MUSA CERULA

1891-93.

Honorate l'altissimo poeta

A João de Deus

… Quando lerdes
Entendei que segundo o amor tiverdes
Tereis o entendimento dos meus versos.

Camões.

O sentimentalismo constitue a Arte.

Taine.

Para fielmente contar o que sinceramente sente, não são necessarias ao poeta essas fórmas novas que devem rutilar de inauditismo.

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Ao assenhorear-se d'ella sentiria sem duvida o embaraço de quem, para beber agua de um regato, n'uma sesta de verão, tivesse de usar um pesado calice do seculo XVII, todo de oiro, cravejado de pedras, tirado de um museu de artes decorativas……………….

Eça.

Almas irmãs da minha, a vós dedico e offerto
Este livro d'amor—meu coração aberto.
Folhas soltas ao ar na alegre revoada
De pombas a fugir no azul d'uma alvorada.

Com ellas vejo ir pela amplitude calma
Pedaços do meu sêr, pedaços da minh'alma:

É tudo o que eu cantei de idyllico e olorante,
Desde o ceruleo olhar da minha terna amante
Até á coma edeal da minha sancta mãe,
Alva como um lilaz, branca como a cecem.

Almas irmãs da minha, a vós dedico e offerto
Este livro d'amor—meu coração aberto.

Profissão de fé

Não vão pensar que a minha musa seja
Alguma apparição allucinante
De olhar azul e labios de cereja,
Diadema d'oiro e espada flammejante.

A musa protectora d'estes versos
Detesta a rima altiva dos pamphletos,
Educa-me em principios bem diversos:
—Lê-me Petrarcha, o mestre dos sonetos.

Não me ensina a cantar imprecações
Contra as torpes gangrenas mundanaes,
Inspira-me sómente estas canções
Que vos fallam d'amor—e nada mais.

Apostolo do Bello e da Bondade,
Ella anda a propagar por toda a parte,
Ás almas auroreaes da mocidade,
A nova religião chamada—Arte.

Consagra um culto fervoroso e santo
Aos sentimentos bons, ás coisas mansas.
Respeita a Dor nas lagrimas do pranto,
Adora a Paz nos risos das creanças.

Por alta noite, quando a evoco e chamo,
Segreda-me ao ouvido brandamente,
Qual brisa leve a prepassar n'um ramo:
Traduz em verso o que a tua alma sente.

Canta os sorrisos, canta as amarguras
Dos teus vinte e dois annos incompletos.
Faz d'elles um collar d'estrophes puras,
Faz d'elles um rosario de sonetos.

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Já vêem, pois, que a minha musa é calma:
E agora, se quizerem lêr sem pressa,
Verão que em cada estrophe vae impressa
Uma affecção diversa da minh'alma.

A minha mãe

As illusões semelham-se a um collar
De perolas alvissimas, de espuma.
Se o fio que as segura se quebrar,
Cahem no chão, dispersas, uma a uma.

Cahem no chão, dispersas, uma a uma,
Se o fio que as segura se quebrar;
Mas entre tantas sempre fica alguma,
Sempre alguma suspensa ha de ficar.

D'as minhas illusões, dos meus affectos,
Longo collar de amores predilectos,
Muitos rolaram já no pó tambem.

Um só d'entre elles não cahirá jámais:
Aquelle que eu mais préso entre os demais.
—O teu amor sanctissimo de mãe.

Impressões d'ella