III

Á nobre cortezã
Ha de mover, por certo,
O extranho talisman
Do livro que lhe offerto.
Que p'ra inspirar amor
A uns taes olhos pretos
Não ha philtro melhor
Que um livro de sonetos…

Esboceto

(A PEREIRA BARATA)

Como uma semi-tinta de aguarella,
Côa-se a luz, dulcissima, velada
Atravez das persianas da janella,
Sobre a pequena sala alcatifada.

N'um cavallete, apenas debuxada,
A tons ceruleos, sobre larga tela,
Uma marina calma, socegada,
Com botes de pescar, vogando á vela.

Sobre a meza rodeada de cadeiras,
Destaca, entre revistas estrangeiras,
Um busto de mulher adolescente

E a brancura leitosa do teclado
Põe no piano, entreaberto, ao lado,
Um ar de monstro, arreganhando o dente.

Consummatum est!

Amei-a muito, é certo. Amei-a com o louco
E desvairado amor d'alguem que nunca amou.
Por isso que a amei tanto é que a amei por tão pouco.

—Escusa de insistir. O meu amor findou.

Como um perfume leve que pelo ar se expande,
Assim esta paixão ardente se evolou.
Já nada resta agora d'esse amor tão grande.

—Escusa de insistir. O meu amor findou.

Hontem, ao lêr o meu bilhete quasi em branco,
Laconico e conciso, dizem que chorou,
Talvez fosse cruel, mas creia que fui franco.

—Escusa de insistir. O meu amor findou.