as moças
Como os olhos d'um doutor.
(Cantiga coimbrã).
Houve na aldeia viva sensação
Ao regressar o filho do morgado,
Que fôra para Coimbra de calção
E vinha agora bacharel formado.
Vae longe, olé, bradava o vozeirão
Do abbade. É só fazel-o deputado.
E as moças entre si: Que rapagão!…
… Doutor, tão novo… Deus seja louvado…
Chegou a casa e n'esse mesmo dia,
Foi visitar radioso de alegria
A filha da velhota que o creou.
E visitou-a tanto e tantas vezes
Que quando decorreram nove mezes
—O morgado da aldeia… era avô.
Ritornello