Adubações

Sem duvida a oliveira é uma planta que pode vegetar em toda a casta de terrenos, mesmo os mais pobres, excepção feita d'aquelles em que houver superabundancia de humidade; a sua producção, porém, é que, como em todas as plantas, está{13} em harmonia com os cuidados que se lhe dispensam.

Por isso a adubação do terreno tem uma alta importancia, e a escolha do adubo deve merecer ao olivicultor escrupulosa attenção.

Nunca devemos esquecer o fim principal com que pretendemos empregar a adubação.

Tres são os fins com que lançamos mão dos adubos: para favorecermos o desenvolvimento da planta, para lhe augmentarmos a producção ou com o fim duplo de lhe augmentarmos o desenvolvimento e a producção. Estes tres fins estão em harmonia com os tres periodos differentes porque passa a vegetação de todas as arvores, no primeiro dos quaes se dá o crescimento da planta, no segundo o estacionamento e no terceiro o seu decrescimento.

Claro está, que, ao passar por estas phases vegetativas, devemos dispensar á planta os adubos que mais nos convenham para d'ella podermos tirar o producto da maneira mais remuneradora possivel.

Não perdendo nunca de vista a phase vegetativa em que a planta se encontra, são as analyses chimicas da propria oliveira e do solo que nos fornecem as precisas instrucções para a determinação da adubação a dar á cultura:

As colheitas e as podas vão exgotando o solo constantemente e leval-o-hão a um estado de exgotamento completo se de qualquer fórma lhe não restituirmos os elementos perdidos.

Para podermos determinar conscienciosamente a formula a dar ao adubo, (caso pretendamos empregar os adubos chimicos), ou a quantidade de estrume a empregar, (se lançarmos mão do estrume de curral ou de outro qualquer), necessario se nos torna calcular primeiramente o empobrecimento do terreno devido á producção da arvore.

Não é difficil fazer-se este calculo de uma maneira bastante approximada: bastará simplesmente, avaliar, o mais rigorosamente possivel, a quantidade,{14} em pezo, de lenho e folhas extrahida pela poda, assim como o pezo do fructo produzido por esse olival. Conhecidos estes elementos facil será determinar por meio das analyses já existentes, qual a adubação necessaria.

O conhecimento do pezo de rama proveniente da poda é perfeitamente dispensavel no caso, aliás pouco vulgar entre nós, de ella ser enterrada no solo do olival d'onde proveio.

N'este caso o exgotamento do terreno é simplesmente egual á quantidade de elementos que entram na composição de todo o fructo.

Supponhamos um olival disposto em quadrado com o compasso de 8 metros, será de 156 o numero de pés existentes no hectare. Admittindo que cada arvore produz em media 15 litros e que o pezo de cada litro é de 600 grammas, será de 9 kilos o pezo de azeitona produzida por cada arvore.

Caruso calcula que do pezo de rama extrahida annualmente pela poda, 22% são de folhas e os restantes 78 são de lenho.

Não é, porém, só a poda que obriga a arvore a perder ramos e folhas.

Muitas outras causas obrigam uns e outros a desprender-se da planta mãe e a vir augmentar o contigente fornecido pela poda.

Entre nós o barbaro systema da apanha do fructo, geralmente seguido no paiz, é causa de enormes desperdicios. Os ramos desprendidos pelo varejo são os mais tenros e n'elles a parte foliar não poderá ter para a parte lenhosa a relação estabelecida por aquelle auctor.

Para o nosso paiz costuma avaliar-se, em media, em 6 a 7 e 5 a 6 kilos respectivamente o pezo de folha e de lenho perdido annualmente por uma oliveira; e em 9 kilos o peso da sua producção em fructo.

A composição centesimal das diversas partes da arvore é, segundo Müntz, a seguinte:{15}

LenhoFolhasFructos
Azoto0,400,500,274
Acido phosphorico0,100,290,130
Potassa0,350,740,360
Cal0,501,45

Se toda a quantidade de lenho, folhas e fructos extrahidos da arvore forem levados para fóra do olival, produzir-se-ha um exgotamento que, para os numeros 7, 6 e 9 acima indicados como representando o numero de kilos d'estes materiaes perdidos annualmente por cada arvore, se poderá computar no seguinte para cada individuo:

LenhoFolhasFructosTotal
Azoto0,0240,0350,0240,083
Acido phosphorico0,0060,0200,0120,038
Potassa0,0210,0510,0320,104

indicando estes numeros o pezo em kilos para cada arvore.

Para as 156 arvores existentes no hectare teremos:

LenhoFolhasFructosTotal
Azoto3,745,463,7412,94
Acido phosphorico0,933,121,875,92
Potassa3,277,954,9916,21

São estas as quantidades de elementos essenciaes perdidas annualmente pelo terreno e que é necessario restituir-lhe para não prejudicarmos a cultura.

Sob diversas fórmas e em substancias differentes se podem ministrar aos terrenos aquelles elementos.

Quer debaixo da fórma de adubos chimicos preparando para isso uma formula em que entre o azoto, o acido phosphorico e a pottassa nas percentagens indicadas n'estas tabellas, quer em estrume{16} de curral ou em estrumações verdes se podem encorporar no solo aquelles elementos, que de todas as fórmas as suas vantagens se assignalam de uma maneira mais ou menos notavel.

Vantagens ha as sempre para a planta na execução d'esta operação; mas a sua grandeza varia sempre com a natureza do terreno a adubar e com a qualidade do adubo a empregar. Claro está que no que mais necessario se torna fixar a attenção é nos resultados economicos e esses são os que mais fazem variar as vantagens dos differentes systemas de adubar.

No caso em questão, em que supponho que todas as partes tiradas das arvores foram levadas para fóra do olival e em que, portanto, se roubaram ao terreno 12k,94 de azoto, 5k,92 de acido phosphorico e 16k,21 de potassa, precisaria, no caso de me querer servir dos adubos chimicos, da seguinte formula:

Sulphato de ammoniacoSuperphosphatoCloreto de potassa
65k a 20%37k a 16%34k a 50%

Estas seriam as adubações que theoricamente seria necessario dar a um hectare de oliveira; ha, porém, sempre a contar com as perdas soffridas por diversas causas, entre as quaes avulta o arrastamento de algumas d'essas substancias pelas aguas das chuvas. O azoto, por exemplo, é uma substancia que, quando nos estados em que pode ser absorvido pela planta, é muito facilmente arrastado pelas aguas. Além d'isso devemos ter em conta que nem todos os elementos serão absorvidos pela planta, porque nem a todos os pontos em que se espalhar essa adubação chegarão as suas radiculas para os absorver totalmente.

Attendendo a estas circumstancias que inhibirão a planta de aproveitar a adubação na sua totalidade, convirá sempre augmentar um pouco as quantidades{17} calculadas com o auxilio das analyses chimicas.

Disse no principio do presente capitulo que para determinar racionalmente a adubação conviria a presença das analyses chimicas da planta e do solo.

Effectivamente, como já expuz, a analyse da planta diz-nos as quantidades das diversas substancias de que ella carece annualmente, mas não nos prova que seja necessario ministrar ao solo todos esses elementos, e só n'este ultimo caso é que ella seria dispensavel.

Muitas vezes os terrenos pela sua riqueza em determinado ou determinados elementos dispensam a encorporação, no solo, d'esses mesmos elementos.

É preciso, porém, certo criterio ao lidar com as tabellas que nos indicam a composição do solo.

Algumas vezes acontece indicar-nos a analyse a existencia de um dos elementos em proporções elevadas e no entanto a cultura agradecer-nos uma adubação em que entre este elemento.

Com o azoto, por exemplo, dá-se algumas vezes este caso; este corpo não póde ser utilisado pela planta senão no estado mineral (nitrico ou ammoniacal) podendo comtudo existir no terreno em grandes quantidades sob a fórma de azoto organico. Evidentemente a planta cultivada n'este terreno não se poderá utilizar de tamanha riqueza de azoto, e uma adubação azotada ser-lhe-ha vantajosa, a não ser que se provoque n'esses terrenos uma nitrificação mais energica que obrigue este azoto a passar á fórma mineral.

É nos terrenos pobres em cal que se dá este caso e então a addição de um correctivo calcareo, mais barata que a adubação azotada, substituirá esta com manifesta vantagem.

O estrume de curral fornece-nos um meio bastante economico de adubarmos o terreno. Este adubo ao sahir da estrumeira, onde previamente tenha sido bem tratado, apresenta-nos a seguinte{18} composição media, por tonelada: azoto 4k,7, acido phosphorico 3k,0, potassa 5k,2, o que, para as quantidades d'estes elementos calculadas para a adubação d'um hectare, mostra serem precisos, em numeros redondos, 4:000k d'este adubo attendendo á elevada percentagem de potassa indicada na analyse da oliveira.

Deve ter-se em consideração que ha sempre conveniencia em incorporar no solo grandes quantidades de materia organica, sobre tudo se este for muito compacto ou muito solto, porque esta substancia modifica-lhe as suas propriedades physicas approximando-as cada vez mais das terras francas.

D'aqui a conveniencia de se augmentar a quantidade de estrume de curral, não sendo exagero o emprego de 6:000 a 7:000 kilos por hectare.

Nas terras soltas a modificação da sua cohesão não é a unica causa que milita em favor do adubo de curral. Ahi o seu pouco poder de retenção para as aguas sujeitar-nos-hia a grandes perdas do azoto nitrico ou ammoniacal que lhe fornecessemos em adubações chimicas.

Convem então o emprego do azoto organico e é o estrume de curral o melhor meio de o obtermos.

Podem-se ainda empregar na adubação o estrume constituido pelas algas que tão abundantes são na nossa costa.

Têm estas plantas riquezas muito apreciaveis para nos poderem dar um adubo cujo emprego é muito vantajoso, sobre tudo nas localidades proximas dos rios e mares onde se exerce a industria da sua extracção, porque ahi são mais convidativos para o agricultor os preços de transporte.

Em media, a composição centesimal das nossas algas é a seguinte: azoto 1,143, acido phosphorico 0,670, potassa 1,125.

Para com esta qualidade de estrumes se adquirirem as quantidades d'aquellas substancias, necessarias{19} ao olival a que me venho referindo, seriam precisos simplesmente 1:600 kilos por hectare.

Como para o estrume de curral, aconselha-se empregar sempre maior quantidade do que a referida. É de 3:000 kilos a quantidade aconselhada por alguns auctores, a qual nos dá as seguintes quantidades de: Az. 30k, KHO 30k e Ph2.O5 21.

Adubações verdes

Uma grande variedade de plantas se costumam empregar como adubos e em algumas d'ellas a sua riqueza em potassa e acido phosphorico torna-as muito recommendaveis. As mais empregadas são: as urzes, giestas, polipodio; as folhas de faia, carvalho, pinheiro, abeto e videira; as palhas de trigo, centeio, cevada e aveia, etc.

Os calculos do exgotamento das arvores, feitos no principio do presente capitulo, revelam-nos á primeira vista a conveniencia de encorporarmos novamente na terra a rama extrahida natural ou accidentalmente das oliveiras. Assim restituimos por meio d'ella, ao solo, os elementos que ella mesma lhe tinha roubado. Reparamos d'esta maneira, em parte, as perdas soffridas que ficam reduzidas simplesmente aos materiaes que entram a constituir o fructo, os quaes para a producção supposta se reduzem a: 3k,74 de Az., 1k,87 de Ph2O5 e 4k,99 de KHO por hectare. Este deficit será depois preenchido com adubos de qualquer outra natureza; ou da mesma natureza, trazendo para isso, para o olival a rama proveniente de outro olival.

Para a restituição completa dos elementos perdidos, serão precisos 20 kilos por arvore ou 3120 por hectare em cada anno.

Não se deve, porém, fazer esta adubação annualmente, mas sim de tres em tres annos, o que dá para um hectare, 9260k de rama que é preciso enterrar.{20}

Esta adubação é de grande utilidade em terrenos compactos e humidos, porque os torna mais fôfos e estabelece ao mesmo tempo uma especie de drenagem, que permitte uma facil circulação do ar no solo, um escoamento mais facil ás aguas das chuvas, e provoca ao mesmo tempo o desenvolvimento e multiplicação das raizes.

O liquido separado do azeite no acto da prensagem ou que escorre das tulhas, no caso aliás muito pouco racional de se submetterem as azeitonas á condemnada pratica do entulhamento, é ainda um adubo excellente para o olival.

Porque vai prejudicar as radiculas da planta, não póde este liquido ser empregado sem um previo tratamento, que consiste em o submetter a uma maceração mais ou menos prolongada em agua, a que se addicione algum adubo de curral.

As qualidades d'um adubo n'estas condições, já de si boas, augmentam ainda quando a elle se addicionam os bagaços provenientes do lagar.

A oliveira agradece muito as adubações feitas com os residuos das fabricas de curtimenta de couros, com a raspadura de ossos, pontas e unhas de animaes.

Na escolha dos differentes adubos indicados convem sempre ter em vista que á oliveira não convem ordinariamente adubos de prompta decomposição. Só os empregaremos no caso em que só pretendamos prover ao desenvolvimento vegetativo da arvore.

Estes adubos só vão ser gastos em proveito da vida vegetativa, e d'aqui o adquirir a planta um grande vigor que redunda em manifesto prejuizo para a producção.

Se quizermos empregar estes adubos, convém, antes de os encorporar no terreno, mistural-os com folhas ou palha, ou ainda com terra solta, para lhe{21} attenuarmos os seus rapidos effeitos e tornal-os, por este modo, mais aproveitaveis á fructificação.

Esta mistura deve ser bem feita, de modo a reduzir-se tudo a uma massa homogenea.

São preferiveis os adubos de decomposição mais lenta, para que a arvore os vá aproveitando gradualmente á medida das suas necessidades. Estão n'estes casos os adubos provenientes das raspaduras, as varreduras das habitações, dos caminhos e das estradas, tendo sobre os primeiros a vantagem de serem empregados tal qual são adquiridos, dispensando a sua mistura com substancias extranhas.

As cinzas de diversas plantas, só por si ou misturadas com os adubos já indicados, são adubos muito uteis n'esta cultura.

Epocha do emprego do adubo

A epocha para se empregar qualquer adubo varia muito com o clima, com a natureza do solo e com o estado do adubo.

Para um adubo de facil decomposição, convem o seu emprego na primavera, para que a planta d'elle se approprie sem dar muito tempo a qualquer perda.

Pelo contrario, os adubos de lenta decomposição empregar-se-hão no outomno para que tenham tempo de se decompôr e incorporar com as particulas terrosas e estarem aptos a serem absorvidos no momento preciso, sobretudo na epocha da fructificação.

Modo de emprego

Da maneira de administrar o adubo dependem muito os seus resultados.

Condemnavel processo é o de excavar fossas junto do tronco da arvore, com a falsa ideia de que o adubo ahi lançado é melhor utilisado pela planta. Com isto prejudicam-se muito as arvores{22} porque se lhes cortam raizes grossas e porque se expõem por algum tempo á influencia dos agentes atmosphericos.

O melhor modo de empregar o adubo é cavar uma fossa circular em volta da arvore e á distancia de 1m a 1m,5 d'ella; lança-se ahi o adubo, cobrindo-o depois com terra. A essa distancia da arvore são muito abundantes as radiculas, as quaes, por intermedio dos seus pellos radiculares, farão gradualmente a absorpção dos alimentos.